Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 11 de março de 2012

Rapidinhas

Jogo duro...

     Em homenagem ao dia internacional da mulher...

61

     Agradeço a todas as mensagens pelos meus 61 anos. É muito bom ter amigos e uma família com uma cabeça tão boa. É a proximidade das pessoas que a gente ama, que nos mantém vivos.
     Um grande abraço a todos.

À Cecília


     A todas as mulheres que renunciam a seus sonhos para cuidarem das pessoas que amam.

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

-Cecília Meireles-
Civilização e barbárie II

A história de Lisboa
     Na continuação da pesquisa sobre civilização e barbárie, mergulhei na fascinante história de Portugal e de sua capital, Lisboa, tentando compreender a origem dos nossos ancestrais. Essa história de se divide em seis etapas:
I - A cidade fenícia

     Lisboa é a segunda cidade mais antiga da Europa, perdendo apenas para Atenas. É portanto, mais antiga que Roma, conhecida como a cidade eterna. Diz a lenda que Lisboa teria sido fundada pelo mítico herói, Ulisses, mas escavações arqueológicas recentes indicam a provável data de sua fundação por volta do ano 1.200 AC, pelos fenícios.
     Na língua fenícia era chamada de Alis Ubbo, que quer dizer "Porto Seguro", e se estendia da atual colina do castelo, até o rio Taghi ou "boa pescaria", nome que derivou para o atual Tejo (Tajo, na pronúncia portuguesa).
     De pequeno entreposto comercial, passou a ser um importante porto, dominado pela cidade-estado fenícia, Cartago, e às margens da baía do Tejo, também conhecida como Mar da Palha, floresceu uma importante indústria de pescados salgados. Alis Ubbo (ilustração ao lado) também comerciava sal e cavalos fornecidos pelos lusitanos, importante tribo de origem celta, que dividia a península com os íberos.

II - A cidade romana

     No século III AC, celtas e íberos foram conquistados   pelos romanos, na esteira das guerras púnicas, entre Roma e Cartago. Os habitantes de Alis Ubbo se aliaram aos romanos na conquista da península e deram combate aos lusitanos, cujo chefe gerreiro, Viriato, inflingiu várias derrotas aos generais romanos, até ser morto à traição.
     A cidade era chamada de Olissipo ou Olissipona (em latim vulgar), pelos romanos, e durante mais de 700 anos, até o início do século V DC, permaneceu sendo um importante porto que fazia a ligação entre as províncias romanas do norte e as do mediterrâneo.

III - As invasões bárbaras

     Com a decadência do Império Romano, Olissipo sofreu várias invasões de povos considerados bárbaros, sendo tomada primeiro pelos vândalos, povo de origem germânica (escandinava), depois por alanos, de origem persa e godos, também germânicos, que chegaram a saquear e incendiar a cidade, comandados pelo rei tribal Walia. Os suevos, povo germânico que havia conquistado um grande território ao norte da península ibérica e tinha sido convertido ao cristianismo, conquistam Olissipo em 469, integrando-a ao seu reino, cuja capital era Braga. O restante da península ficou pertencendo aos visigodos.
     Mais tarde, os visigodos, que também já tinham sido romanizados pelo cristianismo, conquistam o reino suevo, unificando toda a península.

IV - A cidade árabe

     Com tantos saques e invasões, a cidade viu reduzida sua população e importância comercial, até que em 711, se aproveitando de uma guerra civil no reino visigodo, os árabes invadiram a península Ibérica, que eles chamavam de Al Andaluz, sob o comando de Tariq, (ilustração à esquerda) da dinastia Omíada, cuja capital era a cidade de Damasco, na Síria.
     Olissipo, que era chamada de Al-Ushbuna ou Lissabona pelos árabes, é tomada por Abdelaziz Ibn Musa, um dos filhos de Tariq, vencendo o último rei Visigodo, Rodrigo.
     A partir daí a cidade renasce, é reconstruída de acordo com os padrões do oriente médio, com uma grande mesquita, um castelo no topo da colina, um palácio para o governador (Alcáçova), uma almedina (centro urbano) e volta a ser um grande centro administrativo e comercial, chegando a ter mais de 100.000 habitantes no século X.
     Interessante como todos esses nomes tem em comum o "L", seguido de uma vogal "U" ou "I"e um "S":  A-lis Ubbo, O-lissipo, O-lissipona, U-lishbona, A-l Ushbuna, Lis-sabona.

V - O império omíada e o califado de Córdoba

     O Império Omíada, seguiu-se à fundação da religião islâmica pelo profeta Maomé, por volta do ano 610. Até então os beduínos da Arábia eram politeístas e celebravam o culto de diversas divindades na cidade de Meca. Maomé é perseguido pelas suas pregações e foge de Meca para Medina, num episódio que ficou conhecido como Hégira.
     A idéia do monoteísmo ajuda a unificar a Arábia e o sucessor de Maomé, Abu Bekr, em nome de difundir o islamismo, começa a unificar os vários povos sob domínio árabe, primeiro conquistando a Síria, o Egito e a Mesopotâmia numa conquista que levaria os árabes a dominar depois o norte da África, a Península Ibérica, a Sicília, assim como a Pérsia, o Afeganistão e partes da China e da Índia, fundando um império que duraria cem anos.
     Questões religiosas começam a provocar divisões e em 750, rebeldes do Iraque conseguem derrubar a dinastia omíada, derrotando o Califa Marwan II. Apenas um membro do império, Abd Al-Rahman, consegue fugir e funda o Califado de Córdoba (ilustração à direita) na atual Espanha, dando continuidade à dinastia Omíada apenas na Europa, enquanto no restante do império surge a dinastia Abássida, que veria o explendor máximo da expansão da cultura árabe, com a difusão da sua língua e cultura, com o desenvolvimento das ciências e da matemática.
     À partir do século X, tribos turcas islamizadas começam a se tornar cada vez mais influentes no império até tomarem o poder e conferir o título de sultão ao imperador. Disputas entre sunitas e xiitas levam à fragmentação do Estado e em 1258, Mongóis tomam Bagdá, pondo fim ao Império Árabe.
     A dominação muçulmana na Europa, porém, continua e a reconquista vai se fazendo aos poucos.

VI - A fundação de Portugal

     O reino de Astúrias, na atual Espanha, que nunca havia sido dominado pelos árabes, começa a se expandir, conquistando teritórios muçulmanos. Com a morte do Rei Afonso III, o reino se dividiu entre seus filhos, nascendo os reinos de Leão, Navarra, Aragão e Castela. Ao reino de Leão, pertencia o Condado Portucalense, sediado na cidade do Porto (Porto de Cale, atual Gaia), no litoral norte. O rei Afonso VI de Leão, entrega a seu genro               
D. Henrique de Borgonha, o governo do Condado Portucalense e do Condado de Coimbra, que começa a manobrar para conseguir autonomia política e econômica. Seu filho, Afonso Henriques (acima à esquerda), mais tarde, depois de tomar o poder de sua mãe e vencer os mouros na batalha de Ourique, proclama a independência em 1139 e é aclamado como primeiro Rei de  Portugal, com o título de D. Afonso I. Surge assim o Estado português, com sede em Coimbra, que é reconhecido pelos espanhóis em 1143, com o Tratado de Castela. Portugal é considerado hoje como o primeiro estado-nação moderno da Europa.                                                                   
     Em março de 1147, os portugueses tomam a cidade de Santarém aos mouros e em 25 de outubro do mesmo ano, tomam Lisboa, depois de um cerco de tres meses, com auxílio de cruzados ingleses, normandos, flamengos e alemães que estavam de passagem em direção à Terra Santa, durante a segunda cruzada (ilustração acima à direita).

Civilização x religião

     Nota-se que os grandes impérios tendem a ser monoteístas, o que sugere uma ligação entre civilização e religião. Embora Roma tenha sido politeísta e só abraçado o cristianismo nos últimos séculos, foi a religião cristã que garantiu a sobrevivência da sua cultura política e jurídica.
     Parece que a superação do politeísmo, também chamado de paganismo pelos cristãos, tem a ver com o estágio civilizatório das sociedades humanas, já que em termos filosóficos introduz uma capacidade maior de abstração (um Deus único e invisível) e induz a unificação dos povos sob uma compreensão unificada do cosmos.

Miscigenação e formação nacional

     Para os que ainda se deixam seduzir pelas ideologias (idiotas) racistas, é bom saber que, somos descendentes de celtas, íberos, fenícios, romanos, suevos, visigodos e árabes (mouros) e judeus (cuja comunidade em Lisboa sempre foi muito grande e influente, desde o tempo dos fenícios). Portanto, muito antes da miscigenação de raças ocorrer no Brasil, entre portugueses, indígenas e africanos, ela já havia ocorrido na Europa.
     A história de Portugal e de Lisboa, está intimamente ligada ao comércio e à navegação, desde os seus primórdios, o que empurraria os portugueses para os descobrimentos e para a formação da nação brasileira.  
     Fontes:



    

domingo, 4 de março de 2012

Rapidinhas

Pontapé na bunda dele!


     Fez muito bem o Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo em desqualificar o tal Jerome Valcke como interlocutor da Fifa com o governo brasileiro para a Copa 2014.
     A arrogância desses europeus, que chegam aqui fazendo exigências absurdas, querendo forçar o Brasil a desrespeitar suas próprias leis (como no caso da venda de bebidas alcóolicas nos estádios), só para faturarem com contratos publicitários milionários, já chegou ao limite.
     Quem esse cara pensa que é para dizer que as autoridades brasileiras precisam levar um pontapé na bunda, para fazer as coisas do jeito que eles querem? Com quem ele pensa que está lidando?
     Quem precisa levar um bom pontapé na bunda é ele, coisa aliás que o Ministro dos Esportes já providenciou.

Um sucessor para Chaves


     O presidente Chaves tem feito coisas boas na Venezuela, antes dominada por uma burguesia indiferente à miséria do povo e vendida a interesses estrangeiros, e que havia arruinado o país. Mas infelizmente cedeu à tentação do caudilhismo latino-americano, ao culto a personalidade e enveredou por um beco sem saída, no qual ele é considerado a única solução para os problemas do país.
     Agora, com sua doença, a Venezuela corre o perigo de se tornar órfã, incapaz de seguir se transformando numa nação moderna e socialmente justa. Um erro grave que pode levar o país irmão, de volta às mãos da velha direita e ao domínio norte-americano.
     Mais cedo ou mais tarde Chaves terá de ser sucedido no governo, como todo ser humano. Se tivesse um pouco de sabedoria estaria preparando um sucessor, para poder viver e ver as consequências do processo de democratização social que lançou, permitindo que o país encontrasse seus rumos no futuro.

Carros de luxo e acidentes

     Já repararam como ultimamente vem acontecendo muitos acidentes com carros importados e caríssimos? Parece que seus donos se acham acima da lei, por terem condições de adquirirem carros de luxo, e saem por aí correndo e fazendo um monte de besteiras.
     Acham que por terem carros mais caros, tem mais direito que os outros no trânsito e, literalmente, querem que os carros comuns parem para lhes dar passagem, como se fossem de uma casta superior.
     Alguém precisa lembrar a esses novos ricos que num país republicano todos são iguais perante a lei e isso vale para o trânsito também.

Tem chinês no futebol

     Quem diria! Um clube brasileiro contratando um jogador profissional chinês. É Zizao, do Corinthians. Com uma carinha de menino, chegou tropeçando no português e beijou a nova camisa.
     Há 20 anos atrás isso pareceria impossível. Com que rapidez o mundo está mudando. E o futebol se consolidando como uma território de paz e conhecimento entre os povos.
     O contraponto disso são as violentas torcidas organizadas, que cada vez mais primam pela ignorância e selvageria.
     Bem vindo Zizao.

Fulô da caatinga
     A pequena planta que o artista Raimundo Carvalho me ofereceu, na minha passagem por Teofilândia, no final de dezembro, definhou completamente só para renascer cheia de flores, no mais puro espírito indômito da caatinga brasileira.
     Agora está nos brindando com um espetáculo de flores delicadas que merecem uma poesia da minha amiga Genny Xavier (do seu blog Baú de Guardados), poeta itabunense, que fala do ciclo da vida e da fecundidade do tempo.

O VICEJAR DO TEMPO
Qual porta esqueci de abrir
ao merecimento dos pequenos detalhes da alegria?
O tempo drena as reminiscências dos dias
e a segurança das coisas e das pessoas
se esvai ao sabor de tudo que é inevitavelmente mutável...
Vão-se as ocorrências das fantasias oníricas
e as sensações vulcânicas do tecido da pele...
Vão-se o pestanejar das retinas atentas aos festejos da infância
e a respiração presa no esgueirar das noites
de beijos roubados da adolescência...
É certo que há agora esta beleza do amadurecimento da fruta do tempo,
mas é uma doçura que já não se pode perder num só instante
ao frescor do néctar da existência...
É preciso sorver a seiva no tronco fértil da árvore da vida
e cobrir-se dos seus caules que apuram o verdejar das folhas,
o perfume das flores e o sabor dos frutos
na permanência da fecundidade do tempo.

Genny Xavier
Civilização x barbárie

O Lendário Rei Arthur
Pictos, Celtas, Anglos e Saxões

     Nas minhas pesquisas sobre a confusa história da Inglaterra, tenho encontrado muitos sites esotéricos que ficam endeusando os celtas e condenando os romanos, como se estes fossem o responsável por todos os males da antiguidade, contra uma pretensa pureza dos povos pagãos.
     O mesmo vale para a religião cristã em relação ao paganismo professado pelos europeus primitivos que viviam em estado tribal nas ilhas britânicas, na época da invasão romana.
     Mas o que tenho encontrado em artigos de historiadores desmente essa idealização dos celtas e demonização dos romanos. Na verdade a dominação romana sobre o sul das ilhas não destruiu a religião dos druidas, como é tão apregoado, mas foi a expressão da civilização, contra povos que se organizavam em torno de uma aristocracia guerreira e viviam de lutarem uns contra os outros, numa espiral sem fim de violência.
     Os romanos civilizaram os bretões ao sul, mas nunca conquistaram os celtas da Irlanda ou os pictos da antiga Caledônia, atual Escócia. Eles ficaram por lá cerca de 400 anos, mas sua presença militar não era muito grande, devido à relativa paz que imperava na província britânica. Apenas na fronteira norte havia constantes atritos com os pictos, principalmente, que nunca foram dominados por nenhum invasor.
     Mesmo a cristianização, se fez com a absorção de muitos rituais pagãos, para conquistar a aceitação dos druidas e os seus templos foram preservados e aos poucos transformados em igrejas cristãs, num sincretismo religioso semelhante ao que ocorreu na Bahia, na época da colonização portuguesa, como forma de evangelizar os africanos trazidos para o Brasil.
     Por volta do ano 400 os romanos se foram, deslocando suas tropas para a defesa de Roma, assediada por Átila, o huno, deixando os bretões romanizados, ao sul, desprotegidos contra os ataques dos celtas irlandeses e dos pictos.
     A economia britânica havia se estabilizado e superado o estágio tribal, o que fazia dos bretões um povo sedentário, que cultivava seus campos e vivia em aldeias e cidades, regidos por leis escritas, sob o domínio do cristianismo, de uma forma muito diferente dos povos ao norte da Muralha de Adriano, que seguiam nômades, guerreiros, governados por conselhos de anciãos e praticando a religião pagã de seus ancestrais, que incluíam rituais de sacrifícios de animais e de seres humanos.
     A muralha continuava, portanto, sendo uma fronteira entre uma cultura mais evoluída, sedentária, com uma estrutura política mais complexa e povos de organização primitiva, que viviam em sociedades tribais regidas por aristocracias guerreiras. Continuava sendo, portanto, uma fronteira entre o que se considerava civilização, na época, e a barbárie tribal.
     Sabe-se que a prática da escravidão era recorrente em todas as sociedades da ilha, tanto no mundo romanizado quanto no celta e picto. Com a retirada dos romanos, os celtas irlandeses passaram a fazer incursões ao sul para capturar escravos, ocasião em que um filho de nobres bretões foi escravizado e passou seis anos na Irlanda como pastor de ovelhas, de onde conseguiu fugir de volta para a Bretanha e para sua família. Este jovem viria a se tornar um sacerdote da fé cristã que teve grande importância na cristianização da Irlanda, para onde voltou como pregador, e ficou conhecido posteriormente como São Patrício.
     Para substituir o exército romano na defesa da sua civilização, os bretões, na época governados pelo rei Vortigern, convidaram alguns povos germânicos, da região do Reno, na atual Alemanha, e de mais ao norte do continente, a irem para a ilha como combatentes, mediante soldo, para defendê-los dos bárbaros. Eram os anglos, os saxões e os jutos. Esses povos, no entanto, ao perceberem as riquezas da Bretanha e sua fraqueza militar se aproveitaram para tomar todo o país, destruindo suas cidades e expulsando os bretões, descendentes dos primeiros celtas do sul, para as florestas, de onde passaram a uma resistência eventual, sendo aos poucos incorporados pelos invasores. Muitos bretões fugiram para o continente, para a região conhecida como Armórica, formando a Bretanha continental, no atual norte da França.
     Os bárbaros convidados, destruíram em grande parte a cultura romanizada dos bretões e restabeleceram seus antigos rituais pagãos, continuando, no entanto, a dar combate aos celtas da Irlanda e aos pictos, que nunca se deixaram vencer também por eles.
     Ao sul se formaram sete reinos anglo-saxões, época conhecida como heptarquia. Esses sete reinos continuaram combatendo os celtas da Irlanda, os pictos da Caledônia e a resistência dos próprios bretões do sul, que chegaram a ter algumas vitórias contra eles, a mais famosa na batalha de Monte Badon, liderada pelo lendário Rei Artorius, cristão, mais tarde conhecido como Arthur, permitindo que os bretões reconquistassem uma parte à oeste da ilha e fundassem cinco reinos, até que quatrocentos anos depois da retirada dos romanos os Vikings vieram do extremo norte do continente, com seus ataques ferozes a todos os povos das ilhas britãnicas. Foi então que os pictos e uma tribo celta que havia se instalado ao norte da antiga Caledônia, os scots, se uniram para vencer os Vikings e os anglo-saxões e unificaram seus povos, fundando a Escócia (Scot land, terra dos Scots).
     Por esta época, o cristianismo já havia fincado raízes profundas em todos os povos das ilhas, embora houvessem interpretações diversas das escrituras.
     Como se vê, os anglos e os saxões foram os mercenários dessa história e foram eles que destruíram a cultura celta bretã. Talvez daí venha esse impulso destruidor que ainda move ingleses e americanos até hoje de dominarem o mundo através de suas guerras intermináveis.
     Continuam bárbaros, só que ricos com tecnologia desenvolvida.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Fantástico Parque do Cocó


     Prezados amigos leitores.
     A cidade de Fortaleza foi capaz de recuperar seu maior rio, criando em torno dele um parque linear, que permitiu que em áreas antes ocupadas por salinas, o mangue e outros ecossistemas renascessem, criando no meio do espaço urbano entre automóveis e torres de arquitetura contemporânea, um dos maiores parques urbanos da América Latina.
     O Parque do Rio Cocó é a prova de que é possivel harmonizar cidade e natureza e ter rios urbanos preservados, transformando suas margens em locais de lazer para toda sua população. 
     Sem dúvida um exemplo para todas as cidades brasileiras. Um exemplo especialmente para a cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, que vem adiando há anos a implantação de um parque similar em torno do seu Rio Verruga, considerado o segundo mais poluído do Brasil.
     Conquista tem apenas 300.000 habitantes, contra os 3 milhões de Fortaleza, e no entanto parece que seus governantes acham difícil criar o parque e recuperar o rio.
     Deviam fazer uma visita a capital cearense para ver o grande impacto que uma obra dessa tem na vida da população da cidade.
     Aos domingos as trilhas do Parque do Cocó ficam lotadas. Tendas com aulas de ginástica, dança e brincadeiras infantis são armadas, para a diversão gratuita dos seus cidadãos.
     A recuperação da flora e da fauna local é impressionante. O parque respira vida e ajuda a cidade a respirar.
     A maioria das cidades brasileiras foi fundada às margens de algum curso d'água, num tempo em que isso era fundamental para a sobrevivência das pessoas. Mas com o tempo, os rios que outrora lhes deram vida foram esquecidos, se tornando esgotos, lata de lixo, até finalmente serem recobertos por lajes, para não enfeiarem a paisagem urbana com suas águas imundas e fétidas.
     Até quando? Porque não inverter essas prioridades e colocar a saúde dos rios na ordem do dia, senhores prefeitos e vereadores?
     A eleição de 2012 está aí para que aqueles que se dizem defensores do meio ambiente formulem seus projetos e compromissos públicos com os eleitores.
     A realidade do Parque do Rio Cocó está aí, para todos aqueles que julgam ser impossível salvar nossos rios.

Água é vida!

Livre Pensar

     Prezados amigos.
  
     Há muitos anos atrás, li o livro Os intelectuais e a organização da cultura, do marxista italiano Antonio Gramsci, mas não o entendi. Eu me debatia contra as coisas que não aceitava (e não entendia), mas não conseguia encontrar um caminho para ajudar a transformar a realidade.
     Sim, o termo é se debater e não lutar, porque quando a gente não entende qual é o problema, torna-se impossível formular um objetivo e traçar um caminho. Nesse caso a luta se torna um esforço inútil e desesperado, um espernear contra o destino sem finalidade alguma.
     Só vinte anos depois, relendo Gramsci, comentado por Paolo Nosella (A Escola de Gramsci), entendi as idéias de Gramsci sobre a cultura e percebi contra o que eu estava me debatendo.
     Segundo ele, além do sistema capitalista que explora a mão de obra e consome os recursos do planeta, existe uma cultura hegemônica, baseada num tipo de filosofia, que rege a vida humana na sociedade. Essa cultura não é apenas, como eu pensava, um conjunto de valores ligado às elites e aos seus interesses, mas é principalmente uma forma de pensar, que Gramsci relaciona à filosofia Escolástica, em oposição ao materialismo dialético.
     Gramsci diz que a cultura popular, é formada principalmente pela escola, e que ela é fundamentalmente escolástica, ou seja, trabalha com categorias fixas e idealizadas, distanciadas da vida real.
      Para se opor a esse tipo de concepção de mundo, Gramsci observa o mundo do particular para o geral, vê o mundo com os olhos atentos do cientista e a partir daí constrói um pensamento, percebendo as leis que regem a vida, elaborando intervenções para levar o ser humano a um objetivo, que para ele é a autodeterminação construída a partir da sua consciência, o que ele chama de aprendizado desinteressado.
     Para Gramsci o objetivo da educação é a liberdade, no sentido de nos libertar das amarras filosóficas que aprisionam nossas mentes, assim como dos interesses que nos manipulam e da exploração que nos submete.
     Observando os textos que produzi ao longo da vida, fui encontrar um tipo semelhante de postura, que embora fosse inconsciente, me afastava sempre dos pensadores da época, me tornando diferente.  
     Meu primeiro texto foi Arquitetura e Cultura Popular, ainda na faculdade, em que eu propunha uma estética arquitetônica a partir da cultura popular. O texto foi recebido com desprezo e escárnio, embora minha proposta  esteja hoje em moda e se chame arquitetura vernacular.
     Depois, no livro Repensando a Arquitetura, fiz uma análise também a partir da observação local e particular para tentar uma construção teórica. Na época do lançamento recebi um comentário que dizia ser meu livro uma enxurrada de críticas e fui brindado com o silêncio gelado das publicações de arquitetura, assim como dos intelectuais que lidavam com o tema no Brasil.
     No entanto, hoje, mais de 20 anos depois do seu lançamento, Repensando a Arquitetura, teve muitas de suas críticas confirmadas e percebo que aqueles que não o aceitaram de imediato, reagiam justamente à maneira detalhista com que eu analisava a realidade, à partir de observações in loco, do particular para o geral, e não de teorias generalistas. Reagiam também à linguagem coloquial, muito diferente da utilizada na época, muito técnica e distanciada do leitor.
     Olhando, assim, para trás, vejo que eu já perseguia, inconscientemente, o caminho preconizado por Gramsci.  O que me faltou foi clareza do que eu buscava.
     Levei 10 anos para me formar, talvez por regir ao tipo de coisas que ensinavam (e ainda ensinam) nas faculdades. Tive que tampar o nariz para concluir a faculdade, que nunca tinha respostas para as minhas perguntas. Lá dentro, me identifiquei com a turma mais combativa (as faculdades de arquitetura são muito elitistas) e participei da reconstrução do Movimento Estudantil, numa época heróica de enfrentamento à ditadura, inclusive participando da primeira greve estudantil após 1968 no Rio Grande do Sul, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em 1977.
     Depois de formado ingressei na militancia política, mas lá também não me identificava com nenhum pensador, para escudar minha prática. Em Ilhéus prticipei ativamente de um núcleo do PT, (o Núcleo Nelson Mandela) ,onde desenvolvemos um trabalho de base muito bonito, construído a partir da realidade que íamos observando, dialeticamente, passando ao largo dos interesses do Partido e das práticas manipuladoras das suas tendências, o que nos valeu a perseguição e o conseqüente desencanto com a política partidária.
     A nível filosófico, eu vacilava entre a observação crítica,para construir uma prática que dialogasse com a realidade,e algumas concepções filosóficas escolásticas oriundas da minha formação familiar, dentre elas a formação metodista e sua exacerbação da honestidade, que me rendia um conflito permanente com o mundo católico brasileiro, que perdoa todas as iniqüidades após uma simples confissão a um padre.
     Essas experiências (e incongruências) foram expressas no livro Contracorrenteza, onde expus vivências pessoais, me colocando no centro da crítica e expondo as entranhas do processo vivido, a perplexidade final e a falta de rumos.
     Hoje vejo, que à luz da teoria de Gramsci, tudo que fiz, inclusive os livros, se insere nesta prática de busca da liberdade, só que de forma inconsciente. Eu estava no caminho certo, mas não tinha segurança nenhuma, faltava uma luz, e tinha todos contra mim, à direita e à esquerda, a família, os colegas de profissão e os poucos amigos que compartilhavam meu caminho também eram incapazes de formular politicamente aquela prática intuitiva.
     Minhas andanças e trabalhos pelo Brasil e também por outros países, faziam parte de uma lógica que podia ser resumida assim: já que não há um caminho a seguir, vamos aprender com a vida, trabalhando do jeito que for possível, aprendendo com a adversidade.
     Esse impulso foi cessando a partir de 1997, após a viagem a Cuba, que acentuou tremendamente meu desencanto com as idéias ortodoxas, mas não arrefeceu completamente meu ímpeto de lutar politicamente, embora eu não soubesse como fazê-lo, quando todos os caminhos pareciam fechados, numa década de triunfo global do capitalismo.
     No ano 2000 lancei dois textos; o ensaio sobre marxismo intitulado Uma Nova Agenda para a Esquerda e o livreto de poesias Uma Lágrima para Ilhéus. No primeiro fiz um esforço para refletir sobre as inconsistências dos partidos de esquerda no Brasil (mais uma vez) e no segundo, um relato poético do período vivido em Ilhéus, dividido em três tempos: Tempo de Luta, Tempo de Solidão e Tempo de Adeus, que se referem justamente ao tempo de luta política no PT, entre 1987 e 1990, ao isolamento, quando retornei a Ilhéus em 1994 sem nenhuma perspectiva de trabalho político (e tempo também do mestrado) e a preparação para sair, não só de Ilhéus, mas para encerrar todo aquele período e tentar inaugurar um nova era na minha vida.
     Todos eles partem de observações críticas da realidade, mas no ensaio político, formulo a hipótese de que o marxismo como teoria generalista é um erro e que o método deveria ser aplicado sempre do particular para o geral, como ferramenta de construção da consciência política.
     Depois, com o entendimento de Gramsci, passei a ver que não se tratava apenas de construir consciências ou práticas políticas, mas uma cultura ampla e crítica. Uma cultura que não se contente com saberes segmentados, propícios ao mercado de trabalho, mas que busque a compreensão do universo e de todos os seus mecanismos. Uma cultura abrangente, lúcida, na qual o participante se sinta dono da capacidade de conhecer e entender o mundo, liberto das verdades fixas das igrejas, da escola, dos partidos, do capital e da mídia a seu serviço. A cultura da observação crítica da realidade objetiva dentro de uma prática diária de libertação.
     A partir de 2003 comecei a escrever uma coluna no jornal Tribuna do Sertão, de Brumado, onde expunha meus pontos de vista, às vezes sobre questões políticas, às vezes sobre fatos do cotidiano, sempre de um ponto de vista crítico. Acho que através da coluna consegui continuar formando opiniões e cultivando uma forma de livre-pensar, numa população marcada pela opinião conservadora das oligarquias rurais.
     Depois, à partir de 30 de dezembro de 2007, comecei a escrever este blog e lancei minha primeira ficção, Estação Paraíso, também em dezembro de 2007, na qual procurei questionar a concepção da pré-história americana, à serviço dos interesses norte-americanos. Finalmente, em 2011, publiquei Escola, Espaço e Discurso, à partir de um curso de especialização em linguística e do meu trabalho junto ao Ministério da Educação, especialmente no Pradime, Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educação.
     Quando compreendi que minha postura estava correta, senti que me faltava dar organicidade a ela, ou seja, integrá-la a um objetivo claro. Esse objetivo não precisava se realizar dentro de um partido político (e isso seria impossível hoje no Brasil), mas poderia ser um objetivo humanitário, ecológico, ou profissional.
     Essa consciência me recolocou no centro dos acontecimentos. Senti que podia participar ativamente, mesmo em meios com os quais não concordasse, sem ter que me intimidar por não encontrar apoio em um pensamento consagrado. Podia atuar individualmente junto a qualquer grupo onde estivesse participando, sem ter que aderir ou repudiar suas práticas. A participação consciente e crítica permite sempre um significado político libertador.
     As universidades brasileiras são conservadoras, mas não são donas do conhecimento científico (e nem tem uma produção significativa). Aprendi que podia entrar lá, me servir do conhecimento e das ferramentas que precisava, sair e desenvolver minha própria prática.
     Meus questionamentos forjaram em mim essa atitude de quem, apesar de perdido e isolado, nunca fez o caminho de volta, não por falta de oportunidade, mas simplesmente porque não podia.
     Esse é um caminho interior, uma coisa à qual não se pode fugir. É como escrever: uma necessidade
     Mas o melhor de tudo foi descobrir que não estou sozinho, que como eu, milhares de outros, também foram abrindo seus caminhos, embora se sentissem isolados e impedidos de se manifestar, e só com a internet e as redes sociais isso foi ficando nítido.
     Sobre essa dificuldade em abrir caminhos eu poderia citar Che Guevara, com seu clássico caminante no hay camino, se hace camino al andar, mas achei algo semelhante e mais interessante em José de Alencar, nos seus comentários posteriores à primeira edição de Iracema, de 1865. Dizia ele:

     Ao guia, chamavam os indígenas, senhor do caminho, "piguara". A beleza da expressão selvagem em sua tradução literal e etimológica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo próprio, "couab", porque essa frase não exprimiria a energia do seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é coisa de saber; faz-se na ocasião da marcha através da floresta ou do campo, e em certa direção; aquele que o tem e o dá é realmente o senhor do caminho.

     Assim, embora não conhecesse o caminho, eu estava na direção certa, e com muitos avanços e recuos, erros e acertos, às vezes com clareza, às vezes na mais completa escuridão, eu soube continuar avançando. Nunca fui um verdadeiro senhor do caminho, por não ter claro um objetivo, mas entender que havia um sentido nos meus esforços já é uma recompensa imensa.
     Chego agora, finalmente, a uma formulação de como agir, com a fundação de uma editora própria, que atuará no espaço virtual e será a continuação de tudo isso, livros, artigos, blog, e que pretende oferecer espaço a todos que, como eu, se sintam excluídos da possibilidade de se expressar, por não aceitarem as verdades estabelecidas pelo capital e pela cultura dominante.
     Sinto que estou novamente em campo para contribuir na construção de um futuro melhor e convido desde já a todos os livres pensadores a se incorporarem a essa empreitada.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza



domingo, 19 de fevereiro de 2012

Rapidinhas
O ceará de Alencar


 
     Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
     Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as
     alvas praias ensombradas de coqueiros;
     Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso
     resvale à flor das águas.
     Onde vai a afoita jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande
     vela?

     Iracema, José de Alencar.
     (primeiro parágrafo do primeiro capítulo)

    Passando o carnaval em Fortaleza, aproveitei para ler Iracema, o pequeno e mais famoso romance de José de Alencar, que é muito cultuado por aqui. O que impressiona no texto é a sua prosa-poética, muito bonita. Romântico, Alencar idealizava os indígenas e o próprio colonizador português, tornando-os pessoas nobres e gentis. Mas o mais interessante são as descrições da terra, e as explicações para os nomes indígenas das cidades e acidentes geográficos, que sobrevivem até hoje. O livro é de 1865.
     Fui obrigado a ler José de Alencar e Machado de Assis na escola e detestei. Só depois dos 30 anos me senti capaz de apreciar sua literatura. Os professores do ensino fundamental e médio não deviam dar esses livros para seus alunos lerem, pois exigem uma maturidade que os jovens não tem.

Triste Honduras

     A falsa democracia hondurenha, fruto de um golpe de estado apoiado pelos Estados Unidos, acaba de propiciar ao mundo mais um espetáculo horrendo de desrespeito aos direitos humanos, com o incêndio na prisão de Comayagua, onde morreram queimados vivos mais de 350 presos, impedidos pelos guardas de deixarem suas celas para salvarem suas vidas.
     Se fosse em Cuba ou na Venezuela o escândalo seria grande na imprensa direitista, mas na ditadura hondurenha, criada e financiada pelos americanos, ninguém condena. Tratam o assunto como se fosse um simples acidente.

As Malvinas e o velho colonialismo

     Os argumentos britânicos para manter a ocupação ilegal das ilhas Malvinas, Orcadas do Sul, Geórgia do Sul e Sandwich do sul (todas pertencentes ao arquipélago das Malvinas), não passam de uma extensão do velho colonialismo europeu. Dizer que a população das ilhas quer continuar a ser inglesa é fingir desconhecer que a população original argentina foi toda deportada, quando da invasão no século XIX e teve suas propriedades roubadas pelos ingleses.
     Para ser justo, o certo era fazer o mesmo com a população atual. Simplesmente mandá-la de volta para a Inglaterra, de onde vieram seus avós, para substituir os argentinos. Mas como estamos em outros tempos, ninguém defende que se repita com os atuais habitantes, a violência feita contra os argentinos.
     A própria presidente Cristina Kirchner já falou que eles podem continuar a ser ingleses, numa administração argentina, e que suas propriedades e cultura seriam respeitadas, dando ao arquipélago um estatuto especial, com mais autonomia em relação às demais províncias do país. A posição unânime dos países da América Latina isolando as ilhas, foi um golpe na política ridícula de manter uma colônia a 13.000 Km da metrópole, cujo objetivo é claramente o de manter uma posição estratégica militar no atlântico sul e também o de roubar o petróleo argentino.
     O Brasil deveria também reivindicar a soberania sobre a ilha de Ascenção, roubada dos portugueses pelos ingleses em 1815, situada em frente ao nosso território, assim como a África do Sul sobre as ilhas de Santa Helena, Tristão da Cunha e Gonçalo Alvares (Gough Island), que pertenciam à província do Cabo antes da independência sul-africana, acabando logo com os últimos vestígios do velho império colonial. O atlântico sul deve ser controlado pelos países que o margeiam e não por antigas potências coloniais européias.
     À propósito, a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) deveria encaminhar ao comitê de descolonização da ONU a situação da Guiana Francesa, uma colônia encravada no continente sul-americano. Sem dúvida uma aberração geopolítica em pleno século XXI.



A arte da guerra


     O livro A Arte da Guerra, de Sun Tzu (pronuncia-se Sunzi), foi escrito provavelmente entre os anos 481 e 221 A.C. Tem, portanto, mais de 2.000 anos, mas continua muito atual, pois não trata apenas de estratégias militares e sim de como lidar com pessoas em situações de conflito.
     Talvez por isto tem servido de manual para empresários e políticos de todo o mundo, que o usam para conseguir suas vitórias nos ambientes competitivos em que vivem, especialmente no universo corporativo.
     O texto não é muito longo e não insiste muito em temas estritamente militares, mas é um verdadeiro manual de liderança, de como enfrentar situações adversas e, claro, de como vencer nessas circunstâncias.
     Apesar de curto, não é um livro que se deva ler rapidamente, pois exige reflexão, para poder ser absorvido. É como ler um livro de poesia. Lê-se uma e espera-se que as palavras tenham efeito sobre nós.
     Para quem tem o hábito da reflexão e da postura zen, é ler e esperar que o cérebro faça as ligações necessárias à partir das palavras de Sunzi, que vai abrindo caminhos novos para nosso pensamento através de seus ensinamentos simples e profundos.
     Ao ler pode-se achar que tudo é muito óbvio, mas ao final percebe-se que as questões de estratégia ficaram mais claras e mais fáceis, como se a gente fosse se tornando íntimo do assunto.
     A edição a que tive acesso, da Editora Jardim dos Livros, (São Paulo, 2011), tem uma tradução de André da Silva Bueno, direto do chinês, que nos brinda também com a história do livro, situando-o no contexto em que foi escrito.
     A obra original, que Bueno diz preservar na sua integridade, tem 13 capítulos: I- Avaliações,
II- O Combate, III- Estratégia de Ataque, IV- Preparação, V- Propensão, VI - O Cheio e o Vazio, VII - Manobras, VIII - As Nove Mudanças, IX - Sobre a Movimentação, X- O Terreno, XI - Os Nove territórios, XII - Ataque com fogo e XIII- O Uso de Espiões.
     Separei alguns trechos aqui, para que o leitor tenha uma idéia do tipo de ensinamentos que esse texto, tão antigo, nos traz:

     A Lei da Guerra se baseia no engano. Finja ser incapaz quando puder atacar e ser capaz quando não puder. Se está longe, pareça estar perto, se perto, pareça estar longe.
     Use iscas para atrair o inimigo.
     Ataque o inimigo quando ele está em desordem; evite-o quando ele está forte; irrite-o fazendo confusão, estimule sua arrogância simulando fraqueza.

     O que destrói o inimigo é a raiva.

     Os que são hábeis na Lei da Guerra fazem o inimigo se mover segundo sua vontade, criando situações desvantajosas para ele. Atraem-no com ilusões de vitória e o emboscam numa armadilha fatal.

     A perfeição de um exército occorre quando ele simplesmente parece não existir, e sua forma é incompreensível. Os espiões não o entenderão e os estrategistas não poderão fazer planos contra ele.

     Não suponha que o inimigo não virá, esteja pronto para recebê-lo. Torne-se invencível.

     Emissários inimigos com palavras doces e humildes estão se preparando para o ataque; emissários inimigos ríspidos e agressivos estão se preparando para fugir; emissários com justificativas razoáveis pretendem negociar.

     Um bom general avança sem desejar a glória, e se retira sem temer os castigos. Seu desejo é, apenas, o de proteger o povo e cuidar do soberano. Um general assim é um bem precioso para o Estado.

     A diferença desse texto para "O Príncipe", é que ele propõe uma estratégia que beneficie o Estado e o povo e não apenas o governante, como na obra de Maquiavel.
     Um livro para ler e refletir.



     

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Rapidinhas
Você conhece esse olhar?

     

É impressionante, mas a foto à esquerda é de Ayrton Senna e a da direita a de Bruno Senna.
         Dentro do capacete parecem a mesma pessoa. O olhar é o mesmo.
         Parece que o tio baixou no sobrinho, para reviver suas glórias no automobilismo.
         Isso me recorda uma entrevista de Ayrton que assisti, em que ele afirmava que depois de algumas voltas nos circuitos que disputava, se sentia entrando numa espécie de túnel, onde o tempo passava mais devagar e ele não via nem os adversários, nem a platéia, como se estivesse em outra dimensão.
         Parece que seu fantasma voltou para assombrar os pilotos do mundo inteiro, principalmente alguns alemães, que só conseguiram se sobressair depois da sua morte nunca explicada.
Adeus Whitney


     Mais uma voz fantástica nos deixa, depois de confusões com drogas e remédios.
     A vida dos astros da música parece ser cheia desses altos e baixos. Para quem olha de fora é só glamour e fama, mas a realidade do trabalho deles é o stress e a dificuldade em harmonizar  a vida particular com a profissional.
     Vai fazer muita falta Whitney Houston, essa verdadeira diva da música americana.


A Grécia em pé de guerra


     A governança européia ultrapassou todos os limites do bom senso, exigindo do governo grego mais 150.000 demissões, num país que já conta com 21% de desemprego, além da diminuição do salário mínimo, diminuição de aposentadorias e cortes de pensões, entre outros absurdos. Estão jogando o povo grego na miséria para salvar alguns bancos.
     A situação beira o descontrole e as perspectivas são de rebelião civil contra a "troika" integrada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), além dos partidos políticos tradicionais. A insensibilidade  dos políticos conservadores europeus, Angela Merkel à frente, só coloca mais lenha na fogueira das manifestações anti-capitalistas que se espalham pelo mundo.
     Pelo jeito os maias tinham razão: o mundo que conhecemos está prestes a acabar.


     Em apenas 5 meses pulamos de 10 para 15.000 acessos. Isso é uma recompensa enorme aos esforços para manter atualizado esse espaço de reflexão e notícia. Obrigado amigos.
V chega ao Brasil

     Pois é, queridos amigos, custou mas o movimento anti-capitalista global (cujo maior símbolo é a máscara do personagem do filme V de Vingança)  chegou ao Brasil e da forma mais inusitada, através das greves de policiais.
     A incapacidade dos governos da coalizão governista em dialogar com o movimento grevista, aliada ao territorismo midiático da TV Globo, em sua eterna campanha contra as greves, produziram algumas jóias do pensamento fascista, entre elas a acusação ao bombeiro carioca, de estar incitando a greve, como se fosse um crime um dirigente sindical fazer isso. Outra foi a acusação à deputada do Psol de estar orientando o mesmo dirigente sobre como agir para reforçar o movimento grevista, como se fosse um crime um partido de esquerda apoiar uma greve (e foi triste ver a deputada na defensiva ao invés de reafirmar seu direito de apoiar os grevistas).
     É a criminalização dos movimentos sociais voltando com toda força, em defesa dos interesses dos donos do capital.
     A violência com que os governos tem reprimido manifestações pacíficas pelo Brasil mostra que PT e PSDB realmente trilham o mesmo caminho, e que as disputas entre esses dois partidos se tornaram apenas cosméticas. Ambos defendem o controle do capital sobre nossa sociedade em detrimento dos direitos dos cidadãos, expressos na nossa Constituição. 
     A absurda desocupação do Pinheirinho, a polícia no campus da USP, a repressão violenta aos estudantes capixabas que protestavam contra o aumento de passagens em Vitória e outros episódios tristes, mostram qual o resultado da política de alianças do PT com a direita, a fim de se consolidar no poder. O PSDB, que se proclama social-democrata, já trilhou este caminho há muito tempo, fechando com a velha direita para conseguir governabilidade.
     O projeto deles (e quem são eles?) é criar um sistema bi-partidário, ao estilo norte-americano, em que ambos os partidos defendem o capitalismo, com algumas diferenças. As nuances estão na ênfase do PT ao controle do capital nacional, priorizando o mercado interno, enquanto o PSDB quer entregar tudo ao capital internacional, dentro da velha proposta neoliberal. Além disso, aqui, como em muitas partes do mundo, agora tentam censurar a internet, um espaço que se tornou realmente democrático e passou a ter um papel importante na manifestação e mobilização dos povos de todo o planeta.
     Agora Lula manda às favas a história do PT em São Paulo e se junta à direita mais abjeta para expulsar o PSDB do poder. Ótimo, mas qual será a verdadeira mudança? O que o povo ganhará com isso?
     O que vai ficando cada dia mais evidente é o controle da nossa sociedade por um grupo  reduzido de pessoas, em detrimento do nosso povo. A renda aumentou? O consumo vem melhorando? Muito bem, mas e nossa democracia, conquistada com tanto sangue e suor? Ela vai sendo vendida na bacia das almas em troca de bugingangas, carros, eletrodomésticos e outros bens supérfluos, enquanto nosso bem maior, que é a liberdade está sendo ameaçado por projetos de poder, que não tem mais ideologia, mas representam apenas grupos de interesses que lutam por benefícios.
     São muitos os sinais de que a estrutura do poder está apodrecendo. Juízes que se recusam a ser investigados e abrir suas contas, um sem fim de ministros corruptos, que acham que podem roubar à vontade e o máximo que lhes acontece é perder os cargos, sem ter que devolver nada nem ir para a cadeia.
     A própria greve dos policiais revelou um aspecto tenebroso da nossa sociedade: sem polícia nas ruas nos sentimos órfãos. E porque? Porque nossa sociedade está cada dia mais violenta.
     É um vale-tudo para conseguir dinheiro e bens, para ficar rico e usufruir de bens materiais e ao diabo com os princípios morais.
     Mas o Brasil agora é a sexta economia do planeta! Muito bem. Parece que voltamos ao tempo do ditador Garrastazu Médici, do milagre brasileiro e do Brasil Grande, só que em vez de ditadura temos um arremedo de democracia cada vez mais podre.
     Pude ter um bom exemplo do que está acontecendo esta semana, quando em visita a minha pequena Rio de Contas recebi várias queixas de militantes do PT de que um dirigente do partido está oferecendo a legenda aos coronéis da região, em troca de futuros cargos no governo. Eles se declaram chocados com a situação. Mas não tinham visto ainda o que estava acontecendo? Só quando a desgraça bateu à sua porta se deram conta do nível de descomprometimento desse partido com seus proclamados ideais?
     Quando saí do PT em 1990 e publiquei o livro Contracorrenteza em 1993, eu já denunciava os desvios no Partido e prenunciava o que haveria de vir. Hoje dizem que fui profético, mas eu digo que eles é que foram crédulos e se recusaram a ver o que estava diante dos seus olhos.
     O PT fez muitas coisas boas no Brasil, mas seu manancial de propostas se esgotou. Virou um partido desenvolvimentista, que tem medo do povo e não tem propostas para os principais desafios que estão à nossa frente, como a questão do meio ambiente, do desenvolvimento sustentável e de uma democracia realmente participativa, onde o povo não apenas eleja quem vai administrar a máquina do governo, mas controle a própria economia da nação, obrigando governo e empresas a se submeterem ao interesse de cada um e de todos.
     A última grande diferença entre PT e PSDB foi ao chão com a privatização dos aeroportos. Agora ficaram quase iguais, só que um é azul e o outro é vermelho.
     Pois é, amigos leitores, o sonho acabou e está na hora de arregaçar as mangas e lutar outra vez, acreditando que um outro mundo é possível.