Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

sábado, 28 de janeiro de 2012

Rapidinhas
Desabamentos e responsabilidades

     Como sempre, o CREA, órgão encarregado de fiscalização de obras em todo o Brasil, aparece depois que os prédios desabaram no Rio, para explicar, com a maior cara de pau, que havia obras sem licença no prédio mais alto.
     E porque o Crea não fiscalizou?  Cobram de que cada profissional uma taxa anual e outra taxa por cada projeto, para manter uma enorme rede de fiscais por todo o Brasil, mas só vão onde sabem que existe um profissional responsável, porque lá é fácil cobrar a taxa sobre o projeto. Se tornaram um órgão meramente arrecadador, por isso mais de 90% das obras no Brasil não contam com um profissional técnico.
     Estão interessados apenas em cobrar suas taxas e não fiscalizam nada, essa é a verdade.
     Se havia obras ilegais, o Crea devia ser chamado para explicar sobre sua responsabilidade em não ter fiscalizado e não para explicar as causas do desabamento. Ainda bem que nós, arquitetos, conseguimos sair do Crea, fundando o Conselho de Arquitetura e Urbanismo, CAU.
     Além disso, ouvi um monte de bobagens sobre as possíveis causas do desabamento, pela televisão, algumas ditas inclusive por engenheiros.
     A única coisa que poderia ter causado o colapso do edifício era a remoção ou a fratura de pilares e vigas estruturais. Remover paredes, ao contrário, alivia a carga sobre a estrutura. Abrir janelas nas paredes laterais a mesma coisa.
     A obra do nono andar, pelo depoimento do pintor que se salvou no elevador, era apenas de pintura e remoção de dois banheiros. Talvez nesses banheiros houvesse alguma parte estrutural. Tem que se verificar isso.
     Mas ninguém falou sobre a obra do terceiro andar, a não ser uma senhora que trabalhava no prédio e disse que viu no dia anterior viu operários "quebrando tudo" quando a porta do elevador se abriu no andar. Pode ser que o problema estivesse aí, mas mesmo assim, pelo depoimento do engenheiro que já tinha feito obras no prédio, as estruturas eram todas externas. Portanto não havia pilares para serem quebrados no meio das salas.
     Outro depoimento, de um antigo morador, falou sobre inclinação do prédio na época da construção do metrô. Pode estar aí a causa. Se houve alguma rachadura na época, com a contínua vibração da movimentação dos trens, teoricamente poderia levar a uma fratura estrutural.
     De qualquer forma, há uma responsabilidade conjunta do condomínio, da prefeitura e do Crea, pela não fiscalização.
Próximos da lista

     Os ministros Fernando Bezerra, da Integração nacional, e Mário Negromonte, das cidades, já estão passando da hora de serem substituídos. Atos de corrupção de subordinados diretos a esses ministros os colocam sob suspeita. O desafio do líder do PMDB na Câmara, de que a presidente Dilma não teria coragem de substituir os ministros para não perder o apoio do partido, soa como um tapa na cara da mandatária da nação.
     Pra quem conhece o estilo Dilma, o desafio não deve ficar sem resposta.
     Dessa vez a faxina deve ser completa nesses ministérios.

Ventos de guerra

     Infelizmente (e novamente) o planeta se vê açoitado por ventos que prenunciam uma guerra, que desta vez pode arrastar muitos países para um conflito imprevisível. Trata-se do bloqueio que vai sendo montado em torno do Irã pelas potências ocidentais, interessadas em derrubar seu governo para colocar em seu lugar mais um governo dócil aos seus interesses, como estão acostumados a fazer.
     Usam como desculpa a questão do programa nuclear iraniano, fiscalizado de perto pela Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA), mas fecham os olhos para o programa nuclear de Israel, que há décadas possui armas nucleares, fora de qualquer controle da agência.
     Na verdade o foco do conflito é Israel, com sua contínua ocupação sobre a Palestina, desobedecendo todas as resoluções da ONU à respeito. O compromisso dos Estados Unidos e da Europa com a defesa incondicional de Israel é a única explicação para o ataque ao Irã, já que todos os países vizinhos a este país possuem armas nucleares (Índia, Rússia, China, Paquistão), sem que isso provoque nenhuma reação ocidental.
     Como o Irã se opõe à hegemonia norte-amerciana no Oriente Médio e à política expansionista israelense sobre território palestino, eles consideram fundamental parar os iranianos agora, antes que eles consigam a bomba e se torne impossível uma invasão do país.
     O Brasil, que havia se aproximado muito do Irã no governo Lula, ultimamente vem se distanciando, principalmente em razão das políticas discriminatórias contra as mulheres, consideradas inaceitáveis pela presidente Dilma.
     Em boa hora nos afastamos, para não sermos envolvidos pela irracionalidade crescente que vai tomando conta das relações internacionais na região. Rússia e China apóiam os iranianos e devem substituir os países ocidentais nas relações econômicas com eles. Uma guerra que envolvesse a União Européia, os Estados Unidos, a Rússia e a China, seria catastrófica para todo o planeta, principalmente para os países mais próximos.
     Enquanto isso, Israel se nega a negociar fronteiras aceitáveis para a nação Palestina e insiste na ocupação, colocando mais lenha na fogueira, apoiada pelo ocidente, que talvez veja no conflito uma saída para sua crise econômica. Afinal as guerras sempre foram uma solução para crises como essas.   
     Quando o capitalismo não tem mais para onde crescer, destrói-se tudo para começar tudo outra vez. É o que eles chamam, cinicamente, de destruição criativa. 

Jericoacoara

                                                        Árvore da preguiça, no Parque Nacional, à beira-mar
    Em nova viagem exploratória pelo litoral do Ceará, desta vez pelo litoral oeste, fui conhecer a famosa praia da Jericoacoara, que fica dentro de um parque nacional à beira-mar.
     A praia, com sua pequena vila, ao lado de uma duna gigantesca,onde as pessoas se reunem para ver o por do sol, é linda. Mais do que isso, é uma das praias mais lindas que já conheci. Acho que só perde para as praias cubanas. Mas Jeri não é só isso. O Parque nacional tem outras maravilhas para revelar aos turistas, como a Lagoa Azul e a Lagoa do Paraíso, que a gente pode conhecer fazendo um passeio de bug, por trilhas previamente definidas para que as dunas não sejam ameaçadas.
    A Lagoa Azul tem uma pousada e restaurante numa ponta no meio da lagoa, à qual se chega através de uma balsa à vela. Paga-se 5 reais para a travessia ida e volta e pelo ingresso no bar. Do outro lado da ponta a surpresa: mesas de bar dentro da água incrivelmente limpa, fazem a gente se sentir num paraíso.
     A Lagoa do Paraíso se supera: ao invés de mesas, colocam redes na água: uma delícia! Além disso tem a famosa Pedra furada, uma das muitas formações rochosas à beira mar, num litoral cheio de falésias, com uma natureza muito agreste, misturando rochas e uma vegetação rasteira. Parece um deserto.    Pode-se entrar na vila de carro, mas não circular dentro dela. Um guia leva a gente pelo meio das dunas, cobrando 50 reais, num trajeto meio arriscado, mas que vale a pena. Quem preferir pode deixar o carro em Jijoca, uma vila fora do parque, e ir de jardineira (uma espécie de ônibus), pagando apenas 5 reais.     A pequena vila não tem calçamento e todo mundo anda descalço na areia. Também não tem iluminação pública e à noite os restaurantes colocam velas com pequenos protetores de vidro nas mesas. Muito bonito. Um exemplo de turismo com preservação ambiental.
     Tem tudo lá, pousadas, restaurantes, bares, lojas. Dá pra comer bem e encontra-se opções de todos os preços, desde restaurantes franceses e italianos até um delicioso pastelzinho de arraia por R$2,50.
     Mas o que mais impressiona no passeio é a infraestrutura do Ceará. Ótimas estradas, todas sinalizadas, outro aeroporto internacional sendo construído (em Jijoca de Jericoacoara), e as cidades que encontramos pelo caminho dotadas de boa infraestrutura, cheias de vida e todas elas dispondo de escolas novas, dotadas de ginásio de esportes.
     Na ida paramos em Itapipoca, e lanchamos num excelente shopping de beira de estrada (à esquerda), onde fomos muito bem atendidos e não pagamos caro. O garçom faz questão de dizer que a cidade é terra do palhaço-deputado Tiririca e da atriz Luiza Thomé.
     Dá pra entender porque a FIFA colocou 7 jogos da copa em Fortaleza: com todo esse investimento em infraestrutura e a proximidade da Europa, o Ceará logo se tornará o primeiro destino turístico do Brasil.

Os pictos e o imaginário anglo-saxão

     Se tem uma coisa que os ingleses e americanos detestam é a história dos povos bárbaros.
     Eles não suportam a idéia de que foram colonizados e civilizados pelos latinos do império Romano.
Mas a história é essa mesma. Quando Julio César invadiu a antiga Britania, os povos que habitavam as ilhas britânicas eram bárbaros, que se organizavam em tribos e viviam guerreando entre si.
     No dizer moderno, eram índios.
     Os romanos conseguiram dominar e romanizar os povos que habitavam o território que hoje corresponde a Inglaterra, mas nunca conseguiram vencer os Pictos, povos que habitavam o território da antiga Caledônia, atual Escócia.
     Os pictos estavam lá há mais de 1000 anos, quando os romanos chegaram, no século I dC e foram denominados assim pelos romanos, em função das suas pinturas corporais (Pictis)
     A pedra com inscrições à esquerda é um monumento picto. À direita uma representação deste povo.
     Os celtas chegaram muito depois e foram habitar, principalmente, o que hoje corresponde à Irlanda.
     Os celtas eram altos e brancos e praticavam a religião dos druidas. Os pictos eram mais baixos e morenos, de cabelos escuros, e tinham o hábito de pintar todo o corpo, principalmente de azul e também se cobriam com tatuagens coloridas. Alguns historiadores supõem que eles sejam originários da península ibérica, pelo seu tipo físico. Outros dizem que eles teriam vindo da Europa Central.                                
       Roma nunca conseguiu vencer os pictos e, por isso, o imperador  Adriano mandou construir uma muralha separando o território romano do território dos bárbaros. É a famosa Muralha de Adriano, que ainda está de pé em alguns locais, dividindo a Grã-Bretanha ao meio, como se vê no mapa à direita.
     Abaixo, à esquerda, uma foto de parte dessa muralha conservada até os dias de hoje 
     Mas no cinema americano, os romanos são sempre os maus e os selvagens são glorificados, como se fossem os vencedores. Eles inspiraram muitos filmes de ficção, como Conan o Bárbaro, Highlander e mesmo os guerreiros azuis de Avatar. Também inspiraram aquele joguinho chamado RPG, que por sua vez inspirou a trilogia O Senhor dos Anéis, todos glorificando os povos bárbaros.
     Mas a verdade é que os romanos nunca foram vencidos pelos ingleses, mas abandonaram a Britânia pela necessidade de sufocar revoltas em outras partes do império que lhe davam muito mais trabalho, já que os anglos e os saxões se tornaram súditos bem comportados de Roma.
     Mais do que isso, os ingleses absorveram toda a cultura romana, suas leis, sua arquitetura e até seus vícios imperiais. A língua inglesa está cheia de expressões latinas e mesmo os pictos e celtas, frequentemente faziam acordos com os romanos para cessarem as hostilidades, havendo comércio regular entre eles.
     Com o tempo celtas e pictos se misturaram, tornando-se um só povo, embora até hoje Escócia e Irlanda tenham suas tradições diferenciadas, seus territórios e, principalmente, mantenham muitas divergências com os ingleses que vivem no sul das ilhas.
     Quando o cristianismo foi introduzido nas ilhas, primeiro pelos romanos convertidos e depois por missionários junto aos outros povos, os druidas foram perseguidos e sua religião desapareceu, deixando atrás de si lendas de duendes e fadas.
     Mas nenhum filme produzido por eles conta essa história direito. Sempre se tem a impressão de que os ingleses se fizeram por si próprios, se civilizaram a eles mesmos e que os romanos foram vencidos. Mas não foi assim. Eles são fruto da colonização romana, assim como os países latinos que colonizaram
                                       nuestra América. A diferença é que Lisboa já era uma grande cidade fenícia, quando os romanos a dominaram, no tempo em que Londres e Paris eram pouco mais que vilarejos. Na verdade a velha Olissipo, que depois se tornou Olissipona no latim vulgar e derivou para Lisboa, se aliou a Julio Cesar na conquista da Península Ibérica, se tornando uma das primeiras províncias fora da Itália a ganhar a cidadania romana. Então temos razão em nos orgulhar de sermos descendentes do grande império latino, enquanto eles se envergonham de terem sido civilizados por eles.
     Por último lançaram agora um filme chamado Centurião, sobre o desaparecimento da IX Legião romana, conhecida como Hispana, que no ano 117 partiu para o território picto e nunca mais voltou. Um mistério que nunca foi esclarecido, mas que no filme vira mais uma derrota de Roma para os pictos.
     Agora me digam se não é interessante esse desprezo que eles tem pelo latinos? Não é impressionante a maneira como mascaram a história para se convencerem que são superiores e esconderem seu passado selvagem, glorificando os guerreiros azuis e demonizando o império que lhes deu sua cultura atual?
     Essa vontade de rever a história, para glorificar povos antigos, também está na origem do renascimento de seitas de bruxaria, do culto aos duendes, fadas e outras divindades do mundo pagão, tão em moda na nossa classe média esotérica desde os anos 1980. Mas a história real é outra.
    

sábado, 21 de janeiro de 2012

Rapidinhas
Va a bordo, cazzo!

    
     Essa é a frase da semana, do capitão da marinha italiana mandando o comandante do navio Costa Concórdia voltar a bordo para salvar os passageiros.
     Caramba, sempre achei esses novos transatlânticos altos demais. São verdadeiros edifícios flutuantes.
     Mas já repararam como cada vez mais acontecem problemas nesses cruzeiros? Ou é intoxicação alimentar com mortes à bordo, ou piriri geral  e até acidentes graves como esse, com um comandante que foge do navio e deixa os passageiros se lascarem.
     Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz!

Aécio retumbante?

     Ainda não assisti, mas achei aquele seriado Brado Retumbante, uma maneira de introduzir Aécio Neves no imaginário do povo brasileiro. O ator que faz o deputado que assume o poder repentinamente, tem o mesmo tipo físico de Aécio e a história é meio sem pé nem cabeça.
      Um sujeito jovem, honesto e mulherengo que é jogado na presidência e se recusa a compactuar com a corrupção...
     Não sei não, mas está me parecendo campanha antecipada.
     Como a Globo tem um histórico muito negativo de manipulação eleitoral, tudo pode se esperar.

Passaredo


   Em 2011, comprei uma passagem de ida e volta, pela empresa Passaredo, entre Vitória da Conquista e Fortaleza, com ida marcada para o dia 22 de outubro e volta para o dia 28. Fui até o aeroporto de Conquista fazer a compra, pois pretendia pagar a vista e via internet só é possível comprar no cartão de crédito.
     Paguei R$848,34 só pela ida, no débito, na agência de turismo VOAR, localizada no aeroporto, indicado pela própria moça da Passaredo, que me disse que eles não vendiam no balcão.
     No dia do voo o avião não pousou devido ao mau tempo. Formou-se então uma fila para que fossem anotados os nomes dos passageiros, que podiam pedir ressarcimento ou guardar o bilhete para outra ocasião. Pedi ressarcimento e uma moça anotou meu nome, meu telefone e o número do meu cartão de débito num papel, dizendo que eu receberia o dinheiro de volta num prazo entre 15 a 45 dias.
     Cheguei a Fortaleza por outros meios e retornei, usando a passagem de volta, no dia 28.
     No dia 30, sem receber nenhuma comunicação, resolvi entrar no site da empresa. Acessei o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) e fiz novamente o pedido de reembolso.   No dia seguinte recebi uma estranha ligação de São Paulo (código 016), dizendo que informações sobre prazo de ressarcimento eram de responsabilidade da agência de turismo. Imediatamente fui ao aeroporto e questionei o atendente da agência que me disse que eles apenas intermediavam as passagens e que a responsabilidade era da empresa.
     Fui ao balcão da empresa e uma jovem acessou o sistema da empresa, confirmando que meu pedido havia sido protocolado através do SAC, apenas no dia 30 /10 (ou seja, a tal moça que anotou os nomes dos passageiros no dia do voo cancelado, não havia pedido nada).
    Pedi então que a moça imprimisse para mim um comprovante, o que ela fez.
    Não tendo recebido nada, no dia 17 de janeiro de 2012, entrei novamente no SAC da Passaredo, passei os números do localizador e do protocolo de reclamações e um atendente depois de me fazer esperar 15 minutos disse que não constava nada. Ou seja, meu dinheiro, pago à vista, simplesmente evaporou do sistema da empresa.     Não é ótimo? Esse passarinho gosta de pegar dinheiro alheio

A educação brasileira refém da política

     Eu trabalhava no Ministério da Educação quando Tarso Genro assumiu o cargo, no lugar de Cristóvão Buarque, demitido por telefone por Lula, por falar muito e fazer pouco.
     Tarso não tinha a menor ligação com a educação e era apenas mais um político que havia perdido a eleição e precisava de um cargo público para não ficar no ostracismo. No Ministério não fez muita coisa, até porque não ficou muito tempo, mas me lembro de uma reunião em que todos os técnicos concursados que acabavam de ser admitidos (eu no meio) foi realizada para que o então Secretário Geral do Ministério nos passasse um pito, mandando que parássemos de reclamar.
     O Secretário era Fernando Haddad, trazido de Porto Alegre por Tarso e as reclamações dos concursados eram principalmente ligadas à falta do que fazer. Gente com mestrado e doutorado era mantida lá apenas para fiscalizar o que as agências internacionais de financiamento (Banco Mundial e BIRD) determinavam para a educação brasileira. Então pra que exigir tanta competência nos concursos?
     Me lembro que a reunião foi um balde de água fria nos ânimos e depois disso o pessoal passava o dia inteiro estudando pra outros concursos, já que ali não dava pra fazer nada mesmo.
     Logo Tarso Genro foi para o Ministério da Justiça e Fernando Haddad ficou com o cargo, com a justificativa de que seria um quadro "técnico". Mas que eu saiba ele não tinha experiência nenhuma em educação, portanto se era um quadro técnico, era apenas administrativo.
     Tantos anos depois e o quadro técnico vai ser candidato a eleição para prefeito de São Paulo, enquanto a educação brasileira continua a mesma droga, sem solução à vista. Para o seu lugar virá Aloízio Mercadante, economista que também não tem nenhuma visão crítica dos problemas da educação. Mas era preciso presenteá-lo com um cargo de prestígio, para mantê-lo afastado da eleição paulistana e permitir que a alquimia de Lula (sem trocadilhos), consiga destronar o PSDB do seu reduto. Também a Cultura entrou nesse jogo e parece que terá seu Ministério presenteado a Marta Suplicy, que não tem e nunca teve nenhum compromisso com a cultura, como prêmio de consolação por ter renunciado à candidatura em favor de Haddad.
     Não é sintomático que a educação e a cultura sejam usados nesse joguinho, como se fossem ministérios irrelevantes? Depois os políticos vem falar da importância da educação para o desenvolvimento brasileiro (da cultura nem falam).

PARA A MÃE TERRA

     Vejam que pérola achei no blog http://caminhocelta.blogspot.com/

“Abençoado seja o Filho da Luz
que conhece sua Mãe Terra,
pois é ela a doadora da vida.
Saibas que a tua Mãe Terra está em ti e tu estás Nela.
Foi Ela quem te gerou e que te deu a vida
E te deu este corpo que um dia tu lhe devolvas.
Saibas que o sangue que corre nas tuas veias
Nasceu do sangue da tua Mãe Terra,
o sangue Dela cai das nuvens, jorra do ventre Dela
borbulha nos riachos das montanhas
flui abundantemente nos rios das planícies.
Saibas que o ar que respiras nasce da respiração da tua Mãe Terra,
o alento Dela é o azul celeste das alturas do céu
e os sussurros das folhas da floresta.
Saibas que a dureza dos teus ossos foi criada dos ossos de tua Mãe Terra.
Saibas que a maciez da tua carne nasceu da carne de tua Mãe Terra.
A luz dos teus olhos, o alcance dos teus ouvidos
nasceram das cores e dos sons da tua Mãe Terra
que te rodeiam feito às ondas do mar cercando o peixinho.
Como o ar tremelicante sustenta o pássaro
em verdade te digo, tu és um com tua Mãe Terra
ela está em ti e tu estás Nela.
Dela tu nasceste, Nela tu vives e para Ela voltará novamente.
Segue, portanto, as Suas leis
pois teu alento é o alento Dela.
Teu sangue o sangue Dela.
Teus ossos os ossos Dela.
Tua carne a carne Dela.
Teus olhos e teus ouvidos são Dela também.
Aquele que encontra a paz na sua Mãe Terra não morrerá jamais,
conhece esta paz na tua mente
deseja esta paz ao teu coração
realiza esta paz com o teu corpo.”
(Evangelho dos Essênios)

Transmissão de consciência

     Prezados amigos leitores.
     No mês passado, completaram-se 20 anos do fim da União Soviética, que era uma federação de países socialistas e comandava uma luta mundial contra o capitalismo.
     A antiga URSS, não foi derrotada pelos Estados Unidos e seu liberalismo econômico, mas caiu por conta de suas próprias contradições. Era uma ditadura que praticava uma espécie de capitalismo de estado, que já havia se afastado há tempos do sonho socialista de um governo de autogestão dos trabalhadores, mas era quem mantinha uma crítica constante e pertinente contra o capitalismo e o imperialismo.
     Com o seu fim, o capitalismo se espalhou pelo globo e os Estados Unidos viraram a potência dominante, com suas guerras, seu consumismo que vai destruindo o planeta e com o neoliberalismo, um sistema antigo que voltou com força, propondo o fim dos controles sobre o capital, causa das constantes crises econômicas, cuja lógica é a mesma das guerras: destruir tudo para depois reconstruir de novo, de forma a ter mercado novos para seus produtos.
     Mas o que fazer para impedir que a memória do socialismo ou da luta contra o capitalismo, se mantivesse viva nas mentes da espécie humana? 
     Esse era um problema para os donos do capital que precisam controlar os corações e as mentes dos habitantes do planeta para que seu injusto sistema econômico continue prevalecendo. Como eles controlam toda a mídia (a internet também, através dos provedores), resolveram simplesmente passar uma esponja no passado, nunca se referindo ao socialismo a não ser pejorativamente, como se aquilo fosse um pesadelo que precisasse ser esquecido.
     Também apostaram pesado na alienação da juventude, antes muito interessada em soluções coletivas para os problemas do mundo e agora estimulada a pensar apenas em si própria, em consumir e andar na moda.
     Mas o que aconteceu com a memória dos bilhões de seres humanos que apoiavam o socialismo, ela simplesmente despareceu? A estratégia de silenciar sobre as teses socialistas parece voltada para o esquecimento, apostando em que as gerações mais velhas vão morrendo e as novas não tenham contato com o debate sobre as injustiças do capitalismo.
     Como explicar, entretanto, o renascimento do debate sobre o socialismo em países ricos como os Estados Unidos e a União Européia? Como explicar que os movimentos do tipo Occupy Wall Street tenham tanto vigor e sejam capazes de se articular globalmente para protestar?
     Me parece que a estratégia do capital esqueceu a importância das famílias, como instrumento de transmissão de conhecimentos. Os pais continuaram ensinando os filhos, continuaram formando suas consciências e mostrando a eles onde está a verdade.
     Assim, a consciência do bem e do mal vai passando através das gerações e a luta por um sistema mais justo vai tomando novas formas, aprendendo com a experiência histórica e abrindo novas portas para propostas transformadoras.
     As crises das economias capitalistas avançadas, paralelamente ao sucesso da economia mista chinesa, onde o capital é controlado pelo Estado, mostra a relação direta e clara entre planificação e crescimento econômico, sem deixar que grupos privados provoquem a chamada destruição criativa, tão comum no capitalismo e que atinge apenas os mais pobres, ajudando a enriquecer mais ainda os ricos.
     A crise das ditaduras árabes também tem ajudado a refletir sobre que democracia queremos e com que mundo é possível sonhar: um mundo integrado, onde a cidadania controle não apenas os governos, mas também as empresas e a economia, através de democracias que não sejam encenações, mas que signifiquem um controle efetivo do povo sobre seu destino.
     Como diz o lema dos Fóruns Sociais Mundiais: um outro mundo é possível!
    
    

domingo, 15 de janeiro de 2012

Rapidinhas


Evite enchentes
  Atenção riocontenses: aí vai um conselho para evitar inundações em 2012!


Drogas

     O combate ao tráfico de drogas no Brasil carece de uma política federal, unificada, pois atualmente, apesar de algumas operações da Polícia Federal, fica à cargo das PMs, dos governos estaduais e municipais, totalmente despreparados para uma ação coordenada.
     A repressão ao tráfico, que estamos acostumados a ver no noticiário das TVs, se restringe à ponta do sistema criminoso, ou seja, aos que distribuem a droga e disputam os pontos de venda, geralmente em favelas ou bairros da periferia. Os grandes barões do tráfico, no entanto, não moram lá.
     É verdade que já houve algumas prisões de grandes traficantes, mas muito poucas, comparadas à grande expansão desse negócio, que movimenta uma soma fabulosa de dinheiro.
     O que me intriga é como é possível esconder tanto dinheiro sujo. Onde fica a super-lavanderia que lava todo esse dinheiro? A Receita Federal que monitora as contas bancárias de todos nós, detectando qualquer excesso e cobrando, com rigor, o imposto de renda de trabalhadores e aposentados, não percebe essa gigantesca movimentação?     Por onde passa toda essa grana, sem que ninguém perceba?
     Não seria o caso de investigar os bancos? Será que eles seriam tão honestos a ponto de recusar depósitos suspeitos tão vultosos? E os juízes que libertam os traficantes presos? E os políticos que recebem contribuições dessas fortunas para se elegerem, em troca de fechar os olhos ao tráfico?
     E as grandes fortunas de mega-empresários que surgem da noite para o dia?
     Se não houver uma política unificada rápida e eficiente, vamos ser dominados pelos traficantes e acabar nos transformando em um novo México, onde o governo de Felipe Calderón deixou o negócio das drogas prosperar até dominar regiões inteiras do país, causando mais de 40.000 vítimas de mortes violentas em 2011, sem falar na destruição da vida dos usuários e de suas famílias.
     É uma questão de vontade política.
     Quem vai ter coragem?
Assad nas últimas

     O último ditador progressista do oriente médio, continua massacrando seu povo para conter as manifestações que pedem democracia. A cada compatriota morto, Assad perde mais e mais a confiança do seu povo, que já não o suporta.
     Parece que o ponto de não retorno já foi ultrapassado e esse ditadorzinho, que herdou o governo de seu pai, vai ter o mesmo amargo fim de Khadafi, da Líbia.
     O que ainda o sustenta é a hesitação da Rússia em abandoná-lo, com medo de perder a base naval que dispõe naquele país. Mas os russos não poderão sustentar para sempre um sujeito desse tipo, que massacra o povo diariamente e aparece na TV com carinha de sonso e aquelas orelhinhas de abano.
     Depois do triunfo da democracia na Síria, chegará a vez das monarquias feudais, como a Arábia Saudita, os Emirados e o Bahrein, apoiados pelos Estados Unidos, que também os sustentam para manter suas bases militares.
     O mundo segue mudando e o mundo árabe vai se levantando. Depois de se libertarem das potências coloniais no século passado, agora estão se libertando dos velhos imperialismos que sustentam as ditaduras que os oprimem.
Resgatando o espaço público


     A relação entre espaço público e democracia é direta.
     Lugares privados são dominados pela lógica dos seus proprietários, sejam eles condomínios, controlados por um síndico, ou locais comerciais como shoppings, cuja lógica é a obtençção do lucro máximo.
     Espaços públicos são regulados por leis, que nos regimes democráticos são elaboradas por parlamentos eleitos, portanto, a princípio, servem ao interesse público e aos princípios republicanos de igualdade entre cidadãos.
     Uma praça pública, tem como objetivo proporcionar o lazer à todos os cidadãos que a procurem, não importando sua condição social, cor, religião´ou gênero. É, por definição, um espaço democrático e aberto à utilização de todos.
     Assim como a praça é um espaço aberto, existem também espaços públicos fechados, que devem funcionar segundo a mesma lógica. Teatros municipais, centros culturais, estádios de futebol (cobertos ou não), ginásios construídos pelo pode rpúblico para a prática de esportes, são espaços destinados à todos e seguem normas estabelecidas e aceitas, que garantam o acesso à todos os cidadãos.
     A cidade capitalista tende a substituir os espaços públicos pelos privados, especialmente shoppings e locais de espetáculo, sujeitando os cidadãos à lógica de intereses particulares, o que, a priori, pode restringir o exercício da cidadania.
     Quando deixamos de frequentar a praça e passamos a ir ao shopping, estamos abrindo mão de direitos, cedendo aos interesses comerciais a decisão do que é ou não permitido fazer, do horário de frequência, do tipo de indumentária que devemos usar e até do comportamento.
     Existem exemplos muito negativos de shoppings que proíbem, por exemplo, a reunião de mais de cinco pessoas, ou proíbem o ingresso em determinados trajes (bermudas ou shorts), proíbem entrar com comidas, etc.
     Já houve casos explícitos de discriminação contra pessoas com aparência pobre, com exposição dessas pessoas a situações humilhantes. Aos shoppings só interessa os que tem dinheiro para consumir. Pobres só ocupam espaço e enfeiam o ambiente, espantando fregueses que realmente importam.
     Alguns espaços públicos das nossas cidades vem sendo paulatinamente abandonados pela onda consumista que transformou os shoppings em opção de laser nos finais de semana. Um exemplo típico é a Concha Acústica de Brasília, cenário de grandes espetáculos nas décadas de 1960 e 1970 e que hoje está tomada pelo mato (pelo menos estava da última vez que a vi).
O abandono da Concha Acústica de Brasília
     Quando conto aos meus filhos que assisti ao fantástico balé do Senegal na Concha em 1971 eles não acreditam.
     Mas é possível harmonizar interesses coletivos e privados em torno de espaços públicos. Um bom exemplo é o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, em Fortaleza, onde convivem espaços administrados pelo estado (Secretaria estadual de Cultura), como teatros, planetário, biblioteca, Museu de Arte Contemporânea, salas de exposição e de cursos, com cinemas privados (Espaço Unibando 1 e 2) e muitos bares e restaurantes dispostos numa espécie de "praça da alimentação" ao ar livre, com música ao vivo para todos os gostos, tudo entremeado por jardins onde se localizam esculturas, painéis e pinturas de vários estilos.

Dragão do Mar, em Fortaleza

     Cabe aos arquitetos e ubanistas, resgatar a função pública dos espaços de lazer das cidades brasileiras, garantindo o acesso democrático e plural a todos os cidadãos, reforçando assim sua identidade cultural e seus laços sociais.
     Isso inclui rodoviárias e aeroportos, que acham que podem cobrar o que bem entendem por serviços que não se diferenciam em nada dos prestados em outras áreas da cidade, seja um táxi, um lanche, um jornal ou um corte de cabelo.
     De nada adianta baratear as passagens de avião se nos aeroportos continuamos reféns dessa lógica que dá direito aos comerciantes da área de saquear à vontade os passageiros. Já basta o desrespeito das empresas aéreas que tratam os passageiros como gado enfileirado para o abate. É preciso democratizar esses espaços, que por definição são públicos, mas se encontram sob a lógica predatória dos mercados.
    

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Rapidinhas

Mundo novo

     Prezados leitores
     Estamos iniciando 2012 com a promessa de muitas mudanças neste nosso lindo e sofrido planeta.
     É um ano que promete consolidar grandes mudanças que se iniciaram em 2011 e vai depender muito de nós, do nosso trabalho, da nossa dedicação e capacidade de abrir um novo caminho, a construção de um futuro melhor para todos os brasileiros e latino-americanos.
     A América do Sul está se levantando, sacudindo a poeira e nos reservando um novo papel no mundo. O Brasil, daqui para a frente, será cada dia mais importante, e a nós que vivemos nessa quadra do século, cabe a responsabilidade de guiar todo esse processo. Tanto as novas gerações, com sua energia, quanto as antigas, com sua experiência.
     Este blog, que é apenas uma pequena gota d'água nesse oceano de informações que é a internet, espera contribuir com a construção dessa nova consciência.
     Meu chamado aos leitores de outros continentes, feito na semana passada, já rendeu seu primeiro fruto, com o contato da minha amiga de Infância, Lilian, atualmente residindo na França. Uma alegria imensa poder saber dela e do trabalho que realiza na área da linguística.
     Estamos abertos a outros contatos de outros continentes para que se manifestem.
    
O finzinho

     Pois é, amigos.
     Já chegado aos 60 anos, comecei a olhar para a velhice. É inevitável, até porque temos os exemplos familiares a nos mostrar para onde vamos, todos os que sobrevivem nesta terra até os 80 ou 90 anos, algumas vezes até passando dos 100.
     Envelhecer não é tanto o problema, já que com cuidados com a saúde e um pouco de sorte, se pode chegar bem até uma idade avançada. O problema é o finzinho, aquela idade em que o ser humano perde a autonomia, já não consegue se locomover sozinho, as pernas já não funcionam, as costas se curvam, a mente se turva, precisa-se voltar a usar fraldas, etc.
     Como é difícil esse fim. E como estamos despreparados para ele. Não importa se somos os que estão se findando ou se somos os que cuidamos de quem está no fim, o fato é que nunca estamos preparados.
     O que observo nas famílias é que não existe um planejamento para cuidar dos muito velhos, assim como nos planejamos para cuidar dos filhos que nascem.
     Quando vem uma criança, preparamos o quarto, compramos os móveis, temos esquemas legais de proteção à gravidez, licenças maternidade e paternidade para o nascimento, contratamos babás, ou as colocamos em creches e todos sabem qual é a sua responsabilidade. Mas quando se trata de cuidar de um idoso, é um jogo de empurra-empurra entre os filhos e ninguém sabe direito o que fazer e na verdade ninguém está muito preparado para isto.
     Isto justifica o triste ditado popular que diz: um pai sustenta dez filhos, mas dez filhos não sustentam um pai.
O império se retira

     E por falar em decadência, o Congresso americano começa a discutir os cortes orçamentários no seu gigantesco orçamento militar. As discussões em torno do assunto são esdrúxulas, com gente questionando quantas guerras eles conseguiriam travar ao mesmo tempo, como manter a ordem no extremo oriente, na Ásia e no pacífico, ao mesmo tempo, como se a eles coubesse a tarefa de policiar o mundo.
     Ao mesmo tempo em que começam a retirada do Iraque, proclamam seu "sucesso" naquela guerra sem sentido, que tirou a vida de mais de 100.000 civis iraquianos, segundo as estatísticas mais conservadoras, como se tivessem vergonha de admitir que estão se retirando e que tudo aquilo foi um grande desastre que  só encheu os bolsos do complexo-industrial-militar norte-americano.
     Os patéticos discursos de Obama, a respeito da manutenção da liderança americana no mundo, em parte estão voltados ao eleitorado conservador, obcecado pela idéia de dominação do mundo e pela paranóia da ameaça externa e em parte estão voltados para aqueles que os americanos consideram seus inimigos, como a Coréia do Norte ou o Irã, países que não tem a menos condição de travar uma guerra com eles sem seres rapidamente arrasados.  
     É uma situação estranha, em que a potência que se retira não quer admitir que a ordem das coisas possa se alterar com a sua retirada. É como se eles estivessem dizendo: olha, nós vamos sair, mas vocês precisam se comportar e continuar seguindo nossas ordens.
     Enquanto isso a China se arma silenciosamente, sabendo que o tempo trabalha a seu favor.
     Como já dizia Camões: Cessa tudo quanto a antiga musa canta, quando um poder mais alto se alevanta.

 
 
Praias do Ceará

     Em rápida excursão pelo litoral leste do Ceará, pude conhecer Canoa Quebrada e outras praias desse Estado e posso dizer que fiquei surpreso.
     Não se trata apenas da beleza natural, da qual eu já tinha ouvido falar muito, mas o que surpreende em quem pega a rodovia CE-040 é a qualidade de tudo, a começar pela estrada que está sendo toda duplicada.
     Os 125 Km entre Fortaleza e Aracati são de ótimo asfalto e um meio ambiente que mistura semi-árido com restinga, onde abundam os cajueiros, em verdadeiras florestas ao longo das margens. Pequenos vilarejos, aparentemente limpos, organizados e dotados de boa infra-estrutura vão desfilando aos olhos do turista, acostumado às imagens de pobreza do nordeste veiculadas pela grande imprensa do sudeste.
     A estrada não tem quebra-molas, mas "lombadas eletrônicas", que obrigam o motorista a reduzir a velocidade para 60 Km nos pequenos lugarejos. Tudo muito bem sinalizado.
     Não é à tôa que a revista The Economist apelidou o nordeste de China brasileira, pelo seu crescimento rápido e sustentado. Depois de muitos anos na Bahia, posso dizer que fiquei chocado com a diferença. O Ceará está se tornando rapidamente um lugar desenvolvido.
     Pobreza? Se vê sim, mas aquele pobreza simples do homem do interior. Não vi miséria nem favelas por onde passei, apenas um estado investindo pesadamente em infra-estrtura e um povo alegre e gentil.
     Aliás o cearense é por natureza engraçado. Adora rir e contar piadas. Alto astral.  
O que se vê de ruim são aqueles tipos magricelas, com tatuagens e brinquinhos na orelha, falando com jeito de malandro carioca, tentando conseguir algum dinheiro para consumir suas drogas. Infelizmente coisa comum em todos os locais turísticos do Brasil.
(Até quando vamos assistir o avanço do tráfico, destruindo pessoas e famílias, enquanto o governo assiste tudo passivamente, fingindo que existem políticas  públicas para isso?)
     A infraestrutura hoteleira também é ótima. Andamos por várias praias, Canoa Quebrada, onde ficamos hospedados no Hotel -pousada Canoa Quebrada, com tudo que um bom hotel necessita, fomos também a Morro Branco, Uruaú, Beberibe, Praia das Fontes, Pontal de Maceió, Fortim e outros pequenos lugarejos com saída asfaltada da rodovia estadual e achamos sempre pousadas com ótimo aspecto, oferecendo todos os confortos. 
     Outra coisa impressionante é a quantidade de parques eólicos que existem no litoral. Praticamente todas as praias tem seu conjunto de aerogeradores, que aproveitam a energia dos ventos abundantes que sopram no litoral norte do Brasil.
     Os parques eólicos, além de produzirem energia limpa, são bonitos, elementos poéticos na paisagem das praias. E são imensos. Devem medir mais de 30 metros altura.

     A última surpresa vem com a visão da construção do novo aeroporto internacional de Aracati  (à esquerda), preparado para receber grandes aviões em voos charter direto do exterior, principalmente da Europa, para o litoral leste do Ceará, onde os turistas europeus são comuns, especialmente os italianos.
     Em estilo rústico, coberto de palha, o aeroporto mistura elementos tradicionais com todos os confortos da modernidade.
     É o novo Ceará, o novo nordeste, o novo Brasil que surge rapidamente.
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Rapidinhas

2012

     Assistir ao reveillón na praia de Iracema em Fortaleza é um espetáculo que vale à pena. Além de shows de grandes artistas, como Titãs, Raimundo Fagner e Yvete Sangalo, a queima de fogos com duração de 15 minutos é uma das mais bonitas que já assisti.
     A praia de Iracema, lotada, devia ter mais de um milhão de pessoas, muitas das quais levam isopores, toalhas e até mesas e cadeiras para fazerem verdadeiros acampamentos na areia e poderem desfrutar, com suas famílias, da entrada do ano.
     Esperamos que 2012 seja um ano bom para o Brasil e para os brasileiros e que aprendamos a ser mais responsáveis, cuidando melhor dos nossos semelhantes (ei pessoal, não bebam e saiam dirigindo por aí), do nosso meio ambiente e encontrando soluções para os nossos velhos problemas, dentre eles a educação.
     Como é um ano de eleições, é uma boa oportunidade para dar uma varrida em tantos corruptos, renovando nossa classe política e cobrando mais deles também. Não adianta nada falar mal dos políticos e continuar votando nos corruptos. Vamos ajudar a presidente Dilma a fazer a faxina.
     Faxina neles!
     E feliz ano novo para todos

O valor da pobreza


     A notícia de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do planeta, tem dois lados. Primeiro mostra o acerto da linha seguida pelos governos do PT, de Lula e Dilma, em apostar em novos mercados como o Mercosul, os países árabes, a África e a Ásia, em detrimento dos velhos parceiros comerciais dos governos de direita, Europa e Estados Unidos.
     Lembram-se quando aquele sub-secretário norte-americano ironizou Lula, no início do seu primeiro governo, por ser contra a Alca (uma espécie de mercado comum americano, onde todo mundo venderia para os Estados Unidos) e disse que se o Brasil não vendesse para eles ia vender para os pinguins da Antártida?
     Lula respondeu que não discutia com o sub do sub do sub do sub, ironizando também a posição do norte-americano. O tempo mostrou que a política brasileira estava certa. Quem apostou em acordos comerciais com as economias mais ricas, está agora sem ter pra quem vender, com a crise profunda daqueles mercados.
     O outro lado da notícia é que a ascenção do Brasil não se deve a um crescimento muito grande da nossa economia, mas à queda da economia britânica.
     A ironia da situação é que hoje os países que contam com maior desigualdade tem um mercado interno a desenvolver (Brasil, Índia e China), enquanto os que sustentam populações ricas dependem de exportações.
 Nós podemos crescer "para dentro", eles não.
     É claro que países com grandes territórios, como Brasil, China e Rússia, tem também muitos recursos materiais. Somos ricos em recursos e temos um mercado interno a desenvolver, o que nos coloca um pouco (mas não totalmente) a salvo da crise deles.
     Na verdade a crise das economias ricas é muito mais uma crise de um modelo em que a riqueza estava concentrada em poucos países dominantes, enquanto os restantes se debatiam na pobreza.
     Essa crise tende a se tornar um momento em que o capital se espalha pelo globo, reforçando aquilo que os analistas chamam de "mercado global". Caem as hegemonias e o capital muda de endereço, procurando lugares mais rentáveis. Acredito que seja uma longa crise de mudanças profundas, mas a longo prazo a América do Sul, a Ásia e a África serão beneficiadas com ela.

Raimundo Carvalho

     Visitei a casa e atelier do artista Raimundo Carvalho, na pequena cidade de Teofilandia, ao norte de Salvador. Raimundo é professor e artista plástico e acaba de expor seus trabalhos na Filadélfia, Estados Unidos e se prepara para nova exposição, desta vez em Salamanca, na Espanha.
     Incrível as flores que nascem no interior da Bahia. Raimundo é uma delas. Um artista fantástico, que não abandona sua cidade, de onde tira sua inspiração e alimenta sua ONG , Fulô da Caatinga, dedicada a promover a cultura regional, sempre estimulado por sua esposa, Tamar.    
     A casa-atelier de Raimundo é muito criativa, com um projeto do próprio artista, que demoliu uma casa antiga, construindo a nova no mesmo terreno, sem derrubar a fachada antiga. Entre a frente antiga e a nova, moderna, um jardim interno cheio de plantas ornamentais. Quem olha da rua nem percebe a casa nova e quando entra se surpreende com o ambiente aberto, envidraçado, ventilado. Uma beleza.

Àesquerda a fachada antiga. 
À direita a fachada nova vista através da porta.
Abaixo vista interna da nova casa, com suas obras de arte.
    


    Raimundo Carvalho é a prova viva de que cada vez mais é possível viver e produzir no interior, antes atrasado e agora integrado às grandes redes globalizadas.
     Teofilândia é uma cidade muito simpática, nascida ao lado de um tanque de pedras, onde os antigos vaqueiros levavam o gado para beber.
     Hoje a cidade tem cerca de 25.000 habitantes e uma noite estrelada maravilhosamente sertaneja, com as pessoas sentadas nas calçadas a conversar e trocar suas experiências do dia-a-dia.
     Um privilégio poder conhecer essa cidade e essa família que me recebeu com tanta simpatia.
     Para quem se interessar em conhecer a obra de Raimundo Carvalho, seu blog está aí ao lado.
     
Canudos

     Em viagem por terra, entre Vitória da Conquista, na Bahia, e Fortaleza, tive a oportunidade de realizar um velho sonho, o de conhecer o sítio histórico e arqueológico da guerra de Canudos, no município do mesmo nome.
     De Conquista a Fortaleza há um só caminho, a BR-116, agora rebatizada de rodovia Santos Dumont.
     Ao norte da Bahia, chega-se ao município de Bendegó de onde sai a estrada para Canudos. Estão construindo uma nova estrada, larga, de primeira qualidade, com grandes pontes e aterros e por isso há alguns desvios, pois algumas partes ainda não estão prontas. Num desses desvios vê-se um arco de pedra à esquerda, que é entrada para o Parque Estadual de Canudos, administrado pela Uneb, Universidade do Estado da Bahia.
     A estrada nova segue em direção à nova cidade de Canudos, mas resolvemos entrar logo  no parque para conhecer.
     Logo na entrada uma casa, onde ficam os guardas que nos orientam para a visita.
     Nos explicaram que devíamos parar o carro no caminho, junto a placa que indica o Vale da Morte e daí seguirmos à pé, para depois seguirmos até o Alto da favela, novamente de carro, onde há um pequeno museu, com painéis explicativos.
     Fizemos como recomendado e entramos à pé pelo tal Vale da Morte, onde uma placa nos explica que ali ficaram acampados os soldados da terceira expedição militar enviada para destruir o arraial, no final do século XIX, derrotada pelos sertanejos.
     Fomos muito adiante da placa, até uma cerca que deve ser o limite do parque. Estávamos procurando uns túmulos, que o funcionário nos havia indicado, que afinal não achamos, mas atravessamos um brejo, sempre seguindo uma trilha, onde nascem os tais canudos, uma vegetação que tem os talos ocos, como canudos mesmo. Me senti como na oração: "ainda que eu caminhe pelo vale da morte...", imaginando o sofrimento daqueles soldados, derrotados, acampados ali naquele ermo, há mais de 100 anos atrás, esperando um reforço impossível de chegar e morrendo aos poucos sob o sol e o calor inclementes.
     Voltamos para o carro e fomos para o Alto da Favela, elevação de onde se descortina o açude de Cocorobó, construído pela ditadura militar para esconder a vila de Canudos, reconstruída pelo povo no início do século XX e que ainda guardava a velha igreja construída por Antonio Conselheiro, o beato que mobilizou uma multidão de sertanejos na ilusão de que seria possível viver uma vida autônoma, em meio aos fazendeiros que tratavam o povo como escravo, mesmo após a abolição.
     Lá está o pequeno museu com painéis, explicando como foi a guerra. Nenhum objeto: nem cartuchos de balas, nem túmulos, nem pedaços de construções, apenas painéis contando uma história. Os painéis nos contam que ali naquele local, se reuniram as duas colunas da quarta expedição, vindas da Bahia e de Sergipe, que finalmente conseguiram derrotar os sertanejos e destruir o arraial. Mas adiante uma outra placa nos dos indica onde ficava o banco de sangue do exército, para atender aos soldados feridos.  Só havia feridos do lado do exército, já que os "jagunços", como ainda são tratados pejorativamente os sertanejos livres, eram executados sumariamente, assim que aprisionados. 
     De lá uma estrada segue em direção ao acude, mas ninguém nos orientou a ir até lá. Mesmo assim seguimos até nos deparar com um portão, que estava apenas encostado. Observamos que mais adiante ainda havia placas indicativas ao longo da estrada e seguimos de carro até a beira do açude. No percurso uma placa nos avisa que estamos percorrendo uma estrada sagrada, a estrada de Massacará, onde Antonio Conselheiro fazia suas romarias com seus seguidores.
     Na beira do açude não se vê sinal da antiga vila, totalmente encoberta pelas águas.
     Frustrado, pensei que o museu conservava apenas os lugares importantes para os militares e que a vila e a velha igreja, foram muito bem escondidas, na tentativa de ocultar um dos maiores, senão o maior crime da história brasileira.
     A criação do parque foi uma tentativa de resgatar a história desse crime, que os militares tentaram esconder com a construção do açude, inaugurado em 1969, mas uma tentativa ainda tímida. O certo era abrir o açude, deixar a velha vila reaparecer e restaurá-la, para que as novas gerações pudessem conhecer o sítio histórico onde se deu o massacre de um povo que teve a ousadia de lutar apenas pelo direito de existir e viver em paz, e foi covardemente destruído por um exército que defendia o interesse dos fazendeiros em escravizá-lo.
     O açude, que represa o rio Vaza-Barris, poderia ser reconstruído mais abaixo de modo a não encobrir a antiga Vila, já que aparentemente não há plantações ao seu redor que justifiquem sua existência. Às margens das suas águas senti calafrios e uma dor profunda. Minha alegria de finalmente poder visitar o local foi substituída por uma estranha emoção, como se eu pudesse ouvir os gritos de dor e sofrimento daqueles que tiveram suas vidas ceifadas e sua memória afogada.
     Fiquei envergonhado na beira daquelas águas, de ser um turista tirando fotos. Quis sair, quis ir embora, nem fui visitar a Nova Canudos e seguindo ainda pela br-116, durante muitos quilômetros aquele sentimento me acompanhou e uma tristeza profunda tomou conta do meu espírito, como se todo o peso daqueles almas perdidas pesasse sobre mim e sobre toda a nação brasileira.
     Alguém precisa ter a coragem de abrir aquele açude e deixar a verdade aparecer, resgatando os fatos que verdadeiramente importam e fazendo justiça aos homens e mulheres que lutaram por sua liberdade e foram tão injustamente mortos. Não, a estrada de Massacará não é uma estrada sagrada, como o enfoque que os museólogos tentaram dar a ela. Não é a religião o legado de Antonio Conselheiro, mas é uma estrada histórica, um primeiro caminho na luta do povo brasileiro pela sua emancipação. 
     Restaurem a Vila Velha de Canudos, recuperem a verdadeira história daquele povo e a memória daquela guerra insana. Libertem aqueles espíritos afogados pelo sofrimento, toda aquela gente massacrada que jaz sob as águas vergonhosas daquele açude.
    
  
    

     

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