Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

quarta-feira, 19 de maio de 2010



Uma nova esperança

     O acordo entre Brasil, Turquia e Irã, e a reação negativa dos Estados Unidos, me fizeram lembrar das palavras de Sadam Hussein quando viu seu país ser invadido em 2003.
     Esta será a mãe de todas a batalhas, disse ele.
     Na época isso pareceu mais uma fanfarronada de um ditador, mas hoje acho que talvez ele estivesse enxergando com mais clareza do que nós, aqui no chamado ocidente, um futuro sombrio.
     A guerra começou no Iraque, depois passou para o Afeganistão e logo para o Paquistão. Os atentados terroristas já sacodem a Índia regularmente, país que estava fora do conflito quando começou a invasão do Iraque. Agora a histeria de Hillary Clinton contra o Irã mostra claramente que o militarismo, que domina a política externa de EUA e Israel, quer iniciar uma nova guerra.
     Por trás de tudo isto está a absurda situação do Estado de Israel, país que não respeita nenhuma resolução da ONU, que não aceita inspeção da Agencia Internacional de Energia Atômica, que tem armas nucleares clandestinas, conhecidas por todos, que pratica uma política racista e expansionista invadindo continuamente o território palestino, expulsando e massacrando impunemente sua população, baseado no apoio incondicional dos Estados Unidos para fazer o que quer, desrespeitando a tudo e a todos.
     Os americanos parecem dispostos a pagar qualquer preço para proteger Israel porque esse pequeno país funciona como uma ponta-de-lança dentro do mundo islâmico, usada para garantir a presença dos interesses norte-americanos na área, especialmente assegurando o fornecimento de petróleo, do qual os EUA são completamente dependentes para manter sua economia perdulária.
     Corremos o risco de ver essa guerra se expandir continuamente, já que ela alimenta um sentimento de fanatismo religioso anti-americano e anti-ocidental que não dá mostras de enfraquecimento, ao contrário, só parece ficar mais e mais decidido na medida em que o mundo muçulmano é mais agredido.
     O Brasil mostrou sua capacidade de negociar dando uma possibilidade à paz.
     Com isso nossa política externa nos deu, pelo menos, a garantia de que não nos envolveremos nos conflitos, ficando fora do alcance dessas bombas.
     A possibilidade de sermos ouvidos pelas grandes potências parece pequena, pois elas não querem novos atores mexendo no "seu" tabuleiro de xadrez e acredito que esse foi o principal recado que Hillary quis passar ao desprezar o acordo.
     Mas nossa voz foi ouvida e como toda mensagem nova talvez custe a ganhar crédito. Com certeza vai conquistar alguns interlocutores abrindo uma brecha nessa triste lógica do militarismo e da dominação do mundo por meia dúzia de países.
     Pode ser o primeiro passo de uma nova esperança para a humanidade.
    
     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

terça-feira, 18 de maio de 2010



Estresse Hospitalar

     Pois é, amigos leitores, em recente visita ao Chile, fiquei hospedado na casa de amigos, onde conheci uma jovem estudante de medicina, que se dizia muito desapontada com a profissão. Ela havia trancado a matrícula na faculdade e se debatia numa crise de consciência sobre continuar ou não o curso.
     Curioso, perguntei os motivos de tanta desilusão. Ela me respondeu que não concordava com a maneira como eram tratados os pacientes nos hospitais, que médicos e enfermeiras não eram preparados para lidar com eles como seres humanos, mas apenas como corpos, cujas necessidades afetivas e psicológicas não eram levados em consideração.
     Sua família achava que isso era bobagem, uma crise tardia de adolescência ou algo assim, e naturalmente se preocupava com seu futuro querendo que ela se formasse. Mas gostei da maneira como ela encarava a questão e fiquei pensando se aquilo não era fruto de uma nova geração que já encontra os problemas básicos principais resolvidos (a existência de um serviço de assistência médica eficiente no Chile) e começa a olhar por ângulos novos uma prática antiga que pode ser aperfeiçoada.
     Pois na semana passada me lembrei muito da jovem chilena, quando minha mãe teve que ficar internada por oito dias devido à uma pneumonia.
     A princípio muito eficiente, o hospital em Brasília tomou todas as medidas necessárias para debelar a infecção além de lhe proporcionar um atendimento correto no quesito hotelaria, com um quarto individual, com geladeira, televisão, ar-condicionado, cama para acompanhante, etc.
     Os primeiros dias, quando nossa preocupação era com a infecção, transcorreram ótimos, mas à medida em que ela melhorava e recobrava sua percepção das coisas ao redor começou a se queixar de ruídos. Passei uma tarde com ela e realmente percebi que havia uma obra num andar abaixo e se ouviam barulhos abafados de furadeiras e marteladas.
     Depois percebi que a parede, na sua cabeceira, fazia divisória com o balcão da enfermagem e de lá vinham também ruídos, junto à parede.
     Mas ela se queixava também de ruídos à noite, quando não havia obras nem muito movimento na enfermagem. Era ruídos de passos no corredor, que vibrava muito e reverberava os saltos de sapatos das funcionárias.
     Depois ela foi parando de comer. Dizia que estava enjoada, que nada lhe apetecia e começou a sentir dores nas pernas e coceiras nas costas. Percebi que a comida (aquela típica de hospital) quase não variava.
     Pedimos fisioterapia no quarto para as pernas e ela passou a ter dores no peito. Assustado chamei o médico que fez um eco-cardiograma e um eletro-cardiograma que não indicaram nada. Por via das dúvidas ele a deixou mais um pouco em observação e mandou lhe dar remédios contra enjoos.
     Aí ela não conseguiu mais dormir, o que levou o médico a recitar calmantes. Então começou a vomitar: mais insegurança do médico e mais remédios.
     Por fim começou a confundir as coisas, deixando todo mundo apavorado.
     Então me lembrei da chilena e também do que eu conhecia de minha mãe e percebi que ela estava apenas estressada do hospital, de tantos dias deitada, de tanto ser furada por injeções e soros, de tantos remédios recebidos nas horas mais impróprias, ministrados por uma enfermagem que parecia não enxergá-la como uma pessoa, mas apenas como um objeto de trabalho.
     Calmantes para dormir as 4 da tarde, laxantes ás 11 da noite, exames de sangue à 1 da manhã para verificar a glicemia, acendendo a luz na sua cara depois que, com muita dificuldade ela conseguia cochilar e outras práticas abusivas que a iam deixando cada vez mais fora de si
     O médico aparecia uma vez por dia, muito gentil, mas não ficava mais de 10 minutos. Se alguma coisa acontecesse na sua ausência era preciso esperar o outro dia ou ligar pra ele. Expliquei a ele meu ponto de vista, que acabou se convencendo e dando alta no oitavo dia.
     Quando chegamos em casa, depois de todo o sofrimento, ela comeu um prato enorme de comida, deitou-se na sua cama, dormiu 12 horas e acordou em ótimo estado, provando que eu estava certo: aquilo era estresse causado pelo próprio hospital, que depois de algum tempo deixou de ser um meio de cura e passou a ser, ele mesmo, a doença.
     O engraçado é que os médicos e enfermeiras não se dão conta disso. Parece que nunca ouviram falar no assunto e que isso é chatice de família.
     Hospitais públicos querem se livrar logo dos pacientes, para economizar. Hospitais particulares querem retê-los ao máximo para lucrar. Nenhum deles dialoga efetivamente com eles e não percebem o quanto de influência do próprio hospital pode resultar no agravamento do seu estado.
     Estava certa a jovem chilena.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf
    

segunda-feira, 17 de maio de 2010




Histórias de Outras Vidas (11)

O HOMEM QUE CABIA ENTRE OS MEUS DEDOS


     O ano? Nem sei. 1957, 58...
     Só sei que eu era pequeno e ficava em casa de manhã com minha mãe, enquanto meu irmão mais velho ia para a escola e meu pai ia trabalhar. Meu avô morava com a gente e gostava muito de sair e nunca dizia aonde ia.
     Nosso apartamento, do antigo IAPI, na Rua Marquês de Abrantes, zona sul do Rio, ficava em um enorme edifício que começava de frente para a rua e ia se desdobrando em quatro, cinco portarias, cada uma com seu elevador, sendo que a última era a nossa, virada para o Morro Azul, nos fundos.
     O terreno do edifício subia pelo morro até um imenso muro, que devia ter uns cinco metros de altura.
     Do lado de cá do muro o Rio de Janeiro branco, de classe média, do lado de lá, o mundo do trabalho. Negros pobres, misturados a brancos e mulatos igualmente pobres, se espremiam numa favela que crescia pelas encostas de rocha nua, rumo às árvores da mata atlântica, situadas no alto, onde havia uma chácara.
     Nosso apartamento era grande, três enormes quartos, como já não se fazem hoje. A sala, avarandada, se debruçava sobre o morro, indiferente à pobreza e ao sofrimento daquela população, carregando latas d’água na cabeça como em algum pitoresco samba antigo.
     Da lateral da varanda observávamos a centenária Casa dos Expostos, conhecida antigamente como A Roda, onde mães que tinham filhos de amores proibidos deixavam as crianças recém-nascidas na porta, numa plataforma giratória, que permitia o abandono sem que a pessoa fosse vista de dentro. Depois era só tocar o sino que as freiras vinham recolher o enjeitado.
     Meu quarto, que eu dividia com meu irmão, tinha uma janela lateral de onde se via uma nesga da rua, por onde passavam bondes na mão e na contramão, ônibus, automóveis, aqueles carrinhos com duas rodas puxados por um homem, conhecidos no Rio como burros-sem rabo, e outros prestadores de serviço que já não se vêem mais, como os afiadores de faca, vendedores de vassouras e carvoeiros, na sua maioria portugueses. Dali via-se também a entrada da favela com seu burburinho incessante, hoje substituída pela entrada da estação Flamengo do metrô.
     O grande edifício de 12 andares era uma invasão de modernidade no que restava do Rio antigo, colonial, presente ali em todos aqueles negros e portugueses. Talvez por isso foi morada de pessoas importantes:   Clarisse Lispector e seu filho Pedro, os irmãos Assis Brasil, gêmeos geniais, um pianista e o outro saxofonista, a primeira garota propaganda da TV carioca, que anunciava as lojas Tonelux.
     Depois de tomar café e fazer meus deveres do colégio, que minha mãe transformava num exercício militar de obrigações e horários rígidos, eu brincava sozinho. Meu armário de brinquedos, situado no meu lado do quarto, era embaixo da janela, convenientemente protegida por uma grade de madeira.
     Eu gostava de pegar os carrinhos e colocar no parapeito de mármore. Me abaixava e olhava por dentro e as pessoas que passavam na rua ficavam do mesmo tamanho dos brinquedos. Tinha a sensação de que os brinquedos eram de verdade, os carrinhos misturados aos automóveis da rua e aos transeuntes.
     Às vezes, também, acompanhava pessoas que iam passando, colocando-as entre meu indicador e o polegar, como se fossem também meus brinquedos e falava com eles como velhos conhecidos.
    Um dia, sozinho no quarto, peguei entre os meus dedos um homem que ia passando e fui conversando com ele, imerso no meu mundo infantil. Mas de repente: surpresa! O homenzinho se materializou, daquele tamanho mesmo, e ficou em pé entre meus carrinhos. Me olhou e falou comigo.
     Desperto da brincadeira, fiquei paralisado olhando para ele.
     Me olhava e falava comigo com uma certa malícia, como se estivesse se divertindo com aquilo.
     Assustado gritei pela mãe. Ela respondeu:
     _Que é? Mas não veio.
     O homenzinho continuava ali, andando e falando comigo, com uma voz baixa e rouca. Com medo corri para chamá-la.
     _Mãe, tem um homenzinho na janela!
     Ela me disse, um pouco irritada, que estava ocupada, mas veio até o quarto. Não havia mais nada.
     _Ele estava ali! Apontei.
     _Ele quem?
     _O homenzinho que ia passando na rua e eu peguei ele!
     Ela resmungou alguma coisa sobre imaginação e hora de tomar banho e se foi.
     Desconfiado, revistei todos os brinquedos para ver se ele não havia se escondido por ali. Guardei tudo e tratei de ir tomar banho e me aprontar para a escola.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

sábado, 15 de maio de 2010

Entrepartidas: o teatro do concreto

Prezados amigos leitores.

     Uma emergência me trouxe a Brasília, onde estou há uma semana, e me deu a oportunidade de participar (mais do que assistir) à peça Entrepartidas, encenada pelo grupo Teatro do Concreto.
     A peça tem como característica principal a de ser encenada nas ruas, praças e bairros da cidade. O espectador entra num ônibus, que parte da rodoviária do Plano Piloto (de onde saem os ônibus urbanos) que o leva à uma praça na W-3 sul , depois a uma casa de onde se volta caminhando à praça.
     Nesses locais se desenvolvem várias histórias de pessoas que vivem ou passam pela cidade, sempre focando amor, solidão, perdas...
     O ônibus também funciona como palco pois na medida em que se desloca pela cidade, vai dando carona a alguns personagens que vão também contando suas histórias para o motorista (também um ator) e para os passageiros (o público).
     Ao contrário de outras peças que interagem com o público, as atuações não são agressivas, nem fazem brincadeiras com os espectadores para constrangê-los, mas muito serenas, tranquilas, comuns mesmo, embora as histórias que retratem estejam cheias de paixão e dor.
     Ao longo do trajeto alguns atores fazem performances que vão dando recados aos passageiros sobre os assuntos que são tema da peça. Numa esquina um mulher cheira uma enorme flor e dança pelas ruas. Em outra um vulto de mulher coberto por um véu negro arrasta um terno masculino e uma roupa de noiva pelo chão, assustando pedestres e desavisados. Mais adiante um homem com um cartaz no semáforo avisa: lavo, passo e dou carinho, enquanto uma jovem abraça ternamente um grande bicho de pelúcia.
     Antes da partida, ainda na rodoviária, um homem sem camisa, vestido com uma saia de ballet branca, com sapatos de salto alto, faz evoluções acrobáticas e fala coisas sobre a vida. Ele se mantém ao longe em quase todas as cenas de rua.
     Nas cenas dentro da casa, onde se chega após caminhar por dentro de uma quadra residencial, momentos de paixão, dor, separação e solidão, falam das limitações e misérias da alma humana e falam também, muito, de amor.
     A peruana que procura a mãe, em vão, na cidade que ela abandonou há muitos anos, o menino de rua que se apaixona por uma mulher e aprende a cantar para conquistá-la, a mulher que decide se libertar através da poesia e parte sem rumo, a mulher solitária em casa, onde recebe o público em sua cozinha, oferecendo chá e bolo de verdade, numa atuação impressionante, muito próxima ao público, interagindo com ele, mas se mantendo sempre na distância que seu papel exige, são alguns personagens que vão revelando a Brasília humana por trás da arquitetura e dos imensos parques públicos do Plano Piloto.
     Ao final, quando caminhamos para a última praça, uma cena, meio ao longe, me impressionou e emocionou muito. Uma mulher está na quadra de esportes, em posição de goleiro e há uma bola parada no meio. Ela grita: chuta Mateus, chuta! Eu estou aqui!, mas não há nenhuma criança para chutar a bola. Por fim ela senta e chora, encostada a uma das traves. Sem dúvida uma alegoria cruel sobre a perda de um filho.
     Entrepartidas me evocou coisas longínquas do tempo da minha juventude em Brasília. Me lembrou como os espaços abertos da cidade desenhada por Lúcio Costa estimulam a libertação mental e física dos seus habitantes, especialmente dos jovens que ainda não tem seu tempo totalmente comprometido com atividades competitivas e com sonhos de construir/adquirir coisas materiais.
     Me lembrou como a cidade do planalto faz as pessoas olharem para si mesmas de um modo diferente, livre de tradições, e coloca dúvidas e anseios diferentes nos seus habitantes, que se sentem capazes de construir algo de novo em territórios virgens, como foi construída esta capital, já cinquentona.
     Entrepartidas já é algo de novo. Uma experiência marcante para que participa dela.
     Para conferir a ficha técnica e ver mais fotos e depoimentos, assim como outros trabalhos do grupo, visite o site http://www.teatrodoconcreto.com.br/

Abraço a todos

Ricardo Stumpf


      


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Rapidinhas

Quem é baderneiro?    

     A polícia de José Serra continua matando.
     Pra quem idolatra o PSDB e suas velhas propostas neoliberais, aconselho dar uma olhada em como o Estado de São Paulo, sob comando dos emplumados tucanos, trata o povo.
     Os professores são tratados como bandidos e suas manifestações são reprimidas à bala e cacetete pela polícia tucana, sob pretexto de que seriam baderneiros.
     Esse adjetivo é sempre usado pela direita quando quer desqualificar um protesto popular. É bom lembrar que a greve é um direito legítimo dos trabalhadores, amparado pela Constituição Federal. Lutar por direitos e por melhoria de vida não é fazer baderna. Na verdade quem arma a confusão é sempre a polícia, como fez na saída do estádio do Pacaembú quando atacou as torcidas do Flamengo e do Coríntians.
     As torcidas são violentas? Não necessariamente.
     Existem pessoas e grupos violentos nas torcidas, que precisam ser identificados e presos e não atacar todo mundo, inclusive mulheres e crianças que iam saindo do estádio.
     O elitismo tucano ataca também os motoboys. Dois foram assassinados recentemente por policiais, sendo que o último na frente de sua mãe, no dia das mães, por andar com uma moto sem placa.
     O fato é que há um preconceito herdado do século XIX, mas ainda presente nas nossas elites mais atrasadas, de que as classes trabalhadoras são classes perigosas, porque se organizam para fazer greves e agitações políticas e também porque são pobres, deseducadas e vistas pela burguesia como fonte de todos os vícios e maus hábitos. É claro que esse preconceito está sendo transmitido para a polícia, pelo governo paulista.
     Esse tipo de atitude não decorre de erros, que se resolvam com pedidos de desculpas, mas dá pra identificar um padrão na violência policial, baseado no elitismo Tucano. Já pensou em como seria o Brasil governado por essa gente? Do que seria capaz uma Polícia Federal, perseguindo pobres, negros e trabalhadores pelo Brasil afora?
     Acho que já tivemos bastante disso na ditadura.

O futuro da Igreja Católica

     Quando a gente dizia que a Igreja Católica era hipócrita, vinham com um monte de reprimendas, de que isso era preconceito, etc e tal. Agora está aí, desmascarado o escândalo. Séculos de violência sexual nas escolas e conventos, ocultos pela hipocrisia de padres, bispos e papas.
     Um segredo de polichinelo. Todo mundo sabia, mas ninguém podia falar nada.
     As vítimas agora estão tomando coragem, vencendo a vergonha e o preconceito e o escândalo não para de crescer.
     Por trás do discurso preconceituoso contra os homossexuais, todo mundo sabe que a maioria dos padres é homossexual e pratica o sexo dentro e fora das igrejas. A pedofilia vem dos hábitos solitários de padres e freiras e do contato diário com jovens e crianças de ambos os sexos, nos orfanatos e nas escolas onde os pequenos ficam indefesos diante dos que deviam cuidar deles.
     O discurso hipócrita do celibato, que todos sabem que é uma mentira, apenas serve para encobrir as taras desenvolvidas por aqueles que são proibidos de viver uma sexualidade sadia, através de casamentos que lhes proporcionem uma vida sexo-afetiva que todo ser humano precisa para ser feliz e equilibrado.
     Mas esta igreja está emparedada em seus dogmas e preconceitos e parece incapaz de se reformar, principalmente com este papa, que já pertenceu a juventude hitlerista (nazista) quando era ainda um rapaz.
     Respeito muito a fé de qualquer pessoa, o que inclui os católicos. O que não respeito são as instituições humanas, que procuram se mascarar de divinas, para esconder ambições de riqueza e poder.

O medo de Dunga

     Pois é, meus amigos, nosso técnico optou pela cautela em oposição à ousadia. Preferiu uma seleção de atletas na casa dos trinta, já provados e testados em detrimento das revelações jovens e ainda indisciplinadas, mais difíceis de controlar.
     É o caso de se pensar se controle demais, cautela demais, não acaba sendo uma espécie de retranca prévia, um medo de avançar e arriscar.
     Se for assim, tudo bem que nossos craques trintões são excelentes, mas nos arriscamos a ter um desempenho medroso, talvez buscando mais preservar o que já foi conquistado em termos de fama e respeito, do que avançar para novas conquistas.
     Quem sabe no decorrer da copa, Dunga perca esse medo e solte as feras em campo, lembrando a famosa frase de João Saldanha, quando disse que queria onze feras em campo, daí o apelido de "feras do Saldanha", para a seleção de 70 (que Zagalo já recebeu prontinha, por interferência do ditador Emílio Médici, que não queria que o comunista João Saldanha levasse os méritos de campeão do mundo).
     Coragem Dunga, solte as feras do Santos na África do Sul!

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sábado, 8 de maio de 2010

     

     Histórias de outras vidas (10)

     O MAR DA VARANDA



     O ano era 1998, a cidade: Ilhéus.
     Foi um ano difícil, como costumam ser os anos pares para mim. Em agosto defendi minha dissertação de mestrado, em Salvador, me libertando do laço mais forte que me prendia ali (meu estudo de caso era Ilhéus), mas minha casa ainda estava lá e meus filhos pequenos, que moravam comigo, ainda tinham alguns meses até o fim do ano na escola.
     Há muito eu já vinha me preparando para partir. Muitas lutas políticas, que resultaram até em ameaças de morte e algumas desilusões pessoais, selaram definitivamente o meu rompimento com aquela cidade, para a qual dediquei um livro de poesias: Uma Lágrima para Ilhéus.
     Uma vez, ao me preparar para atravessar a rua com os meninos em frente ao colégio,  um carro parou ao meu lado e dele saiu um sujeito corpulento, uns 40 anos. Apontou para eles, primeiro um, depois o outro, e fez um sinal de faca na garganta, depois entrou no carro e saiu cantando os pneus.
     Poucos dias depois, um tipo meio soturno entrou na minha lojinha de xerox, no bairro do Pontal e pediu cópias de seu cartão bancário e de sua identidade. Achei estranho, ninguém tira cópias de cartão de banco. Enquanto eu atendia o pedido ele manuseava uma máquina fotográfica e de repente... um flash.
     Olhei para ele.
     _Ah, disparou, desculpe...
     Já desconfiado continuei e de novo outro flash. Aí encarei o problema:
     _Você está tirando fotos de mim, afirmei.
     _O que você quer? Quem é você?
     O cara ficou nervoso.
     _Vou ficar com a cópia da sua identidade, disse eu.
     Ele se levantou e tentou tirar a cópia da minha mão. Consegui desviar. Ele pegou os documentos e saiu correndo.
     Desse dia em diante a situação ficou muito difícil, porque vivíamos num condomínio na beira da praia, cuja construção ainda estava no final, e éramos os únicos moradores. Não havia ainda cercas e apenas o vigia da obra dava umas voltas de vez em quando, preocupado mais com os materiais de construção.
     À noite, depois que os meninos adormeciam, carregava o dois para a minha cama e ficava na varanda vigiando. Antes que as primeiras luzes do dia aparecessem no horizonte eu os colocava novamente em suas camas, para que eles não percebessem minhas preocupações. Então dormia um pouco, entre 5 e 7 horas da manhã.
      Andava exausto, cansado de tudo aquilo. Nos finais de semana, às vezes, dormia de dia, enquanto os meninos iam para a praia com os amigos fazer o que eles chamavam de excursões de bicicleta.
     Passei a ficar muito tempo na varanda, vigiando durante à noite e cuidando de observá-los de longe durante o dia. Não agüentava mais ler depois do esforço do mestrado e só queria esvaziar a cabeça e descansar.
     Então comecei a olhar o mar.
     O oceano estava ali em frente, imenso. Há anos eu morava ali e nunca tinha parado para olhar o mar, pelo menos não do jeito que comecei a olhar. Comecei a perceber que eu olhava apenas a praia. Sim, a praia é uma coisa e o mar, lá dentro, lá no fundo, é outra.
     Passei a ficar horas admirando aquelas ondas imensas que se formavam longe da costa e comecei a tomar consciência da imensidão, das profundezas, do potencial de toda aquela água.
     E se aquilo tudo se levantasse contra nós? E se viesse nos arrastar? E se fossemos lá, como seria? O que seria a vida nas profundezas, que mistérios se escondiam sob aquele deserto líquido? Como podíamos viver à beira de uma coisa tão grande e desconhecida sem nos inquietarmos?
     Por aqueles dias conheci um homem que havia caído de um barco de pesca e que agora era entregador em um caminhão. Seu colega me disse que ele nem chegava mais perto da praia.
     Não resisti e perguntei. Ele contou que era um pescador experiente e um dia, numa tempestade, caiu do barco de pesca e ficou 10 dias à deriva no mar, sozinho, sem uma tábua para se agarrar.
     Como não se afogou?
     Meio constrangido ele me disse que não sabia, apenas lutou pela vida procurando boiar. Passou fome e sede, dormia boiando mas às vezes era despertado, no escuro, por animais enormes passando junto dele, coisas que ele nem soube reconhecer.
     Dez dias depois foi resgatado.
     Sua história me impressionou e o medo que ele demonstrava do mar mais ainda.
     Eu admirava as extraordinárias mudanças naquela enorme massa líquida que variava de cor, movimento e volume com as mudanças do tempo, a lua e as marés.
     Nos dias de chuva e vento, quando se tornava cinza e violento, eu também mudava de humor. Ficava mais melancólico, mais sonhador, conformado em esperar passar aqueles meses para poder sair dali. E quanto mais olhava o mar, mais coisas surgiam. Dei pra fazer pesquisas na internet sobre o fundo dos oceanos e descobri coisas interessantes.
     Descobri a imensa cordilheira submersa que divide o Oceano Atlântico, de norte a sul, e que muitas ilhas são picos dessa imensa massa de montanhas submersa. Descobri que a ilha de Santa Helena, onde morreu Napoleão, fica em frente a Ilhéus, no meio do oceano e também que o movimento das águas molda as montanhas submersas, tornando-as roliças e pontiagudas.
     Um almirante aposentado, que freqüentava minha xerox para copiar livros, me explicou que a plataforma submarina ali é a menor da América do Sul, tendo apenas 3 Km em média, e que no seu limite havia um enorme paredão onde os submarinos inimigos se encostavam durante a segunda guerra, quietinhos, para emboscar os navios brasileiros que passavam para a Europa.
     Ilhéus tem muitas histórias de guerra relacionadas ao mar.
     Ele contou que após o paredão havia uma profundeza abissal de 5 km, que ainda estava sendo mapeada.
     Cada descoberta ia me revelando um mundo novo e eu olhava para as pessoas na praia aos domingos, crianças brincando, velhos passeando, totalmente alheios àquele universo fantástico em cuja fronteira vivíamos. Sim, a praia era apenas a borda daquele mundo gigantesco e desconhecido.
     Olhar o mar e perceber a extensão dos seus mistérios me ajudou a enfrentar aqueles dias tão difíceis, até que finalmente chegou o fim do ano. Em dezembro já estávamos em Vitória da Conquista.
     As lutas políticas que tanto me desgastaram em Ilhéus pareciam que nunca dariam resultado e que haviam sido apenas uma perda de tempo e energia para mim e tantos outros que lutaram, mas as sementes lançadas frutificaram.
     Hoje Ilhéus e a Bahia tem governos democráticos e continuo frequentando o mesmo apartamento e a mesma praia. O mar continua lá, imenso, misterioso, insondável e, às vezes, olhando aquele universo estranho parece que ele está me dizendo que não basta chegar até a praia, é preciso mergulhar nos mistérios do mundo se queremos mudar alguma coisa.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sexta-feira, 7 de maio de 2010



Sementes

   



   Pois é, amigos leitores

     Confesso meu cansaço.
     Tenho transformado este blog numa trincheira, de onde luto pelas coisas que acredito e me protejo das tristezas deste mundo. Também é aqui que lavo minha alma e reflito sobre as coisas da vida. Mas o que mais me derrota é a traição e a covardia, disfarçadas de ingenuidade e de esperteza. O espírito mesquinho triunfa em meio à mediocridade, que é o seu mar, são as águas por onde navega, e precisa deste meio para sobreviver, mas neste mundo não lhe falta oxigênio.
     No fundo é uma luta entre amor e incapacidade de amar, entre a criação e aqueles que odeiam os criadores, porque se sentem incapazes de criar. É uma luta entre os que fazem e os que roubam as suas idéias para se sentirem importantes, numa forma de mentir para eles mesmos e ocultar sua miséria interior.
     Mas a criação e o amor sempre se impõe, como o capim que nasce na terra calcinada pelo fogo. É a vida com toda a sua força, que teima em renascer nos nossos corações, das sementes plantadas pelo vento e pela força divina que existe em cada um de nós.
     Então, quando vejo só tristeza à minha volta, olha para as montanhas, procuro me alimentar de natureza e de sonhos, ouço a algazarra dos jovens e o latido dos cães, vejo a paixão nos olhos dos namorados, sinto a força da vida na criança que chora e no pássaro que pousa no fio e percebo que meu mundo é apenas uma gota no oceano do universo e que a tristeza não tem importância, porque a vida seguirá e as coisas que os criadores fizerem permanecerão e a história dos mesquinhos desaparecerá e que eles não conseguirão deter a marcha da vida transbordante.
     Recupero então minha esperança e volto a olhar para a frente, traçando meu rumo, dentro das poucas possibilidades que temos de escolher rumos, e aceitando os fardos que escolhemos carregar.
     E assim me conecto novamente à vida e volto a semear e a colher, mesmo sabendo que lá atrás alguns virão tentando destruir as sementes lançadas à terra. Não conseguirão extirpar todas e, como sempre acontece na história humana, algumas florescerão e abençoarão com seus frutos a existência dos que virão.
     E é nesse renascer que lavo meu cansaço, como quem lava roupa suja, e renasço das cinzas da descrença, me lançando com alegria na vida e no dia que começa.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quarta-feira, 5 de maio de 2010



Rapidinhas

    




Duetos    

     Gente, o novo CD de Zé Ramalho, Duetos, está muito bonito.
     Especialmente a faixa 2, onde ele canta com Ivete Sangalo a música Amar Quem eu já Amei, de João do Vale e Libório, e a faixa 13 gravada com Tetê Espínola, uma versão fantástica de Águas de Março, de Tom Jobim.
     A voz especial de Tetê Espínola nunca foi tão bem aproveitada quanto nesta gravação, onde ela canta em falsete quase todo o tempo, um falsete incrível, de soprano, contrastando com o baixo de Zé Ramalho.
Em alguns momentos sua voz é tão fina qu se confunde com as cordas da guitarra. O arranjo musical também é muito legal, especialmente no final, quando a percussão vai tomando conta e tetê faz um contraponto extraordinário.
     Outras faixas ótimas são; A Dança das Borboletas (faixa 1), gravada com o Sepultura e a tradicional  Ave de Prata (5) com Elba Ramalho.
     Vale a pena conferir.

    




Paulo Coelho

     Depois de muito tempo, retomei a leitura do mago, Paulo Coelho, lendo A Bruxa de Portobello (2007) e O Zahir (2005), ambos da Coleção Paulo Coelho, da Gold Editora (São Paulo). Eu já tinha lido os primeiros livros dele, O alquimista e Brida (e mais outro cujo título agora me foge) e recentemente assisti ao filme Verônica Decide Morrer, baseado num livro dele.
     Gostei bastante dos primeiros, especialmente de O Alquimista, mas depois comecei a achar meio cansativo todo aquele misticismo. Com o filme, que é muito interessante, retomei o interesse pela sua obra e agora, depois de ler esses dois confesso que não sei o que pensar.
     Tive a mesma impressão que ao ler Isabell Allende, nas suas memórias e depois na trilogia em que relata aventuras em tres continentes, voltadas para o público jovem. Parece que grandes escritores que fazem sucesso com obras iniciais, depois são contratados por editoras importantes, com a obrigação de produzirem livros todos os anos, numa verdadeira indústria cultural, que os fazem perder a densidade e até a qualidade.
     Há momentos que se percebe perfeitamente que o escritor está fazendo um esforço para completar um certo número de páginas exigido, mesmo que ele tenha uma história pra contar.
     Paulo Coelho sabe tecer uma história, sabe criar situações inesperadas e finais intrigantes, sabe desenvolver temas que questionam o vazio da vida cotidiana, a perda de um sentido de ligação com a natureza e mistura isso com alguns temas exotéricos que estão muito na moda, como o culto à Deusa, assunto tratado em muitos outros livros, como As Brumas de Avalon, além de descambar frequentemente para um tipo de filosofia muito próxima da auto-ajuda, aquela bem comercial mesmo, de que nossas livrarias estão cheias.
     Gostaria de saber a opinião dos leitores: Paulo Coelho é um gênio ou só mais um escritor de best-sellers, a fim de ganhar muito dinheiro?
     Por favor, mandem suas opiniões.

    



Sapos

     Por falar em opiniões, tem gente querendo censurar o meu blog. Toda vez que faço alguma crítica à prefeitura recebo recados de que estou prejudicando a ARCA, porque podem confundir minhas opiniões com as da Associação.
     Então, embora ache isso meio ridículo, quero deixar bem claro que as opiniões expressas neste blog, representam apenas o meu pensamento, não tendo nada a ver com a ARCA, que quando necessário saberá se fazer ouvir através da sua diretoria.
     Eu também sou vascaíno, mas minha opiniões não representam de jeito nenhum a diretoria do Vasco da Gama. Sou arquiteto, mas minhas opiniões não representam o CREA ou o IAB. Sou presidente da CITRUS e nunca ninguém lá me pediu que deixasse de me expressar.
     Minhas opiniões não representam também as muriçocas que habitam a minha casa ou os sapos que moram na represa da minha roça. Representam apenas a mim mesmo e com certeza, não representam esses que querem que eu me cale.
     E apenas para refrescar a memória deles, o artigo 5o. da nossa Constituição diz:

É livre a manifestação do pensamento.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

segunda-feira, 3 de maio de 2010


Histórias de outras vidas (9)

     UM DENTE DE ALHO

     O ano? Acho que era fins de 1989 ou início de 90.
     O lugar, o bairro São Miguel, em Ilhéus, onde eu tinha minha pequena casa de pescador. A casinha era um charme: tijolo em baixo, madeira em cima, assoalhada, telha de barro, meia água, fundos para a foz do Rio Almada, que vinha cortando muitas cidades pela Bahia, passava pela Lagoa Encantada e vinha acompanhando o mar, por alguns tranqüilos quilômetros até desaguar ali.
     Comprei o terreno ao lado expandindo um pouco o sufoco de viver em três metros de largura e fiz um telhado para guardar o carro. Sem dinheiro para construir no restante do terreno plantei coqueiros, um pé de abacate, uma jaboticabeira e debaixo do telhado fiz um pequeno balcão, em semicírculo, onde montei um bar.
     Eu trabalhava em Itabuna, cidade vizinha a 26 quilômetros, e nos fins de semana abria o barzinho pra me divertir um pouco. Meu sócio era meu amigo José Mário, que morava ao lado e estava desempregado.
Ele era muito caprichoso em tudo que fazia. Arranjou umas toalhas amarelas, que mantinha sempre impecáveis, e preparava umas caipirinhas muito gostosas, além de um camarão ao alho e óleo que ficou famoso.
     Vinha gente de longe para curtir aquele cantinho escondido na beira do rio. Tínhamos até umas mesas bem fora da visão da rua, para agrado de certos executivos do Distrito Industrial de Ilhéus situado lá perto, senhores respeitáveis que vinham com umas moças muito jovens, parecendo secretárias.
     Uma noite de sexta-feira, meio chuvosa, não havia aparecido ninguém e nos preparávamos para fechar quando um desses senhores apareceu com uma bela garota e pediu duas caipirinhas e um camarão alho e óleo.
     Tudo parecia bem, até que José me fez sinal, com cara de preocupado e disse:
     _Acabou o alho, e não tenho mais nada para oferecer além do camarão.
     Respondi que não se preocupasse que eu iria pedir um dente de alho pela vizinhança. Saí pela rua à procura de alguma casa aberta mas não encontrei nada: tudo estava deserto.
     Percorri a rua do rio, que era a nossa, e todas as casas estavam fechadas. Na colônia de pesca todos se recolhem cedo, antes das dez, pois os pescadores saem para o mar às quatro da manhã.
     Preocupado, passei então para a rua do mar, que era a outra que havia, já que nosso bairro era uma espécie de língua de areia, entre o mar e o rio: tudo fechado, tudo apagado.
     Só o vento do mar batia, frio.
     Já desanimado dei a volta, retornando até a igreja, onde havia uma travessa que dava quase em frente a minha casa. Tudo quieto, só o barulho do vento e do mar agitado e já ia desistindo quando vi uma pequena luz vermelha sob uma imensa amendoeira. A princípio não distingui o que fosse mas logo identifiquei uma brasa de cigarro. Alguém estava ali fora fumando no meio daquela ventania.
     Meio cismado, ia virando a esquina quando uma voz me chamou:
     _Procurando o que, Seu Ricardo?
     Encabulado, retornei e fui até o cigarro. Era uma velha senhora que morava na casa bem debaixo da amendoeira. Já tinha falado com ela algumas vezes, mas não me lembrava seu nome.
     Sentada num banquinho a velha fumava, saboreando o vento e a fumaça.
     Expliquei a situação e ela rapidamente entrou, me trazendo não um dente, mas uma cabeça de alho.
     _Pode levar!
     _Quanto é?
     _Ôxe, o que é isso Seu Ricardo, não é nada não...
     Agradeci, dei boa noite e corri para levar o alho para José Mário, já desesperado com a demora.
     O camarão saiu e o cliente ficou satisfeito, custando a ir embora. Quando fechamos já passava de meia-noite.
     No outro dia, sábado, vi a aglomeração perto da igreja. Fui saber e me informaram que uma senhora havia morrido na outra rua. Fui lá e dei com a mesma casa da véspera. Assustado fui espiar: era ela.
     Perguntei às pessoas na porta e me disseram que ela havia ido dormir cedo e morreu durante o sono. Tive um arrepio.
     _Como durante o sono? Perguntei.
     _Ela foi dormir e não acordou mais. Me respondeu o filho, choroso.
     Não falei a ninguém o que ocorrera, afinal ela podia ter levantado à noite para fumar sem que ninguém visse. Mas tudo era meio estranho, ela sozinha à noite, seu chamado sem me conhecer muito, a oferta generosa do alho e a morte súbita.
     Eu que detesto velórios tratei de ir naquele e o povo de lá, que não me conhecia muito, não entendeu porque eu me sentei com eles e fiquei até a hora do caixão sair, rezando e pedindo por aquela alma.

     Abraço a todos
 
     Ricardo Stumpf

domingo, 2 de maio de 2010




                                      Amor e Desamor

     Prezado amigo leitor.
    
     Alguém já disse que a solidão é uma coisa diária.
     Tem dia que é mais fácil, tem dia que é mais difícil e vai-se administrando essa dificuldade diariamente para ir sobrevivendo.
     Fácil falar mas perder um amor é uma coisa muito difícil. A gente ama e odeia ao mesmo tempo, toma resoluções definitivas que só aumentam a insegurança, quando bate a saudade quer voltar, quer esquecer, quer fugir, mas o vazio está ali, enorme, envolvendo a gente.
     Difícil seguir em frente tentando não olhar pra trás e ir juntando os cacos do coração partido em mil pedaços. Difícil se olhar no espelho e tentar reerguer o amor-próprio, fazer algum plano, qualquer plano, pra dar sentido a uma vida desnorteada pela ausência repentina de sua metade.
     Mas é a inércia da rotina que vai colocando as coisas no lugar e a memória da dor nos leva a seguir em frente, sabendo que voltar atrás é impossível. E a estrada parece tão árida e sofrida até que começamos a perceber uma flor aqui, um pôr de sol bonito lá adiante, um perfume inesperado da manhã e então, sem que percebamos, a alma vai cicatrizando, vai renascendo e sentimos reacender aquela chama da vida que nos dá alegria de estar nesse mundo, de habitar um corpo, e surgem as idéias, novas idéias, que nos impulsionam para algum lugar novo no nosso imaginário humano pleno de inquietudes e curiosidades.
     E o sofrimento nos ensina a humildade de saber-se pequeno e frágil, nos ensina que precisamos muito dos outros, que precisamos até das pedras da rua, que fazemos parte de um todo e que somos ao mesmo tempo parte e todo, indivíduo e coletivo, competição e cooperação e nos faz olhar as coisas que antes julgávamos tão importantes com misericórdia e desprendimento.
     E assim entendemos finalmente que somos pouco, mas fazemos parte de um muito, somos pequenos mas pertencemos a algo grande e que não vale a pena apequenar a alma, amesquinhar a existência, perder-se desse sentido de grandeza.
     Nossa alma pertence a uma grande alma coletiva da humanidade (assim como pertencemos também à grande biosfera terrestre), à um cortejo de almas que caminha pelas sendas da evolução e que aprendemos na alegria e na dor, na dificuldade e na vitória e que todo amor vale a pena, mesmo quando foi perdido.
     Mas o bálsamo para consolar aqueles que perdem um amor é saber que a vitória está sempre com quem amou, mesmo que sofra pela perda, e que a verdadeira derrota nesta vida é não saber amar.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf
    
    

sábado, 1 de maio de 2010

GIRO

Prezados amigos

Depois de duas semanas viajando entre Rio de Contas, Rio de Janeiro e Brasília, estou de volta à terrinha.
No Rio de Janeiro, pela primeira vez em mais de 40 anos vi governos se mobilizando para remover favelas. Aleluia! Precisou morrer tanta gente.
Mas os políticos oportunistas de plantão já estão se mobilizando para defender as comunidades da remoção.
Pode? Até quando nossa política vai ser esse comércio oportunista de favores, contra o interesse comum?

Por falar em política, em Brasília a indignação é grande. Arruda era um político popular e estava fazendo muitas obras. A revelação de sua corrupção e a extensão dela a tantos outros políticos, fez o brasiliense se tornar descrente de tudo e apostar numa renovação total.
Acredito que deve dar Agnelo Queiroz, do PT, nas próximas eleições para governador. O problema é que o PT fechou aliança com o PMDB local, seguindo a receita de Lula para apoiar Dilma, e dentro do PMDB estão muitos corruptos citados pelo Procurador Geral da República, que pede intervenção no DF.
E ontem Ciro Gomes disse que o PMDB é um ajuntamento de assaltantes.
Novidade...

Não deixem de ver O Segredo de Seus Olhos, que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro esse ano. O filme, argentino, é muito bom, uma beleza mesmo e muito impressionante pelo conteúdo humano. A fotografia é bem diferente e tem uma tomada num estádio de futebol que é realmente incrível.

Enquanto isso, em Rio de Contas, gente de Emerson Leal (pra quem não conhece é um antigo político carlista que agora faz parte da base aliada)aparece oferecendo apoio a quem quiser, dizendo que estão com o dinheiro de Wagner na mão. Não entendo mais nada. Parece que nosso prefeito aqui anda cada dia mais desprestigiado. Deve ser o efeito Geddel. Acho que também é o efeito poste. Quem não dialoga com a sociedade e deixa o segundo e o terceiro escalão aprontar à vontade, promovendo vinganças contra os adversários, vai ficando cada dia mais isolado.
Triste fim de Policarpo Quaresma.

E hoje é dia daqueles que acordam cedo para carregar o Brasil nas costas: viva o trabalhador brasileiro!

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quinta-feira, 29 de abril de 2010



Mockus Pocus

Prezados amigos leitores

Segundo a Wikipédia, "Hocus Pocus é o nome de um encantamento utilizado por mágicos do século XVII (hocus pocus, tontus talontus, vade celerita jubes) com a função de criar um ar de mistério em suas perfomaces."
Pois não é que um candidato do Partido Verde da Colômbia, de nome Antanas Mockus, acaba de assumir a primeira colocação nas prévias para a eleição presidencial marcada para 30 de maio, desbancando os tradicionais partidos Liberal e Conservador?
Mockus conseguiu a mágica de sair de 5 para 38%, apenas usando poucos recursos de internet e mais do que isso, apresentando propostas novas e inteligentes para um desenvolvimento sustentável, já aplicadas por ele nas suas duas gestões como prefeito de Bogotá.
Parece que ele conseguiu se libertar de um debate que insiste em se manter nos limites tradicionais entre direita e esquerda (no caso da Colômbia, entre uma elite militarista e fascista e agrupamentos de esquerda que há muito desistiram do espaço democrático e partiram para a luta armada), para desenvolver uma nova lógica, que questiona o desenvolvimentismo e o crescimento econômico, a qualquer preço, gerador de injustiças sociais, que criam a base para os conflitos de classe.
A economia sustentável é um desenho de desenvolvimento que busca o equilíbrio entre a economia humana e a natureza, o que inclui a valorização do trabalho, já que a pobreza é um dos maiores fatores de desequilíbrio ecológico, e a dignidade humana em todos os seus aspectos.
Na verdade a sustentabilidade é um conceito que se estende a tudo, não apenas à natureza, mas que significa a possibilidasde de permanência, de continuidade, sem esgotamento dos recursos, sejam humanos (embora esse conceito de "recursos humanos" esteja ligado à exploração capitalista do trabalho), quanto naturais ou mesmo da própria capacidade da sociedade evoluir pacificamente em seus relacionamentos, sem fatores que estimulem conflitos, ou seja, sem injustiça ou violência.
Assim, esse novo desenho absorve a discussão anterior e amplia seu alcance, levando a noção de justiça, paz e equidade a todos os domínios da ação humana.
Mockus está conseguindo passar o recado para a sua sociedade com muita competência e tranquilidade.
Uma boa oportunidade para o Partido Verde brasileiro estudar (e seus dirigentes já estão indo a Colômbia ver o que está acontecendo) e passar a explicar melhor suas propostas ao eleitorado brasileiro, saindo das meras palavras de ordem, repetidas por todos os demais partidos.
Marina é uma candidata de peso, tem conteúdo e experiência administrativa como Ministra do Meio Ambiente e pode crescer muito. Quem sabe conseguimos nos libertar desse tal plebiscito entre direita e esquerda, que Lula quer impor ao país, e fazemos também a nossa mágica.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

segunda-feira, 26 de abril de 2010



Prezados amigos leitores.

Peço licença para transcrever aqui, hoje, artigo publicado no site "Vermelho", sobre esta mulher admirável que é Piedad Córdoba.

Piedad Córdoba e a luta pela paz na Colômbia

As imagens de Piedad Córdoba que o mundo conhece mostram a senadora colombiana, de 55 anos, embarcando em helicópteros brasileiros e partindo rumo a lugares perdidos na selva colombiana, enquanto jornalistas de meio mundo ficam olhando para o céu. Ela volta algumas horas depois, em companhia de reféns libertados.
No entanto, quando as luzes das câmeras se apagam, o país que deveria lhe agradecer pelo trabalho e pelos esforços não apenas deixa de fazê-lo como também, em várias ocasiões, retribui o favor com insultos e desqualificações.
Iván Cepeda Castro é o porta-voz do Movice (Movimento das Vítimas de Crimes de Estado) e foi eleito recentemente para o Congresso. Conhece Piedad desde a época em que ela e seu pai mantinham uma íntima relação pessoal e de trabalho.
"Esta relação com meu pai", conta Iván, "foi muito significativa para ela e, de algum modo, transformou sua visão da realidade do país. Por muito tempo eles compartilharam projetos de defesa dos direitos humanos no parlamento e, quando mataram meu pai, foi um golpe muito duro para ela, não só em termos políticos, mas também pessoais. A busca de justiça pela morte de meu pai nos aproximou muito. Minha amizade com Piedad nasce como uma herança de meu pai, que ao longo dos anos fortificamos e estreitamos."
Os ataques a Piedad, segundo Iván, se explicam pelo fato de a senadora ter desafiado a crença de que somente pela via militar, com a guerra, é possível pôr fim ao conflito colombiano.
"A busca de negociações e acordos é uma postura que se defende com relativa facilidade em um momento de consenso social sobre a paz, mas é muito difícil de defender em momentos nos quais a sociedade dá preferência a uma ideologia de segurança quase dogmática, que acredita apenas na guerra e na opção militar", conta.
E completa: "Creio que parte da virtude e da novidade política da posição de Piedad Córdoba reside no fato de ela ter desafiado essa política de segurança democrática, criando a possibilidade de uma prática humanitária em condições muito adversas, uma prática que levou à libertação, até agora, de 14 pessoas."
A definição de Piedad Córdoba como uma mulher que conseguiu desafiar e vencer as adversidades é compartilhada por Olga Amparo Sanchez, diretora da Casa da Mulher de Bogotá e amiga da senadora desde os tempos de universidade.
"É uma mulher que encarna o grande esforço necessário na Colômbia para romper múltiplas formas de discriminação, tanto por sua condição de mulher e de afrodescendente quanto pelo perfil de opositora com convicções políticas alternativas. Por isso acredito que Piedad é uma mulher que venceu e vence a cada dia a discriminação e o preconceito. Este valor e sua inesgotável capacidade criativa de gerar iniciativas políticas que resultem em espaços novos, de encontrar saída para os problemas da Colômbia, são as características que mais me motivam a respeitá-la e admirá-la".
O jornalista Hollman Morris, que acompanhou durante anos o trabalho da senadora na área social, declarou ao Opera Mundi: "Piedad Córdoba é uma pessoa capaz de gerar dinâmicas com suas ações políticas, o que permite que suas posições e iniciativas ocupem o centro do debate político. Isso vale não só para sua dedicação à busca da paz na Colômbia, mas também no âmbito dos direitos humanos. Piedad é uma das poucas figuras políticas da Colômbia que promoveram grandes processos legislativos e debates políticos favoráveis aos setores mais excluídos. Isso apesar de pertencer ao Partido Liberal, que faz parte do establishment político do país."
Piedad é também uma vítima da violência estatal e paramilitar na Colômbia - e sofreu esta violência de várias formas. Em 1999, a senadora foi sequestrada pelo chefe paramilitar Carlos Castaño, que só a libertou graças a uma forte pressão internacional. Ela decidiu viver um período no Canadá que definiu como exílio. Assim que voltou à Colômbia, foi alvo de dois atentados, o que a obrigou a separar-se da família, que por isso ainda vive naquele país.
"Acredito que a partida para o Canadá foi o momento mais difícil", diz Olga. "Ela teve de deixar tudo para trás e, sem ajuda do Estado e de seu partido, cuidar dos filhos em uma situação muito difícil, abandonando suas causas e lutas. Até hoje Piedad vive uma vida de grandes sacrifícios, quase sempre confinada em casa. Não é fácil para ela, que tanto ama a música, a dança, e é uma excelente dançarina de salsa. Mas isso, ou simplesmente ir a um restaurante ou supermercado, são atividades que hoje ela não pode se dar o luxo de praticar. Ela teve de eliminá-las de sua vida por segurança, por causa da perseguição da imprensa e da pressão do governo. Aprendeu a lidar com a situação com sua própria força, renunciando até mesmo a uma escolta do Estado. É uma mulher forte, mas também muito sensível, capaz de superar essas situações - que não deixam de lhe causar muita dor. Para mim, o que lhe dá força para continuar é ter um objetivo muito claro, que hoje é o de libertar os reféns".
Iván explica desta forma a rejeição de alguns setores da opinião pública: "Trata-se de uma série de campanhas midiáticas artificiais de deslegitimação e difamação, que em alguns contextos levaram a golpes muito baixos contra ela, por sua condição racial e de mulher, como no famoso voo Bogotá-Caracas no qual alguns passageiros insultaram e quase a agrediram fisicamente. Mas não é verdade que Piedad seja uma mulher repudiada pela sociedade colombiana. O que ocorre é que alguns meios de comunicação e alguns ideólogos do governo de Uribe exageram esses ataques na tentativa de transformá-los em crença social. Assim como há esse tipo de reação, há manifestações de ampla simpatia e respaldo".
Citando um episódio específico para exemplificar, ele continua: "Lembro-me perfeitamente do momento em que acompanhamos a libertação do ex-deputado Sigfrido Lopez, do departamento de Valle. Quando chegamos à praça central de Cáli, havia uma manifestação com milhares de pessoas. Não conseguíamos chegar à tribuna por causa da quantidade de demonstrações de respeito, admiração e carinho por Piedad. Ela é uma mulher admirada e respeitada por muitos setores da sociedade. A população e seus votos comprovam isso."

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 25 de abril de 2010

Histórias de outras vidas (8)

                                                        
                                A HORA DA PIADA

Era uma repartição pública em Brasília. Corria o ano de 2004. A sala pequena enjaulava 25 funcionários que não tinham muito o que fazer.
Na verdade eram duas seções dentro de uma sala, dividida ao meio por um corredor. Um chefe de cada lado, distribuindo tarefas e tratando de conter seus subordinados quando não havia muito serviço, o que era bem freqüente.
No final do corredor, a sala da diretora, uma mulher alta, dos seus 60 anos, tratava todos como se fossem crianças e esperava de todos uma fidelidade canina, pessoal mesmo, a ela, a grande benfeitora.
Os que haviam entrado no último concurso, gente pós-graduada, se espantava com aquele tipo de relação primitiva, difícil mesmo de ser contestada, de tão desrespeitosa: uma piração.
Os dias transcorriam sufocantes até que numa sexta-feira, os chefes haviam saído mais cedo e alguém contou uma piada. Todos riram e pareceu que pela primeira vez o ambiente se descontraiu. Alguém lembrou que já era tarde e podiam pedir uma pizza, e assim uma espécie de happening se instalou, com as pessoas se aproximando e conversando, pela primeira vez, subvertendo a ordem rígida da burocracia e da loucura inflada do ego da diretora, com seu implacável autoritarismo maternal que dominava havia muitos anos, parte daquela infeliz comunidade. Os antigos também gostaram da novidade, mas à toda hora iam até a porta, dar uma espiada para ver se ela não vinha no corredor.
Outras sextas-feiras se sucederam e aquela virou uma espécie de hora do relaxamento das tensões da semana. Até os chefes começaram a participar e um dia alguém sugeriu que todos contribuíssem para que toda semana fossem comprados salgados e refrigerantes, oficializando assim naquele horário um momento de congraçamento.
Um dos chefes, porém, zeloso de sua fidelidade à grande mãe, tratou de prestar-lhe conta do que estava acontecendo à revelia do seu controle e liderança.
Ao ouvir o relato do seu informante, a velha mãe-patroa calou-se, pensativa, mas logo recobrou seu insuperável senso prático e decidiu:
_Não há nada de errado no que eles estão fazendo. Acho que isso pode ser bom para o trabalho. Vamos aderir ao movimento deles e eu também vou colaborar com a pizza. Você fica encarregado de encomendar a cada funcionário uma piada, que deve ser escrita e depois de lida, cada qual na sua hora, deverá ser entregue a mim, para ser arquivada.
O chefe falou, mas ninguém acreditou muito, tão acostumados já estavam ao seu momento. Na sexta-feira, porém, lá estava ela, na hora certa.
A pizza chegou, aquele dia enriquecida com mais salgados e refrigerantes. Ela bateu palmas e fazendo todos se calarem, ordenou feliz:
Hora da piada!

sábado, 24 de abril de 2010

50 anos de Brasília

     Prezados amigos

     Depois de passar pelo Rio , vim a Brasília para os 50 anos da Capital.
     Eu que cheguei aqui em 1960, poucos meses após a inauguração, posso dizer que vi essa cidade crescer, sair de um projeto para a realidade de metrópole de hoje.
     Os jornais do Rio e São Paulo até hoje fazem muxoxo, não querendo reconhecer sua importância, mas Brasília não precisa mais da aprovação do sudeste, alçou voo próprio, tornou-se ponta de lança da civilização brasileira, decidida a ocupar seu território até então abandonado aos que se aventuravam pelo êrmo desses sertões.
     Acontecimento importante no mundo, nos anos 50, o cinquentenário também é importante, porque foi Brasília que desencadeou o processo de afirmação nacional que trasnformou o Brasil no que é hoje.
     Nós que a vimos crescer, mesmo os que se afastaram como eu, mas que tem ainda raízes por aqui e a visitam com frequência, sabemos dos seus males e das suas qualidades. E seus defeitos não são aqueles que a grande imprensa gosta de mostrar, chamando a cidade de corrupta, de Ilha da Fantasia (em referência à uma antiga série de TV), nem de desperdício, em função da sua grandiosidade.
     Brasília tinha que ser grande para representar a grandeza do Brasil e será maior ainda, na medida em que seu amadurecimento vá aproximando os mundos diferentes que aqui se reuniram, dos povos mais adiantados da nação às criaturas saídas do isolamento dos êrmos, numa mescla difícil e demorada.
     A crise que a cidade vive atualmente é o melhor exemplo disso, pois está passando a limpo toda uma geração de políticos nascida sob a ditadura e que se amesquinhou à sombra do poder federal.
     A prisão do ex-governador e sua posterior cassação, puseram em funcionamento os mecanismos constitucionais que podem repor as coisas no seu devido lugar.
     Tenho fé que os próximos 50 anos se iniciarão sem o lixo político que havia tomado conta da cidade e novas portas se abrirão para sua população.

     Que Deus abençoe Brasília e o Brasil.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quarta-feira, 21 de abril de 2010



Histórias de outras vidas (7)

FRANK

     Corria o ano de 1994, eu havia voltado de Manaus para Brasília e conseguido entrar na Universidade de Brasília como professor temporário, para dar aulas na Faculdade de Arquitetura.
     Como até 1990 eu tinha participado ativamente da militância política que me levou ao PT e depois ao velho PCB, e já tinha sido muito perseguido por isto, eu tinha por hábito esconder minhas idéias, até que soubesse com quem estava lidando.
     A direita brasileira identifica logo a gente. Já fazia quase dez anos que a ditadura tinha acabado, mas a esquerda ainda era muito marcada, pois na transição eles haviam mantido o controle da Constituinte e estavam levando o Brasil para o neoliberalismo, uma ditadura econômica dentro da democracia formal, onde qualquer tentativa de governar para os interesses da maioria era rotulada de populismo.
     Percebi logo que o ambiente era dominado pela direita. Imagine que dentro da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília era proibido elogiar Oscar Niemeyer, o gênio criador das mais importantes obras da cidade. Claro que o motivo era sua militância no Partido Comunista, o meu partido.
     Preocupado em manter meu emprego, procurava me manter afastado de polêmicas. Mas eu tinha um amigo lá dentro, Cláudio, que também era simpatizante do Partido. Ele trabalhara com Niemeyer na Argélia e não se intimidava com a campanha raivosa de direitistas remanescentes da ditadura e defendia abertamente a obra e as idéias de Oscar Niemeyer.
     Claro que ele comentou com alguns colegas sobre minha militância, porque logo fui identificado e colocado no rol dos inimigos daquela gentinha miúda, que havia entrado ali no tempo de Azevedo, o reitor militar que dominou a universidade durante muitos anos, com a missão explícita de impedi-la de produzir idéias.
     Começaram logo a implicar comigo, ao ponto de um colega de disciplina chegar a dividir a turma (a metade dele e a minha metade), numa tentativa explícita de me desprestigiar ante os alunos. Percebi a dificuldade que teria em me manter ali, mas fui contornando como pude.
     Um dia recebi um recado que o diretor da Faculdade queria falar comigo. Era um velho professor de nome Frank. Andava meio curvado e tinha uma fala arrastada, lenta. Pensei comigo: pronto, chegou a hora de ir embora.
     Na hora marcada fui ao encontro dele, no seu grande gabinete do andar térreo da faculdade, que fazia parte, do imenso edifício onde se localizavam inúmeras outras faculdades. O prédio projetado por Niemeyer, é um grande arco de 750 metros de extensão e três andares, mais um subsolo, com o pomposo nome de Instituto Central de Ciências, mas carinhosamente chamado pela comunidade acadêmica de minhocão.
     Entrei na sala e fiquei frente a frente com o Professor Frank. Ele me mandou sentar a frente de sua grande mesa e me olhou com ar cansado. Pediu a sua secretária que saísse e fechasse a porta, porque iria ter uma conversa particular. Esperei pelo pior.
     Ele me disse então que havia sabido que eu pertencia ao Partido Comunista e perguntou se era verdade. Pensei então que era hora de levantar as bandeiras e ir à luta. Já havia sido identificado mesmo e o melhor era cair de pé. Confirmei e contei um pouco da minha participação política, justificando minhas atitudes com denúncias sobre as injustiças sociais e todo o meu inconformismo com a submissão do Brasil aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Enfim, assumi o discurso comunista e me declarei militante, para o que desse e viesse.
     Ele, que me escutara calado, se virou para mim e disse com sua voz cansada.
     _Até que enfim tenho com quem conversar!

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

terça-feira, 20 de abril de 2010



Histórias de outras vidas (6)

A IRMÃ DO ASTRONAUTA

O ano era 1984, o local; um convento de freiras em Ariquemes, Rondônia.
Como eu fui parar lá? Bom, tudo começou na Vila Maria da Conceição, em Porto Alegre, um ano antes.
     Ao final do meu curso de arquitetura, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, escolhi como tema para o trabalho de diplomação a urbanização de uma favela, próxima à minha pequena casa alugada, conhecida como Vila Maria da Conceição, ou Maria Degolada.
     Era uma favela espremida no meio de prédios e casas, ao longo de uma faixa que subia o morro por um lado e descia pelo outro, começando na avenida Bento Gonçalves, passando pelo bairro Caldre Fião (no alto) e descendo em direção à Terezópolis.
     O apelido Maria Degolada, se devia a um crime, onde uma Maria foi degolada por seu amado, em cima de uma pedra, local que se tornou alvo de devoção e peregrinação em torno de supostos milagres.
     Me ofereci para fazer o trabalho junto ao Centro Comunitário, que funcionava no alto do morro, e onde trabalhavam várias estudantes do serviço social, orientadas por uma assistente social formada. Entre elas uma freira, Lúcia, que tinha um sobrenome italiano.
     Fiz muitas amizades por lá, embora o trabalho não tenha sido concluído devido à interferência de uma outra freira que controlava tudo por lá, em nome de uma ONG de propósitos mais do que duvidosos.
     No ano seguinte, 1984, soube que irmã Lúcia tinha ido para Rondônia, servir em Ariquemes. Era época de muito desemprego e também de grandes migrações de agricultores do sul para Rondônia, expulsos pela cultura da soja e que iam em busca de terras distribuídas pelo governo do então território.
     Pensando em conseguir um emprego e também curioso para conhecer e entender o que estava acontecendo por lá, peguei um ônibus para Campo Grande, outro para Cuiabá e finalmente um para     Ariquemes, pela BR-364, Cuiabá-PortoVelho, então inteiramente de terra. De Cuiabá a Porto Velho eram mais de 2.000 Km de estrada de chão, num ônibus que ia corcoveando. Uma aventura.
     Consegui chegar a Ariquemes e fui muito bem recebido pela irmã Lúcia, que inclusive me hospedou no convento das freiras, o que eu supunha fosse proibido.
     Lá, as várias irmãs se revezavam nos trabalhos, apoiando as famílias que chegavam do sul e recebiam um pedaço de mata virgem para derrubar, sem nenhuma ajuda do governo. Muitos morreram em função de doenças ou árvores que caíam sobre eles. Crianças pequenas morriam de malária logo nos primeiros anos, desacostumadas que estavam àquele meio ambiente.
     Era um projeto americano, patrocinado pelo Banco Mundial com apoio do governo militar, para ocupar a fronteira com a Bolívia de forma a prevenir a ameaça de possíveis guerrilhas, como a tentada por Che Guevara.
     Em termos ambientais e humanitários o projeto foi um grande desastre, embora tenha conseguido povoar Rondônia. A principal conseqüência da ocupação foi transformar Rondônia em porta de entrada para o tráfico de drogas, que a partir dali instalou seus cartéis nas grandes cidades brasileiras, principalmente nas favelas do Rio de Janeiro.
     Saí com irmã Lúcia, algumas vezes para visitar as linhas, estradas que entravam mata adentro, e por onde se tinha acesso aos lotes de mata amazônica, dados aos louros imigrantes do Paraná. Era incrível!
     Dentro do convento, muitas irmãs simpáticas se revezavam para que eu me sentisse à vontade no ambiente delas, e olhe que nem católico eu era. Às vezes elas me pediam que tocasse violão e cantávamos todos juntos, depois do jantar. Lúcia tocava e cantava muito bem.
     Dentre as irmãs, uma pequena e loura, catarinense era uma de suas melhores amigas. Devia ter uns quarenta ou quarenta e cinco anos, na época. Sua pele muito branca era envelhecida precocemente pelo sol, como costuma acontecer com os colonos do sul, descendentes de europeus.
     Não me lembro seu nome, mas numa dessas noites de violão e cantos, ficamos conversando os três, eu, Lúcia e a pequena catarinense. No meio da conversa uma revelação surpreendente. Lúcia me perguntou se eu sabia guardar um segredo, coisa que fiz até hoje, mas não vejo mais sentido em manter.
     Feita a promessa, Lúcia me perguntou se eu não achava a pequena freira catarinense parecida com alguém. Depois de contemplá-la com atenção, não consegui me lembrar de ninguém. Então, Lúcia me disse que ela era irmã de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na lua, em julho de 1969.
     Me lembrei das especulações surgidas na época, de que Armstrong teria nascido no Brasil, no interior de Santa Catarina. A revista Veja inclusive visitou o local e fez uma reportagem, mas logo tudo foi desmentido e dado como um equívoco.
     Mas realmente a pequena freira era a cara de Armstrong. Então ela calmamente me contou que Armstrong era seu irmão, tinha nascido em Santa Catarina e depois, por motivos que não me lembro, tinha sido levado ainda pequeno para os Estados Unidos, creio que pelo pai, mas que isso não podia ser revelado e que sua família tinha recebido muitas instruções sobre isso, porque o primeiro homem a pisar na lua tinha que ser nascido nos Estados Unidos.
     Logo retornei a Brasília e nunca mais soube daquelas freiras.
     Hoje vejo por aí muitas histórias de que o homem nunca esteve na lua e tudo teria sido uma grande farsa, como, aliás, todas as pessoas simples e humildes diziam na época. Como saber? Mas pelo menos uma parte da história era mesmo mentira e aquele americano que dizem ter sido o primeiro ser humano a colocar os pés em outro astro, na verdade, nasceu no Brasil.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf