Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

RIO DE CONTAS: A CULTURA ABANDONADA II



FALAM OS ARTISTAS

Prezado amigos leitor, antes de passar a palavra aos artistas, preciso esclarecer que minha indignação com o abandono da cultura e especialmente do Teatro São Carlos, em Rio de Contas, é legítima. Porém, não desejo que essa indignação se transforme em instrumento político para quem quer fazer oposição ao governo municipal. Meu objetivo é levantar a discussão sobre o tema é tirá-lo do ostracismo em que se encontra.
Acho que a Cultura, numa cidade como a nossa, merecia mais do que uma coordenação, ela precisaria ter uma Secretaria, chefiada por alguém que conheça e dê valor a cultura e que saiba correr atrás das verbas necessárias.

Acho que para isso a classe artística da cidade precisa se unir e levantar suas reivindicações.

Por isso inicio hoje uma série de entrevistas com artistas (nascidos ou radicados) em Rio de Contas e aproveito para dizer que é preciso acabar com essa bobagem de diferenciar quem é de fora ou nascido aqui. Somos todos brasileiros e como em todo lugar do Brasil existem baianos, inclusive riocontenses, aqui também têm direito de viver os cariocas, paulistas, gaúchos, ou seja lá de que pedaço desse Brasil forem. Inclusive alguns estrangeiros se tornaram autênticos rioconteses, por amor a essa terra. Num tempo de integração e globalização, esse tipo de preconceito não faz mais sentido.

Começo essa série entrevistando Claudete Eloy e Jairo Albuquerque. A pergunta para eles foi a mesma: O que você acha da situação atual da cultura em Rio de Contas? O desdobramento da resposta também foi na mesma direção, indicando algumas proposições.

Claudete Eloy

Não há nenhum incentivo à cultura em Rio de Contas. O teatro está abandonado, sendo que é o segundo teatro mais antigo do Brasil em funcionamento.

Existem muitas pessoas na cidade querendo fazer teatro e sem condições, como eu. Grupos de adolescentes amadores é que fazem seus trabalhos sem nenhum apoio. Os que se destacam têm que sair da cidade para progredir.

Há potencial para formar uma companhia permanente para jovens, adultos e também para a terceira idade (teatro-terapia). Na verdade faltam atores idosos no mercado. Muitos começam fazendo teatro como terapia e descobrem a carreira artística.
Vejo a possibilidade de realizar um FESTIVAL DE TEATRO UNIVERSITÁRIO na cidade. As universidades financiam o transporte e estadia dos seus grupos teatrais, o que barateia o custo da realização de um evento como este. A cidade já é um cenário especial, com seu patrimônio histórico e as belezas naturais, o que atrairia mais público, incentivando um turismo de alto nível, chamando a atenção de todo o Brasil e trazendo mais cultura para Rio de Contas. Acho que seria necessário também oferecer cursos de artes plásticas, para formar verdadeiros artistas aqui, e não apenas artesãos. Talento é que não falta. Precisamos aqui, de uma verdadeira Secretaria de Cultura.
(Claudete Eloy é formada em Belas Artes e pós-graduada em cenografia pela UFBA, onde é professora da escola de Teatro. Encontra-se licenciada e vive em Rio de Contas desde 2002. Tem no seu currículo mais de 80 espetáculos teatrais realizados, em 30 anos de trabalho, todos muito bem recebidas pela crítica).

Jairo Albuquerque













Nós temos aqui dois espaços culturais abandonados; o Teatro São Carlos e o Club Riocontense.
O Clube foi fundado em 1902.  Sua sede foi dimensionada para a época, mas hoje não serve mais para um clube. As festas realizadas lá incomodam muito a vizinhança, com o som eletrônico em alto volume. Os registros foram perdidos, não existe mais uma secretaria, nem registro dos sócios, nem uma diretoria que, no entanto, poderia ser recomposta à partir dos estatutos que se encontram no arquivo público. É um espaço que deveria ser utilizado exclusivamente para a cultura.

Faltam cursos na área da cultura, arte, música, dança, etc. O Museu Zofir e o Museu Arqueológico, são realidades que também precisam contar com o apoio do governo municipal.

Nós precisamos reunir a classe artística para discutir a temática cultural, buscando soluções conjuntas com as pessoas ligadas ao meio, para definir objetivos e reivindicações. Eu apoio a criação de uma Secretaria de Cultura.
(Jairo Albuquerque é artista plástico, já foi Secretario de Turismo, Meio-ambiente, Cultura e Desporto, em governo anterior. Escultor e pintor, trabalha com miniaturas em giz, pintura à óleo e aquarela. É autor do monumento em homenagem aos bandeirantes, existentes na Praça da Matriz.)


Abraço a todos



Ricardo Stumpf

2 comentários:

Micaele disse...

Rio de Contas e cheia de arte e cultura,cheia de pessoas que gosta da arte.Precisamos de espaço pra arte e pra cultura.A cultura nao e só as festas religiosas e nem os artesanatos nao.A cultura e mais do que isso.Assim como tem movimentos pras festas religiosas tinhamos que ter movimento pra arte tambem.

Flávia Pacheco disse...

Uma cidade que tem uma profissional como Claudete Eloy não poderia estar com sua cultura tão esquecida, apagada, vista como algo sem importância, uma profissional que já trabalhou como personalidades como Grande Otelo, Sérgio Mamberte, entre tantos outros artistas renomados, mas não só pela sua tremenda capacidade artística, mas pela sua sensibilidade e boa fé. Assim também como Clau muitos outros artistas lutam para que a cultura não morra em Rio de Contas, artistas que fazem arte por amor e que tiram do seu próprio bolso para alimentarem seu sonho e promoverem a arte buscando erguer as pernas de algo que parece cair, desfalecer.
Admiro o artista Jairo Albuquerque como pintor, mas não entendo por que ele, quando podia, não fez algo pela nossa cultura! O que vejo em Rio de Contas são pessoas falando, falando, e na maioria das vezes a preocupação é a política , é o poder, isso me revolta e entristece ao mesmo tempo. E fazer mesmo? São poucos, que fazem com a “cara e a coragem” e ainda são taxados de “loucos”, “sem o que fazer” etc. etc. etc... Dentre esses poucos e “loucos”, vemos esses jovens do grupo de teatro “Loucos por Arteatro” que não medem esforços para viverem o teatro com o que de mais nobre corre em suas veias. O artista que ama o que faz , vai onde o povo está, anseia pelo aplauso, vibra com o olhar fixo do público, é também espectador de sua fantasia, mas cadê o público? Eis a pergunta que me fiz em algumas de minhas apresentações em Rio de Contas, apresentações gratuitas, diga-se de passagem, Não sei! Falamos tanto nessas “conferências da vida... Na fala, a educação e Cultura sempre vêm em primeiro lugar, mas na prática... está aí o resultado.
A criança que sempre ouve histórias, que sempre ouve músicas de qualidade, que é estimulada a criar sem medo de errar, que aprende com suas próprias descobertas, que respeita o outro e que conhece a sua história e a valoriza, esta será um jovem com sensibilidade para a arte e por conseqüência será um adulto melhor. Cada um tem o direito de escolha, mas para escolher é preciso conhecer outras possibilidades, sem preconceitos.
Concordo com a criação de uma secretaria independente com pessoas dinâmicas e que trate a cultura e a arte como devem ser tratadas, com a sensibilidade e respeito que, como artistas, merecemos. Acredito que a nova gestão tem interesse nessa melhora, é sem dúvida ema gestão mais aberta. Moro aqui a quase 6 anos e tudo o que faço pela arte e pela cultura e educação desta cidade conto com meu próprio esforço, as vezes encontro parceiros que compartilham dos mesmos sonhos e as vezes encontro pedras no caminho, penso em desistir, mas logo a diante outro suspiro faz renasce o desejo de ser feliz e de viver este sonho.