Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 9 de setembro de 2012

 
O Paiz
 
Rifando o direito do povo
 
     Interessante como é a política na Bahia. O velho coronelismo e o carlismo marcaram muito esta sociedade, que luta para se libertar de suas velhas práticas. Até dentro de partidos ditos "de esquerda", como o PT, que vem renovando a política brasileira, ainda ocorrem essas manifestações.
     A eleição de Rio de Contas, pequena cidade na Chapada Diamantina onde exerço meu direito de voto, se transformou numa batalha judicial pela tentativa da direção estadual de impor uma aliança que a cidade toda rejeita, com o atual governo municipal, marcado pela perseguição política aos cidadãos e pelo imobilismo na gestão da cidade.
     Apesar do PT da cidade ter formado contra o atual gestor, numa frente com vários outros partidos da base aliada, o Diretório Estadual insiste em apoiar o prefeito, para sustentar uma aliança que formou em outro município, a 500Km de distância, numa barganha política onde o povo de Rio de Contas pagaria a conta.
     A população local, e o Partido na cidade resistem à esta imposição absurda, que tenta colocar no balcão de negócios da politicagem, o direito de escolher seu representantes na Cãmara e na Prefeitura.
     Reproduzo abaixo, na íntegra, documento (texto e foto) que recebi do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores de Rio de Contas, denunciando a ingerência ilegal do Diretório Estadual naquele município.
     A responsabilidade das afirmações contidas no documento é do Diretório Municipal do PT de Rio de Contas.
    
JONAS PAULO E O PT DE RIO DE CONTAS
Uma história de fraudes e falsificações
     O PT de Rio de Contas sempre fez parte da frente de Oposição à atual gestão questionável do prefeito Márcio de Oliveira Farias. Formou-se um bloco de oposição desde o ano de 2011, e em 2012 decidiu-se pelo apoio ao Dr Cristiano Cardoso do PDT como candidato à chapa majoritária e Wilton Silva, do PT como vice. Tudo normal, até aí. O que contaremos em diante demonstra a práxis fraudulenta e autoritária de como o senhor Jonas Paulo, presidente estadual do PT vem tratando sua própria militância nos interiores da Bahia e transformando esse partido em uma agremiação cartorial e em um balcão de negócios venais.    
     Em abril de 2012 o senhor Jonas Paulo juntamente com o senhor Alfredo Correia Neto, ex-candidato a prefeito pelo PT, em 2008, decidiram, de forma escusa, “entregar” o Partido dos Trabalhadores para o PSD, do prefeito Márcio Farias, como disseram várias vezes, e todas elas foram refutados pela maioria dos seus membros, inclusive a maioria da executiva municipal e do diretório municipal de Rio de Contas. Tentaram forjar um encontro municipal no dia 02 de junho de 2012, sem respeitar o estatuto, suprimiram membros filiados do PT, dentro do Sistema de Filiados (SISFIL). Ainda tentaram lançar um candidato à chapa majoritária dizendo que depois desistiriam em favor de outro candidato, ou seja, Márcio Farias. A reunião aconteceu num clima de grande tensão, e a executiva municipal entrou com um recurso na Comissão Executiva Estadual pedindo nulidade deste Encontro manipulado. Foi atendida, pois, sequer resolução alguma tinha tirado deste encontro.
     A decisão exarada pela Comissão Executiva Estadual na ocasião do recurso foi de remeter ao Diretório Municipal a decisão final para qual chapa apoiar. Foi realizada uma reunião dia 25 de junho de 2012  a portas fechadas, para a tomada de decisão,com 11 membros do Diretório Municipal,  com o acompanhamento de dois membros da Comissão Executiva Estadual, que vieram de Salvador especificamente para este fim. Desta reunião surgiu uma ata que comprova o que estamos falando. Havia duas propostas inicialmente, uma era para apoio ao PDT, com a vice na chapa, mais 13 candidatos a vereadores pelo PT em coligação com o PC do B, e a outra em apoio ao PSD, com o apoio a um candidato a vereador apenas. Um dos membros do DM no último minuto lançou uma terceira proposta: Neutralidade do PT nestas eleições. A primeira proposta venceu com 6 votos, ou seja, apoio ao PDT; a proposta de apoio ao PSD não teve nenhum voto, e a proposta da neutralidade teve 5 votos!!!Nem o vereador e o presidente da comissão executiva municipal votaram nesta proposta do PSD que tanto defendiam.
     A convenção já estava marcada para o dia 30 de junho, e aconteceu às 14:00 horas, com ampla participação popular, inclusive de todos os membros da Comissão Executiva Municipal, inclusive presidente Reginaldo Castro, secretário geral Carlos Correia de Oliveira e vereador Johny Abreu Silva. Foi fotografada, filmada, todos assinaram a ata lavrada, foram confirmados os candidatos a vereadores, enfim, foi uma convenção normal, com todos os seus ritos cumpridos, e esta ata teve 33 assinaturas.
     Registramos as coligações normalmente no TRE-BA, na Comarca Eleitoral de Livramento de Nossa Senhora. Tudo dentro da normalidade. Mas quando chegou dia 05 de julho, recebemos a notícia de que o Senhor Jonas Paulo tomou a decisão de “entregar” o PT ao prefeito Márcio Farias, ao PSD, condicionando esta entrega ao apoio do PSD de ITABUNA! Este documento que recebemos foi assinado pelo secretário geral do PT Estadual, conhecido como JOJÓ. Ficamos atônitos, perguntando como poderia isso ser possível , pois já tínhamos feito nossa convenção e registrado no TER. Então descobrimos que por orientação recebida, o secretário geral do PT municipal forjou uma outra ATA de uma Convenção que não existiu, assinada apenas por ele, pelo vereador Johny Abreu, e pelo presidente, Reginaldo Castro. Apenas três assinaturas!!! Mas ao termos o papel em mãos descobrimos que além de tudo, esta ATA FRAUDULENTA teve a assinatura do presidente FALSIFICADA!! E indicando como candidatos a vereador apenas dois membros, Johny Abreu e Marinilton Martins, este último nem assinou a ata. Esta ata coloca que a convenção teria sido realizada no mesmo espaço, mesmo horário que a CONVENÇÃO VERDADEIRA...
     E então entramos com um recurso na justiça eleitoral pedindo a nulidade desta ata e destas candidaturas. O senhor Jonas Paulo decidido a entregar o PT ao PSD, também entrou pedindo a anulação de nossa ATA. O promotor deu parecer favorável  e o juiz também deu sentença ratificando e mantendo nossa coligação com o PDT. Ao mesmo tempo, encaminhou à Polícia Federal  pedido de grafoscopia, para averiguar a falsificação de assinatura do presidente na ata fraudada.
     Na justiça estadual o desembargador considerou o recurso do senhor Jonas Paulo desprovido de fundamentos, acreditamos que por toda esta maracutaia que envolve a questão, e por não ter acrescentado nada de novo... O senhor Jonas Paulo, depois de tantas decisões contrárias a sua intenção, deve ter feito uma mágica, pois ontem, o desembargador Cintra, mudou completamente o que estava definido, por seus pares, e mandou o PT se entregar sem reclamações ao PSD do prefeito Márcio Farias.
Este prefeito ainda responde a um processo atualmente do Ministério Público que o denunciou por compra de votos através de doações de lotes em período proibido, com fraude em documentos e assédio e coerção de testemunhas.
Mas é este o quadro que a atual gestão do PT estadual apresenta. Desleal, desonesta, fraudulenta, venal e apoiadora de fraudulentos e desonestos pseudo-líderes políticos.


 
Rapidinhas
 
Pobre Salvador II
 
     Não voto em Salvador, mas tenho acompanhado o contraditório entre os candidatos à prefeitura da capital baiana.
     Mário Kertz parece ser o mais simpático e talvez o mais competente de todos, só não fala que é do mesmo partido do atual prefeito João Henrique, que aliás é uma espécie de fantasma que paira sobre a eleição: todo mundo critica a gestão, mas ninguém fala o nome dele. João Henrique, aliás, parece estar se vingando da cidade que só fala mal dele. Resolveu largar de mão.
     ACM Neto, esconde mais do que mostra. Suas propostas não significam nada, são apenas palavras vagas. "Vou chegar junto..." O que quer dizer isto? "Vou botar ordem na casa!" Isso me lembra o discurso da ditadura militar. O que será que ele quer dizer com isso? Que vai tirar os ambulantes que infestam as ruas da cidade? Baixar o cacete, no melhor estilo do seu avô?
     Pelegrino é um caso à parte. Apesar do apoio de Lula e Dilma, tem dificuldades pra crescer. Tudo que ele fala soa falso. Era melhor que ele não sorrisse, pois o sorriso também parece forçado. Ele é melhor sério, como o advogado que luta pelos pobres.
     Dele me lembro de ter ido à Ilhéus defender os estudantes que foram presos em 1989, quando eu liderava uma facção do PT, que fizeram um enorme protesto contra o aumento das passagens de ônibus no governo de Jabes Ribeiro. É uma lembrança boa, positiva.
     Mas não posso me esquecer de que ele foi o líder do governo na nefasta reforma da previdência que Lula fez em 2003 e que retirou direitos dos aposentados, violando inclusive o princípio constitucional dos direitos adquiridos. Ele como líder, não apenas defendeu a reforma, mas fez o serviço sujo de ameaçar com a expulsão do Partido os parlamentares que votassem contra. No balanço de prós e contras, não confio nele.
     Hamilton, do PSOL, é uma cara nova nas eleições e, pelo que eu soube, é um sujeito direito. Mas ele não faz propostas...só fica cantando ê,ê, ê, Hamilton 50... Podia dizer a que veio e o que faria no governo, afinal ele tem uns dois minutos, daria tempo.
     Marinho não significa nada. Da Luz é uma piada de mau gosto.
     Enquanto isso a cidade vai se acabando em buracos, sujeira e descaso. O Ministério Público deveria destituir o atual prefeito, por abandono das suas funções.
    
O fenômeno Freixo
     Marcelo Freixo vem crescendo nas pesquisas para prefeito do Rio de Janeiro.
     Ele ficou conhecido por combater as milícias cariocas e por ser um defensor dos direitos humanos.O personagem Freitas, do filme Tropa de Elite II, foi inspirado nele.
     Por sua luta contra as milícias, foi ameaçado de morte e teve que passar um tempo fora do Brasil com a sua família.
     Concorrendo pelo PSOL, Freixo tem pouco tempo de TV, mas conta com o apoio de artistas e intelectuais cariocas, como Chico Buarque de Holanda. Se continuar crescendo pode provocar um segundo turno e, quem sabe, uma reviravolta política na cidade que um dia já foi maravilhosa.
 
Esperança na Colômbia
 
 
     O presidente Santos, da Colômbia, confirmou  que serão abertas negociações entre o governo de seu país e as FARC, Forças Armadas revolucionárias da Colômbia, grupo guerrilheiro que atua desde a década de 1960 no país vizinho.
     Todos os países latinos exaltaram a iniciativa e até o Presidente dos EUA, mandou mensagem de congratulações a Santos. Apenas os republicanos norte-americanos e seu filhote, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, ficaram contra.
     Para o Brasil o fim desta guerra é muito importante, pois retira das nossas fronteiras o exército dos Estados Unidos, chamado por Uribe para ajudar a combater os guerrilheiros.
     Para o restante da América Latina também é um sinal de paz e novos tempos.
     Oxalá essas negociações sejam bem sucedidas e consigam integrar os grupos guerrilheiros na vida política colombiana, pela via constitucional.
 
Poesia da semana
 
     Reproduzo abaixo, a letra da música Revolta dos Malês, de Rafael Pondé.
     http://letras.mus.br/rafael-ponde/1049399/

 





Revolta dos Malês

Rafael Pondé

Perto do Abaeté tem um nego mandigueiro
Descendente do Malês, povo nobre e guerreiro
Faz dali o seu terreiro
Na roda de Capoeira ou orando ao Deus Allah
Veste branco às sextas-feiras
Usa xale e patuá
(seu avô era um Alufá)
Esse nego um dia fez revolta
A revolta dos Malês, foi na Bahia que se fez
A Revolta dos Malês
O canto de apear o boi
(foi o Male que trouxe)
E se você vestir um abadá
(foi o Male que trouxe)
O misticismo e a superstição
(foi o Malê que trouxe)
A moda de viola do sertão
(foi o Male que trouxe)
Tapas, Haussás, baribas
Negos e mandingas
A Revolta dos Malês foi na Bahia que se fez
A Revolta dos Malês


 
Um Rio Chamado Atlântico
A África no Brasil e o Brasil na África
 

     O que mais impressiona e surpreende o leitor deste outro livro, de Alberto da Costa e Silva, (Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro - 2011) é a percepção de quão intensa foram as relações comerciais e políticas entre Brasil e África, em séculos passados, relações estas destruídas deliberadamente pelo dominação britânica do Atlântico sul durante o século XIX.
      Ao contrário do livro anterior (A Manilha e o Libambo) a cuja resenha me dediquei nas últimas edições deste blog, Um Rio chamado Atlântico não é o resultado de uma pesquisa histórica, mas uma coletânea de artigos sobre o assunto, escrito em épocas diferentes e com o foco nas mútuas influências entre África e Brasil, perdidas da nossa memória coletiva por um século XX que nos apartou da nossa fronteira leste, o continente africano.
     Mais do que a desvendar, o livro se preocupa em restaurar ligações perdidas.
     Dentre as muitas verdades, restabelecidas pelo autor, vamos descobrindo que nossa maior ligação com a África, até o século XIX, não foi com a Luanda dos portugueses, mas com o golfo da Guiné, especialmente com Lagos na Nigéria, terra de iorubos, conhecidos no Brasil como nagôs, e cuja cultura foi a que mais resistiu às duras condições da escravidão no Brasil.
     Descobrimos que muitos príncipes vieram para o Brasil, enviados por seus inimigos, para os quais a escravidão era também uma forma de exílio, e que as sociedades secretas dos escravos os escondiam dos senhores brancos, preservando-lhes as identidades reais para protegê-los e que, muitas vezes, estas compravam suas alforrias, com suas pequenas poupanças, para mandá-los de volta, algumas vezes para que reassumissem suas funções reais.
     Descobrimos que os maracatus, onde um rei e uma rainha desfilam e são homenageados pelo povo, eram formas encobertas dos negros de render homenagem aos seus príncipes, ocultos no meio da escravaria e também que reis africanos mandavam seus filhos estudar na Bahia e que o Obá Osemwede, do Benin, e o Obá Osinlokun, de Lagos, foram os primeiros soberanos a reconhecer a independência do Brasil, formando, paradoxalmente, as últimas embaixadas de reinos africanos no nosso país, antes da partilha da África pelos europeus.
     Brazilian quarter, em lagos
     Resgatamos também o fato de que milhares de ex-escravos voltaram para a África (os retornados)e lá fundaram comunidades, mantendo alguns costumes adquiridos no Brasil. Não se integravam mais nas sociedades tribais, assim como também não tinham lugar no Brasil escravocrata, e formaram comunidades separadas, conhecidas como de brasileiros ou agudás e ergueram bairros inteiros como o Brazilian quarter na cidade de Lagos, assim como também no Togo e no antigo Daomé.
     Eles levaram para a África a arquitetura praticada no Brasil, na época, (foto acima) com a qual construíram suas residências, sobrados, igrejas cristãs e mesquitas. Ainda existem alguns exemplares dessas construções na moderna Lagos.(foto abaixo)
     Muitos descendentes desses retornados ainda falavam o português, no início do século XX e os mais velhos eram conhecidos como papais e mamães. Descobrimos também, que a famosa revolta dos malês, ocorrida na Bahia em 1835, foi um reflexo no Brasil de uma guerra santa, uma jihad islâmica, ocorrida na região do Iorubo, e comandada pelo Imame (líder espiritual) Usuman dan Fodio, cuja notícia chegou ao Brasil através dos navios negreiros, que muitas vezes traziam como cativos, prisioneiros dessas guerras e passavam a notícia aos seus compatriotas no Brasil. 
     A comunidade islâmica no Brasil, era formada por negros escravos e libertos, que mantinham sua fé oculta e professavam sua religião em segredo, já que oficialmente o Brasil imperial era um país católico e qualquer outro culto era considerado ilegal e perseguido como seita religiosa.
     Após o fim da rebelião, muitos revoltosos malés foram deportados de volta para Lagos e lá se juntaram à comunidade muçulmana local.
     Havia também muitos muçulmanos no Rio de janeiro, que se reuniam em locais privados para professar sua religião. Esses seriam descendentes do que Costa e Silva chama de diáspora baiana, formada por ex-escravos que foram da Bahia para o Rio, procurando afastar-se de seus antigos donos para começar uma vida nova. Teriam sido eles os responsáveis pela invenção do Samba, como já contam algumas resenhas da vida dos primeiros compositores do samba carioca, como Pixinguinha, todos filhos de baianas emigradas para o Rio de janeiro.
     Alberto da Costa e Silva afirma também ter visto no Senegal uma apresentação musical em que a música era idêntica ao frevo pernambucano, que ele suspeita ser, na verdade, um ritmo africano transplantado para o Brasil.
     Muito interessante é perceber que a dominação européia sobre a África foi historicamente curta: do final do século XIX a meados do XX, quando se formam as modernas nações africanas.
     Após ler Um rio chamado atlântico, me parece extremamente importante a retomada das relações do Brasil com a África, de onde veio aproximadamente a metade dos formadores da população do Brasil moderno. O colonialismo europeu nos separou das nossas raízes africanas e hoje estudamos os negros como se a história deles começasse nos navios negreiros.
      Conhecer a história das nossas relações com os povos africanos, assim como a mútua influência que Brasil e África exerceram um sobre o outro, é importante para compreender quem somos nós, quem são eles e traçar um novo rumo para as relações exteriores do nosso país.
 
     Para maiores informações sobre a influência do Brasil na África, através dos retornados, me parece interessante, também, a leitura do livro A Casa da Água, (editora Bertrand Brasil, editado originalmente em 1969) de Antonio Olinto, primeiro volume de uma trilogia sobre o tema.
 

     Maiores informações sobre este livro podem ser obtidas nos sites abaixo:
 
     

domingo, 2 de setembro de 2012

 
 
O Paiz
 
 
Privatizações x Concessões
 
     O governo Dilma vem lançando uma série de pacotes de concessões, como forma de relançar a economia, atingida pela crise dos países ricos. Primeiro foram alguns aeroportos, que precisavam ser redimensionados para receber os turistas da Copa de 2014 e para aguentar o aumento do tráfego interno de passageiros, que vem crescendo rapidamente.
     Depois seguiu-se uma nova rodada de concessões, envolvendo ferrovias, rodovias, portos e mais aeroportos, todas baseadas na lei de parcerias público-privadas (PPPs), aprovada durante o governo Lula.
     O PSDB apressou-se em dizer que o PT havia se rendido às privatizações, mas foi logo rebatido pelos petistas e pelo governo, que alegam que conceder não é privatizar, já que a propriedade permanece sendo pública, apenas sendo dada uma concessão de uso por tempo limitado, para suprir a falta de recursos para investir na infraestrutura, que o Brasil precisa modernizar urgentemente.
     Esta semana recebi da minha amiga Lilian Brower Gomes, uma análise sobre as concessões feitas pelo governo francês, ela que mora na França há tanto tempo, criticando este modelo, críticas que reproduzo abaixo:
     Aqui na França o resultado desse sistema de concessões é uma verdadeira catástofre que retira integralmente do Estado qualquer tipo de lucro, o torna dependente do dinheiro privado para a prestação de serviços ao público. Sem falar do roubo do dinheiro da população pois toda essa parte do financiamento à esfera privada vem do dinheiro público. A Sonia Rabelo mostrou isso muito bem com a história da concessão à General Motors de uma parte até agora preservada do Rio de Janeiro. Em geral aqui na França o Estado constrói as pontes e as rodovias com o dinheiro do contribuinte e depois faz as concessões para as empresas privadas que oferecem empregos precários com péssimas condições de trabalho. No caso da inglaterra deixaram a infra estrutura ferroviária se deteriorar até que o Estado fosse obrigado a retomar as rédeas, reinvestir para poder garantir um mínimo de serviço de transportes ao público....para depois fazer uma nova concessão. A empresa de trens da França era realmente ótima. Trens que respeitavam os horários, limpos, empregos sólidos. A parte do frete permitia arcar com a falta de rentabilidade do transporte de passageiros e garantir um serviço público de transportes de qualidade. Com os acordos da OMC o Estado foi obrigado a privatizar a parte de frete ferroviario, a dar em concessão sua infraestrutura feita com dinheiro público para empresas privadas que só exploram os trajetos rentáveis. Quem vai garantir os trajetos necessários ? Com que dinheiro ?
     Esse debate entre público e privado já vem de um tempo, desde o desmonte das economias estatais do bloco socialista, na década de 1990, e embora o modelo neoliberal esteja numa crise profunda, os principais países capitalistas e os agentes financeiros internacionais controlados por eles, como o FMI, o Banco Mundial e a própria Organização Mundial do Comércio, citada por Lilian, continuam a exigir que os governos implementem essas reformas privatizantes, para que recebam aportes financeiros.
     Qual é a lógica de tudo isso? Já não vivemos mais uma disputa ideológica entre capitalismo e socialismo, como no tempo da guerra fria, mas a essência desses dois sistemas parece subsistir nas disputas travadas entre as políticas econômicas implementadas pelo bloco dos países capitalistas, até pouco tempo chamado de centrais, (Estados Unidos, União Européia e Japão) e os países agora chamados de emergentes, dentre eles os chamados BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul).
     A diferença entre as políticas está no controle das políticas públicas, que no caso da Europa, EUA e Japão, permanece nas mãos do mundo corporativo (o grande capital), que decide os destinos da economia, como um governo invisível, enquanto nos emergentes está nas mãos do Estado. Então não se trata mais de privatizar ou estatizar, mas de impor à sociedade uma lógica que privilegia os interesses das grandes corporações ou sujeitar os interesses dessas corporações aos interesses do Estado, que teoricamente representa suas populações, ou seja, a cidadania dos seus países.
     No Brasil, as privatizações promovidas pelo PSDB foram realmente alienações do patrimônio público, objetivando entregar ao mundo corporativo, ou ao que eles gostam de chamar de mercado, a lógica que moldaria a própria sociedade. As concessões feitas pelo PT, parecem se pautar pelo modelo do capialismo controlado pelo Estado, ou seja, usa-se o dinheiro das corporações mas mantém-se a lógica que regula a sociedade nas mãos da cidadania.
     É claro que esse segundo modelo tem seus riscos, como bem define o comentário da minha amiga Lilian, pois a lógica pode acabar se invertendo, na medida em que o Estado comece a depender desses capitais para sobreviver, ou até para financiar certas campanhas eleitorais.
     É realmente o caso de se abrir esta discussão, para que ela se torne mais clara para o grande público.
 
 
Rapidinhas
 
E agora PT?
 
 
     Uma norma geral, para todos os partidos, é expulsar os membros flagrados em atos de corrupção.
     Todos tem feito isso, desde a direita mais sórdida à esquerda mais infantilóide. A excessão tem sido o PT. Desde o início das denúncias sobre o mensalão, ninguém foi expulso do partido, nem mesmo o ex-deputado José Dirceu, o comissário,(como é chamado pelo jornalista Elio Gaspari, se referindo aos antigos comissários políticos dos tempos das ditaduras stalinistas européias), acusado de ser o chefe da quadrilha.
     Esse tempo todo o partido vem batendo na tecla de que não existiu nenhum mensalão, que tudo foi invenção da imprensa.
     Bem, agora já temos gente condenada pelo Supremo Tribunal Federal: João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. E agora, vão dizer que tudo foi invenção do STF? Não vão expulsar o dito cujo do partido?
 
 Nas asas da Embraer
 
     Esta semana fiz um ótimo voo num jato Embraer 195, da Azul Linhas Aéreas, entre Salvador e Fortaleza. Durante a a viagem, enquanto assistia ao entretenimento no pequeno monitor individual da minha poltrona, fiquei pensando:
     _Quem diria há alguns anos atrás, que o Brasil seria capaz de projetar e construir um avião como este, com a mais alta tecnologia embarcada?
     Os aviões da Embraer, pra quem não sabe, não tem aquela horrível poltrona do meio. São apenas dois assentos de cada lado. Muito conforto e espaço para as pernas.
     Mas quando se trata de automóveis, até hoje não fomos capazes de produzir uma marca própria. As fábricas instaladas no Brasil são todas estrangeiras e fabricam carros ao gosto do público dos seus países.
     Até a propaganda reforça isso, como se fossemos incapazes de fabricar um automóvel nosso. A Volkswagen faz questão de dizer que é alemã. Das auto (o carro), diz, nos seus anúncios. A Citroen também faz questão de dizer que é francesa, com seu slogan criative technologie (tecnologia criativa). E ainda tem aquele anúncio da mulher que congelou o marido até poder comprar um carro japones. Que absurdo! Onde estão nossos valorosos empresários que não são capazes de lançar uma marca brasileira?
     Até os chineses estão invadindo nosso mercado, eles que há alguns anos atrás só fabricavam uns carrinhos desengonçados.
     A Gurgel era nossa única marca, que já fabricava carros elétricos há muitos anos, mas faliu.
     Se somos capazes de fabricar um jato como aquele, podemos muito bem fabricar carros que atendam as nossas necessidades.
     Talvez esteja faltando uma política de incentivo à criação de marcas brasileiras.
 Declaração de voto
 
 
     Não tenho obrigação nenhuma de declarar meu voto, que é secreto, mas em se tratando da luta que se trava em Rio de Contas para libertar aquele município do jugo de uma turma muito negativa que tomou conta do poder há muitos anos, acho que é meu dever fazê-lo aqui, neste espaço semanal em que publico minhas opiniões.
     Não há dúvida que vou votar 12, em Cristiano para prefeito, já que ele representa a mudança, com seu vice do PT, permitindo que um grande arco de forças se forme para resgatar Rio de Contas das mãos dos aventureiros.
     Faltava me decidir pelo voto de vereador. Eu pretendia votar em Magdalena, vereadora atual do PSB que muito tem feito pela região dos gerais, onde tenho meu sítio. Mas em recente visita à cidade fiquei sabendo que manobras políticas do nefasto grupo do atual prefeito a impediram de se lançar a reeleição.
     Nesse caso minha decisão é votar em Angela Guedes. Não apenas porque seja minha amiga, pois temos também nossas diferenças, mas porque é uma pessoa de briga, uma pessoa sem papas na língua, capaz de enfrentar os desmandos dessa gente que está lá e que ainda deve eleger alguns vereadores.
     Precisamos de gente como Angela Guedes na Câmara Municipal, se quisermos mudar o município e meu voto é dela.


Poesia da Semana
 

"Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o oprimem." (Bertold Brecht)


 Ainda a África

 
Tráfico e preconceito
 
     Os três capítulos finais do livro A Manilha e o Libambo, de Alberto da Costa e Silva, dizem respeito especificamente à vida política e econômica da África Atlântica, entre os séculos XVI e XVIII e à formação do conceito racista que passou a associar escravo com negro.
     Não vou resenhar aqui as extensas descrições da vida africana naquela época, mas apenas assinalar que a multiplicidade de pequenos estados e reinos que surgiam e desapareciam, ao sabor das inúmeras guerras, resultantes das tentativas de muitos deles em se assenhorar das rotas comerciais e submeter outros estados à sua servidão, guerras estas que produziam os prisioneiros que se transformavam em escravos enviados para fora da África subsaariana, pelo oceano ou pelo deserto, todo este processo era resultado da existência de excedentes produtivos, que permitiam a formação de elites econômicas, ou seja classes sociais que acumulavam riquezas e se lançavam à guerra com intuito de aumentar seu poder e suas riquezas às custas dos seus povos e de povos vizinhos.
     O estágio civilizatório da África atlântica, pulverizada em centenas de micro-estados que viviam em guerra constante, sem que nenhum deles consolidasse um poder real e duradouro sobre um território específico, foi o motor do intenso despovoamento vivido pelo continente naquela época, já que aos reinos vencedores das pequenas guerras, parecia urgente se livrar dos inimigos aprisionados, mandando-os para o mais longe possível e lucrando com isso.
     Aos árabes e europeus que compravam escravos, ou os capturavam em várias partes do mundo para movimentar suas economias movidas pelo braço dos cativos, passou a ser cada vez mais fácil fazê-lo na África, onde a oferta era sempre grande.
     "As regiões balcânicas e à volta do mar negro, até então a maior fonte de escravaria para a Europa e o mundo islâmico, tinham sido fechadas aos europeus pelos otomanos, na metade do Quatrocentos." (pg. 851)
     A diferença racial fez com que os negros começassem a ser identificados com o escravo, já que este precisava forçosamente ser uma pessoa etnicamente diferente, para que fosse possível construir uma "justificativa", aceitável para os escravizadores.
     "O que fora o habitual na Roma antiga e na Idade Média européia e sucedera algumas vezes na África tornar-se-ia impensável nas Américas: alguém ter um escravo branco." (pg. 859)
     Apesar dessa situação, os europeus não tinham nenhum domínio sobre os territórios africanos, e viviam reclusos nos 32 fortes que ao final do século XVIII tinham construído na costa atlântica. Só conseguiam penetrar no interior, pagando tributos e fazendo acordos com os reis locais, situação que permaneceria até o final do século XIX, quando se deu realmente a partilha da África entre as nações européias.
     Então temos aqui dois fenômenos:
     O primeiro é a produção de riqueza acumulada pelos excedentes produzidos por uma economia em estágio pré-mercantilista, que enriquecia e empoderava elites locais, que se voltavam à guerra como forma de aumentar poder e riquezas, produzindo um enorme contingente de prisioneiros, que também passava a ser fonte de lucros.
     O segundo é a identificação étnica do negro com o escravo, à partir do século XV, por europeus e árabes, devido a abundância de oferta na África e do fechamento dos mercados tradicionais de escravos nos balcãs e no mar negro.
     É claro que o preconceito racial que vivenciamos hoje tem sua origem nesta identificação entre negro e escravo. É por isto também que a maioria dos brasileiros não se sente indignada ao ver os negros em situação de pobreza ou miséria, panorama tristemente comum no nosso país, mas muitos se opõem a programa compensatórios como o das cotas nas universidades, por achar estranho ver negros doutores, ou por achar que estamos lhes dando algum privilégio ao tentar compensar os descendentes das vítimas da escravidão, até hoje reduzidos à pobreza pela falta de oportunidades ou pelo próprio preconceito.
    
     Nos próximas edições deste blog, pretendo seguir escrevendo sobre a África, à partir de outro livro de Alberto da Costa e Silva intitulado Um Rio Chamado Atlântico: A África no Brasil e o Brasil na África, este bem menor do que o primeiro, do qual espero ter dado conta satisfatóriamente.
    
 
     

domingo, 26 de agosto de 2012

O Paiz
Eleições na Bahia
Pobre Salvador 

     Pobre cidade de Salvador. Tão abandonada, tão favelizada, tão suja, tão sofrida.
     Quando vejo os trabalhadores nas paradas de ônibus, sofridos, esperançosos, cansados...
     Quando vejo os motoristas nos seus carros financiados, desiludidos do sonho comprado à prestação, presos no trânsito parado, sem alternativa de transporte de qualidade...
     Quando vejo os olhares das vítimas da violência urbana, na sala de sutura do HGE, olhares calados, chocados, traumatizados, cheios de medo...
     Quando vejo a arrogância da polícia nas ruas, intimidando os cidadãos, ao invés de lhes passar um sentimento de proteção...
     Quando vejo a propaganda política, tão cheia de cinismo, de falsas verdades, de candidatos abraçando criancinhas e escondendo os interesses ocultos que os movem...
     Quando vejo a aridez do panorama político da cidade, da outrora orgulhosa e bela, cidade de São Salvador da Bahia.
     Penso em quanto este povo terá de sofrer ainda até encontrar seu caminho e se transformar numa sociedade próspera e justa.
     Pobre Salvador, sempre 20 anos atrás do resto do Brasil. Tão africana na sua alma e na sua incapacidade de resolver suas contradições.

Em Conquista, mais do mesmo


     As eleições em Vitória da Conquista, este ano, terão pela primeira vez um segundo turno, devido ao crescimento do eleitorado, que já ultrapassa 200.000 eleitores.
     Pena que as alternativas sejam as mesmas. Guilherme Menezes, do PT, tenta se eleger pela quarta vez, com o mesmo discurso, fazendo o tipo justiceiro humilde, que ninguém aguenta mais. A oposição, no entanto, não conseguiu apresentar um nome que mobilizasse a cidade em torno de um novo projeto. Seus candidatos ou representam coligações muito fracas, ou representam as velhas elites corruptas, afastadas do governo pelo PT há tantos anos.
     Portanto, devemos ter por lá mais quatro anos do mesmo feijão com arroz, sem os tão necessários projetos de reestruturação urbana que a cidade necessita.

Rio de Contas é 12


     Impressionante o crescimento da candidatura de Dr. Cristiano na histórica cidade de Rio de Contas, na Chapada Diamantina. No sábado, 25 de agosto, uma imensa carreata tomou conta da cidade. Nas casas só se vê o número 12.
     Gente de todas as tendências se uniu contra o despotismo do atual prefeito e seus assessores que só sabem perseguir e maltratar o povo. A cidade parece estar se aprontando para se levantar e dar um sonoro basta aos desmandos da velha classe política. 
     Como diz aquela antiga canção, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!
Rapidinhas

Eleições municipais no Brasil

A imagem dispensa comentários

Perdas

     Há muitos anos atrás, 37 para ser mais exato, no dia 27 de agosto de 1975, nascia meu filho José.
     Ele viveu apenas três dias, pois seus pequeninos pulmões ainda não estavam completamente formados, já que ele veio ao mundo prematuramente, com apenas 6 meses e meio de gestação.
     Os três dias de vida de José, a quem eu e minha companheira chamávamos carinhosamente de Zezinho, foram passados dentro de uma incubadora, em um hospital público de Porto Alegre. Um casal jovem e sem recursos, em plena ditadura militar, pouco podia fazer para valer seus direitos. José morreu no dia 30 e só pude carregá-lo nos braços dentro do seu pequeno caixão, para o cemitério João XXIII, numa manhã de sol.
     Uma vida de apenas três dias que deixou um vazio impossível de preencher.
     Hoje, 37 anos depois, ainda sinto sua ausência e me recordo sempre dele nesta data, lamentando que, se fosse hoje, possivelmente ele poderia ser salvo pelos avanços da medicina.
     Neste dia sinto por todos os pais do mundo que já perderam filhos que, pequenos ou grandes, não importa a idade, deixam uma dor incurável nas nossas vidas.

Poesia da semana


Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Mário Quintana
Ainda a África

     Minha resenhas anteriores sobre a África deixaram passar muita coisa, como não poderia deixar de ser, em se tratando de um continente tão vasto e complexo e de uma obra tão grande e rica como a de Alberto da Costa e Silva. Por isso resolvi pontuar alguns aspectos que achei interessante e passei por cima.

A sublime porta

     Na exploração da costa africana do índico, que os portugueses chamavam de contracosta, ao contrário da costa atlântica, eles se deparam com cidades construídas de pedra e cal, um intenso tráfego marítimo e um mercado muito desenvolvido entre a Índia, a África, a Indonésia, eo Golfo Pérsico. 
     A potência dominante nessa área, então, era o Império Otomano, dominado pelos turcos, contra o qual Portugal travou uma disputa intensa Ao par da exploração comercial os turcos também usavam sua influência para difundir a religião islâmica, bastante desenvolvida naquela área.
     Quando Costa e Silva se refere ao Império Otomano, ele usa a expressão A Sublime Porta. Pesquisando a razão disso encontrei a explicação: O Sultão Otomano, quando recebia os embaixadores estrangeiros em Istambul, tinha o hábito de fazê-lo nos jardins internos, junto ao portão do palácio imperial, que os turcos chamavam assim.
      Por isso o governo turco passou a ser conhecido na diplomacia como a Sublime Porta. O portão foi preservado, após a queda do império em 1922, e hoje é a entrada da Prefeitura da cidade de Istambul.

Os Iorubás

     Estima-se que mais de 11 milhões de africanos foram vítimas do tráfico de escravos, entre 1450 e 1900. Desses, calcula- se que cerca de 4 milhões vieram para o Brasil, tornando-se um componente importante da matriz etnica da atual população brasileira. Dentre os que para cá vieram, sobrevivendo aos horrores da captura e da travessia oceânica, muitas etnias africanas estavam representadas, principalmente as que habitavam a costa Atlântica da África, ou suas imediações.  
     Mas de todas os povos da África que foram trazidos, quando se fala de cultura africana no Brasil, sobressai logo a cultura dos chamados Iorubás, originários da atual Nigéria. 
    Mas quem eram eles?
   Na verdade, vários povos da região onde hoje fica a Nigéria, falavam o idioma iorubá. Portanto, iorubá não era um reino, mas um grupo étnico-linguístico, que abrangia vários povos e cuja região também é conhecida como Yorubo (veja no mapa acima). 
     Algumas de suas cidades-estado eram Oyó, Ijexá e Lagos, dentre outras.
     Todos seguiam um líder espiritual que habitava a cidade sagrada de Ifé, líder este que vivia recluso e que consagrava os reis da região, chamados de Obás. Ifé era considerada o umbigo do Mundo, o centro do universo. 
     Só no século XIX um estudo feito por um linguista inglês, passou a considerar o termo iorubá, como se referindo a uma nação.
     Sua língua, aqui no Brasil, passou a se chamar nagô e está muito presente nos rituais das religiões de matriz africana, principalmente o candomblé. Ela também é falada em Cuba e em regiões dos Estados Unidos
     Mas nem todos os iorubás que vieram para o Brasil praticavam a religião tradicional africana. Muitos eram muçulmanos, que aqui eram chamados de malês.
     A história dos africanos islâmicos no Brasil ainda está para ser contada. Muitos deles eram alfabetizados e lideraram as principais rebeliões de escravos na Bahia.
     Para quem se interessar, existem dicionários português-iorubá, desenvolvidos no Brasil. 
     Pesquisando sobre os iorubás na internet, achei muitas informações desencontradas. O site que me pareceu mais sério foi este abaixo: 
     http://civilizacoesafricanas.blogspot.com.br/2009/10/civilizacao-ioruba.html
   Noz-de-cola


     No livro de Alberto da Costa e Silva sobre a África (A Manilha e o Libambo), ele fala muito na noz-de-cola, como um dos produtos mais procurados pelos portugueses, na época dos descobrimentos, mas não explica o que é.
     Pesquisando sobre o assunto, descobri que a noz-de-cola é um fruto, em forma de noz, usado como estimulante e afrodisíaco pelos africanos. E mais, que ele é a matéria prima dos refrigerantes cola.
     Para conferir, fui ver a tampinha da garrafa de Coca-Cola (aquela tampinha de plástico de rosca) e está lá escrito: refrigerante à base de noz-de-cola, entre outros ingredientes. 
     Mas então os refrigerantes cola não são tão artificiais assim como sempre nos fizeram crer. Eles também usam uma matéria prima natural, baseada no fruto africano.
     Mais informaçãos à respeito no site abaixo:
     http://www.criasaude.com.br/N4397/fitoterapia/noz-de-cola.html
  
   

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


O Paiz
Pancadões

     A TV Record, fez, na semana passada, uma reportagem sobre os bailes funks conhecidos como pancadões na periferia de São Paulo.
     Destacou a origem desse tipo de música, nos Estados Unidos, sua chegada ao Rio de Janeiro e depois a São Paulo, ressaltando o aspecto de exaltação à violência e ao sexo fácil, que tem encontrado grande aceitação nos jovens dessas regiões.
     Mostrou também as políticas públicas do governo paulista para esses bairros: basicamente a repressão às festas, com sua dispersão forçada.
     Faltou analisar o porquê da adesão dos jovens a esse apelo de sexo e violência: a total falta de opções de lazer nesses bairros.
     Não se pode analisar uma política pública sem compreender o que está por trás dela. Neste caso o conservadorismo de uma classe dominante, que se revesa no poder há 20 anos na cidade, e que acha que os pobres tem de se conformar em ficar quietinhos nos seus bairros e não atrapalhar a festa da burguesia nos seus bairros nobres.
     Pois é exatamente disso que se trata. Os "pobres" não aceitam mais serem jogados em conjuntos habitacionais, que são verdadeiros guetos, e passarem o final de semana vendo televisão. Eles querem se divertir, querem participar da cultura, querem ver e serem vistos, querem cidadania.
     Como dizia aquela música do Gonzaguinha, feita há tantos atrás: A gente não quer só comida..."
     A dificuldade está na falta de compreensão do problema pelas elites conservadoras que governam a cidade e o Estado de São paulo, para a qual cada classe tem que ficar no seu lugar e se conformar com o que tem. Leia-se PSDB, o partido mais elitista que já surgiu na cena política brasileira.
     Muitas cidades do Brasil já enfrentaram problemas semelhantes, e conseguiram pelo menos reduzir a criminalidade com programas de esporte e lazer nos bairros. São conhecidas várias iniciativas no Rio de Janeiro e em Salvador, que dão alternativa aos jovens da periferia, para que eles consigam se expressar e dar sua contribuição à cultura da cidade. O pancadão é para agredir mesmo, para chocar, para dizer não adianta tentar nos calar porque nós estamos aqui e vamos nos manifestar.
     Ficar em casa vendo televisão, é ficar apenas recebendo uma cultura pronta e enlatada que as empresas de mídia nos fornecem. Se o cidadão ficar restrito aos canais abertos, como a maioria, terá que assistir, Faustão, Gugu, Silvio Santos e Fantástico, programas abaixo da crítica pela sua mediocridade, e que se repetem há décadas. Se possuir uma antena parabólica, ainda terá como alternativa de consumo cultural, as TVs públicas, cujo conteúdo também é bastante elitizado. Se tiver uma TV por assinatura, poderá ver filminhos americanos, que repetem sempre a mesma mensagem conformista, e que também estão cheios de violência e sexo (como os pancadões).
     Ninguém aguenta isso, ainda mais quando se repete por uma vida inteira.
     A solução é democratizar a sociedade, dando acesso a cultura, esporte e lazer a todos, não apenas como receptores e consumidores culturais, mas também como produtores dessa expressão.
     Mas como fazer essa mudança? Mudando a mentalidade dos governantes, o que significa em síntese, mudar os governantes.
     Mas será que os candidatos a Prefeitura de São Paulo estão se dando conta disso? Ou será que ficam apenas repetindo aquela velha lista de problemas (e não de soluções): educação, saúde, transporte...
     Será que os partidos que se dizem de esquerda estão atentos a essa realidade ou também fazem parte da mesma elite dirigente?
     Porque se não estiverem, não vai demorar muito até que os pancadões virem quebra-quebras, como ocorreu nos subúrbios parisienses e londrinos há algum tempo atrás.
     É muita energia represada, querendo se libertar. Muita energia criativa querendo participar. É preciso dar canais para que essa energia flua, porque senão ela vai arrebentar, explodir.
     

Rapidinhas
O Ideb e a educação no Brasil

     Os resultados do Ideb 2011, divulgados pelo MEC, provam o que todo mundo já sabe: que o sistema educacional brasileiro não funciona.
     As melhores escolas públicas continuam sendo as federais e as militares, enquanto as piores continuam sendo municipais.
     E não é por falta de financiamento, pois o governo federal aloca dinheiro até para reforma de prédios tanto nos sistemas estaduais quanto nos municipais. É por falta de interesse mesmo.
     A prova disto são as pequenas escolas de pequenos municípios que conseguiram ótimas pontuações. Escolas onde alguns (poucos) prefeitos interessados colocaram gente competente à frente das unidades de ensino, gente com criatividade suficiente para vencer o marasmo de professores e alunos desmotivados e transformar uma obrigação constitucional, em uma verdadeira prioridade.
     O erro está no sistema, que confunde descentralização com municipalização. Na esmagadora maioria dos municípios as escolas não gozam de autonomia nenhuma. São centralizados por prefeitos que fazem delas objeto de negociação política e temem que os alunos se conscientizem.
     Isso é muito antigo, vem desde a colônia portuguesa, continuando pelo império e entrando pela República. No meu livro Escola, Espaço e Discurso, consegui ter uma visão panorâmica sobre este assunto. A única política pública constante nos mais de 500 anos de história do Brasil tem sido a decisão inabalável das nossas elites, principalmente no interior, em vedar o acesso do povo à escola de qualidade.
     A solução para isso é federalizar todo o sistema, dando real autonomia às escolas e impedir que os prefeitos se imiscuam nos problemas educacionais dos municípios, que deveriam ser considerados como assunto de interesse nacional. Dizer que os indicadores estão melhorando lentamente é conversa fiada. O que precisamos é de melhorias rápidas, de uma revolução na educação.
     A lei de Diretrizes e bases já prevê esta solução, mas falta interesse em resolver o problema.
Viva Assange
     A histeria inglesa com a concessão de asilo diplomático, pelo governo do Equador, a Julian Assange, o australiano que criou o site Wikileaks, que divulgou informaçõs confidenciais dos Estados Unidos, mostrando ao mundo seus crimes de guerra, prova que o governo inglês continua sendo um cachorrinho (como dizem os ingleses) dos americanos.
     A alegação de que ele é um criminoso porque teria cometido um crime sexual na Suécia não convence ninguém. A acusação é a de que ele fez sexo não permitido com duas mulheres suecas.
     Não é estranho? Elas eram maiores e consentiram no ato sexual. Logo na Suécia, país conhecido pela liberdade sexual?´
     É claro que o governo conservador da Suécia vai extraditá-lo para os Estados Unidos onde Assange pode até ser condenado à morte.
     A ameaça dos ingleses de invadir a embaixada equatoriana para prender Assange, desrespeitando leis internacionais, prova que o assunto não está restrito a problemas sexuais, mas virou uma perseguição contra uma pessoa que escancarou verdades indigestas para os Estados Unidos e seus cúmplices, e que precisa ser calada a qualquer preço.


Noite

     Deixo para os leitores mais uma poesia de minha autoria, que achei nos meus alfarrábios, escrita numa noite silenciosa, em um sítio na Fazendola, distrito da maravilhosa e querida cidade de Rio de Contas.

Lume da Consciência
Vaga
Pela noite quieta
Enluarada
Nessa terra desabitada
Vaga lume
Ao som do riacho
À luz do lampião
E deixa o sentir
Brotar na alma
Deixe que aflorem
As coisas assustadoras
Que se escondem em si
Sepultadas por urgências
Cotidianas e urbanas
A consciência do mal
Da terrível descoberta
De que o mal existe
E está à nossa volta
E que é possível senti-lo
De que é preciso elevar-se
Para se libertar e aprender
E aprendendo ensinar
Que só a elevação é ensinamento
E aprendizado, ao mesmo tempo
De que há um tempo
Para nós na terra
E que é preciso realizar
O sentido da vida
Dentro desse tempo
De que o amor vale a pena
Mesmo que seja ingrato
E que não há derrota
Para quem ama
E se dedica
De que o lume
Da consciência
Se torna chama brilhante
Quando sintonizado
à imensa sensibilidade humana
Normalmente abafada
Natimorta
Ou simplesmente atrofiada
Pelas mesquinharias
E dificuldades deste mundo
Mas que cresce aos poucos
Se deixada flutuar
Como vagalume
Na imensa noite escura
E silenciosa.
Ricardo Stumpf / 2002