Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

sábado, 15 de maio de 2010

Entrepartidas: o teatro do concreto

Prezados amigos leitores.

     Uma emergência me trouxe a Brasília, onde estou há uma semana, e me deu a oportunidade de participar (mais do que assistir) à peça Entrepartidas, encenada pelo grupo Teatro do Concreto.
     A peça tem como característica principal a de ser encenada nas ruas, praças e bairros da cidade. O espectador entra num ônibus, que parte da rodoviária do Plano Piloto (de onde saem os ônibus urbanos) que o leva à uma praça na W-3 sul , depois a uma casa de onde se volta caminhando à praça.
     Nesses locais se desenvolvem várias histórias de pessoas que vivem ou passam pela cidade, sempre focando amor, solidão, perdas...
     O ônibus também funciona como palco pois na medida em que se desloca pela cidade, vai dando carona a alguns personagens que vão também contando suas histórias para o motorista (também um ator) e para os passageiros (o público).
     Ao contrário de outras peças que interagem com o público, as atuações não são agressivas, nem fazem brincadeiras com os espectadores para constrangê-los, mas muito serenas, tranquilas, comuns mesmo, embora as histórias que retratem estejam cheias de paixão e dor.
     Ao longo do trajeto alguns atores fazem performances que vão dando recados aos passageiros sobre os assuntos que são tema da peça. Numa esquina um mulher cheira uma enorme flor e dança pelas ruas. Em outra um vulto de mulher coberto por um véu negro arrasta um terno masculino e uma roupa de noiva pelo chão, assustando pedestres e desavisados. Mais adiante um homem com um cartaz no semáforo avisa: lavo, passo e dou carinho, enquanto uma jovem abraça ternamente um grande bicho de pelúcia.
     Antes da partida, ainda na rodoviária, um homem sem camisa, vestido com uma saia de ballet branca, com sapatos de salto alto, faz evoluções acrobáticas e fala coisas sobre a vida. Ele se mantém ao longe em quase todas as cenas de rua.
     Nas cenas dentro da casa, onde se chega após caminhar por dentro de uma quadra residencial, momentos de paixão, dor, separação e solidão, falam das limitações e misérias da alma humana e falam também, muito, de amor.
     A peruana que procura a mãe, em vão, na cidade que ela abandonou há muitos anos, o menino de rua que se apaixona por uma mulher e aprende a cantar para conquistá-la, a mulher que decide se libertar através da poesia e parte sem rumo, a mulher solitária em casa, onde recebe o público em sua cozinha, oferecendo chá e bolo de verdade, numa atuação impressionante, muito próxima ao público, interagindo com ele, mas se mantendo sempre na distância que seu papel exige, são alguns personagens que vão revelando a Brasília humana por trás da arquitetura e dos imensos parques públicos do Plano Piloto.
     Ao final, quando caminhamos para a última praça, uma cena, meio ao longe, me impressionou e emocionou muito. Uma mulher está na quadra de esportes, em posição de goleiro e há uma bola parada no meio. Ela grita: chuta Mateus, chuta! Eu estou aqui!, mas não há nenhuma criança para chutar a bola. Por fim ela senta e chora, encostada a uma das traves. Sem dúvida uma alegoria cruel sobre a perda de um filho.
     Entrepartidas me evocou coisas longínquas do tempo da minha juventude em Brasília. Me lembrou como os espaços abertos da cidade desenhada por Lúcio Costa estimulam a libertação mental e física dos seus habitantes, especialmente dos jovens que ainda não tem seu tempo totalmente comprometido com atividades competitivas e com sonhos de construir/adquirir coisas materiais.
     Me lembrou como a cidade do planalto faz as pessoas olharem para si mesmas de um modo diferente, livre de tradições, e coloca dúvidas e anseios diferentes nos seus habitantes, que se sentem capazes de construir algo de novo em territórios virgens, como foi construída esta capital, já cinquentona.
     Entrepartidas já é algo de novo. Uma experiência marcante para que participa dela.
     Para conferir a ficha técnica e ver mais fotos e depoimentos, assim como outros trabalhos do grupo, visite o site http://www.teatrodoconcreto.com.br/

Abraço a todos

Ricardo Stumpf


      


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Rapidinhas

Quem é baderneiro?    

     A polícia de José Serra continua matando.
     Pra quem idolatra o PSDB e suas velhas propostas neoliberais, aconselho dar uma olhada em como o Estado de São Paulo, sob comando dos emplumados tucanos, trata o povo.
     Os professores são tratados como bandidos e suas manifestações são reprimidas à bala e cacetete pela polícia tucana, sob pretexto de que seriam baderneiros.
     Esse adjetivo é sempre usado pela direita quando quer desqualificar um protesto popular. É bom lembrar que a greve é um direito legítimo dos trabalhadores, amparado pela Constituição Federal. Lutar por direitos e por melhoria de vida não é fazer baderna. Na verdade quem arma a confusão é sempre a polícia, como fez na saída do estádio do Pacaembú quando atacou as torcidas do Flamengo e do Coríntians.
     As torcidas são violentas? Não necessariamente.
     Existem pessoas e grupos violentos nas torcidas, que precisam ser identificados e presos e não atacar todo mundo, inclusive mulheres e crianças que iam saindo do estádio.
     O elitismo tucano ataca também os motoboys. Dois foram assassinados recentemente por policiais, sendo que o último na frente de sua mãe, no dia das mães, por andar com uma moto sem placa.
     O fato é que há um preconceito herdado do século XIX, mas ainda presente nas nossas elites mais atrasadas, de que as classes trabalhadoras são classes perigosas, porque se organizam para fazer greves e agitações políticas e também porque são pobres, deseducadas e vistas pela burguesia como fonte de todos os vícios e maus hábitos. É claro que esse preconceito está sendo transmitido para a polícia, pelo governo paulista.
     Esse tipo de atitude não decorre de erros, que se resolvam com pedidos de desculpas, mas dá pra identificar um padrão na violência policial, baseado no elitismo Tucano. Já pensou em como seria o Brasil governado por essa gente? Do que seria capaz uma Polícia Federal, perseguindo pobres, negros e trabalhadores pelo Brasil afora?
     Acho que já tivemos bastante disso na ditadura.

O futuro da Igreja Católica

     Quando a gente dizia que a Igreja Católica era hipócrita, vinham com um monte de reprimendas, de que isso era preconceito, etc e tal. Agora está aí, desmascarado o escândalo. Séculos de violência sexual nas escolas e conventos, ocultos pela hipocrisia de padres, bispos e papas.
     Um segredo de polichinelo. Todo mundo sabia, mas ninguém podia falar nada.
     As vítimas agora estão tomando coragem, vencendo a vergonha e o preconceito e o escândalo não para de crescer.
     Por trás do discurso preconceituoso contra os homossexuais, todo mundo sabe que a maioria dos padres é homossexual e pratica o sexo dentro e fora das igrejas. A pedofilia vem dos hábitos solitários de padres e freiras e do contato diário com jovens e crianças de ambos os sexos, nos orfanatos e nas escolas onde os pequenos ficam indefesos diante dos que deviam cuidar deles.
     O discurso hipócrita do celibato, que todos sabem que é uma mentira, apenas serve para encobrir as taras desenvolvidas por aqueles que são proibidos de viver uma sexualidade sadia, através de casamentos que lhes proporcionem uma vida sexo-afetiva que todo ser humano precisa para ser feliz e equilibrado.
     Mas esta igreja está emparedada em seus dogmas e preconceitos e parece incapaz de se reformar, principalmente com este papa, que já pertenceu a juventude hitlerista (nazista) quando era ainda um rapaz.
     Respeito muito a fé de qualquer pessoa, o que inclui os católicos. O que não respeito são as instituições humanas, que procuram se mascarar de divinas, para esconder ambições de riqueza e poder.

O medo de Dunga

     Pois é, meus amigos, nosso técnico optou pela cautela em oposição à ousadia. Preferiu uma seleção de atletas na casa dos trinta, já provados e testados em detrimento das revelações jovens e ainda indisciplinadas, mais difíceis de controlar.
     É o caso de se pensar se controle demais, cautela demais, não acaba sendo uma espécie de retranca prévia, um medo de avançar e arriscar.
     Se for assim, tudo bem que nossos craques trintões são excelentes, mas nos arriscamos a ter um desempenho medroso, talvez buscando mais preservar o que já foi conquistado em termos de fama e respeito, do que avançar para novas conquistas.
     Quem sabe no decorrer da copa, Dunga perca esse medo e solte as feras em campo, lembrando a famosa frase de João Saldanha, quando disse que queria onze feras em campo, daí o apelido de "feras do Saldanha", para a seleção de 70 (que Zagalo já recebeu prontinha, por interferência do ditador Emílio Médici, que não queria que o comunista João Saldanha levasse os méritos de campeão do mundo).
     Coragem Dunga, solte as feras do Santos na África do Sul!

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sábado, 8 de maio de 2010

     

     Histórias de outras vidas (10)

     O MAR DA VARANDA



     O ano era 1998, a cidade: Ilhéus.
     Foi um ano difícil, como costumam ser os anos pares para mim. Em agosto defendi minha dissertação de mestrado, em Salvador, me libertando do laço mais forte que me prendia ali (meu estudo de caso era Ilhéus), mas minha casa ainda estava lá e meus filhos pequenos, que moravam comigo, ainda tinham alguns meses até o fim do ano na escola.
     Há muito eu já vinha me preparando para partir. Muitas lutas políticas, que resultaram até em ameaças de morte e algumas desilusões pessoais, selaram definitivamente o meu rompimento com aquela cidade, para a qual dediquei um livro de poesias: Uma Lágrima para Ilhéus.
     Uma vez, ao me preparar para atravessar a rua com os meninos em frente ao colégio,  um carro parou ao meu lado e dele saiu um sujeito corpulento, uns 40 anos. Apontou para eles, primeiro um, depois o outro, e fez um sinal de faca na garganta, depois entrou no carro e saiu cantando os pneus.
     Poucos dias depois, um tipo meio soturno entrou na minha lojinha de xerox, no bairro do Pontal e pediu cópias de seu cartão bancário e de sua identidade. Achei estranho, ninguém tira cópias de cartão de banco. Enquanto eu atendia o pedido ele manuseava uma máquina fotográfica e de repente... um flash.
     Olhei para ele.
     _Ah, disparou, desculpe...
     Já desconfiado continuei e de novo outro flash. Aí encarei o problema:
     _Você está tirando fotos de mim, afirmei.
     _O que você quer? Quem é você?
     O cara ficou nervoso.
     _Vou ficar com a cópia da sua identidade, disse eu.
     Ele se levantou e tentou tirar a cópia da minha mão. Consegui desviar. Ele pegou os documentos e saiu correndo.
     Desse dia em diante a situação ficou muito difícil, porque vivíamos num condomínio na beira da praia, cuja construção ainda estava no final, e éramos os únicos moradores. Não havia ainda cercas e apenas o vigia da obra dava umas voltas de vez em quando, preocupado mais com os materiais de construção.
     À noite, depois que os meninos adormeciam, carregava o dois para a minha cama e ficava na varanda vigiando. Antes que as primeiras luzes do dia aparecessem no horizonte eu os colocava novamente em suas camas, para que eles não percebessem minhas preocupações. Então dormia um pouco, entre 5 e 7 horas da manhã.
      Andava exausto, cansado de tudo aquilo. Nos finais de semana, às vezes, dormia de dia, enquanto os meninos iam para a praia com os amigos fazer o que eles chamavam de excursões de bicicleta.
     Passei a ficar muito tempo na varanda, vigiando durante à noite e cuidando de observá-los de longe durante o dia. Não agüentava mais ler depois do esforço do mestrado e só queria esvaziar a cabeça e descansar.
     Então comecei a olhar o mar.
     O oceano estava ali em frente, imenso. Há anos eu morava ali e nunca tinha parado para olhar o mar, pelo menos não do jeito que comecei a olhar. Comecei a perceber que eu olhava apenas a praia. Sim, a praia é uma coisa e o mar, lá dentro, lá no fundo, é outra.
     Passei a ficar horas admirando aquelas ondas imensas que se formavam longe da costa e comecei a tomar consciência da imensidão, das profundezas, do potencial de toda aquela água.
     E se aquilo tudo se levantasse contra nós? E se viesse nos arrastar? E se fossemos lá, como seria? O que seria a vida nas profundezas, que mistérios se escondiam sob aquele deserto líquido? Como podíamos viver à beira de uma coisa tão grande e desconhecida sem nos inquietarmos?
     Por aqueles dias conheci um homem que havia caído de um barco de pesca e que agora era entregador em um caminhão. Seu colega me disse que ele nem chegava mais perto da praia.
     Não resisti e perguntei. Ele contou que era um pescador experiente e um dia, numa tempestade, caiu do barco de pesca e ficou 10 dias à deriva no mar, sozinho, sem uma tábua para se agarrar.
     Como não se afogou?
     Meio constrangido ele me disse que não sabia, apenas lutou pela vida procurando boiar. Passou fome e sede, dormia boiando mas às vezes era despertado, no escuro, por animais enormes passando junto dele, coisas que ele nem soube reconhecer.
     Dez dias depois foi resgatado.
     Sua história me impressionou e o medo que ele demonstrava do mar mais ainda.
     Eu admirava as extraordinárias mudanças naquela enorme massa líquida que variava de cor, movimento e volume com as mudanças do tempo, a lua e as marés.
     Nos dias de chuva e vento, quando se tornava cinza e violento, eu também mudava de humor. Ficava mais melancólico, mais sonhador, conformado em esperar passar aqueles meses para poder sair dali. E quanto mais olhava o mar, mais coisas surgiam. Dei pra fazer pesquisas na internet sobre o fundo dos oceanos e descobri coisas interessantes.
     Descobri a imensa cordilheira submersa que divide o Oceano Atlântico, de norte a sul, e que muitas ilhas são picos dessa imensa massa de montanhas submersa. Descobri que a ilha de Santa Helena, onde morreu Napoleão, fica em frente a Ilhéus, no meio do oceano e também que o movimento das águas molda as montanhas submersas, tornando-as roliças e pontiagudas.
     Um almirante aposentado, que freqüentava minha xerox para copiar livros, me explicou que a plataforma submarina ali é a menor da América do Sul, tendo apenas 3 Km em média, e que no seu limite havia um enorme paredão onde os submarinos inimigos se encostavam durante a segunda guerra, quietinhos, para emboscar os navios brasileiros que passavam para a Europa.
     Ilhéus tem muitas histórias de guerra relacionadas ao mar.
     Ele contou que após o paredão havia uma profundeza abissal de 5 km, que ainda estava sendo mapeada.
     Cada descoberta ia me revelando um mundo novo e eu olhava para as pessoas na praia aos domingos, crianças brincando, velhos passeando, totalmente alheios àquele universo fantástico em cuja fronteira vivíamos. Sim, a praia era apenas a borda daquele mundo gigantesco e desconhecido.
     Olhar o mar e perceber a extensão dos seus mistérios me ajudou a enfrentar aqueles dias tão difíceis, até que finalmente chegou o fim do ano. Em dezembro já estávamos em Vitória da Conquista.
     As lutas políticas que tanto me desgastaram em Ilhéus pareciam que nunca dariam resultado e que haviam sido apenas uma perda de tempo e energia para mim e tantos outros que lutaram, mas as sementes lançadas frutificaram.
     Hoje Ilhéus e a Bahia tem governos democráticos e continuo frequentando o mesmo apartamento e a mesma praia. O mar continua lá, imenso, misterioso, insondável e, às vezes, olhando aquele universo estranho parece que ele está me dizendo que não basta chegar até a praia, é preciso mergulhar nos mistérios do mundo se queremos mudar alguma coisa.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sexta-feira, 7 de maio de 2010



Sementes

   



   Pois é, amigos leitores

     Confesso meu cansaço.
     Tenho transformado este blog numa trincheira, de onde luto pelas coisas que acredito e me protejo das tristezas deste mundo. Também é aqui que lavo minha alma e reflito sobre as coisas da vida. Mas o que mais me derrota é a traição e a covardia, disfarçadas de ingenuidade e de esperteza. O espírito mesquinho triunfa em meio à mediocridade, que é o seu mar, são as águas por onde navega, e precisa deste meio para sobreviver, mas neste mundo não lhe falta oxigênio.
     No fundo é uma luta entre amor e incapacidade de amar, entre a criação e aqueles que odeiam os criadores, porque se sentem incapazes de criar. É uma luta entre os que fazem e os que roubam as suas idéias para se sentirem importantes, numa forma de mentir para eles mesmos e ocultar sua miséria interior.
     Mas a criação e o amor sempre se impõe, como o capim que nasce na terra calcinada pelo fogo. É a vida com toda a sua força, que teima em renascer nos nossos corações, das sementes plantadas pelo vento e pela força divina que existe em cada um de nós.
     Então, quando vejo só tristeza à minha volta, olha para as montanhas, procuro me alimentar de natureza e de sonhos, ouço a algazarra dos jovens e o latido dos cães, vejo a paixão nos olhos dos namorados, sinto a força da vida na criança que chora e no pássaro que pousa no fio e percebo que meu mundo é apenas uma gota no oceano do universo e que a tristeza não tem importância, porque a vida seguirá e as coisas que os criadores fizerem permanecerão e a história dos mesquinhos desaparecerá e que eles não conseguirão deter a marcha da vida transbordante.
     Recupero então minha esperança e volto a olhar para a frente, traçando meu rumo, dentro das poucas possibilidades que temos de escolher rumos, e aceitando os fardos que escolhemos carregar.
     E assim me conecto novamente à vida e volto a semear e a colher, mesmo sabendo que lá atrás alguns virão tentando destruir as sementes lançadas à terra. Não conseguirão extirpar todas e, como sempre acontece na história humana, algumas florescerão e abençoarão com seus frutos a existência dos que virão.
     E é nesse renascer que lavo meu cansaço, como quem lava roupa suja, e renasço das cinzas da descrença, me lançando com alegria na vida e no dia que começa.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quarta-feira, 5 de maio de 2010



Rapidinhas

    




Duetos    

     Gente, o novo CD de Zé Ramalho, Duetos, está muito bonito.
     Especialmente a faixa 2, onde ele canta com Ivete Sangalo a música Amar Quem eu já Amei, de João do Vale e Libório, e a faixa 13 gravada com Tetê Espínola, uma versão fantástica de Águas de Março, de Tom Jobim.
     A voz especial de Tetê Espínola nunca foi tão bem aproveitada quanto nesta gravação, onde ela canta em falsete quase todo o tempo, um falsete incrível, de soprano, contrastando com o baixo de Zé Ramalho.
Em alguns momentos sua voz é tão fina qu se confunde com as cordas da guitarra. O arranjo musical também é muito legal, especialmente no final, quando a percussão vai tomando conta e tetê faz um contraponto extraordinário.
     Outras faixas ótimas são; A Dança das Borboletas (faixa 1), gravada com o Sepultura e a tradicional  Ave de Prata (5) com Elba Ramalho.
     Vale a pena conferir.

    




Paulo Coelho

     Depois de muito tempo, retomei a leitura do mago, Paulo Coelho, lendo A Bruxa de Portobello (2007) e O Zahir (2005), ambos da Coleção Paulo Coelho, da Gold Editora (São Paulo). Eu já tinha lido os primeiros livros dele, O alquimista e Brida (e mais outro cujo título agora me foge) e recentemente assisti ao filme Verônica Decide Morrer, baseado num livro dele.
     Gostei bastante dos primeiros, especialmente de O Alquimista, mas depois comecei a achar meio cansativo todo aquele misticismo. Com o filme, que é muito interessante, retomei o interesse pela sua obra e agora, depois de ler esses dois confesso que não sei o que pensar.
     Tive a mesma impressão que ao ler Isabell Allende, nas suas memórias e depois na trilogia em que relata aventuras em tres continentes, voltadas para o público jovem. Parece que grandes escritores que fazem sucesso com obras iniciais, depois são contratados por editoras importantes, com a obrigação de produzirem livros todos os anos, numa verdadeira indústria cultural, que os fazem perder a densidade e até a qualidade.
     Há momentos que se percebe perfeitamente que o escritor está fazendo um esforço para completar um certo número de páginas exigido, mesmo que ele tenha uma história pra contar.
     Paulo Coelho sabe tecer uma história, sabe criar situações inesperadas e finais intrigantes, sabe desenvolver temas que questionam o vazio da vida cotidiana, a perda de um sentido de ligação com a natureza e mistura isso com alguns temas exotéricos que estão muito na moda, como o culto à Deusa, assunto tratado em muitos outros livros, como As Brumas de Avalon, além de descambar frequentemente para um tipo de filosofia muito próxima da auto-ajuda, aquela bem comercial mesmo, de que nossas livrarias estão cheias.
     Gostaria de saber a opinião dos leitores: Paulo Coelho é um gênio ou só mais um escritor de best-sellers, a fim de ganhar muito dinheiro?
     Por favor, mandem suas opiniões.

    



Sapos

     Por falar em opiniões, tem gente querendo censurar o meu blog. Toda vez que faço alguma crítica à prefeitura recebo recados de que estou prejudicando a ARCA, porque podem confundir minhas opiniões com as da Associação.
     Então, embora ache isso meio ridículo, quero deixar bem claro que as opiniões expressas neste blog, representam apenas o meu pensamento, não tendo nada a ver com a ARCA, que quando necessário saberá se fazer ouvir através da sua diretoria.
     Eu também sou vascaíno, mas minha opiniões não representam de jeito nenhum a diretoria do Vasco da Gama. Sou arquiteto, mas minhas opiniões não representam o CREA ou o IAB. Sou presidente da CITRUS e nunca ninguém lá me pediu que deixasse de me expressar.
     Minhas opiniões não representam também as muriçocas que habitam a minha casa ou os sapos que moram na represa da minha roça. Representam apenas a mim mesmo e com certeza, não representam esses que querem que eu me cale.
     E apenas para refrescar a memória deles, o artigo 5o. da nossa Constituição diz:

É livre a manifestação do pensamento.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

segunda-feira, 3 de maio de 2010


Histórias de outras vidas (9)

     UM DENTE DE ALHO

     O ano? Acho que era fins de 1989 ou início de 90.
     O lugar, o bairro São Miguel, em Ilhéus, onde eu tinha minha pequena casa de pescador. A casinha era um charme: tijolo em baixo, madeira em cima, assoalhada, telha de barro, meia água, fundos para a foz do Rio Almada, que vinha cortando muitas cidades pela Bahia, passava pela Lagoa Encantada e vinha acompanhando o mar, por alguns tranqüilos quilômetros até desaguar ali.
     Comprei o terreno ao lado expandindo um pouco o sufoco de viver em três metros de largura e fiz um telhado para guardar o carro. Sem dinheiro para construir no restante do terreno plantei coqueiros, um pé de abacate, uma jaboticabeira e debaixo do telhado fiz um pequeno balcão, em semicírculo, onde montei um bar.
     Eu trabalhava em Itabuna, cidade vizinha a 26 quilômetros, e nos fins de semana abria o barzinho pra me divertir um pouco. Meu sócio era meu amigo José Mário, que morava ao lado e estava desempregado.
Ele era muito caprichoso em tudo que fazia. Arranjou umas toalhas amarelas, que mantinha sempre impecáveis, e preparava umas caipirinhas muito gostosas, além de um camarão ao alho e óleo que ficou famoso.
     Vinha gente de longe para curtir aquele cantinho escondido na beira do rio. Tínhamos até umas mesas bem fora da visão da rua, para agrado de certos executivos do Distrito Industrial de Ilhéus situado lá perto, senhores respeitáveis que vinham com umas moças muito jovens, parecendo secretárias.
     Uma noite de sexta-feira, meio chuvosa, não havia aparecido ninguém e nos preparávamos para fechar quando um desses senhores apareceu com uma bela garota e pediu duas caipirinhas e um camarão alho e óleo.
     Tudo parecia bem, até que José me fez sinal, com cara de preocupado e disse:
     _Acabou o alho, e não tenho mais nada para oferecer além do camarão.
     Respondi que não se preocupasse que eu iria pedir um dente de alho pela vizinhança. Saí pela rua à procura de alguma casa aberta mas não encontrei nada: tudo estava deserto.
     Percorri a rua do rio, que era a nossa, e todas as casas estavam fechadas. Na colônia de pesca todos se recolhem cedo, antes das dez, pois os pescadores saem para o mar às quatro da manhã.
     Preocupado, passei então para a rua do mar, que era a outra que havia, já que nosso bairro era uma espécie de língua de areia, entre o mar e o rio: tudo fechado, tudo apagado.
     Só o vento do mar batia, frio.
     Já desanimado dei a volta, retornando até a igreja, onde havia uma travessa que dava quase em frente a minha casa. Tudo quieto, só o barulho do vento e do mar agitado e já ia desistindo quando vi uma pequena luz vermelha sob uma imensa amendoeira. A princípio não distingui o que fosse mas logo identifiquei uma brasa de cigarro. Alguém estava ali fora fumando no meio daquela ventania.
     Meio cismado, ia virando a esquina quando uma voz me chamou:
     _Procurando o que, Seu Ricardo?
     Encabulado, retornei e fui até o cigarro. Era uma velha senhora que morava na casa bem debaixo da amendoeira. Já tinha falado com ela algumas vezes, mas não me lembrava seu nome.
     Sentada num banquinho a velha fumava, saboreando o vento e a fumaça.
     Expliquei a situação e ela rapidamente entrou, me trazendo não um dente, mas uma cabeça de alho.
     _Pode levar!
     _Quanto é?
     _Ôxe, o que é isso Seu Ricardo, não é nada não...
     Agradeci, dei boa noite e corri para levar o alho para José Mário, já desesperado com a demora.
     O camarão saiu e o cliente ficou satisfeito, custando a ir embora. Quando fechamos já passava de meia-noite.
     No outro dia, sábado, vi a aglomeração perto da igreja. Fui saber e me informaram que uma senhora havia morrido na outra rua. Fui lá e dei com a mesma casa da véspera. Assustado fui espiar: era ela.
     Perguntei às pessoas na porta e me disseram que ela havia ido dormir cedo e morreu durante o sono. Tive um arrepio.
     _Como durante o sono? Perguntei.
     _Ela foi dormir e não acordou mais. Me respondeu o filho, choroso.
     Não falei a ninguém o que ocorrera, afinal ela podia ter levantado à noite para fumar sem que ninguém visse. Mas tudo era meio estranho, ela sozinha à noite, seu chamado sem me conhecer muito, a oferta generosa do alho e a morte súbita.
     Eu que detesto velórios tratei de ir naquele e o povo de lá, que não me conhecia muito, não entendeu porque eu me sentei com eles e fiquei até a hora do caixão sair, rezando e pedindo por aquela alma.

     Abraço a todos
 
     Ricardo Stumpf

domingo, 2 de maio de 2010




                                      Amor e Desamor

     Prezado amigo leitor.
    
     Alguém já disse que a solidão é uma coisa diária.
     Tem dia que é mais fácil, tem dia que é mais difícil e vai-se administrando essa dificuldade diariamente para ir sobrevivendo.
     Fácil falar mas perder um amor é uma coisa muito difícil. A gente ama e odeia ao mesmo tempo, toma resoluções definitivas que só aumentam a insegurança, quando bate a saudade quer voltar, quer esquecer, quer fugir, mas o vazio está ali, enorme, envolvendo a gente.
     Difícil seguir em frente tentando não olhar pra trás e ir juntando os cacos do coração partido em mil pedaços. Difícil se olhar no espelho e tentar reerguer o amor-próprio, fazer algum plano, qualquer plano, pra dar sentido a uma vida desnorteada pela ausência repentina de sua metade.
     Mas é a inércia da rotina que vai colocando as coisas no lugar e a memória da dor nos leva a seguir em frente, sabendo que voltar atrás é impossível. E a estrada parece tão árida e sofrida até que começamos a perceber uma flor aqui, um pôr de sol bonito lá adiante, um perfume inesperado da manhã e então, sem que percebamos, a alma vai cicatrizando, vai renascendo e sentimos reacender aquela chama da vida que nos dá alegria de estar nesse mundo, de habitar um corpo, e surgem as idéias, novas idéias, que nos impulsionam para algum lugar novo no nosso imaginário humano pleno de inquietudes e curiosidades.
     E o sofrimento nos ensina a humildade de saber-se pequeno e frágil, nos ensina que precisamos muito dos outros, que precisamos até das pedras da rua, que fazemos parte de um todo e que somos ao mesmo tempo parte e todo, indivíduo e coletivo, competição e cooperação e nos faz olhar as coisas que antes julgávamos tão importantes com misericórdia e desprendimento.
     E assim entendemos finalmente que somos pouco, mas fazemos parte de um muito, somos pequenos mas pertencemos a algo grande e que não vale a pena apequenar a alma, amesquinhar a existência, perder-se desse sentido de grandeza.
     Nossa alma pertence a uma grande alma coletiva da humanidade (assim como pertencemos também à grande biosfera terrestre), à um cortejo de almas que caminha pelas sendas da evolução e que aprendemos na alegria e na dor, na dificuldade e na vitória e que todo amor vale a pena, mesmo quando foi perdido.
     Mas o bálsamo para consolar aqueles que perdem um amor é saber que a vitória está sempre com quem amou, mesmo que sofra pela perda, e que a verdadeira derrota nesta vida é não saber amar.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf
    
    

sábado, 1 de maio de 2010

GIRO

Prezados amigos

Depois de duas semanas viajando entre Rio de Contas, Rio de Janeiro e Brasília, estou de volta à terrinha.
No Rio de Janeiro, pela primeira vez em mais de 40 anos vi governos se mobilizando para remover favelas. Aleluia! Precisou morrer tanta gente.
Mas os políticos oportunistas de plantão já estão se mobilizando para defender as comunidades da remoção.
Pode? Até quando nossa política vai ser esse comércio oportunista de favores, contra o interesse comum?

Por falar em política, em Brasília a indignação é grande. Arruda era um político popular e estava fazendo muitas obras. A revelação de sua corrupção e a extensão dela a tantos outros políticos, fez o brasiliense se tornar descrente de tudo e apostar numa renovação total.
Acredito que deve dar Agnelo Queiroz, do PT, nas próximas eleições para governador. O problema é que o PT fechou aliança com o PMDB local, seguindo a receita de Lula para apoiar Dilma, e dentro do PMDB estão muitos corruptos citados pelo Procurador Geral da República, que pede intervenção no DF.
E ontem Ciro Gomes disse que o PMDB é um ajuntamento de assaltantes.
Novidade...

Não deixem de ver O Segredo de Seus Olhos, que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro esse ano. O filme, argentino, é muito bom, uma beleza mesmo e muito impressionante pelo conteúdo humano. A fotografia é bem diferente e tem uma tomada num estádio de futebol que é realmente incrível.

Enquanto isso, em Rio de Contas, gente de Emerson Leal (pra quem não conhece é um antigo político carlista que agora faz parte da base aliada)aparece oferecendo apoio a quem quiser, dizendo que estão com o dinheiro de Wagner na mão. Não entendo mais nada. Parece que nosso prefeito aqui anda cada dia mais desprestigiado. Deve ser o efeito Geddel. Acho que também é o efeito poste. Quem não dialoga com a sociedade e deixa o segundo e o terceiro escalão aprontar à vontade, promovendo vinganças contra os adversários, vai ficando cada dia mais isolado.
Triste fim de Policarpo Quaresma.

E hoje é dia daqueles que acordam cedo para carregar o Brasil nas costas: viva o trabalhador brasileiro!

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quinta-feira, 29 de abril de 2010



Mockus Pocus

Prezados amigos leitores

Segundo a Wikipédia, "Hocus Pocus é o nome de um encantamento utilizado por mágicos do século XVII (hocus pocus, tontus talontus, vade celerita jubes) com a função de criar um ar de mistério em suas perfomaces."
Pois não é que um candidato do Partido Verde da Colômbia, de nome Antanas Mockus, acaba de assumir a primeira colocação nas prévias para a eleição presidencial marcada para 30 de maio, desbancando os tradicionais partidos Liberal e Conservador?
Mockus conseguiu a mágica de sair de 5 para 38%, apenas usando poucos recursos de internet e mais do que isso, apresentando propostas novas e inteligentes para um desenvolvimento sustentável, já aplicadas por ele nas suas duas gestões como prefeito de Bogotá.
Parece que ele conseguiu se libertar de um debate que insiste em se manter nos limites tradicionais entre direita e esquerda (no caso da Colômbia, entre uma elite militarista e fascista e agrupamentos de esquerda que há muito desistiram do espaço democrático e partiram para a luta armada), para desenvolver uma nova lógica, que questiona o desenvolvimentismo e o crescimento econômico, a qualquer preço, gerador de injustiças sociais, que criam a base para os conflitos de classe.
A economia sustentável é um desenho de desenvolvimento que busca o equilíbrio entre a economia humana e a natureza, o que inclui a valorização do trabalho, já que a pobreza é um dos maiores fatores de desequilíbrio ecológico, e a dignidade humana em todos os seus aspectos.
Na verdade a sustentabilidade é um conceito que se estende a tudo, não apenas à natureza, mas que significa a possibilidasde de permanência, de continuidade, sem esgotamento dos recursos, sejam humanos (embora esse conceito de "recursos humanos" esteja ligado à exploração capitalista do trabalho), quanto naturais ou mesmo da própria capacidade da sociedade evoluir pacificamente em seus relacionamentos, sem fatores que estimulem conflitos, ou seja, sem injustiça ou violência.
Assim, esse novo desenho absorve a discussão anterior e amplia seu alcance, levando a noção de justiça, paz e equidade a todos os domínios da ação humana.
Mockus está conseguindo passar o recado para a sua sociedade com muita competência e tranquilidade.
Uma boa oportunidade para o Partido Verde brasileiro estudar (e seus dirigentes já estão indo a Colômbia ver o que está acontecendo) e passar a explicar melhor suas propostas ao eleitorado brasileiro, saindo das meras palavras de ordem, repetidas por todos os demais partidos.
Marina é uma candidata de peso, tem conteúdo e experiência administrativa como Ministra do Meio Ambiente e pode crescer muito. Quem sabe conseguimos nos libertar desse tal plebiscito entre direita e esquerda, que Lula quer impor ao país, e fazemos também a nossa mágica.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

segunda-feira, 26 de abril de 2010



Prezados amigos leitores.

Peço licença para transcrever aqui, hoje, artigo publicado no site "Vermelho", sobre esta mulher admirável que é Piedad Córdoba.

Piedad Córdoba e a luta pela paz na Colômbia

As imagens de Piedad Córdoba que o mundo conhece mostram a senadora colombiana, de 55 anos, embarcando em helicópteros brasileiros e partindo rumo a lugares perdidos na selva colombiana, enquanto jornalistas de meio mundo ficam olhando para o céu. Ela volta algumas horas depois, em companhia de reféns libertados.
No entanto, quando as luzes das câmeras se apagam, o país que deveria lhe agradecer pelo trabalho e pelos esforços não apenas deixa de fazê-lo como também, em várias ocasiões, retribui o favor com insultos e desqualificações.
Iván Cepeda Castro é o porta-voz do Movice (Movimento das Vítimas de Crimes de Estado) e foi eleito recentemente para o Congresso. Conhece Piedad desde a época em que ela e seu pai mantinham uma íntima relação pessoal e de trabalho.
"Esta relação com meu pai", conta Iván, "foi muito significativa para ela e, de algum modo, transformou sua visão da realidade do país. Por muito tempo eles compartilharam projetos de defesa dos direitos humanos no parlamento e, quando mataram meu pai, foi um golpe muito duro para ela, não só em termos políticos, mas também pessoais. A busca de justiça pela morte de meu pai nos aproximou muito. Minha amizade com Piedad nasce como uma herança de meu pai, que ao longo dos anos fortificamos e estreitamos."
Os ataques a Piedad, segundo Iván, se explicam pelo fato de a senadora ter desafiado a crença de que somente pela via militar, com a guerra, é possível pôr fim ao conflito colombiano.
"A busca de negociações e acordos é uma postura que se defende com relativa facilidade em um momento de consenso social sobre a paz, mas é muito difícil de defender em momentos nos quais a sociedade dá preferência a uma ideologia de segurança quase dogmática, que acredita apenas na guerra e na opção militar", conta.
E completa: "Creio que parte da virtude e da novidade política da posição de Piedad Córdoba reside no fato de ela ter desafiado essa política de segurança democrática, criando a possibilidade de uma prática humanitária em condições muito adversas, uma prática que levou à libertação, até agora, de 14 pessoas."
A definição de Piedad Córdoba como uma mulher que conseguiu desafiar e vencer as adversidades é compartilhada por Olga Amparo Sanchez, diretora da Casa da Mulher de Bogotá e amiga da senadora desde os tempos de universidade.
"É uma mulher que encarna o grande esforço necessário na Colômbia para romper múltiplas formas de discriminação, tanto por sua condição de mulher e de afrodescendente quanto pelo perfil de opositora com convicções políticas alternativas. Por isso acredito que Piedad é uma mulher que venceu e vence a cada dia a discriminação e o preconceito. Este valor e sua inesgotável capacidade criativa de gerar iniciativas políticas que resultem em espaços novos, de encontrar saída para os problemas da Colômbia, são as características que mais me motivam a respeitá-la e admirá-la".
O jornalista Hollman Morris, que acompanhou durante anos o trabalho da senadora na área social, declarou ao Opera Mundi: "Piedad Córdoba é uma pessoa capaz de gerar dinâmicas com suas ações políticas, o que permite que suas posições e iniciativas ocupem o centro do debate político. Isso vale não só para sua dedicação à busca da paz na Colômbia, mas também no âmbito dos direitos humanos. Piedad é uma das poucas figuras políticas da Colômbia que promoveram grandes processos legislativos e debates políticos favoráveis aos setores mais excluídos. Isso apesar de pertencer ao Partido Liberal, que faz parte do establishment político do país."
Piedad é também uma vítima da violência estatal e paramilitar na Colômbia - e sofreu esta violência de várias formas. Em 1999, a senadora foi sequestrada pelo chefe paramilitar Carlos Castaño, que só a libertou graças a uma forte pressão internacional. Ela decidiu viver um período no Canadá que definiu como exílio. Assim que voltou à Colômbia, foi alvo de dois atentados, o que a obrigou a separar-se da família, que por isso ainda vive naquele país.
"Acredito que a partida para o Canadá foi o momento mais difícil", diz Olga. "Ela teve de deixar tudo para trás e, sem ajuda do Estado e de seu partido, cuidar dos filhos em uma situação muito difícil, abandonando suas causas e lutas. Até hoje Piedad vive uma vida de grandes sacrifícios, quase sempre confinada em casa. Não é fácil para ela, que tanto ama a música, a dança, e é uma excelente dançarina de salsa. Mas isso, ou simplesmente ir a um restaurante ou supermercado, são atividades que hoje ela não pode se dar o luxo de praticar. Ela teve de eliminá-las de sua vida por segurança, por causa da perseguição da imprensa e da pressão do governo. Aprendeu a lidar com a situação com sua própria força, renunciando até mesmo a uma escolta do Estado. É uma mulher forte, mas também muito sensível, capaz de superar essas situações - que não deixam de lhe causar muita dor. Para mim, o que lhe dá força para continuar é ter um objetivo muito claro, que hoje é o de libertar os reféns".
Iván explica desta forma a rejeição de alguns setores da opinião pública: "Trata-se de uma série de campanhas midiáticas artificiais de deslegitimação e difamação, que em alguns contextos levaram a golpes muito baixos contra ela, por sua condição racial e de mulher, como no famoso voo Bogotá-Caracas no qual alguns passageiros insultaram e quase a agrediram fisicamente. Mas não é verdade que Piedad seja uma mulher repudiada pela sociedade colombiana. O que ocorre é que alguns meios de comunicação e alguns ideólogos do governo de Uribe exageram esses ataques na tentativa de transformá-los em crença social. Assim como há esse tipo de reação, há manifestações de ampla simpatia e respaldo".
Citando um episódio específico para exemplificar, ele continua: "Lembro-me perfeitamente do momento em que acompanhamos a libertação do ex-deputado Sigfrido Lopez, do departamento de Valle. Quando chegamos à praça central de Cáli, havia uma manifestação com milhares de pessoas. Não conseguíamos chegar à tribuna por causa da quantidade de demonstrações de respeito, admiração e carinho por Piedad. Ela é uma mulher admirada e respeitada por muitos setores da sociedade. A população e seus votos comprovam isso."

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 25 de abril de 2010

Histórias de outras vidas (8)

                                                        
                                A HORA DA PIADA

Era uma repartição pública em Brasília. Corria o ano de 2004. A sala pequena enjaulava 25 funcionários que não tinham muito o que fazer.
Na verdade eram duas seções dentro de uma sala, dividida ao meio por um corredor. Um chefe de cada lado, distribuindo tarefas e tratando de conter seus subordinados quando não havia muito serviço, o que era bem freqüente.
No final do corredor, a sala da diretora, uma mulher alta, dos seus 60 anos, tratava todos como se fossem crianças e esperava de todos uma fidelidade canina, pessoal mesmo, a ela, a grande benfeitora.
Os que haviam entrado no último concurso, gente pós-graduada, se espantava com aquele tipo de relação primitiva, difícil mesmo de ser contestada, de tão desrespeitosa: uma piração.
Os dias transcorriam sufocantes até que numa sexta-feira, os chefes haviam saído mais cedo e alguém contou uma piada. Todos riram e pareceu que pela primeira vez o ambiente se descontraiu. Alguém lembrou que já era tarde e podiam pedir uma pizza, e assim uma espécie de happening se instalou, com as pessoas se aproximando e conversando, pela primeira vez, subvertendo a ordem rígida da burocracia e da loucura inflada do ego da diretora, com seu implacável autoritarismo maternal que dominava havia muitos anos, parte daquela infeliz comunidade. Os antigos também gostaram da novidade, mas à toda hora iam até a porta, dar uma espiada para ver se ela não vinha no corredor.
Outras sextas-feiras se sucederam e aquela virou uma espécie de hora do relaxamento das tensões da semana. Até os chefes começaram a participar e um dia alguém sugeriu que todos contribuíssem para que toda semana fossem comprados salgados e refrigerantes, oficializando assim naquele horário um momento de congraçamento.
Um dos chefes, porém, zeloso de sua fidelidade à grande mãe, tratou de prestar-lhe conta do que estava acontecendo à revelia do seu controle e liderança.
Ao ouvir o relato do seu informante, a velha mãe-patroa calou-se, pensativa, mas logo recobrou seu insuperável senso prático e decidiu:
_Não há nada de errado no que eles estão fazendo. Acho que isso pode ser bom para o trabalho. Vamos aderir ao movimento deles e eu também vou colaborar com a pizza. Você fica encarregado de encomendar a cada funcionário uma piada, que deve ser escrita e depois de lida, cada qual na sua hora, deverá ser entregue a mim, para ser arquivada.
O chefe falou, mas ninguém acreditou muito, tão acostumados já estavam ao seu momento. Na sexta-feira, porém, lá estava ela, na hora certa.
A pizza chegou, aquele dia enriquecida com mais salgados e refrigerantes. Ela bateu palmas e fazendo todos se calarem, ordenou feliz:
Hora da piada!

sábado, 24 de abril de 2010

50 anos de Brasília

     Prezados amigos

     Depois de passar pelo Rio , vim a Brasília para os 50 anos da Capital.
     Eu que cheguei aqui em 1960, poucos meses após a inauguração, posso dizer que vi essa cidade crescer, sair de um projeto para a realidade de metrópole de hoje.
     Os jornais do Rio e São Paulo até hoje fazem muxoxo, não querendo reconhecer sua importância, mas Brasília não precisa mais da aprovação do sudeste, alçou voo próprio, tornou-se ponta de lança da civilização brasileira, decidida a ocupar seu território até então abandonado aos que se aventuravam pelo êrmo desses sertões.
     Acontecimento importante no mundo, nos anos 50, o cinquentenário também é importante, porque foi Brasília que desencadeou o processo de afirmação nacional que trasnformou o Brasil no que é hoje.
     Nós que a vimos crescer, mesmo os que se afastaram como eu, mas que tem ainda raízes por aqui e a visitam com frequência, sabemos dos seus males e das suas qualidades. E seus defeitos não são aqueles que a grande imprensa gosta de mostrar, chamando a cidade de corrupta, de Ilha da Fantasia (em referência à uma antiga série de TV), nem de desperdício, em função da sua grandiosidade.
     Brasília tinha que ser grande para representar a grandeza do Brasil e será maior ainda, na medida em que seu amadurecimento vá aproximando os mundos diferentes que aqui se reuniram, dos povos mais adiantados da nação às criaturas saídas do isolamento dos êrmos, numa mescla difícil e demorada.
     A crise que a cidade vive atualmente é o melhor exemplo disso, pois está passando a limpo toda uma geração de políticos nascida sob a ditadura e que se amesquinhou à sombra do poder federal.
     A prisão do ex-governador e sua posterior cassação, puseram em funcionamento os mecanismos constitucionais que podem repor as coisas no seu devido lugar.
     Tenho fé que os próximos 50 anos se iniciarão sem o lixo político que havia tomado conta da cidade e novas portas se abrirão para sua população.

     Que Deus abençoe Brasília e o Brasil.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quarta-feira, 21 de abril de 2010



Histórias de outras vidas (7)

FRANK

     Corria o ano de 1994, eu havia voltado de Manaus para Brasília e conseguido entrar na Universidade de Brasília como professor temporário, para dar aulas na Faculdade de Arquitetura.
     Como até 1990 eu tinha participado ativamente da militância política que me levou ao PT e depois ao velho PCB, e já tinha sido muito perseguido por isto, eu tinha por hábito esconder minhas idéias, até que soubesse com quem estava lidando.
     A direita brasileira identifica logo a gente. Já fazia quase dez anos que a ditadura tinha acabado, mas a esquerda ainda era muito marcada, pois na transição eles haviam mantido o controle da Constituinte e estavam levando o Brasil para o neoliberalismo, uma ditadura econômica dentro da democracia formal, onde qualquer tentativa de governar para os interesses da maioria era rotulada de populismo.
     Percebi logo que o ambiente era dominado pela direita. Imagine que dentro da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília era proibido elogiar Oscar Niemeyer, o gênio criador das mais importantes obras da cidade. Claro que o motivo era sua militância no Partido Comunista, o meu partido.
     Preocupado em manter meu emprego, procurava me manter afastado de polêmicas. Mas eu tinha um amigo lá dentro, Cláudio, que também era simpatizante do Partido. Ele trabalhara com Niemeyer na Argélia e não se intimidava com a campanha raivosa de direitistas remanescentes da ditadura e defendia abertamente a obra e as idéias de Oscar Niemeyer.
     Claro que ele comentou com alguns colegas sobre minha militância, porque logo fui identificado e colocado no rol dos inimigos daquela gentinha miúda, que havia entrado ali no tempo de Azevedo, o reitor militar que dominou a universidade durante muitos anos, com a missão explícita de impedi-la de produzir idéias.
     Começaram logo a implicar comigo, ao ponto de um colega de disciplina chegar a dividir a turma (a metade dele e a minha metade), numa tentativa explícita de me desprestigiar ante os alunos. Percebi a dificuldade que teria em me manter ali, mas fui contornando como pude.
     Um dia recebi um recado que o diretor da Faculdade queria falar comigo. Era um velho professor de nome Frank. Andava meio curvado e tinha uma fala arrastada, lenta. Pensei comigo: pronto, chegou a hora de ir embora.
     Na hora marcada fui ao encontro dele, no seu grande gabinete do andar térreo da faculdade, que fazia parte, do imenso edifício onde se localizavam inúmeras outras faculdades. O prédio projetado por Niemeyer, é um grande arco de 750 metros de extensão e três andares, mais um subsolo, com o pomposo nome de Instituto Central de Ciências, mas carinhosamente chamado pela comunidade acadêmica de minhocão.
     Entrei na sala e fiquei frente a frente com o Professor Frank. Ele me mandou sentar a frente de sua grande mesa e me olhou com ar cansado. Pediu a sua secretária que saísse e fechasse a porta, porque iria ter uma conversa particular. Esperei pelo pior.
     Ele me disse então que havia sabido que eu pertencia ao Partido Comunista e perguntou se era verdade. Pensei então que era hora de levantar as bandeiras e ir à luta. Já havia sido identificado mesmo e o melhor era cair de pé. Confirmei e contei um pouco da minha participação política, justificando minhas atitudes com denúncias sobre as injustiças sociais e todo o meu inconformismo com a submissão do Brasil aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Enfim, assumi o discurso comunista e me declarei militante, para o que desse e viesse.
     Ele, que me escutara calado, se virou para mim e disse com sua voz cansada.
     _Até que enfim tenho com quem conversar!

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

terça-feira, 20 de abril de 2010



Histórias de outras vidas (6)

A IRMÃ DO ASTRONAUTA

O ano era 1984, o local; um convento de freiras em Ariquemes, Rondônia.
Como eu fui parar lá? Bom, tudo começou na Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre, um ano antes.
     Ao final do meu curso de arquitetura, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, escolhi como tema para o trabalho de diplomação a urbanização de uma favela, próxima à minha pequena casa alugada, conhecida como Vila Maria da Conceição, ou Maria Degolada.
     Era uma favela espremida no meio de prédios e casas, ao longo de uma faixa que subia o morro por um lado e descia pelo outro, começando na avenida Bento Gonçalves, passando pelo bairro Caldre Fião (no alto) e descendo em direção à Terezópolis.
     O apelido Maria Degolada, se devia a um crime, onde uma Maria foi degolada por seu amado, em cima de uma pedra, local que se tornou alvo de devoção e peregrinação em torno de supostos milagres.
     Me ofereci para fazer o trabalho junto ao Centro Comunitário, que funcionava no alto do morro, e onde trabalhavam várias estudantes do serviço social, orientadas por uma assistente social formada. Entre elas uma freira, Lúcia, que tinha um sobrenome italiano.
     Fiz muitas amizades por lá, embora o trabalho não tenha sido concluído devido à interferência de uma outra freira que controlava tudo por lá, em nome de uma ONG de propósitos mais do que duvidosos.
     No ano seguinte, 1984, soube que irmã Lúcia tinha ido para Rondônia, servir em Ariquemes. Era época de muito desemprego e também de grandes migrações de agricultores do sul para Rondônia, expulsos pela cultura da soja e que iam em busca de terras distribuídas pelo governo do então território.
     Pensando em conseguir um emprego e também curioso para conhecer e entender o que estava acontecendo por lá, peguei um ônibus para Campo Grande, outro para Cuiabá e finalmente um para     Ariquemes, pela BR-364, Cuiabá-PortoVelho, então inteiramente de terra. De Cuiabá a Porto Velho eram mais de 2.000 Km de estrada de chão, num ônibus que ia corcoveando. Uma aventura.
     Consegui chegar a Ariquemes e fui muito bem recebido pela irmã Lúcia, que inclusive me hospedou no convento das freiras, o que eu supunha fosse proibido.
     Lá, as várias irmãs se revezavam nos trabalhos, apoiando as famílias que chegavam do sul e recebiam um pedaço de mata virgem para derrubar, sem nenhuma ajuda do governo. Muitos morreram em função de doenças ou árvores que caíam sobre eles. Crianças pequenas morriam de malária logo nos primeiros anos, desacostumadas que estavam àquele meio ambiente.
     Era um projeto americano, patrocinado pelo Banco Mundial com apoio do governo militar, para ocupar a fronteira com a Bolívia de forma a prevenir a ameaça de possíveis guerrilhas, como a tentada por Che Guevara.
     Em termos ambientais e humanitários o projeto foi um grande desastre, embora tenha conseguido povoar Rondônia. A principal conseqüência da ocupação foi transformar Rondônia em porta de entrada para o tráfico de drogas, que a partir dali instalou seus cartéis nas grandes cidades brasileiras, principalmente nas favelas do Rio de Janeiro.
     Saí com irmã Lúcia, algumas vezes para visitar as linhas, estradas que entravam mata adentro, e por onde se tinha acesso aos lotes de mata amazônica, dados aos louros imigrantes do Paraná. Era incrível!
     Dentro do convento, muitas irmãs simpáticas se revezavam para que eu me sentisse à vontade no ambiente delas, e olhe que nem católico eu era. Às vezes elas me pediam que tocasse violão e cantávamos todos juntos, depois do jantar. Lúcia tocava e cantava muito bem.
     Dentre as irmãs, uma pequena e loura, catarinense era uma de suas melhores amigas. Devia ter uns quarenta ou quarenta e cinco anos, na época. Sua pele muito branca era envelhecida precocemente pelo sol, como costuma acontecer com os colonos do sul, descendentes de europeus.
     Não me lembro seu nome, mas numa dessas noites de violão e cantos, ficamos conversando os três, eu, Lúcia e a pequena catarinense. No meio da conversa uma revelação surpreendente. Lúcia me perguntou se eu sabia guardar um segredo, coisa que fiz até hoje, mas não vejo mais sentido em manter.
     Feita a promessa, Lúcia me perguntou se eu não achava a pequena freira catarinense parecida com alguém. Depois de contemplá-la com atenção, não consegui me lembrar de ninguém. Então, Lúcia me disse que ela era irmã de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua, em julho de 1969.
     Me lembrei das especulações surgidas na época, de que Armstrong teria nascido no Brasil, no interior de Santa Catarina. A revista Veja inclusive visitou o local e fez uma reportagem, mas logo tudo foi desmentido e dado como um equívoco.
     Mas realmente a pequena freira era a cara de Armstrong. Então ela calmamente me contou que Armstrong era seu irmão, tinha nascido em Santa Catarina e depois, por motivos que não me lembro, tinha sido levado ainda pequeno para os Estados Unidos, creio que pelo pai, mas que isso não podia ser revelado e que sua família tinha recebido muitas instruções sobre isso, porque o primeiro homem a pisar na lua tinha que ser nascido nos Estados Unidos.
     Logo retornei a Brasília e nunca mais soube daquelas freiras.
     Hoje vejo por aí muitas histórias de que o homem nunca esteve na lua e tudo teria sido uma grande farsa, como, aliás, todas as pessoas simples e humildes diziam na época. Como saber? Mas pelo menos uma parte da história era mesmo mentira e aquele americano que dizem ter sido o primeiro ser humano a colocar os pés em outro astro, na verdade, nasceu no Brasil.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

sexta-feira, 16 de abril de 2010




            Histórias de outras vidas (5)

                  UM SONHO RUIM

     Corria o ano de 2003 e eu estava no Ministério da Integração Nacional, no programa Faixa de Fronteira, por onde às vezes viajava fiscalizando obras em municípios de fronteira.
     Eu havia sofrido um seqüestro em 2001 e, devido ao trauma, passei alguns anos sonhando com isso, mas estranhamente nunca sonhei com o meu próprio seqüestro.Sonhava com situações muito difíceis, pessoas presas, maltratadas, muita maldade, pessoas ruins fazendo coisas más, muito sofrimento e dor.
     Uma noite sonhei com uma rua de terra que ia direto para uma cerca, por trás da qual haviam muitos eucaliptos. Ao chegar à cerca a rua virava em ângulo reto para a esquerda e continuava, sempre de terra, até desembocar em uma outra bem mais longe. No meio da cerca, há uns 100 metros da curva em ângulo, um portão dava para a propriedade, onde havia uma casa e algumas outras construções.
     Como costumava acontecer nos sonhos, eu entrei por cima, como se estivesse flutuando, mas bastante próximo do chão para ver e ouvir tudo o que acontecia e podia sentir as coisas, mesmo antes de vê-las. Sentia se havia felicidade no local, dor, medo, ódio e todos os sentimentos que circulavam no ambiente.
     Ao entrar flutuando sobre a cerca pude sentir o ódio, o medo e o sofrimento que havia ali. Um sentimento de terror, de pessoas indefesas à mercê de outras capazes de lhes fazer muito mal, indiferentes à dor que poderiam causar. O mesmo sentimento de impotência e de irracionalidade que senti no meu seqüestro ao me ver reduzido à condição de um animal, sem direito nem a minha própria vida, sujeito aos desmandos de pessoas que nem sequer me conheciam e para as quais eu era apenas uma fonte de renda, que eles podiam matar, torturar, descartar, sem nenhum sentimento de solidariedade humana.
     Vi pessoas amarradas durante a noite e senti todo o clima. Acordei muito impressionado e, mais uma vez, atribuí o sonho ao seqüestro que havia sofrido e à tentativa constante de procurar empurrar para dentro do meu inconsciente todo o medo que me perseguia há dois anos.
     Poucas semanas depois fui designado para fazer uma viagem de inspeção no Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. Fiz minha programação, organizando todos os orçamentos, cujas obras já executadas eu tinha que conferir. No total eram mais de 20 municípios e mais de trinta pequenas obras.         Calçamentos de ruas, estradas vicinais, pequenas pontes, calçadas e coisas do gênero.
     Seguindo instruções da nossa Secretaria, como sempre, montei o roteiro de viagem com as passagens aéreas, reservas nos hotéis, aluguel de um veículo e os dias em que passaria por cada cidade, já avisadas da minha chegada através de contato com as respectivas prefeituras. Quando tínhamos que visitar muitas cidades próximas escolhíamos um ponto de apoio, que ficasse mais ou menos eqüidistante de todas as outras, e ficávamos ali alguns dias, indo e vindo com o carro alugado.
     No dia certo viajei com aquele monte de processos, pernoitei em Porto Alegre, onde revi muitos amigos e no dia seguinte, bem cedo, segui para São Borja, num Fiat Pálio alugado. Dois dias em São Borja e arredores, medindo eletrificação rural e outras coisas, mais uns três na região das Missões e fui subindo para o norte, rumo à divisa de Santa Catarina, que também faz fronteira com aquela linguinha da Argentina, que se infiltra ente o Brasil e o Paraguai.
     A desvantagem daquele trabalho estava em viajar sozinho, fazendo medições, que muitas vezes constatavam irregularidades e desvios de verbas, alguns deles muito grandes. Por isso quando medíamos, sempre acompanhados por alguém das prefeituras, dizíamos que só poderíamos calcular com exatidão se estava tudo certo ao retornar para Brasília. Essa era a orientação para todos os fiscais do programa.
     Algumas vezes eu sentia um clima de ameaça no ar e sabia que estava completamente à mercê dos corruptos, sem apoio policial nenhum, por isso eu não gostava de me demorar muito em um local nem revelar para onde iria, no dia seguinte.
     Nessa viagem, ao prosseguir para o norte, a estrada, que já era um pouco erma, de repente ficou sem asfalto. Entrei numa estrada de terra, no final da tarde, em busca de uma cidade de fronteira desconhecida. Senti uma sensação ruim, mas consegui encontrar a cidade, que era bem razoável e me hospedar em um hotel decente.
     Era um fim de semana e eu não deveria trabalhar, segundo as normas do Ministério. Mas quem agüenta ficar parado num hotel, numa cidade estranha, sábado e domingo sem fazer nada, depois de uma semana fora de casa?
     Na sexta-feira liquidei o que tinha de fazer ali e consegui falar com os secretários de obras de duas outras cidades próximas. No sábado já estava a caminho e a última delas era bem distante de tudo. Tive que atravessar um rio em uma balsa e sair novamente do asfalto, andando uns 60 quilômetros por uma estrada de terra para chegar ao local.
     Eu nem imaginava que havia lugares assim no Rio Grande do Sul. Sempre achamos que no sul tudo é perfeito, mas aquela região noroeste do Rio Grande era bem atrasada.
No caminho fui me sentindo vada vez mais inquieto.
     A cidade era bem pequena e logo achei uma praça com um orelhão de onde liguei para o número do secretário. Ele me atendeu e disse que me encontraria no parque de máquinas da Prefeitura, que era a obra que eu devia inspecionar. Segui ao local indicado e logo me deparei com o alambrado, ao longo da via, com o grande prédio ao fundo.
     A inspeção foi rápida. Tudo estava certo e as pessoas que me atenderam foram gentis e eficientes em me mostrar tudo. Eu estava com pressa, pois tinha que voltar até a balsa, pegar novamente o asfalto e ir para a última parada, onde ainda ficaria uns dois dias fiscalizando várias cidades ao redor do ponto de apoio escolhido.
     Ao sair, o secretário me avisou para usar o portão lateral, que dava acesso à saída da cidade. Apressado, rumei para o portão e parei, num gesto automático, para ver se vinha algum carro. Olhei para a esquerda e vi que a estrada voltava para o caminho de onde eu tinha vindo. A saída mais curta devia ser pela direita. Olhei para direita e então vi,... a rua que seguia direto para a cerca com os eucaliptos, a rua do meu sonho.
     A visão me deu um choque, um estranho choque em que realidade e sonho se misturam. Foi como acordar sonambulando. Todo o clima do sonho retornou intensamente. Pude sentir novamente o medo e o sofrimento presentes naquele lugar e tudo se misturou com as sensações que eu vinha tendo naquela viagem, tanto na primeira estrada de terra quanto na segunda. Era como se eu estivesse andando por lugares perigosos, cujas ameaças eu desconhecia, mas pressentia.
     Olhei novamente para a rua e tive certeza. Quis seguir pela estrada em direção a cerca, só pela curiosidade de conferir, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Virei o carro para a esquerda e me afastei rapidamente daquele lugar.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quinta-feira, 15 de abril de 2010




Cultura gay?

     O Pessoal do movimento LGBT de vitória da Conquista, me pede que escreva alguma coisa sobre o tema "cultura gay", que está sendo discutido no seminário que está acontecendo naquela cidade.
     Pelo que entendi, há uma grupo querendo afirmar o que eles consideram cultura gay, que seria relacionada à arte dos transformistas, ou seja, aqueles gays que se vestem de mulher para se apresentarem em shows e boates.
     Achei estranho e fiquei pensando sobre o assunto. Tem um pessoal no movimento gay que tem mania de gueto. Querem se fechar em pequenos grupos e criar um mundinho particular, só deles, e agora querem que esse pequeno universo seja reconhecido como cultura.
     Tudo bem, que alguns grupos queiram se diferenciar na sociedade, até para serem reconhecidos.
     Os judeus se fecham na sua cultura, os ciganos também, os gaúchos inventaram o CTG (Centro de Tradições Gaúchas), que pretendem que seja a cultura gaúcha, mas na prática essas manifestações acabam sendo apenas subculturas, que participam de algo maior, que é a cultura dos povos. Dizer que a cultura judaica se resume as comemorações do Bar Mitzvah, é desconhecer a colaboração que eles deram à nossa sociedade, principalmente através dos três pilares do pensamento moderno, Marx, Freud e Einstein.
     Dizer que a cultura gaúcha se resume ao CTG é desconhecer toda uma contribuição, começando por Anita Garibaldi, a Revolução Farroupilha, que levantou a bandeira da República no Brasil, Oswaldo Aranha, Érico Veríssimo e tantos outros gaúchos que ajudaram a construir a cultura brasileira.
     Assim também dizer que a contribuição dos gays à cultura é o transformismo é desconhecer que os gays estão em toda parte, especialmente na área da cultura e da arte, até pela sua sensibilidade aguçada, que os leva a serem atores e atrizes, pintores, cantoras, poetas, escritores, arquitetos e engenheiros.
     Pois é, os engenheiros, tão machões, deveriam reconhecer num engenheiro o patrono dos gays, o nosso fantástico Santos Dumont, inventor entre outras coisas do avião e do relógio de pulso. Ele, como tantos outros, deu uma imensa contribuição à cultura brasileira e mundial ao desenvolver uma tecnologia que revolucionou a vida moderna.
     Infelizmente se suicidou, por razões desconhecidas e que a nossa historiografia teima em disfarçar, como tendo sido desgosto por ver os aviões serem usados como arma de guerra. Mas terá sido esta a razão verdadeira?
     O romance "O Ateneu", um dos primeiros romances brasileiros a tratar do tema, (outro romance pioneiro é O Bom Crioulo de Adolfo Caminha) teve em seu autor, Raul Pompéia, um destemido e sofrido comentarista da vida nos internatos e das práticas homossexuais entre os estudantes. Infelizmente Raul Pompéia também se suicidou.
     Porque tantos gays suicidas naquela época?
     Com certeza pelas pressões exercidas por uma sociedade hipócrita, ultraconservadora, marcada pela escravidão e pelo patriarcalismo.
     Dizer que a cultura gay se resume a um punhado de homens travestidos me parece querer reduzir a contribuição cultural de 10% da humanidade, o que signica algo em torno de 600 milhões de indivíduos, à um pequeno grupo de pessoas. Os gays com certeza são muito mais do que isso.
     A Inglaterra reconheceu no ano de 2009, que um cientista gay, o matemático Alan Turing, havia descoberto o código da máquina de criptografia enigma usada pelos nazistas nas suas comunicações secretas e, por isso, tinha sido uma peça chave para a vitória dos aliados. Ele também se suicidou após haver sido submetido a um tratamento forçado com hormônios.
     Esta vítima da homofobia oficial dos britânicos, porém, teve sua dignidade resgatada pelo governo do primeiro-ministro Gordon Brown, que admitiu o erro do Estado e deu-lhe a status de herói nacional.
     Pois é, queridos amigos, quantos heróis gays haverão neste mundo, quantos contribuiram e contribuem tanto em todas as áreas do conhecimento. Os gays não precisam se refugiar num gueto cultural, pois sempre estiveram na linha de frente da cultura mundial.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Histórias de outras vidas (4)

Nunca acorde um sonâmbulo

     Sim, eu era sonâmbulo, na minha juventude. Sempre falei dormindo, assim como meus filhos, todos eles falam.
     Meu irmão, quando éramos pequenos e dormíamos no mesmo quarto, reclamava muito de que eu sentava na cama durante a noite e ficava conversando coisas incompreensíveis.
     Aos 18 anos fui acampar nos arredores de Brasília, num lugar que à época era ermo, mato mesmo. No local havia um tal de Volks Clube. Creio que devia ser uma espécie de clube de proprietários de fuscas, o modelo mais popular da Volkswagen na época. Mas não havia nada lá, a não ser um barracão onde morava um vigia.
     Alguém conhecia o local e, no início de 1969 (creio que era um mês de janeiro), lá fomos nós acampar. Naquela época não haviam barracas de camping para vender, e usamos um lona de caminhão. Os colegas que foram comigo eram, Romário, Valdez, Reinaldo, Aroldo, Pinduca e Murilo.
     O vigia nos meteu medo, dizendo que havia lobos no local e que não podíamos facilitar. Ele só andava armado com uma espingarda, até mesmo para ir poucos metros fora do seu barracão. Nos disse que tomássemos cuidado para ir tomar banho em uma bica que havia lá. Não ligamos muito e resolvemos ficar.
     Escolhemos um local próximo à bica e para garantir nossa segurança armamos um fogueira na entrada da barraca e para fechá-la, fizemos barreiras com tábuas e toalhas, de forma que não ficássemos expostos. Só deixamos aberta metade de um dos lados, para que pudéssemos entrar e sair.
     Como a barraca não era muito grande, dormíamos com a cabeça encostando numa das laterais e os pés na outra. Não sobrava nenhum espaço. Claro que ninguém queria dormir na beirada que ia ficar aberta, pois os pés ficariam expostos.
     Brincamos que o primeiro pé comido pelo lobo seria de quem ficasse ali. Para escolher o felizardo, fizemos um sorteio e caiu justamente para mim dormir no lugar perigoso. Armada a fogueira, bem na porta, nos recolhemos e assim se passou a primeira noite, sem nenhum incidente.
     Na segunda noite exigi ficar no meio. Já tinha dado minha cota de sacrifício e agora mereceria a maior segurança possível e assim foi feito. Havia três colegas de cada lado e nenhum espaço para circular.
     Todos adormeceram e só me lembro de um sonho estranho, em que eu caminhava no mato com alguma coisa na mão direita. Lembro que tive medo porque estava muito escuro e eu estava sozinho. Comecei a sentir frio e a chamar por Aroldo. Então aconteceu uma coisa incrível. O frio começou a se tornar real demais e eu, de repente, percebi que estava realmente caminhando do lado de fora da barraca, chamando por Aroldo.
     Ainda zonzo, olhei para minha mão direita e nela estava uma pequena toalha pegando fogo. Larguei a toalha e fui tomado por uma sensação muito estranha, muito ruim, onde sonho e realidade se misturavam e eu não sabia em qual delas eu estava.
     Tive imediatamente a consciência de que a gente sempre sabe que está sonhando, daí a surpresa quando o sonho vira realidade. Uma surpresa muito difícil. É como não poder mais confiar nos próprios sentidos para reconhecer o que existe e o que é imaginação. A loucura deve ser algo assim.
     Por sorte Aroldo havia escutado o meu chamado e acordou, vindo ao meu encontro. Ele que estava na extremidade fechada da barraca, derrubou a frágil parede de toalhas e tábuas para ver o que estava acontecendo. Eu ainda estava muito confuso quando ele viu que, não só a toalha que eu havia segurado estava em chamas, mas a própria barraca. Rapidamente acordou a todos e os retirou de dentro da cobertura de lona, que em poucos minutos foi consumida pelo fogo.
     Pinduca, que estava enrolado em um cobertor, junto à entrada da fogueira, certamente teria sofrido queimaduras graves, se não tivesse sido retirado na hora certa. Muitas mochilas foram perdidas com tudo dentro. Logo em seguido o dia amanheceu e ficamos olhando para aquela mancha escura no chão, onde antes estivera o nosso acampamento.
     Ninguém entendeu o que acontecera. Uns levantaram a hipótese de que eu teria posto fogo no acampamento durante o meu sonambulismo, outros que eu teria salvo o acampamento do incêndio, que teria se alastrado a partir da fogueira. Ninguém conseguiu entender, porém, como eu havia conseguido sair da barraca, passando por cima de três colegas, sem despertar ninguém, e ainda por cima, dormindo.
     Fomos embora naquele dia sem entender o que acontecera e até hoje não achei a explicação. Só me lembro do frio do sonho se tornando real na minha pele e daquele terrível despertar.
     Às vezes sonho com o episódio e julgo ver, naquela noite, no escuro do mato, alguém com botas brancas e uma espécie de uniforme também branco. Mas não tenho como saber se isso é apenas parte de um sonho ou de uma estranha realidade.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf