Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 29 de abril de 2012

Rapidinhas


Ramiracle

     O pequeno Ramires, foi fundamental nas duas vitórias do Chelsea, sobre o Barcelona. No primeiro jogo, em Londres, Ramires deu um passe sensacional para Drogba, o astro africano fazer o gol decisivo. Na segunda partida ele mesmo foi autor do gol decisivo.
     A imprensa inglesa falou em Ramiracle (Ramilagre), mas as TVs brasileiras não deram muita importância ao fato.
     Se o passe para Drogba fosse de Messi, todos diriam que foi sensacional. Se o gol fosse de Cristiano Ronaldo, a mesma coisa, mas como Ramires não é bonitão nem milionário, as TVs não falam sobre ele.
     Isso é que está virando o futebol mundial, um jogo de estrelas de salto alto.
     É o futebol fashion.
     Só esquecem que futebol é bola na rede e quem ganha jogo não é beleza, nem riqueza.

Viva a República espanhola
Esse rei infeliz matou esse bicho lindo só pra se "divertir"
     Depois da crise econômica e das políticas recessivas que jogaram 50% dos jovens pra fora dos seus empregos, a Espanha acumula um recorde de notícias negativas.
     Seu rei foi flagrado numa caçada clandestina a elefantes na África (só foi descoberto porque caiu e quebrou a bacia). A Argentina reestatizou sua petrolífera, a YPF, depois de descobrir que os espanhóis, ao invés de investirem, estavam mandando o capital de giro da empresa para cobrir seus rombos na Europa. Agora Real Madrid e Barcelona foram desclassificados da Copa dos Campeões da Europa (já repararam como sempre que um país vai mal politicamente seu futebol fracassa, e vice-versa?)
     Não sei se é trágico ou ridículo ter um rei em pleno século XXI e vê-lo cometendo um crime ecológico, às escondidas, enquanto seu povo passa fome. Um rei que assumiu sobre os cadáveres da guerra civil espanhola, num acordo entre remanescentes fascistas da era de Franco e as forças democráticas, que tiveram que aceitar a monarquia, forçados pelos Estados Unidos, que temiam a ascenção de um governo de esquerda na Espanha, após a morte de Franco, em 1975.
     Muitos fascistas da era franquista que enriqueceram às custas da ditadura, sobreviveram e estão aí, dentre eles o sinistro dono do Banco Santander, ligado a ala mais direitista da Igreja Católica, a Opus Dei (segundo reportagem da TV Record).
     São esses que estão no comando por lá novamente, jogando o povo na miséria enquanto se divertem com seus luxos no exterior e exploram outros países, com seu velho sonho de recolonizar a América Latina.
     Porque temos que fingir que não sabemos dessas coisas, quando esses fascistas ocultos tratam os brasileiros como cachorros, no aeroporto de Madrid, inclusive devolvendo (deportando) velhinhas como se fossem prováveis prostitutas, depois de deixá-las por dias passando fome e sede?
     Enquanto o povo espanhol não acorda para a derrubada dessa monarquia corrupta, devíamos aproveitar a iniciativa argentina e reestatizar a Coelba, dada de presente para esses ladrões da Iberdrola, outra empresa espanhola. Pegaram tudo pronto e só fazem aumentar a conta de luz, sem oferecer nada de melhoria ao povo da Bahia.
     Fora com esses espanhóis fascistas!

Lura


     Deixo aqui para vocês mais uma linda voz caboverdiana, cantando com Cesária Evora. É Lura.
     A música  chama-se Moda Bô e tem sua letra em crioulo, um dialeto do português. Observem a delícia do ritmo e da viola, além das duas vozes maravilhosas.
     A música é de autoria de Lura e Edevaldo Figueiredo e foi feita em homenagem à Cesária Évora.
     Eu não entendo bem o dialeto, mas dá pra perceber que é feito de contraturas de palavras em português, por exemplo nha, no lugar de minha, nôs, no lugar de nossa, etc., com outras palavras próprias. Mas não quero me arriscar a explicar mais do que não entendo.
     Deixo aqui a letra em espanhol (não achei o texto em crioulo) para que vocês possam curtir a música.

En mi infancia,soñe ser como tú,
soñe cantar igual,con una voz divina como tú.
En mi adolescencia,me quedaba enfrente de un espejo,
improvisando con un micrófono para cantar como tú.
Cómo tú quiero cantar,es contigo que quiero aprender,
para cantar cómo tú.
En mi vivencia, he conocido gente, ya conocí el mundo,
y realice el sueño de mi vida, cantarle a Cabo Verde, cantarle a mi tierra.
Es mi vivencia, repartirle a mi gente y al mundo entero la historia de un pueblo la historia de una vida.



     
Enfermaria

  
 A sala estava cheia. Idosos, muita gente com dengue (uma epidemia), pessoas de meia idade com crises de glicemia e outras mazelas do corpo humano. Nada de fraturas ou coisas ensanguentadas, que deviam estar sendo encaminhadas a outras salas.
     Na minha frente um senhor de olhos duros, sentado numa cadeira de rodas, respirava numa máscara de oxigênio, enquanto aguardava sua remoção para a UTI. Uma senhora mais ou menos da sua idade, aparentando muita fragilidade o acompanhava, solícita, de olhos brandos, passiva.
     Outras quatro, mais jovens, provavelmente filhas, se revezavam nos cuidados com o velho.
     Três se pareciam muito com a mãe. Magras, tinham um queixinho pontudo e as bocas precocemente envelhecidas. Só uma era diferente, bunduda, cabelão, pele boa. Nem parecia filha dele, mas o chamava de pai e era a mais carinhosa.
     Nos momentos em que ficava só, o homem me olhava de frente, olhos sinistros, de quem sempre foi autoritário e parecia ter reduzido aquela frágil senhora à quase nada, durante uma vida inteira de dominação.
     Um ex-militar da ditadura? Pensei.
     Duas das três filhas de boca murcha se revezavam nos cuidados, oferecendo um suco, uma água, um sanduíche ao pai, que invariavelmente respondia ríspido que não queria nada.
     A velha senhora procurou um lençol para cobrir suas pernas e livrá-lo do frio do ar-condicionado, esforço que ele repeliu com um gesto irritado, que ela recebeu calada, conformada, acostumada a ser um nada ao lado daquele homem que parecia ter construído sua segurança em cima dela, como sobre um pedestal.
     Mas quando a senhora se ausentou da sala por um minuto, o homem perguntou a filha mais nova, onde ela tinha ido. Não podia ficar sem ela, sem exercer sua dominação.
     Logo a velha senhora voltou e a mais nova (a terceira) das bocas-murchas se instalou numa cadeira à sua frente, deixando sua velha mãe de pé, enquanto comia um sanduíche. Dela o pai aceitou o suco e a comida. Era a filha preferida.
     Tinha os mesmos olhos duros do pai e havia aprendido com ele a desprezar a mãe. Seria sua sucessora na família quando ele se fosse.
     Ao meu lado, uma bonita senhora que tomava soro, como eu, e também observava a cena me disse com muita simplicidade:
     _Ela não tem paciência com a mãe.
     Na outra ponta do quarto, um senhor muito velhinho, mas lúcido, foi instalado numa cama por duas filhas de meia idade e um filho mais jovem (teria uns 45?). Muito carinhosos, eles ajeitavam o pai na cama, conversavam com ele e o faziam rir. Apesar de tudo estavam bem-humorados e agradeciam à vida por ter tido um bom pai que os permitiu viver e ser felizes.
     A senhora do soro, ao meu lado, olhou, sorriu e trocamos olhares cúmplices, num silêncio pleno de significados.
     Na outra ponta uma senhora chegou, muito agitada. Suas filhas jovens não entendiam porque ela não as reconhecia. Tentavam animá-la e choravam disfarçadamente, revelando uma dor genuína, o que espalhou por todos que ali estavam a noção exata da fragilidade da vida.
     Uma jovem chegou, com um pé torcido. Havia caído da escada do colégio. Seu pai, muito carinhoso, não saiu do seu lado um só minuto, segurando sua mão, conversando e também fazendo-a rir, simulando mordidinhas no seu braço.
     A senhora ao meu lado comentou novamente, com a mesma simplicidade desconcertante:
     _Que bonito!
     Meu soro estava terminando, me livrando das dores da dengue, quando o homem de olhos duros foi finalmente levado para a UTI, no meio de um alvoroço de equipamentos, cadeira de rodas, e enfermeiros.
      A enfermaria parou para ver. Em pouco tempo todos ali já se conheciam e compartilhavam seus dramas. A velha senhora ficou por último e pensei ter visto nos olhos dela, assim que o marido foi levado, um lampejo de alívio. Parou e olhou para os lados com uma certa curiosidade inocente, como se finalmente pudesse olhar para o mundo, liberta da ditadura daquele olhar duro e, quem sabe, das dúvidas sobre a paternidade da filha da bundona.
     Quem sabe agora teria um pouco de paz e receberia, como uma terra ressecada, que teimou em se manter viva, um pouco da chuva do tempo que lhe restava.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rapidinhas
     Viva Cristina

     A presidente Cristina Kirchner deu mais uma demonstração de que está disposta a enfrentar a ditadura dos mercados.
     A reestatização da YPF, a Petrobrás deles, corrige um crime histórico cometido pelo ex-presidente Menen, na época da privataria geral que ocorreu no mundo, após a queda do socialismo.
     Privatizações criminosas, sempre beneficiando interesses dos países hegemônicos, entregaram empresas lucrativas em toda a periferia do capitalismo aos tubarões europeus e norte-americanos.
     Depois vieram com essa história ridícula de que é preciso respeitar os contratos, defendidas pelos de sempre, tipo Rede Globo. Porque respeitar contratos fraudulentos que feriram interesses nacionais para beneficiar gente corrupta?
     Que bom que Cristina inaugurou essa prática entre nós (embora Chavez já tivesse revertido várias privatizações). Aqui também seria muito bom se o Brasil recuperasse a Embratel, a Vale do Rio Doce, e outras empresas estratégicas dadas de presente em troca de moedas podres, na época dos tucanos.
     Miriam Leitão ficou braba na Globo, atacando Cristina Kirchner. Eles morrem de medo que a moda pegue...

Gunter Grass e Israel
     O escritor alemão Gunter Grass, foi proibido de entrar em Israel por afirmar que aquele país é uma ameaça à paz no mundo, pela sua capacidade nuclear e sua agressividade em relação aos vizinhos islâmicos, especialmente o Irã.
     Democrático, não?
     Os israelenses consideram que toda crítica às políticas de Estado deles é um caso explícito de anti-semitismo.
     Na edição passada deste blog, analisei o livro de Jorge Querido sobre Cabo Verde, e nele, este autor comenta que um dos poucos países a apoiar a política colonial portuguesa na África até o final foi Israel. Todos se lembram também do apoio de Israel ao regime racista da África do Sul, em plena época do apartheid, e sabe-se que eles chegaram a oferecer aos sul-aficanos várias bombas atômicas para que fossem usadas em sua defesa, contra os "terroristas" que lutavam contra a discriminação racial.
     Israel não respeita nenhuma resolução da ONU, que desde 1967 manda eles se retirarem dos territórios ocupados da Palestina, e continua violando todos os direitos daquele povo, ocupado e massacrado por eles, sempre sob as bençãos protetoras da mão criminosa dos Estados Unidos.
     Não é, portanto, uma política do atual governo israelense, mas uma política de Estado, que vem desde a partilha da palestina em 1948.
     Desde o reconhecimento de Israel pelo Egito e Jordânia, na década de 1970, que as agressões de Israel não se justificam mais como uma "política de defesa" contra a intransigência árabe, passando apenas a ser uma política de ocupação de terras árabes e de genocídio do povo palestino.
     Até quando eles continuarão desempenhando o papel de vítimas baseados no holocausto nazista?
     Afinal eles não foram os únicos a sofrer. Os ciganos, os homossexuais e os comunistas também foram mortos pelos nazistas. O que eles fizeram com os judeus foi horrível, mas usar isso para justificar as políticas expansionistas e genocidas do Estado de Israel, já virou cinismo há muito tempo.
     É preciso ressaltar que Gunter Grass sempre foi um ardoroso defensor de Israel.
    
O golpe da recessão

     O debate final nas eleições francesas só comprova o que tem sido denunciado há muito na América latina, de que as políticas recessivas propostas opelo FMI, que nunca deram certo em lugar nenhum do mundo, só servem para concentrar riquezas, retirando direitos dos trabalhadores arduamente conquistados depois de séculos de lutas, para recompor as taxas de de acumulação do capital, que vem caindo historicamente.
    É, pois, muito mais um golpe político-econômico do que uma política que vise recuperar alguma economia, como vem denunciando o candidato da esquerda, Melenchon.
    Ninguém consegue se recuperar só cortando gastos, é preciso aumentar o consumo e os salários, na contramão do que vem sendo proposto, para que as economias cresçam, como vem fazendo a América Latina e a Ásia há muito tempo.


 Pedro Guerra

     Deixo aqui, hoje, para vocês a belíssima poesia e letra de música de Pedro Guerra, Tempo e Silêncio. Pra quem não conhece (eu não conhecia), Pedro Guerra nasceu nas ilhas Canárias, território espanhol no atlântico, em 1966. Fica também a gravação desta música por ele e Cesária Évora, a cantora dos pés descalços, de Cabo Verde, que faleceu há pouco tempo, aos 70 anos.
(Peguei o vídeo com a letra em espanhol e português, no Youtube e fiz umas modificações na tradução).


Tiempo y silencio 

      Tiempo y silencio        Tempo e silêncio
   Una casa en el cielo        Uma casa no céu
      Un jardín en el mar        Um jardim no mar
          Una alondra en tu pecho        Uma cotovia em teu peito
        Un volver a empezar        Um voltar a começar
         Un deseo de estrellas        Um desejo de estrelas
            Un latir de gorrión        Um gorjear de pardal
             Una isla en tu cama        Uma ilha em tua cama
  Una puesta de sol         Um pôr de sol
      Tiempo y silencio        Tempo e silêncio
       Gritos y cantos         Gritos e cantos
     Cielos y besos         Céus e beijos
       Voz y quebranto         Voz e quebranto
                 Nacer en tu risa        Nascer em teu sorriso
            Crecer en tu llanto        Crescer em teu pranto
          Vivir en tu espalda        Viver nas tuas costas
            Morir en tus brazos        Morrer em teus braços
       Tiempo y silencio       Tempo e silêncio   
     Gritos y cantos       Gritos e cantos
    Cielos y besos       Céus e beijos
     Voz y quebranto       Voz e quebranto
Una casa en el cielo       Uma casa no céu
   Un jardín en el mar       Um jardim no mar
       Una alondra en tu pecho       Uma cotovia em teu peito
     Un volver a empezar       Um voltar a começar
      Un deseo de estrellas       Um desejo de estrelas
         Un latir de gorrión       Um gorjear de pardal
         Una isla en tu cama       Uma ilha em tua cama
Una puesta de sol      Um pôr de sol
   Tiempo y silencio      Tempo e silêncio
    Gritos y cantos      Gritos e cantos
   Cielos y besos      Céus e beijos
    Voz y quebranto      Voz e quebranto
    Gritos y cantos      Gritos e cantos
   Cielos y besos      Céus e beijos
    Voz y quebranto     Voz e quebranto

Falem com eles



     Um dos maiores problemas das famílias que tem alguém com Alzheimer, é o isolamento social a que os doentes vão sendo submetidos, aos poucos, pois na medida em que as pessoas percebem os lapsos de memória e a confusão mental, se afastam por não saber como agir.
     Na verdade a maioria das pessoas não está praparada para enfrentar situações como esta e só sabe se relacionar dentro de padrões "normais" de comportamento social. Quando a pessoa entra em estado degenerativo e começa a perder sua capacidade de controlar uma conversa, ou de lembrar de fatos recentes, os interlocutores não sabem o que fazer e ficam se olhando constrangidos.
     No entanto, quem tem um parente numa situação dessas aprende logo que não se deve demonstrar surpresa com a confusão do paciente e procurar auxiliá-lo, quando no meio de uma frase, por exemplo, ele se esquece do que ia dizer.
     Ajuda muito também, ir lembrando nomes e fatos, com a maior naturalidade possível, de forma a ajudar a pessoa a manter viva sua relação com a realidade.
     É preciso compreender que o doente de Alzheimer, em geral não sabe que sofre da doença, e faz um esforço muito grande para se manter ligado ao mundo, com dificuldade crescente. Ele não entende porque as pessoas se afastam e fica muito mais constrangido do que quem está dialogando com ele, quando percebe sua incapacidade de manter uma conversação, sendo frequente cair em estado de depressão, numa situação dessas.
     Uma boa forma de lidar com isso, também, é levar tudo na brincadeira, procurando completar as frases que ficaram no ar, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo e introduzir o humor na conversação, para alegrar o doente, de forma que ele perceba que sua convivência pode ser agradável e divertida aos outros.
     A alegria sempre ajuda numa situação de doença, causando bem estar e a produção de substâncias que tem efeito positivo no corpo. Portanto, se você tem um parente com Alzheimer, ou conhece alguém assim, não deixe de visitá-lo, nem de conversar com ele. Isso será um ato de amor e de caridade que pode prolongar a vida dele, ou, o que é mais importante, dar a ele um pouco de alegria numa situação tão difícil como é a de sentir que seu cérebro está se apagando.
     Também é comum as próprias famílias ficarem envergonhadas de seus doentes e escondê-los de amigos e parentes, por medo do constrangimento, o que é outro erro.
     Fale para os outros sobre a doença, deixe que eles aprendam a lidar com ela e, principalmente, aceite o inevitável, sem fazer disso um drama maior do que já é.
     Não deixe seu paciente de alzheimer num quartinho isolado, saia com ele, vá pra rua, leve-o para passear e faça com que as outras pessoas tenham que encará-lo e aprendam também lidar com o problema, assim como você teve que aprender. Explique aos outros como se comportar e trate de alegrar o final da vida de quem você ama e teve a infelicidade de sofrer desses mal. Afinal de contas, todos nós estamos sujeitos a ele.

sábado, 14 de abril de 2012

O Povo do Mar
    Existe um povo que vive no meio do oceano, a 500 Km de qualquer coisa, em dez ilhas vulcânicas, em meio a paisagens fantásticas  que misturam praias paradisíacas, com a mais agreste natureza composta de rochas e abismos impressionantes.
    Eles quase não tem água doce, sua terra é árida, na maior parte, mas são calmos, tem uma veia artística surpreendente e além de tudo são nossos primos e conhecem muito o Brasil.
     Falam um português aportuguesado e também uma língua própria, que chamam de crioulo, muito sonora. São gente série e tranquila e conseguem se desenvolver, produzir seu alimento e criar um universo próprio, muito rico e surpreendente. É o povo de Cabo Verde, africanos temperados pelo isolamento no meio do mar e com um toque daquela lusitanidade, que muito mais do que européia é o resultado da amálgama de povos que se contituiu em torno das aventuras portuguesas pelo mundo, constituindo uma personalidade ímpar e da qual, nós brasileiros fazemos parte.
     Sua música é de uma delicadeza surpreendente e tem muitos autores e cantores, dentre os quais se destaca a voz majestosa de Cesária Évora, falecida recentemente, cuja imensa foto nos recebe no aeroporto de Mindelo, batizado com seu nome.
     São dez ilhas, divididas em sotavento e barlavento.
     As de Sotavento são Brava, Fogo, Santiago e Maio. A ilha de Santiago é a maior, onde se encontra a cidade de Praia, capital do país.
     As de barlavento são Boa Vista, Sal, São Nicolau, Santa Luzia, São Vicente e Santo Antão. Em São Vicente se encontra a cidade de Mindelo, a segunda maior do país e considerada a capital cultural do País.
     Em todas as ilhas, com exceção de Santa Luzia, que é desabitada, existem muitos pequenos povoados em situações muito diferentes.  Alguns se encontram ao nível do mar, em planícies, outros no alto das majestosas montanhas que se erguem no meio das nuvens.
     A Ilha do Fogo vista ao longe, desde a parte alta da Ilha de Santiago
Na Ilha do Fogo um vulcão ativo se ergue a quase 3.000 metros de altura. Na de Santo Antão outro vulcão, esse extinto, tem sua cratera a quase 1.800 m. dentro da qual brota a água, líquido precioso para os caboverdianos, e onde se pratica a agricultura.
A cratera de um vulcão extinto na Ilha de Santo Antão, a 1.800 m de altitude.
     Em uma semana de permanência, visitamos apenas as ilhas de Santiago, São Vicente e Santo Antão.
     As cidades são pequenas, comparadas com as nossas, muito simpáticas e bem arrumadas. Viajando pelo interior, nos deparamos com os vilarejos, cheios de vida e charme.

Santiago
     Assomada é a maior cidade do interior de Santiago. Lá encontrei uma praça com a estátua de Amilcar Cabral (à direita), considerado um herói caboverdiano e um grande líder africano e um homem que disse ser filho dele, posou comigo para a foto (à esquerda).
     Era sábado, dia de feira, e as ruas estavam cheias de gente fazendo compras, exatamente como no interior do Brasil. Parecido com a minha Rio de Contas, na Bahia, com a diferença dessa africanidade linda, que se expressa nas roupas, nos modos de falar e nas características físicas de seus habitantes.
     Para quem procura praias, Santiago tem uma linda, que fica no norte da ilha e parece cenário daqueles filmes de piratas. Aliás a ilha foi alvo de muitos ataques de piratas, principalmente ingleses e franceses.
     O famoso Francis Drake, que agia a mando da Inglaterra, apesar de ter sido condecorado com o título de Sir, pela rainha, foi um bandido da pior espécie e atacou a ilha duas vezes. Ele era traficante de escravos e pirata (corsário).
O mar em tarrafal
     Essa praia é Tarrafal, onde o mar é calmo e incrivelmente azul, permitindo um banho tranquilo. Lá se encontram bons restaurantes também para um almoço de frutos do mar e para saborear uma cerveja, a Super Bock, portuguesa (ótima), a Sagres, também portuguesa e a Strela, caboverdiana.
    
     São Vicente

     São Vicente também tem duas praias famosas: a de São Pedro (à esquerda), onde se localiza o aeroporto da ilha e a da Baía das Gatas (direita), onde se realiza um festival internacional de música, todos os anos.
A capital de São Vicente, cidade de Mindelo, tem uma baía linda (à esquerda) e surpreende por ser pequena e aconchegante. No centro, encontramos alguns exemplos de edifícios da época colonial (o país ficou independente em 1975) e da influência européia do séculos anteriores, como o museu de Mindelo (acima à direita) e outros mais contemporâneos onde cores fortes surpreendem o observador.

     Há bons restaurantes e agências de turismo para fazer passeios por toda a ilha.
Santo Antão
     Das três ilhas que visitei, Santo Antão é a mais supreendente pela natureza.
O ferry boat sai de Mindelo as 8 da manhã e leva uma hora na travessia, até chegar a Porto Novo, pequena cidade pesqueira em Santo Antão. Os visuais da travessia são incríveis, tanto da ilha de São Vicente (à esquerda) quanto da de Santo Antão (direita).
     Porto Novo (abaixo à esquerda) é uma cidade nova, situada na planície costeira. Mas a surpresa vem quando se atravessa a ilha, pelo grande maciço que se ergue a quase 1.800 metros de altura. Povoados (à direita) no meio da montanha coberta de nuvens nos transportam para outro universo, onde vamos margeando abismos gigantescos por uma estrada de pedra que parece a muralha da China, até atingir uma travessia com abismos dos dois lados, chamada de Delgadin, onde olhar para baixo provoca vertigens.
Delgadin: abismos dos dois lados.
     Mas a surpresa maior ainda está por vir, ao chegarmos ao outro lado da montanha. A paisagem árida dá lugar ao verde de florestas de pinheiros. Esta parte de arquipélago recebe ventos úmidos e os represa, permitindo o desenvolvimento da agricultura. Enquanto o sul da ilha é quente e seco, o norte, do outro lado é mais frio e no seu litoral rochoso se incrustam pequenas cidades entre a pedra e o mar, como Ribeira Grande (à esquerda) e Paúl, (à direita), redutos de agricultores, que cultivam vales gigantescos (abaixo à direita), e pescadores.
     O turismo de trilha e a pesca submarina (veja escultura abaixo à esquerda) também estão se desenvolvendo fortemente nessas áreas.
     Ao ver os vales rochosos cobertos de plantações me lembrei com uma certa amargura, do deboche de certas pessoas em Rio de Contas quando me viram plantar uvas no meio das pedras, mal acostumados que estão às terras férteis que abundam no Brasil.
 Gostaria muito que eles vissem como esse povo, literalmente, tira leite das pedras, com suas plantações em platôs e suas criações de cabras. O mal do Brasil é que estamos acostumados com a fartura e não sabemos tirar proveito dela. Apesar do meio ambiente hostil e da ausência de recursos, vi pobreza, mas não vi miséria como vejo entre nós. Uma lição para os que vivem se queixando de dificuldades.
     Os caboverdianos tem apenas 37 anos de independência, e já conseguem vislumbrar o progresso e o desenvolvimento, com os poucos recursos de que dispõem. É um povo muito interessante, que vive no meio do mar, num lugar que vale a pena conhecer.
     Como o voo sai de Fortaleza direto para Cabo Verde, as agências de viagens brasileiras parecem não ter despertado ainda para o turismo neste país. Procurei em várias, em Brasília e na Bahia, e as pessoas nem sabiam onde fica Cabo Verde (em uma me perguntaram se Cabo Verde era em Minas Gerais). Por isso o melhor é comprar direto na agência de Fortaleza.
     Para quem desejar maiores informações, recomendo procurar Sara Campos, (LSC Turismo, Rua Dr.Thompson Bulcão 523 SL 07, Fortaleza-Ce, Cep 60.810.460, Fone:85 3061 2265 / 87872684), que nos vendeu as passagens aéreas pela TACV e fez as reservas nos hotéis, onde fomos muito bem atendidos e tudo correu sem nenhum problema.
     Ouça abaixo, Cesária Évora cantando com Caetano Veloso a música Regresso, feita sobre a poesia de Amilcar Cabral, que publiquei na edição passada deste blog.

http://www.youtube.com/watch?v=JGZks6c1O3U

    E ainda Cesária Évora e Marisa Monte, cantando É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi e Jorge Amado
http://www.youtube.com/watch?v=9NWC1rEPMbE

Jorge Querido:
Um demorado olhar sobre Cabo Verde

     Foi por pura sorte, que eu bati os olhos neste livro (Chiado Editora, Lisboa - 2010), no Cyber Café Sofia, no centro de Praia, em Cabo Verde, enquanto procurava algo sobre o país para comprar. Logo nas primeiras páginas vi que tinha acertado no escuro.
     A partir daí mergulhei na leitura, que ia me revelando as faces ocultas deste país que me fascina há tanto tempo, sua história, suas contradições, a luta pela independência, à busca por uma identidade nacional e a difícil construção da nação após 1975.
     Confesso que me identifiquei logo com a maneira de Jorge Querido olhar o mundo; um olhar não-alinhado, sem compromisso ideológico, sem medo de criticar quem quer que fosse, mas cuidadoso para não ofender, não ser injusto, nem pretensioso. Um olhar sem pressa, sem medo de ser demorado, como diz o título, mas que não abusa do tempo do leitor. Com um distanciamento ético, mas ao mesmo tempo comprometido com a verdade e com a luta em favor das coisas em que acredita.
     Jorge começa nos brindando com uma descrição física das ilhas de Cabo Verde, que me introduziu logo num conceito até então desconhecido para mim, o de equador metereológico, que numa simplificação pode ser descrito como a linha que divide os ventos do hemisfério norte e de hemisfério sul. Situando o arquipélago neste fenômeno, o autor nos explica a escassez de chuvas, além de descrever a aridez do solo à partir da formação vulcânica das ilhas.
     Essas duas características explicam uma das maiores dificuldades econômicas da nação, a impossibilidade de desenvolver uma agricultura sem água e terras férteis, coisa muito estranha para nós brasileiros, acostumados à fartura desses elementos.
     Depois Querido nos fornece uma história detalhada do brutal sistema de exploração colonial imposto pelos portugueses, durante os mais de 500 anos de dominação que exerceram sobre as ilhas, inclusive com dados escabrosos sobre os períodos de fome que assolaram Cabo Verde, até meados do século XX, e da emigração forçada de sua população até poucos anos atrás, para servir de mão de obra semi-escravizada nas plantações de Angola e São Tomé e Príncipe, outro arquipélago sob domínio português, mas ao sul da costa ocidental da África (situação que foi objeto da minissérie Equador exibida pela TV Brasil em 2011).
     Os períodos de fome descritos são os de 1580-1583; 1590-1594; 1609-1611; 1685-1689; 1704-1712; 1719-1721; 1730-1732; 1738-1740; 1741-1742; 1745-1746; 1748-1750; 1754-1755; 1764-1765; 1773-1775, sendo que nesta última teriam morrido 30.000 dos cerca de 70.000 habitantes.
     Seguem-se ainda as fomes de 1804-1806; 1810-1814; 1824-1826; 1830-1833; 1901-1904; sendo que apenas em 1903 teriam morrido mais 14.000 pessoas; 1911-1915; 1916-1918; 1920-1923; 1941-1943 quando teriam morrido mais de 40.000 pessoas e 1947-1948 com número semelhante de vítimas.
     O que impressiona nesses números é sua constância e a falta de atitude da potência colonial, que ao invés de tentar mitigar o problema, se aproveitava dele para forçar a migração de caboverdianos para as roças do sul em condições de semi-escravidão, o que faz disso quase uma política de Estado, um verdadeiro genocídio planejado e exercido ao longo de tantos séculos, sem que houvesse conhecimento do resto do mundo, ou pelo menos sem que o mundo se indignasse. 
     Outra questão muito interessante, que o autor aborda longamente, é a do surgimento de um grupo de intelectuais no arquipélago, à partir da fundação de alguns colégios nas ilhas de São Nicolau e São Vicente já no final do século XIX, grupo este que desembocou num movimento nativista representado por uma revista literária, intitulada Claridade já nos anos 1930. Este grupo foi a base de uma burguesia mestiça, que se dizia descomprometida com seu passado africano e alinhada com as idéias européias,  a ponto de afirmar que Cabo Verde não pertencia à África, mas era um extensão natural da Europa, assim como as ilhas Canárias e os Açores.
     Essa elite que se proclamava crioula, e proclamava ser agente de uma cultura nova, foi contemporânea das idéias racistas do nazi-fascismo, muito difundidas na época e tema de alguns livros de Gilberto Freyre, que se encarregou de desmenti-las, inventando um tal luso-tropicalismo, muito ao gosto da ditadura fascista de Oliveira Salazar, que propagava aos quatro ventos a miscigenação racial com uma obra civilizatória portuguesa no mundo, teoria muito difundida no Brasil e até hoje repetida por gente no mínimo desavisada, e que servia muito bem aos desígnios coloniais portugueses.
     Jorge Querido é o primeiro intelectual sério que vejo fazer uma crítica pertinente a Gilberto Freyre, que é quase um mito para nós brasileiros. Confesso que nunca consegui ler Casa Grande e Senzala, constrangido pelo debate dessas teorias racistas, embora Freyre o faça no sentido de negá-las. Mas me parece que apenas o fato de considerá-las, já nos soa hoje em dia um absurdo tão grande, que discuti-las seria uma perda de tempo. Também em Sobrados e Mocambos, Freyre faz uma análise romântica do papel da mulher brasileira, na época extremamente oprimida, que me repugnou. Por isto foi com um sentimento de libertação que li a crítica a Freyre, feita por Querido, que o coloca como amigo pessoal de Salazar e que teria ajudado muito a política colonial portuguesa a sobreviver tanto tempo, através de suas teorias do luso-tropicalismo, do homem cordial brasileiro, e outras bobagens.
     Fico me perguntando se o tropicalismo de Caetano e Gil, lançado no período mais agudo da ditadura brasileira, com a mesma intenção alienante, não teria a mesma origem. Aliás, atribuo muito mais a Caetano que a Gil essa orientação, coisa que pode ser lida com clareza nas letras das músicas desses autores baianos. Gil tem uma constância crítica na leitura da realidade em suas letras, que contrasta e choca com a alienação das músicas de Caetano, cujo artigos publicados atualmente no jornal A Tarde, de Salvador, comprovam seu comprometimento com a direita, disfarçado de anarquismo (o que não diminui a qualidade da sua arte).
     Querido depois nos dá um panorama das lutas pela independência, levadas à cabo junto com a Guiné Bissau, território situado em frente ao arquipélago, no continente africano, resultando na independência da Guiné Bissau e Cabo Verde, como um só país, até 1980, quando um golpe de estado na Guiné precipitou a separação dos dois territórios, aprofundando diferenças já existentes no antigo Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
     Este partido, passou a governar no sistema de partido único após a independência e depois da separação deu origem ao PAICV que governou Cabo Verde dentro do sistema de planejamento estatal até a queda do socialismo no leste europeu, na década de 1990, quando veio a abertura política também nas ilhas.
     O país passou então por processo semelhante ao do Brasil, com a ascenção do neoliberalismo, através do governo do MpD (O PSDB deles) que privatizou tudo, entregando as empresas construídas com tanto sacrifício pelo povo caboverdiano a portugueses e outros estrangeiros. Na verdade, Querido relaciona os privatistas com um grupo de trotskistas, convertidos ao neoliberalismo (como sempre) e às teorias do grupo de intelectuais da revista Claridade (que ele chama de Claridosos), que ainda hoje preferem ser portugueses, renegando suas origens africanas.
     A privataria caboverdiana foi tão ruinosa, ou mais, do que a nossa, eivada de corrupção e prepotência, em que os governantes procuravam mostrar aos parceiros internacionais  "que... esconjuraram de facto e de vez toda e qualquer intervenção do Estado como agente econômico; que são fiéis, leais, confiáveis e cumpridores escrupulosos dos compromissos assumidos junto dos seus "protectores", ainda que para isso tenham que sacrificar alguns interesses dos seus próprios cidadãos; que estão completamente abertos e prontos a entregar todo o seu incipiente sector produtivo e não só nas mãos de estrangeiros "amigos" de que gostariam de poder ser incondicionais servidores e valorosos defensores..." .(p. 297)
     Assim como no Brasil, o governo dos neoliberais quase levou Cabo Verde à falência e deu lugar à volta do PAICV,  devidamente reciclado, que respeitou os contratos assinados, mantendo as privatizações (algumas criminosas) mas restabelecendo o equilíbrio macroeconômico e a seriedade nas contas públicas, resgatando o país da pré-insolvência.
     Qualquer semelhança com o PT não é mera coincidência.
     Nas suas considerações finais Jorge Querido expõe as qualidades e fraquezas de seu país, do seu ponto de vista e, sem querer, visto por um brasileiro como eu, acaba dando razão aos que dizem existir uma lusitanidade na sociedade caboverdiana. É que as semelhanças com o Brasil são tantas, nas falhas da educação, da justiça, no oportunismo e mediocridade dos políticos, nos vícios e defeitos que proliferam na sociedade, que não há como não identificar nessas semelhanças um traço cultural comum.
     Não se trata de uma herança portuguesa, mas de um caldo de cultura formado nos países colonizados por Portugal, que ao mesmo tempo em que nos prejudica, com seus atrasos, nos une em um modo de viver que não é absolutamente europeu, mas uma mistura de África, Ásia, América Latina e Europa e que atingiu também a própria matriz portuguesa, levando a eles nossas contribuições.
     Termino esta leitura, e a visita a Cabo Verde, convicto de que somos uma grande nação lusófona, gostemos ou não, mesmo que nos reconheçamos antes como latinoamericanos, africanos, asiáticos ou europeus.
    
    
    
    
    
    
     

sábado, 7 de abril de 2012

Rapidinhas

Bradesco, nunca ao seu lado

     Propaganda de banco é uma coisa linda, não é? Todo mundo feliz, vivendo no melhor dos mundos. Mas a realidade é bem diferente.
     A imprensa diz que o Bradesco teve um lucro recorde no ano passado, mas eu acho que tem algo errado com esse banco. Seus caixas eletrônicos estão sempre quebrados, fora do ar ou sem dinheiro. Além do que, a maioria deles é uma velharia.
     Eles agora inventaram o negócio de botar a mão, para leitura da palma, em substituição à senha. Isso foi legal. Mas o problema é que os caixas, que já são poucos, não funcionam.  O jeito é usar o Banco 24 horas (sempre ao lado) e pagar uma tarifa extra para retirar dinheiro. Uma droga.
     Quando a gente precisa, este banco nunca está ao nosso lado, ao contrário do que diz a propaganda.
    
     O fim dos Demos
  
 O velho partido da ditadura militar (Arena - PDS - PFL - DEM), está mesmo chegando ao fim, como predisse o ex-presidente Lula. O ocaso do partido criado pelos militares fascistas que implantaram a ditadura (gosto de fazer a ressalva, pois havia muitos militares democratas, que foram as primeiras vítimas do golpe de estado de 1964), com apoio dos Estados Unidos, já não tem lugar no nosso panorama político.
     A velha política de alinhamento com os americanos acabou faz tempo e o neo-liberalismo que eles quiseram implantar para prolongar o controle dos grandes grupos econômicos sobre a nossa sociedade, graças a Deus também já vai longe.
     O caso do senador DEMÓstenes Torres é bem expressivo do que é essa gente: um bando de capachos de qualquer bandido que tenha dinheiro, fazendo qualquer coisa para enriquecer as custas da miséria do povo.
     Estão definhando rapidamente e já vão tarde.

Estádios da copa


O estádio Castelão, em Fortaleza, começa a colocar as peças de sustentação da nova cobertura


     Não entendo a histeria de parte da imprensa sobre as obras dos estádios para copa de 2014. Vivem dizendo que as obras estão atrasadas, numa ansiedade sem sentido.
     Eles não sabem que obras deste porte tem que vencer várias fases demoradas? Primeiro vem os projetos, depois os financiamentos, depois os licenciamentos ambientais, urbanos e em alguns casos, com problemas com desapropriações e até com minorias étnicas, como áreas remanescentes de quilombos ou indígenas.
    Depois de tudo isso vem as obras em si, que tem que começar das fundações, para depois irem subindo.
     Mas parece que alguns repórteres querem que os estádios apareçam por encanto, como se alguém tivesse uma varinha mágica e... zás!!! Tudo estaria pronto imediatamente.
     O governo já disse que todas as obras estão dentro do cronograma  mesmo as mais atrasadas, como as de Porto Alegre e Natal, ficarão prontas à tempo.
     Calma gente, é preciso fazer direito, pra depois não reclamarem que ficou mal feito.

 AMILCAR CABRAL

 Esta semana, em viagem a Cabo Verde, na África, publico uma poesia de Amílcar Cabral, herói da independência deste país irmão.
REGRESSO
Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração
A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...
Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...
Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!
Cabo Verde  
Praia

     Prezados amigos, estou em viagem a Cabo Verde, país de lingua portuguesa constituido de dez ilhas na costa ocidental da Africa.
     Num voo direto pelo boeing 757 na companhia TACV (Transportes aéreos de Cabo Verde), à partir de Fortaleza, depois de apenas três horas e meia, eu e meu amigo Adriano Araújo cruzamos o Oceano Atlântico e chegamos à cidade de Praia, capital do arquipélago, na quinta-feira a noite. Pra quem está acostumado com a miséria das empresas brasileiras é uma agradável surpresa ser servido com um jantar quente, salada, sobremesa e bebidas (vinhos cervejas, refrigerantes e sucos, além do tradicional grogue caboverdiano)
     Ontem sábado, visitamos o Plateau, como é chamada a área central da cidade onde se encontra o governo do país e algumas ruas comerciais importantes. Estava tudo meio deserto, devido à sexta-feira da paixão. Depois fomos visitar a Ribeira Grande, também conhecida como Cidade Velha, primeira capital da antiga colônia portuguesa, e segundo os caboverdianos, a primeira cidade fundada pelos europeus nos trópicos, às margens do único curso d'água da ilha (hoje seco) e foi objeto de vários ataques de piratas, dentre eles o famoso Francis Drake que a atacou duas vezes, e por isto foi abandonada. Hoje é um ponto turistico, onde se destacam algumas construções da época colonial.
      As mais importantes são a Igreja de N.Sra do Rosário,a esquerda, que segundo o vídeo que nos foi mostrado, chegou a ser visitada por Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama, e o forte de São Felipe , à direita, mandado construir pelo Rei da Espanha, Felipe II (na época da União Ibérica, quando Portugal e suas colônias passaram a pertencer à Espanha)
     Cabo Verde era uma parada quase obrigatória na volta dos navios portugueses que vinham do Brasil para Lisboa, muitas vezes carregados do nosso ouro. Paravam para se reabastecer e para fazer trocas. Era um entreposto comercial importante, inclusive de escravos (a tenebrosa história da escravidão na África será objeto deste blog em próximo artigo), dai o interesse dos piratas e corsários como Drake, financiados pela rainha da Inglaterra.
       A cidade de Praia se situa na Ilha de Santiago, ao sul do arquipélago, e tem uma configuração urbana interessante: o chamado Plateau é realmente um platô que se ergue em frente ao mar, onde se localiza a administração do país, que ficou independente de Portugal em 1975.
     Do outro lado a Achada de Santo Antonio é outro platô, onde se localiza alguns conjuntos residenciais e o simpático bar e restaurante O Poeta, com um linda varanda em frente ao mar, de onde se pode ver o luar e saborear um bom vinho caboverdiano (abaixo).


Achada significa "campo aberto" ou esplanada. Cabo Verde tem muitas achadas, segundo nos explicou o recepcionista do hotel.
     A configuração é tipica das cidades coloniais portuguesas, que ocupavam primeiro as partes altas, para facilitar a defesa em caso de ataques militares e com o tempo iam descendo para as partes baixas e aterrando a beira-mar para abrir avenidas e construir áreas portuárias.
     O país e simpático, tem um povo simples e muito "na dele". Nos locais turísticos ninguém perturba querendo nos guiar ou vender coisas, como no Brasil. Eles simplesmente ignoram os turistas. Vivem a vida deles e nos olham com uma certa desconfianca, embora sejam gentis.
                                     Casa de pedras coberta de palha na Ribeira Grande ou Cidade Velha
     Cabo Verde é uma democracia estável, no meio da instabilidade política africana e está começando a desenvolver sua indústria do turismo. O mar é incrivelmente azul e está por toda parte. Amanhã, domingo, seguiremos para a cidade de Mindelo, na Ilha de São Vicente, considerada a capital cultural do país, e por isto publico o blog hoje, sábado.
    

domingo, 1 de abril de 2012

Famílias e grupos na Bahia


     Depois de tantos anos morando na Bahia, ainda me surpreendo percebendo coisas nessa sociedade.    
     A importância da família para os baianos é muito maior do que no sudeste ou no centro-oeste, por exemplo. Lá, as pessoas se casam, tem filhos, que crescem e cada um segue seu rumo, se visitando às vezes, procurando viver independentes uns dos outros.
     Na Bahia não. As famílias ficam grudadas a vida inteira. Se possível morando perto uns dos outros até morrer.
     Os baianos são muito tradicionais, apesar de gostarem de mostrar que são abertos e modernos. Mas não. Formam grupos fechados, principalmente em Salvador, onde a entrada de um elemento estranho num grupo qualquer, seja de amigos, seja de trabalho, é uma coisa que tem que passar pela aprovação de todos os membros, e não é rápida não. Demora muito.
     Aparentemente são muito receptivos, mas não se engane, é só aparência.
     Mas qual a razão destas atitudes? Eles dizem que são solidários, amorosos, se preocupam uns com os outros, mas eu acho que não é só isso. Tem uma espécie de instinto de defesa. A Bahia foi muito discriminada por muito tempo, devido ao seu atraso. O livro A Bahia no século XIX: Uma Província no Império, da historiadora Kátia Mattoso, explica bem as razões deste atraso, ocorrido principalmente na segunda metade do século XIX e na primeira do século XX.
     Mas na segunda metade do século passado a Bahia começou a correr atrás do protagonismo que teve nos tempos da colônia e do Império. Hoje é uma das economias mais importantes e que mais crescem no Brasil, embora ainda acumule problemas sociais imensos e gargalos de infraestrutura que atravancam o deslanchar da sua economia.
     Mas o nó de tudo isso está na política. Quem mora na Bahia está assistindo na TV uma verdadeira avalanche de propaganda antecipada das eleições, sem que o TRE mova uma palha para impedir. Mário Kértz, ACM Neto, Benito Gama, Mário Negromonte, Jutahy Magalhães, Marcos Medrado, Jonival Lucas, Antônio Imbassahay e outras figurinhas carimbadas estão toda hora na TV e alguns deles só faltam dizer explicitamente: vote em mim para prefeito de Salvador, num flagrante desrespeito à lei eleitoral.
     A inércia do TRE prova que a Bahia continua uma terra sem lei, controlada por pequenos grupos que se eternizam no poder. Todos esses que eu citei acima são políticos muito antigos. Não há renovação. A grande novidade na política baiana ainda é o PT e o governador Jaques Wagner, enquanto em outros estados o PT já está antigo.
     Parece que a Bahia está sempre 20 anos atrás.
     Essa falta de aplicação da lei é uma prova de que não há um Estado na acepção da palavra, capaz de defender o cidadão, para que ele possa ser efetivamente livre. Daí os clãs familiares e o grupismo dos baianos, que se fecham em pequenos círculos de autoajuda para sobreviverem.
     Essa me parece ser a explicação mais lógica para essa atitude, que se por um lado protege os baianos da sua própria sociedade, por outro impede a livre circulação das idéias, necessária para que o pensamento contemporâneo, e mais especificamente a ciência, se desenvolvam.
     Enquanto não conseguem se libertar de suas próprias contradições, os baianos, especialmente os soteropolitanos, continuam vivendo a ilusão de que Salvador é a cidade mais linda do mundo, sem perceber que ela se transformou numa grande favela, e achando que vivendo em grupinhos ou em clãs fechados, vão chegar a algum lugar.
     É claro que a Bahia é imensa e tem áreas bastante dinâmicas, como o sudoeste (Vitória da Conquista), o oeste (Luís Eduardo é um assombro de crescimento e riqueza), Juazeiro e Feira de Santana, que se transformou num grande pólo industrial. E a continuar essa discrepância regional entre as regiões mais dinâmicas e a capital, não vai demorar para que surjam outros movimentos separatistas, como o que quer fundar o Estado de São Francisco na região oeste.
     O povo baiano tem muitas coisas bonitas. É realmente um povo alegre e generoso. Falta virar a página e se integrar ao século XXI, se não quiser ficar para trás outra vez.