Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

sexta-feira, 16 de abril de 2010




            Histórias de outras vidas (5)

                  UM SONHO RUIM

     Corria o ano de 2003 e eu estava no Ministério da Integração Nacional, no programa Faixa de Fronteira, por onde às vezes viajava fiscalizando obras em municípios de fronteira.
     Eu havia sofrido um seqüestro em 2001 e, devido ao trauma, passei alguns anos sonhando com isso, mas estranhamente nunca sonhei com o meu próprio seqüestro.Sonhava com situações muito difíceis, pessoas presas, maltratadas, muita maldade, pessoas ruins fazendo coisas más, muito sofrimento e dor.
     Uma noite sonhei com uma rua de terra que ia direto para uma cerca, por trás da qual haviam muitos eucaliptos. Ao chegar à cerca a rua virava em ângulo reto para a esquerda e continuava, sempre de terra, até desembocar em uma outra bem mais longe. No meio da cerca, há uns 100 metros da curva em ângulo, um portão dava para a propriedade, onde havia uma casa e algumas outras construções.
     Como costumava acontecer nos sonhos, eu entrei por cima, como se estivesse flutuando, mas bastante próximo do chão para ver e ouvir tudo o que acontecia e podia sentir as coisas, mesmo antes de vê-las. Sentia se havia felicidade no local, dor, medo, ódio e todos os sentimentos que circulavam no ambiente.
     Ao entrar flutuando sobre a cerca pude sentir o ódio, o medo e o sofrimento que havia ali. Um sentimento de terror, de pessoas indefesas à mercê de outras capazes de lhes fazer muito mal, indiferentes à dor que poderiam causar. O mesmo sentimento de impotência e de irracionalidade que senti no meu seqüestro ao me ver reduzido à condição de um animal, sem direito nem a minha própria vida, sujeito aos desmandos de pessoas que nem sequer me conheciam e para as quais eu era apenas uma fonte de renda, que eles podiam matar, torturar, descartar, sem nenhum sentimento de solidariedade humana.
     Vi pessoas amarradas durante a noite e senti todo o clima. Acordei muito impressionado e, mais uma vez, atribuí o sonho ao seqüestro que havia sofrido e à tentativa constante de procurar empurrar para dentro do meu inconsciente todo o medo que me perseguia há dois anos.
     Poucas semanas depois fui designado para fazer uma viagem de inspeção no Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. Fiz minha programação, organizando todos os orçamentos, cujas obras já executadas eu tinha que conferir. No total eram mais de 20 municípios e mais de trinta pequenas obras.         Calçamentos de ruas, estradas vicinais, pequenas pontes, calçadas e coisas do gênero.
     Seguindo instruções da nossa Secretaria, como sempre, montei o roteiro de viagem com as passagens aéreas, reservas nos hotéis, aluguel de um veículo e os dias em que passaria por cada cidade, já avisadas da minha chegada através de contato com as respectivas prefeituras. Quando tínhamos que visitar muitas cidades próximas escolhíamos um ponto de apoio, que ficasse mais ou menos eqüidistante de todas as outras, e ficávamos ali alguns dias, indo e vindo com o carro alugado.
     No dia certo viajei com aquele monte de processos, pernoitei em Porto Alegre, onde revi muitos amigos e no dia seguinte, bem cedo, segui para São Borja, num Fiat Pálio alugado. Dois dias em São Borja e arredores, medindo eletrificação rural e outras coisas, mais uns três na região das Missões e fui subindo para o norte, rumo à divisa de Santa Catarina, que também faz fronteira com aquela linguinha da Argentina, que se infiltra ente o Brasil e o Paraguai.
     A desvantagem daquele trabalho estava em viajar sozinho, fazendo medições, que muitas vezes constatavam irregularidades e desvios de verbas, alguns deles muito grandes. Por isso quando medíamos, sempre acompanhados por alguém das prefeituras, dizíamos que só poderíamos calcular com exatidão se estava tudo certo ao retornar para Brasília. Essa era a orientação para todos os fiscais do programa.
     Algumas vezes eu sentia um clima de ameaça no ar e sabia que estava completamente à mercê dos corruptos, sem apoio policial nenhum, por isso eu não gostava de me demorar muito em um local nem revelar para onde iria, no dia seguinte.
     Nessa viagem, ao prosseguir para o norte, a estrada, que já era um pouco erma, de repente ficou sem asfalto. Entrei numa estrada de terra, no final da tarde, em busca de uma cidade de fronteira desconhecida. Senti uma sensação ruim, mas consegui encontrar a cidade, que era bem razoável e me hospedar em um hotel decente.
     Era um fim de semana e eu não deveria trabalhar, segundo as normas do Ministério. Mas quem agüenta ficar parado num hotel, numa cidade estranha, sábado e domingo sem fazer nada, depois de uma semana fora de casa?
     Na sexta-feira liquidei o que tinha de fazer ali e consegui falar com os secretários de obras de duas outras cidades próximas. No sábado já estava a caminho e a última delas era bem distante de tudo. Tive que atravessar um rio em uma balsa e sair novamente do asfalto, andando uns 60 quilômetros por uma estrada de terra para chegar ao local.
     Eu nem imaginava que havia lugares assim no Rio Grande do Sul. Sempre achamos que no sul tudo é perfeito, mas aquela região noroeste do Rio Grande era bem atrasada.
No caminho fui me sentindo vada vez mais inquieto.
     A cidade era bem pequena e logo achei uma praça com um orelhão de onde liguei para o número do secretário. Ele me atendeu e disse que me encontraria no parque de máquinas da Prefeitura, que era a obra que eu devia inspecionar. Segui ao local indicado e logo me deparei com o alambrado, ao longo da via, com o grande prédio ao fundo.
     A inspeção foi rápida. Tudo estava certo e as pessoas que me atenderam foram gentis e eficientes em me mostrar tudo. Eu estava com pressa, pois tinha que voltar até a balsa, pegar novamente o asfalto e ir para a última parada, onde ainda ficaria uns dois dias fiscalizando várias cidades ao redor do ponto de apoio escolhido.
     Ao sair, o secretário me avisou para usar o portão lateral, que dava acesso à saída da cidade. Apressado, rumei para o portão e parei, num gesto automático, para ver se vinha algum carro. Olhei para a esquerda e vi que a estrada voltava para o caminho de onde eu tinha vindo. A saída mais curta devia ser pela direita. Olhei para direita e então vi,... a rua que seguia direto para a cerca com os eucaliptos, a rua do meu sonho.
     A visão me deu um choque, um estranho choque em que realidade e sonho se misturam. Foi como acordar sonambulando. Todo o clima do sonho retornou intensamente. Pude sentir novamente o medo e o sofrimento presentes naquele lugar e tudo se misturou com as sensações que eu vinha tendo naquela viagem, tanto na primeira estrada de terra quanto na segunda. Era como se eu estivesse andando por lugares perigosos, cujas ameaças eu desconhecia, mas pressentia.
     Olhei novamente para a rua e tive certeza. Quis seguir pela estrada em direção a cerca, só pela curiosidade de conferir, mas meu instinto de sobrevivência falou mais alto. Virei o carro para a esquerda e me afastei rapidamente daquele lugar.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

Um comentário:

Micaele disse...

As vezes tem sonhos que agente sonha e com o passar do tempo agente associa o sonho,como foi o seu caso.Muito interesante cheguei ficar arrepiada.