Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Fantástico Parque do Cocó


     Prezados amigos leitores.
     A cidade de Fortaleza foi capaz de recuperar seu maior rio, criando em torno dele um parque linear, que permitiu que em áreas antes ocupadas por salinas, o mangue e outros ecossistemas renascessem, criando no meio do espaço urbano entre automóveis e torres de arquitetura contemporânea, um dos maiores parques urbanos da América Latina.
     O Parque do Rio Cocó é a prova de que é possivel harmonizar cidade e natureza e ter rios urbanos preservados, transformando suas margens em locais de lazer para toda sua população. 
     Sem dúvida um exemplo para todas as cidades brasileiras. Um exemplo especialmente para a cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, que vem adiando há anos a implantação de um parque similar em torno do seu Rio Verruga, considerado o segundo mais poluído do Brasil.
     Conquista tem apenas 300.000 habitantes, contra os 3 milhões de Fortaleza, e no entanto parece que seus governantes acham difícil criar o parque e recuperar o rio.
     Deviam fazer uma visita a capital cearense para ver o grande impacto que uma obra dessa tem na vida da população da cidade.
     Aos domingos as trilhas do Parque do Cocó ficam lotadas. Tendas com aulas de ginástica, dança e brincadeiras infantis são armadas, para a diversão gratuita dos seus cidadãos.
     A recuperação da flora e da fauna local é impressionante. O parque respira vida e ajuda a cidade a respirar.
     A maioria das cidades brasileiras foi fundada às margens de algum curso d'água, num tempo em que isso era fundamental para a sobrevivência das pessoas. Mas com o tempo, os rios que outrora lhes deram vida foram esquecidos, se tornando esgotos, lata de lixo, até finalmente serem recobertos por lajes, para não enfeiarem a paisagem urbana com suas águas imundas e fétidas.
     Até quando? Porque não inverter essas prioridades e colocar a saúde dos rios na ordem do dia, senhores prefeitos e vereadores?
     A eleição de 2012 está aí para que aqueles que se dizem defensores do meio ambiente formulem seus projetos e compromissos públicos com os eleitores.
     A realidade do Parque do Rio Cocó está aí, para todos aqueles que julgam ser impossível salvar nossos rios.

Água é vida!

Livre Pensar

     Prezados amigos.
  
     Há muitos anos atrás, li o livro Os intelectuais e a organização da cultura, do marxista italiano Antonio Gramsci, mas não o entendi. Eu me debatia contra as coisas que não aceitava (e não entendia), mas não conseguia encontrar um caminho para ajudar a transformar a realidade.
     Sim, o termo é se debater e não lutar, porque quando a gente não entende qual é o problema, torna-se impossível formular um objetivo e traçar um caminho. Nesse caso a luta se torna um esforço inútil e desesperado, um espernear contra o destino sem finalidade alguma.
     Só vinte anos depois, relendo Gramsci, comentado por Paolo Nosella (A Escola de Gramsci), entendi as idéias de Gramsci sobre a cultura e percebi contra o que eu estava me debatendo.
     Segundo ele, além do sistema capitalista que explora a mão de obra e consome os recursos do planeta, existe uma cultura hegemônica, baseada num tipo de filosofia, que rege a vida humana na sociedade. Essa cultura não é apenas, como eu pensava, um conjunto de valores ligado às elites e aos seus interesses, mas é principalmente uma forma de pensar, que Gramsci relaciona à filosofia Escolástica, em oposição ao materialismo dialético.
     Gramsci diz que a cultura popular, é formada principalmente pela escola, e que ela é fundamentalmente escolástica, ou seja, trabalha com categorias fixas e idealizadas, distanciadas da vida real.
      Para se opor a esse tipo de concepção de mundo, Gramsci observa o mundo do particular para o geral, vê o mundo com os olhos atentos do cientista e a partir daí constrói um pensamento, percebendo as leis que regem a vida, elaborando intervenções para levar o ser humano a um objetivo, que para ele é a autodeterminação construída a partir da sua consciência, o que ele chama de aprendizado desinteressado.
     Para Gramsci o objetivo da educação é a liberdade, no sentido de nos libertar das amarras filosóficas que aprisionam nossas mentes, assim como dos interesses que nos manipulam e da exploração que nos submete.
     Observando os textos que produzi ao longo da vida, fui encontrar um tipo semelhante de postura, que embora fosse inconsciente, me afastava sempre dos pensadores da época, me tornando diferente.  
     Meu primeiro texto foi Arquitetura e Cultura Popular, ainda na faculdade, em que eu propunha uma estética arquitetônica a partir da cultura popular. O texto foi recebido com desprezo e escárnio, embora minha proposta  esteja hoje em moda e se chame arquitetura vernacular.
     Depois, no livro Repensando a Arquitetura, fiz uma análise também a partir da observação local e particular para tentar uma construção teórica. Na época do lançamento recebi um comentário que dizia ser meu livro uma enxurrada de críticas e fui brindado com o silêncio gelado das publicações de arquitetura, assim como dos intelectuais que lidavam com o tema no Brasil.
     No entanto, hoje, mais de 20 anos depois do seu lançamento, Repensando a Arquitetura, teve muitas de suas críticas confirmadas e percebo que aqueles que não o aceitaram de imediato, reagiam justamente à maneira detalhista com que eu analisava a realidade, à partir de observações in loco, do particular para o geral, e não de teorias generalistas. Reagiam também à linguagem coloquial, muito diferente da utilizada na época, muito técnica e distanciada do leitor.
     Olhando, assim, para trás, vejo que eu já perseguia, inconscientemente, o caminho preconizado por Gramsci.  O que me faltou foi clareza do que eu buscava.
     Levei 10 anos para me formar, talvez por regir ao tipo de coisas que ensinavam (e ainda ensinam) nas faculdades. Tive que tampar o nariz para concluir a faculdade, que nunca tinha respostas para as minhas perguntas. Lá dentro, me identifiquei com a turma mais combativa (as faculdades de arquitetura são muito elitistas) e participei da reconstrução do Movimento Estudantil, numa época heróica de enfrentamento à ditadura, inclusive participando da primeira greve estudantil após 1968 no Rio Grande do Sul, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em 1977.
     Depois de formado ingressei na militancia política, mas lá também não me identificava com nenhum pensador, para escudar minha prática. Em Ilhéus prticipei ativamente de um núcleo do PT, (o Núcleo Nelson Mandela) ,onde desenvolvemos um trabalho de base muito bonito, construído a partir da realidade que íamos observando, dialeticamente, passando ao largo dos interesses do Partido e das práticas manipuladoras das suas tendências, o que nos valeu a perseguição e o conseqüente desencanto com a política partidária.
     A nível filosófico, eu vacilava entre a observação crítica,para construir uma prática que dialogasse com a realidade,e algumas concepções filosóficas escolásticas oriundas da minha formação familiar, dentre elas a formação metodista e sua exacerbação da honestidade, que me rendia um conflito permanente com o mundo católico brasileiro, que perdoa todas as iniqüidades após uma simples confissão a um padre.
     Essas experiências (e incongruências) foram expressas no livro Contracorrenteza, onde expus vivências pessoais, me colocando no centro da crítica e expondo as entranhas do processo vivido, a perplexidade final e a falta de rumos.
     Hoje vejo, que à luz da teoria de Gramsci, tudo que fiz, inclusive os livros, se insere nesta prática de busca da liberdade, só que de forma inconsciente. Eu estava no caminho certo, mas não tinha segurança nenhuma, faltava uma luz, e tinha todos contra mim, à direita e à esquerda, a família, os colegas de profissão e os poucos amigos que compartilhavam meu caminho também eram incapazes de formular politicamente aquela prática intuitiva.
     Minhas andanças e trabalhos pelo Brasil e também por outros países, faziam parte de uma lógica que podia ser resumida assim: já que não há um caminho a seguir, vamos aprender com a vida, trabalhando do jeito que for possível, aprendendo com a adversidade.
     Esse impulso foi cessando a partir de 1997, após a viagem a Cuba, que acentuou tremendamente meu desencanto com as idéias ortodoxas, mas não arrefeceu completamente meu ímpeto de lutar politicamente, embora eu não soubesse como fazê-lo, quando todos os caminhos pareciam fechados, numa década de triunfo global do capitalismo.
     No ano 2000 lancei dois textos; o ensaio sobre marxismo intitulado Uma Nova Agenda para a Esquerda e o livreto de poesias Uma Lágrima para Ilhéus. No primeiro fiz um esforço para refletir sobre as inconsistências dos partidos de esquerda no Brasil (mais uma vez) e no segundo, um relato poético do período vivido em Ilhéus, dividido em três tempos: Tempo de Luta, Tempo de Solidão e Tempo de Adeus, que se referem justamente ao tempo de luta política no PT, entre 1987 e 1990, ao isolamento, quando retornei a Ilhéus em 1994 sem nenhuma perspectiva de trabalho político (e tempo também do mestrado) e a preparação para sair, não só de Ilhéus, mas para encerrar todo aquele período e tentar inaugurar um nova era na minha vida.
     Todos eles partem de observações críticas da realidade, mas no ensaio político, formulo a hipótese de que o marxismo como teoria generalista é um erro e que o método deveria ser aplicado sempre do particular para o geral, como ferramenta de construção da consciência política.
     Depois, com o entendimento de Gramsci, passei a ver que não se tratava apenas de construir consciências ou práticas políticas, mas uma cultura ampla e crítica. Uma cultura que não se contente com saberes segmentados, propícios ao mercado de trabalho, mas que busque a compreensão do universo e de todos os seus mecanismos. Uma cultura abrangente, lúcida, na qual o participante se sinta dono da capacidade de conhecer e entender o mundo, liberto das verdades fixas das igrejas, da escola, dos partidos, do capital e da mídia a seu serviço. A cultura da observação crítica da realidade objetiva dentro de uma prática diária de libertação.
     A partir de 2003 comecei a escrever uma coluna no jornal Tribuna do Sertão, de Brumado, onde expunha meus pontos de vista, às vezes sobre questões políticas, às vezes sobre fatos do cotidiano, sempre de um ponto de vista crítico. Acho que através da coluna consegui continuar formando opiniões e cultivando uma forma de livre-pensar, numa população marcada pela opinião conservadora das oligarquias rurais.
     Depois, à partir de 30 de dezembro de 2007, comecei a escrever este blog e lancei minha primeira ficção, Estação Paraíso, também em dezembro de 2007, na qual procurei questionar a concepção da pré-história americana, à serviço dos interesses norte-americanos. Finalmente, em 2011, publiquei Escola, Espaço e Discurso, à partir de um curso de especialização em linguística e do meu trabalho junto ao Ministério da Educação, especialmente no Pradime, Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educação.
     Quando compreendi que minha postura estava correta, senti que me faltava dar organicidade a ela, ou seja, integrá-la a um objetivo claro. Esse objetivo não precisava se realizar dentro de um partido político (e isso seria impossível hoje no Brasil), mas poderia ser um objetivo humanitário, ecológico, ou profissional.
     Essa consciência me recolocou no centro dos acontecimentos. Senti que podia participar ativamente, mesmo em meios com os quais não concordasse, sem ter que me intimidar por não encontrar apoio em um pensamento consagrado. Podia atuar individualmente junto a qualquer grupo onde estivesse participando, sem ter que aderir ou repudiar suas práticas. A participação consciente e crítica permite sempre um significado político libertador.
     As universidades brasileiras são conservadoras, mas não são donas do conhecimento científico (e nem tem uma produção significativa). Aprendi que podia entrar lá, me servir do conhecimento e das ferramentas que precisava, sair e desenvolver minha própria prática.
     Meus questionamentos forjaram em mim essa atitude de quem, apesar de perdido e isolado, nunca fez o caminho de volta, não por falta de oportunidade, mas simplesmente porque não podia.
     Esse é um caminho interior, uma coisa à qual não se pode fugir. É como escrever: uma necessidade
     Mas o melhor de tudo foi descobrir que não estou sozinho, que como eu, milhares de outros, também foram abrindo seus caminhos, embora se sentissem isolados e impedidos de se manifestar, e só com a internet e as redes sociais isso foi ficando nítido.
     Sobre essa dificuldade em abrir caminhos eu poderia citar Che Guevara, com seu clássico caminante no hay camino, se hace camino al andar, mas achei algo semelhante e mais interessante em José de Alencar, nos seus comentários posteriores à primeira edição de Iracema, de 1865. Dizia ele:

     Ao guia, chamavam os indígenas, senhor do caminho, "piguara". A beleza da expressão selvagem em sua tradução literal e etimológica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo próprio, "couab", porque essa frase não exprimiria a energia do seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é coisa de saber; faz-se na ocasião da marcha através da floresta ou do campo, e em certa direção; aquele que o tem e o dá é realmente o senhor do caminho.

     Assim, embora não conhecesse o caminho, eu estava na direção certa, e com muitos avanços e recuos, erros e acertos, às vezes com clareza, às vezes na mais completa escuridão, eu soube continuar avançando. Nunca fui um verdadeiro senhor do caminho, por não ter claro um objetivo, mas entender que havia um sentido nos meus esforços já é uma recompensa imensa.
     Chego agora, finalmente, a uma formulação de como agir, com a fundação de uma editora própria, que atuará no espaço virtual e será a continuação de tudo isso, livros, artigos, blog, e que pretende oferecer espaço a todos que, como eu, se sintam excluídos da possibilidade de se expressar, por não aceitarem as verdades estabelecidas pelo capital e pela cultura dominante.
     Sinto que estou novamente em campo para contribuir na construção de um futuro melhor e convido desde já a todos os livres pensadores a se incorporarem a essa empreitada.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza



domingo, 19 de fevereiro de 2012

Rapidinhas
O ceará de Alencar


 
     Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
     Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as
     alvas praias ensombradas de coqueiros;
     Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso
     resvale à flor das águas.
     Onde vai a afoita jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande
     vela?

     Iracema, José de Alencar.
     (primeiro parágrafo do primeiro capítulo)

    Passando o carnaval em Fortaleza, aproveitei para ler Iracema, o pequeno e mais famoso romance de José de Alencar, que é muito cultuado por aqui. O que impressiona no texto é a sua prosa-poética, muito bonita. Romântico, Alencar idealizava os indígenas e o próprio colonizador português, tornando-os pessoas nobres e gentis. Mas o mais interessante são as descrições da terra, e as explicações para os nomes indígenas das cidades e acidentes geográficos, que sobrevivem até hoje. O livro é de 1865.
     Fui obrigado a ler José de Alencar e Machado de Assis na escola e detestei. Só depois dos 30 anos me senti capaz de apreciar sua literatura. Os professores do ensino fundamental e médio não deviam dar esses livros para seus alunos lerem, pois exigem uma maturidade que os jovens não tem.

Triste Honduras

     A falsa democracia hondurenha, fruto de um golpe de estado apoiado pelos Estados Unidos, acaba de propiciar ao mundo mais um espetáculo horrendo de desrespeito aos direitos humanos, com o incêndio na prisão de Comayagua, onde morreram queimados vivos mais de 350 presos, impedidos pelos guardas de deixarem suas celas para salvarem suas vidas.
     Se fosse em Cuba ou na Venezuela o escândalo seria grande na imprensa direitista, mas na ditadura hondurenha, criada e financiada pelos americanos, ninguém condena. Tratam o assunto como se fosse um simples acidente.

As Malvinas e o velho colonialismo

     Os argumentos britânicos para manter a ocupação ilegal das ilhas Malvinas, Orcadas do Sul, Geórgia do Sul e Sandwich do sul (todas pertencentes ao arquipélago das Malvinas), não passam de uma extensão do velho colonialismo europeu. Dizer que a população das ilhas quer continuar a ser inglesa é fingir desconhecer que a população original argentina foi toda deportada, quando da invasão no século XIX e teve suas propriedades roubadas pelos ingleses.
     Para ser justo, o certo era fazer o mesmo com a população atual. Simplesmente mandá-la de volta para a Inglaterra, de onde vieram seus avós, para substituir os argentinos. Mas como estamos em outros tempos, ninguém defende que se repita com os atuais habitantes, a violência feita contra os argentinos.
     A própria presidente Cristina Kirchner já falou que eles podem continuar a ser ingleses, numa administração argentina, e que suas propriedades e cultura seriam respeitadas, dando ao arquipélago um estatuto especial, com mais autonomia em relação às demais províncias do país. A posição unânime dos países da América Latina isolando as ilhas, foi um golpe na política ridícula de manter uma colônia a 13.000 Km da metrópole, cujo objetivo é claramente o de manter uma posição estratégica militar no atlântico sul e também o de roubar o petróleo argentino.
     O Brasil deveria também reivindicar a soberania sobre a ilha de Ascenção, roubada dos portugueses pelos ingleses em 1815, situada em frente ao nosso território, assim como a África do Sul sobre as ilhas de Santa Helena, Tristão da Cunha e Gonçalo Alvares (Gough Island), que pertenciam à província do Cabo antes da independência sul-africana, acabando logo com os últimos vestígios do velho império colonial. O atlântico sul deve ser controlado pelos países que o margeiam e não por antigas potências coloniais européias.
     À propósito, a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) deveria encaminhar ao comitê de descolonização da ONU a situação da Guiana Francesa, uma colônia encravada no continente sul-americano. Sem dúvida uma aberração geopolítica em pleno século XXI.



A arte da guerra


     O livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu (pronuncia-se Sunzi), foi escrito provavelmente entre os anos 481 e 221 A.C. Tem, portanto, mais de 2.000 anos, mas continua muito atual, pois não trata apenas de estratégias militares e sim de como lidar com pessoas em situações de conflito.
     Talvez por isto tem servido de manual para empresários e políticos de todo o mundo, que o usam para conseguir suas vitórias nos ambientes competitivos em que vivem, especialmente no universo corporativo.
     O texto não é muito longo e não insiste muito em temas estritamente militares, mas é um verdadeiro manual de liderança, de como enfrentar situações adversas e, claro, de como vencer nessas circunstâncias.
     Apesar de curto, não é um livro que se deva ler rapidamente, pois exige reflexão, para poder ser absorvido. É como ler um livro de poesia. Lê-se uma e espera-se que as palavras tenham efeito sobre nós.
     Para quem tem o hábito da reflexão e da postura zen, é ler e esperar que o cérebro faça as ligações necessárias à partir das palavras de Sunzi, que vai abrindo caminhos novos para nosso pensamento através de seus ensinamentos simples e profundos.
     Ao ler pode-se achar que tudo é muito óbvio, mas ao final percebe-se que as questões de estratégia ficaram mais claras e mais fáceis, como se a gente fosse se tornando íntimo do assunto.
     A edição a que tive acesso, da Editora Jardim dos Livros, (São Paulo, 2011), tem uma tradução de André da Silva Bueno, direto do chinês, que nos brinda também com a história do livro, situando-o no contexto em que foi escrito.
     A obra original, que Bueno diz preservar na sua integridade, tem 13 capítulos: I- Avaliações,
II- O Combate, III- Estratégia de Ataque, IV- Preparação, V- Propensão, VI - O Cheio e o Vazio, VII - Manobras, VIII - As Nove Mudanças, IX - Sobre a Movimentação, X- O Terreno, XI - Os Nove territórios, XII - Ataque com fogo e XIII- O Uso de Espiões.
     Separei alguns trechos aqui, para que o leitor tenha uma idéia do tipo de ensinamentos que esse texto, tão antigo, nos traz:

     A Lei da Guerra se baseia no engano. Finja ser incapaz quando puder atacar e ser capaz quando não puder. Se está longe, pareça estar perto, se perto, pareça estar longe.
     Use iscas para atrair o inimigo.
     Ataque o inimigo quando ele está em desordem; evite-o quando ele está forte; irrite-o fazendo confusão, estimule sua arrogância simulando fraqueza.

     O que destrói o inimigo é a raiva.

     Os que são hábeis na Lei da Guerra fazem o inimigo se mover segundo sua vontade, criando situações desvantajosas para ele. Atraem-no com ilusões de vitória e o emboscam numa armadilha fatal.

     A perfeição de um exército occorre quando ele simplesmente parece não existir, e sua forma é incompreensível. Os espiões não o entenderão e os estrategistas não poderão fazer planos contra ele.

     Não suponha que o inimigo não virá, esteja pronto para recebê-lo. Torne-se invencível.

     Emissários inimigos com palavras doces e humildes estão se preparando para o ataque; emissários inimigos ríspidos e agressivos estão se preparando para fugir; emissários com justificativas razoáveis pretendem negociar.

     Um bom general avança sem desejar a glória, e se retira sem temer os castigos. Seu desejo é, apenas, o de proteger o povo e cuidar do soberano. Um general assim é um bem precioso para o Estado.

     A diferença desse texto para "O Príncipe", é que ele propõe uma estratégia que beneficie o Estado e o povo e não apenas o governante, como na obra de Maquiavel.
     Um livro para ler e refletir.



     

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Rapidinhas
Você conhece esse olhar?

     

É impressionante, mas a foto à esquerda é de Ayrton Senna e a da direita a de Bruno Senna.
         Dentro do capacete parecem a mesma pessoa. O olhar é o mesmo.
         Parece que o tio baixou no sobrinho, para reviver suas glórias no automobilismo.
         Isso me recorda uma entrevista de Ayrton que assisti, em que ele afirmava que depois de algumas voltas nos circuitos que disputava, se sentia entrando numa espécie de túnel, onde o tempo passava mais devagar e ele não via nem os adversários, nem a platéia, como se estivesse em outra dimensão.
         Parece que seu fantasma voltou para assombrar os pilotos do mundo inteiro, principalmente alguns alemães, que só conseguiram se sobressair depois da sua morte nunca explicada.
Adeus Whitney


     Mais uma voz fantástica nos deixa, depois de confusões com drogas e remédios.
     A vida dos astros da música parece ser cheia desses altos e baixos. Para quem olha de fora é só glamour e fama, mas a realidade do trabalho deles é o stress e a dificuldade em harmonizar  a vida particular com a profissional.
     Vai fazer muita falta Whitney Houston, essa verdadeira diva da música americana.


A Grécia em pé de guerra


     A governança européia ultrapassou todos os limites do bom senso, exigindo do governo grego mais 150.000 demissões, num país que já conta com 21% de desemprego, além da diminuição do salário mínimo, diminuição de aposentadorias e cortes de pensões, entre outros absurdos. Estão jogando o povo grego na miséria para salvar alguns bancos.
     A situação beira o descontrole e as perspectivas são de rebelião civil contra a "troika" integrada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), além dos partidos políticos tradicionais. A insensibilidade  dos políticos conservadores europeus, Angela Merkel à frente, só coloca mais lenha na fogueira das manifestações anti-capitalistas que se espalham pelo mundo.
     Pelo jeito os maias tinham razão: o mundo que conhecemos está prestes a acabar.


     Em apenas 5 meses pulamos de 10 para 15.000 acessos. Isso é uma recompensa enorme aos esforços para manter atualizado esse espaço de reflexão e notícia. Obrigado amigos.
V chega ao Brasil

     Pois é, queridos amigos, custou mas o movimento anti-capitalista global (cujo maior símbolo é a máscara do personagem do filme V de Vingança)  chegou ao Brasil e da forma mais inusitada, através das greves de policiais.
     A incapacidade dos governos da coalizão governista em dialogar com o movimento grevista, aliada ao territorismo midiático da TV Globo, em sua eterna campanha contra as greves, produziram algumas jóias do pensamento fascista, entre elas a acusação ao bombeiro carioca, de estar incitando a greve, como se fosse um crime um dirigente sindical fazer isso. Outra foi a acusação à deputada do Psol de estar orientando o mesmo dirigente sobre como agir para reforçar o movimento grevista, como se fosse um crime um partido de esquerda apoiar uma greve (e foi triste ver a deputada na defensiva ao invés de reafirmar seu direito de apoiar os grevistas).
     É a criminalização dos movimentos sociais voltando com toda força, em defesa dos interesses dos donos do capital.
     A violência com que os governos tem reprimido manifestações pacíficas pelo Brasil mostra que PT e PSDB realmente trilham o mesmo caminho, e que as disputas entre esses dois partidos se tornaram apenas cosméticas. Ambos defendem o controle do capital sobre nossa sociedade em detrimento dos direitos dos cidadãos, expressos na nossa Constituição. 
     A absurda desocupação do Pinheirinho, a polícia no campus da USP, a repressão violenta aos estudantes capixabas que protestavam contra o aumento de passagens em Vitória e outros episódios tristes, mostram qual o resultado da política de alianças do PT com a direita, a fim de se consolidar no poder. O PSDB, que se proclama social-democrata, já trilhou este caminho há muito tempo, fechando com a velha direita para conseguir governabilidade.
     O projeto deles (e quem são eles?) é criar um sistema bi-partidário, ao estilo norte-americano, em que ambos os partidos defendem o capitalismo, com algumas diferenças. As nuances estão na ênfase do PT ao controle do capital nacional, priorizando o mercado interno, enquanto o PSDB quer entregar tudo ao capital internacional, dentro da velha proposta neoliberal. Além disso, aqui, como em muitas partes do mundo, agora tentam censurar a internet, um espaço que se tornou realmente democrático e passou a ter um papel importante na manifestação e mobilização dos povos de todo o planeta.
     Agora Lula manda às favas a história do PT em São Paulo e se junta à direita mais abjeta para expulsar o PSDB do poder. Ótimo, mas qual será a verdadeira mudança? O que o povo ganhará com isso?
     O que vai ficando cada dia mais evidente é o controle da nossa sociedade por um grupo  reduzido de pessoas, em detrimento do nosso povo. A renda aumentou? O consumo vem melhorando? Muito bem, mas e nossa democracia, conquistada com tanto sangue e suor? Ela vai sendo vendida na bacia das almas em troca de bugingangas, carros, eletrodomésticos e outros bens supérfluos, enquanto nosso bem maior, que é a liberdade está sendo ameaçado por projetos de poder, que não tem mais ideologia, mas representam apenas grupos de interesses que lutam por benefícios.
     São muitos os sinais de que a estrutura do poder está apodrecendo. Juízes que se recusam a ser investigados e abrir suas contas, um sem fim de ministros corruptos, que acham que podem roubar à vontade e o máximo que lhes acontece é perder os cargos, sem ter que devolver nada nem ir para a cadeia.
     A própria greve dos policiais revelou um aspecto tenebroso da nossa sociedade: sem polícia nas ruas nos sentimos órfãos. E porque? Porque nossa sociedade está cada dia mais violenta.
     É um vale-tudo para conseguir dinheiro e bens, para ficar rico e usufruir de bens materiais e ao diabo com os princípios morais.
     Mas o Brasil agora é a sexta economia do planeta! Muito bem. Parece que voltamos ao tempo do ditador Garrastazu Médici, do milagre brasileiro e do Brasil Grande, só que em vez de ditadura temos um arremedo de democracia cada vez mais podre.
     Pude ter um bom exemplo do que está acontecendo esta semana, quando em visita a minha pequena Rio de Contas recebi várias queixas de militantes do PT de que um dirigente do partido está oferecendo a legenda aos coronéis da região, em troca de futuros cargos no governo. Eles se declaram chocados com a situação. Mas não tinham visto ainda o que estava acontecendo? Só quando a desgraça bateu à sua porta se deram conta do nível de descomprometimento desse partido com seus proclamados ideais?
     Quando saí do PT em 1990 e publiquei o livro Contracorrenteza em 1993, eu já denunciava os desvios no Partido e prenunciava o que haveria de vir. Hoje dizem que fui profético, mas eu digo que eles é que foram crédulos e se recusaram a ver o que estava diante dos seus olhos.
     O PT fez muitas coisas boas no Brasil, mas seu manancial de propostas se esgotou. Virou um partido desenvolvimentista, que tem medo do povo e não tem propostas para os principais desafios que estão à nossa frente, como a questão do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável e de uma democracia realmente participativa, onde o povo não apenas eleja quem vai administrar a máquina do governo, mas controle a própria economia da nação, obrigando governo e empresas a se submeterem ao interesse de cada um e de todos.
     A última grande diferença entre PT e PSDB foi ao chão com a privatização dos aeroportos. Agora ficaram quase iguais, só que um é azul e o outro é vermelho.
     Pois é, amigos leitores, o sonho acabou e está na hora de arregaçar as mangas e lutar outra vez, acreditando que um outro mundo é possível.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rapidinhas

Igreja dos reis magos



     Em visita a Vitória do Espírito Santo, fui passear pelas praias ao norte da capital, no município de Serra e encontrei essa preciosidade: a igreja dos Reis Magos, na localidade de Nova Almeida, sobre uma elevação, pertinho do mar.
     A edificação é de 1615 e foi construída pelos jesuítas para catequização dos índios, que ainda vivem nas redondezas. Desde 1943 é tombada opelo Iphan e já passou por várias restaurações.     
     Além da igreja, há ao lado o convento dos jesuítas. Na verdade o edifício segue as normas dos colégios jesuítas da época, com a igreja e a área onde viviam os alunos reclusos e os padres jesuítas, separadas pela torre dos sinos.
     A área do convento/escola tem um pátio interno e através dela também se alcança a igreja. Quem entra por esse pátio sai na frente do altar e tem aquele impacto. É uma peça linda, toda esculpida em madeira (foto ao lado). Uma coisa incrível.
     No centro do altar uma pintura à oléo sobre madeira representa os três reis magos.
          O visual do local é de tirar o fôlego, com vista para as praias lá embaixo e para o povoado de Nova Almeida, com suas duas pontes.
     Uma beleza. Não deixe de visitar
      
Mude de canal

     Sinceramente, não entendo esse tipo de campanha que se faz pela intenet visando tirar do ar o BBB12, acusando-o de ser antiético, um insulto à cultura, etc.
     Ninguém é obrigado a assistir a nenhum programa e os telespectadores podem mudar de canal quando quiserem. Se estão reclamando é porque querem continuar a assistir a TV Globo, cuja programação, em geral, prima pelo baixo nível cultural e pela manipulação da informação.
     Não vejo ninguém fazer campanha para tirar do ar o Programa do Ratinho, que é pura baixaria, ou o do Gugu, que não passa de um monte de idiotices sentimentalóides, ou mesmo o Domingão do Faustão, que é outra porcaria, sem falar no horror que é o Silvio Santos.
     Na verdade parece que as pessoas estão hipnotizadas pela programação e não gostam de alterações.
     Pra quem quer ver programas com nível cultural mais alto, sugiro a TV Brasil ou a TV Escola (pra quem tem parabólica), que tem coisas excelentes. Tirar o BBB12 do ar não vai mudar nada. O que resolve é mudar de canal.

Dilma e os direitos humanos

     A postura da presidente Dilma Roussef sobre direitos humanos em Cuba tem três lados. O primeiro é o mais visível, quando ela diz que o tema não deve ser usado como arma política e idológica.
     Os americanos que tanto criticam Cuba, tem uma prisão dentro da ilha, que está completamente fora das leis internacionais, onde mantém há mais de uma década prisioneiros sem acusação formal, submetidos a torturas e maus tratos, muitos deles sequestrados em seus próprios países por forças da CIA. Também não admitem que houve um golpe em Honduras e apóiam o governo eleito em condições completamente antidemocráticas. Honduras é hoje o país onde mais se desrespeitam os direitos humanos e onde ocorreu em 2011 o maior número de assassinatos de jornalistas de oposição.
     Aliás, o histórico de apoio americano a ditaduras, inclusive à brasileira, é imenso.
     O outro lado é a prática diplomática do Itamarati de fazer as coisas na surdina. Eles sabem que a democratização em Cuba será um processo difícil, que passa por uma negociação interna muito densa e apostam que a liberação virá aos poucos. Uma espécie de abertura lenta e gradual, como ocorreu no Brasil, e sabem que nós podemos ser fiadores dessa negociação, desde que não nos coloquemos em atitude crítica ao regime.
     Então procuram se manter numa posição de neutralidade pró-ativa, apoiando o processo e apostando que a longo prazo a ilha aceitará a cláusula democrática da Unasul, para ser aceita como membro pleno, o que reforçaria muito a posição geopolítica da América latina, visto que a Ilha tem um peso militar e político considerável.
     O último viés é econômico. A abertura em Cuba, em direção a uma economia mista de estilo chinês, poderia alavancar o desenvolvimento da ilha tornando-a, no futuro, uma base de exportação de produtos e serviços brasileiros para os Estados Unidos e Europa devido à sua posição geográfica, por empresas nossas com investimentos lá.
     Mas a postura do governo cubano negando a saída da blogueira Yaoani Sanchez não ajuda nada. Perderam a oportunidade de se livrar de uma voz incômoda, já que no Brasil ela teria que renunciar ao seu blog, por não poder exercer atividades políticas. A lógica da burocracia cubana é burra como a de todos os regimes autoritários.
O Primo Basílio

     Tenho procurado suprir as falhas na minha formação literária, lendo, às vezes, clássicos da literatura que me passaram despercebidos pela vida. É o caso do romance O Primo Basílio, do escritor português Eça de Queirós ( na foto abaixo, à direita), que só agora tive oportunidade de ler, embora já tivesse assistido à alguns capítulos da minissérie na TV.
     Numa bela edição da Ateliê Editorial (São Paulo, 2004), comecei a ler desinteressadamente, mas fui logo arrebatado pela história. Um enrêdo simples, ao qual o próprio autor colocou o subtítulo de Episódio Doméstico, onde uma esposa devotada é tentada a trair o marido com um primo que retorna rico do Brasil e é vigiada e chantageada por uma empregada.
     Mas a história ganha importância na medida em que o autor descreve a sociedade portuguesa da época (1878), especialidade dele, que eu já havia conhecido na fantástica minissérie da TV Globo, Os Maias. Sem dúvida a melhor minissérie feita até hoje pela emissora e a melhor atuação que eu conheço do ator Fábio Assunção.
     Portugal do final do século XIX, com sua decadente monarquia, que atrasava o país diante de uma Europa às voltas com revoluções políticas, como a Comuna de Paris, e econômicas, principalmente a  revolução industrial.
     A sutil comparação entre a miséria do povo e as afetações de uma burguesia tributária de empregos públicos, praticante de uma oratória vazia e pretensiosa, exemplificada magistralmente na figura do Conselheiro Acácio, sempre cheio de frases de efeito, atribuindo-se valores morais que não tinha, numa sociedade hipócrita, onde a vida secreta dos fidalgos e da nascente burguesia era povoada de amantes, traições e problemas intestinais, vai revelando o lado tragicômico do atraso português.
     Nas descrições sutis dos sentimentos dos personagens e dos ambientes da Lisboa da época, o autor nos faz viajar por uma situação política bem demarcada no tempo e no espaço, enquanto, ao mesmo tempo, nos revela com maestria traços universais da natureza humana.
     As afetações do primo, que havia enriquecido especulando no Brasil e passa a olhar Portugal com o olhar típíco das elites subalternas, que admiram as metrópoles e passam a desprezar o seu próprio país, assim como seu machismo egoísta e devasso, indiferente ao sofrimento que causava em consequência das suas conquistas amorosas, que só visavam seu próprio prazer e o estímulo de sua vaidade, são de comportamentos exemplos que existem até hoje entre nós.
     A situação de dependência e submissão das mulheres, expostas à violência dos homens, assim como as rebeldias exaltadas daqueles que não conseguiam as benesses do Estado, mas que se extinguiam rapidamente assim que uma posição era conquistada, também ainda se vem muito por aqui.
     A capacidade do autor em nos prender é impressionante, sem fazer nenhuma concessão à qualidade do texto. No meio do romance, encontrei a parte que Arnaldo Antunes lê na música Amor I Love You, cantada por Marisa Monte:
     E Luisa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria dum luxo radioso de sensações!
     Uma beleza de livro. Uma jóia da língua portuguesa.