Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

sexta-feira, 17 de agosto de 2012


Rapidinhas
O Ideb e a educação no Brasil

     Os resultados do Ideb 2011, divulgados pelo MEC, provam o que todo mundo já sabe: que o sistema educacional brasileiro não funciona.
     As melhores escolas públicas continuam sendo as federais e as militares, enquanto as piores continuam sendo municipais.
     E não é por falta de financiamento, pois o governo federal aloca dinheiro até para reforma de prédios tanto nos sistemas estaduais quanto nos municipais. É por falta de interesse mesmo.
     A prova disto são as pequenas escolas de pequenos municípios que conseguiram ótimas pontuações. Escolas onde alguns (poucos) prefeitos interessados colocaram gente competente à frente das unidades de ensino, gente com criatividade suficiente para vencer o marasmo de professores e alunos desmotivados e transformar uma obrigação constitucional, em uma verdadeira prioridade.
     O erro está no sistema, que confunde descentralização com municipalização. Na esmagadora maioria dos municípios as escolas não gozam de autonomia nenhuma. São centralizados por prefeitos que fazem delas objeto de negociação política e temem que os alunos se conscientizem.
     Isso é muito antigo, vem desde a colônia portuguesa, continuando pelo império e entrando pela República. No meu livro Escola, Espaço e Discurso, consegui ter uma visão panorâmica sobre este assunto. A única política pública constante nos mais de 500 anos de história do Brasil tem sido a decisão inabalável das nossas elites, principalmente no interior, em vedar o acesso do povo à escola de qualidade.
     A solução para isso é federalizar todo o sistema, dando real autonomia às escolas e impedir que os prefeitos se imiscuam nos problemas educacionais dos municípios, que deveriam ser considerados como assunto de interesse nacional. Dizer que os indicadores estão melhorando lentamente é conversa fiada. O que precisamos é de melhorias rápidas, de uma revolução na educação.
     A lei de Diretrizes e bases já prevê esta solução, mas falta interesse em resolver o problema.
Viva Assange
     A histeria inglesa com a concessão de asilo diplomático, pelo governo do Equador, a Julian Assange, o australiano que criou o site Wikileaks, que divulgou informaçõs confidenciais dos Estados Unidos, mostrando ao mundo seus crimes de guerra, prova que o governo inglês continua sendo um cachorrinho (como dizem os ingleses) dos americanos.
     A alegação de que ele é um criminoso porque teria cometido um crime sexual na Suécia não convence ninguém. A acusação é a de que ele fez sexo não permitido com duas mulheres suecas.
     Não é estranho? Elas eram maiores e consentiram no ato sexual. Logo na Suécia, país conhecido pela liberdade sexual?´
     É claro que o governo conservador da Suécia vai extraditá-lo para os Estados Unidos onde Assange pode até ser condenado à morte.
     A ameaça dos ingleses de invadir a embaixada equatoriana para prender Assange, desrespeitando leis internacionais, prova que o assunto não está restrito a problemas sexuais, mas virou uma perseguição contra uma pessoa que escancarou verdades indigestas para os Estados Unidos e seus cúmplices, e que precisa ser calada a qualquer preço.


Noite

     Deixo para os leitores mais uma poesia de minha autoria, que achei nos meus alfarrábios, escrita numa noite silenciosa, em um sítio na Fazendola, distrito da maravilhosa e querida cidade de Rio de Contas.

Lume da Consciência
Vaga
Pela noite quieta
Enluarada
Nessa terra desabitada
Vaga lume
Ao som do riacho
À luz do lampião
E deixa o sentir
Brotar na alma
Deixe que aflorem
As coisas assustadoras
Que se escondem em si
Sepultadas por urgências
Cotidianas e urbanas
A consciência do mal
Da terrível descoberta
De que o mal existe
E está à nossa volta
E que é possível senti-lo
De que é preciso elevar-se
Para se libertar e aprender
E aprendendo ensinar
Que só a elevação é ensinamento
E aprendizado, ao mesmo tempo
De que há um tempo
Para nós na terra
E que é preciso realizar
O sentido da vida
Dentro desse tempo
De que o amor vale a pena
Mesmo que seja ingrato
E que não há derrota
Para quem ama
E se dedica
De que o lume
Da consciência
Se torna chama brilhante
Quando sintonizado
à imensa sensibilidade humana
Normalmente abafada
Natimorta
Ou simplesmente atrofiada
Pelas mesquinharias
E dificuldades deste mundo
Mas que cresce aos poucos
Se deixada flutuar
Como vagalume
Na imensa noite escura
E silenciosa.
Ricardo Stumpf / 2002


A Manilha e o Libambo IV
(final)
A contracosta, Madagascar e o Reino da Etiópia
     Na continuação da nossa viagem pela África, acompanhando o desbravamento do continente pelos portugueses, seguindo a narrativa de Alberto da Costa e Silva, vou inverter a ordem que ele segue no livro, quando passa para o oceano ìndico e começa a descrever a parte norte primeiro.
     Então continuaremos descendo para o sul e depois iremos subindo pela costa do índico, que os portugueses chamavam de contracosta.
Os Hotentotes


     Ao dobrar o Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, em 1488, Bartolomeu Dias avistou uma baía amena, com gado pastando e seus pastores. Eram o povo Cói, ou Koenas ou Hotentotes.
     Esse povo tinha características distintas dos que vimos até agora. Embora se organizassem de forma semelhante aos demais povos africanos, com seus reis, suseranos e vassalos, e a já conhecida sucessão real patrilenear e matrilinear ao mesmo tempo, (reis que se casavam com várias mulheres de clãs diferentes, cujos filhos eram candidatos a sucessão real, onde cada mãe representava um clã, que assim se revezavam no poder), os hotentotes tinham uma grande diferença: não conheciam a escravidão.
     Seus reis, como os demais, seguiam a religião tradicional, na qual o rei tinha características divinas ou mágicas, que lhe permitiam entrar em contato com os antepassados e regular as chuvas, a fertilidade das mulheres e dos animais.
     Porém, ao contrário dos demais, os reis hotentotes não eram respeitados pela sua ferocidade e truculência, mas pela sua habilidade em conciliar interesses. As decisões nas aldeias eram tomadas em assembléias, onde todos podiam falar e discordar do rei e até criticá-lo. O rei não estava acima da lei e tinha que cumpri-la. Se um indivíduo se sentisse perseguido ou prejudicado, podia se mudar para outra aldeia, levando sua família e seus bois, que eram o símbolo da riqueza.
     O trato com o gado era muito afetuoso e eles aproveitavam o leite, usavam os bois como montaria e só matavam algum gado como complemento alimentar, procurando mantê-los inclusive como moeda de troca. Sua alimentação incluía carneiros, lobos marinhos, mel, mariscos, peixes, baleias e pinguins.
     O gado era treinado para obedecer a assovios e obedecia aos donos, reconhecendo-os.
     Os portugueses tiveram alguns choques com esse povo, talvez pela incapacidade de compreender como eles eram apegados a seus bois, que as naus que ali aportavam queriam comprar para alimentar os marinheiros. O mar violento e as tempestades constantes também devem ter sido causa para o desinteresse dos portugueses por aquele território, que só foi ocupado muito mais tarde pelos holandeses, que ali fundaram uma colônia de fazendeiros (bôers), que daria origem a atual República Sul Africana.

A contracosta

     Ao explorar a contracosta os portugueses deram com o canal de Moçambique e a ilha de Madagascar e se surpreenderam ao encontrar ali cidades de pedra e cal, com casas pintadas de branco, com vários andares e terraços, que lembravam as de Portugal e do Marrocos.
     Ao contrário dos povos da costa atlântica, para quem o oceano era o limite do mundo conhecido, os povos do índico já estavam habituados a comerciar com chineses, indianos, indonésios, persas e árabes, que para ali se deslocavam em grandes barcos.
     As principais cidades eram Sofala (na ilustração abaixo), Angoche, Moçambique, Quíloa,  (na ilustração à direita), Mafia, Zanzibar, Pemba, Mombaça, Gedi, Melinde, Manda, Lamu, Pate, Faza, Brava, Merca e Mogadixo, que integravam a grande rede comercial do índico, comandada pelos muçulmanos.
     Apesar de ficarem admirados com as cidades, os portugueses se lançaram contra elas como verdadeiros bárbaros, pilhando, saqueando e destruindo tudo que encontraram pela frente.
     Essas cidades da região costeira, também conhecida como Azânia, eram habitadas por povos conhecidos como suaílis, (ou swaílis), e competiam entre si pelo controle do comércio com o Iemen, o Egito, o golfo pérsico, as ilhas Maldivas, Comores, o golfo de Cambaia, na costa ocidental da ìndia, para os quais forneciam madeira, carne, tecidos de algodão, instrumentos de ferro, marfim, ouro, e outras mercadorias, além de escravos, provenientes dos sertões africanos, trazidos por uma rede de comerciantes locais, quase todos muçulmanos, que os portugueses chamavam de mussambazes.
     Os barcos que vinham do oriente, não se arriscavam a descer ao extremo sul do continente, devido ao regime de monções, que condicionava os ventos a uma determinada época do ano. Se fossem muito para o sul perderiam a época certa de retornar e teriam que esperar até o ano seguinte. Por isto os hotentotes permaneceram isolados no que hoje é a África do Sul, até a chegada dos portugueses, que buscavam o caminho para a Índia.
     Portugal, e as nações européias que vieram em seu encalço (Holanda, França e Inglaterra), tentaram controlar esse rico mercado, fundando feitorias, tomando cidades e praticando a velha política de explorar as rivalidades locais, apoiando reis que precisassem de apoio militar para combater outros, e assim se imiscuindo nos assuntos deles, tentando submetê-los aos seus interesses.
     Nem sempre conseguiram, mas deixaram muitas fortalezas construídas no litoral africano do oceano índico, como o Forte de Jesus, (foto à direita) em Mombaça, na costa do que hoje é o Quênia.
Madagascar
     A grande ilha ao largo da contracosta era habitada por muitos povos, alguns de origem indonésia e outros provenientes do continente africano. No norte e noroeste da ilha havia cidades muçulmanas, como Nosy Langany, Nosy Manja, Mahilaka, Nosy Mamoko, Sada, Nosy Boina ou Iharana na costa nordeste. Todas eram cidades-estado que faziam parte da grande rede comercial do índico e mantinham ligações com as ilhas Comores, ao norte, com as cidades Suaílis, do continente, com o golfo Pérsico, a península Arábica, a Índia e a Indonésia.
     No planalto interior do sul da ilha, predominavam povos dedicados ao pastoreio, como os Baras, e os Maroseranas. No sudeste viviam, entre outros, os Antemoros, que escreviam na língua malgaxe, porém com caracteres árabes.
     Os povos da ilha, assim como os de Comores, conheciam e praticavam a escravidão, entre si e traficavam com os mouros e europeus.
     Os franceses e holandeses construíram feitorias no sul, para abastecer os barcos que vinham da Europa e precisavam de descanso, para prosseguir rumo à Índia, mas depois da descoberta das ilhas hoje conhecidas como Maurício e Reunião, até então desabitadas, passaram a preferi-las como ponto de parada, abandonando Madasgacar.
     Muitos piratas usavam a grande ilha como refúgio, devido ao seu litoral recortado e cheio de pequenas baías e enseadas.
Os sertões
     Muitos povos viviam nos sertões, cujos rios desembocavam na contracosta, especialmente os rios Zambeze, Save, Limpopo e outros. Os reinos tinham estrutura semelhante, baseada na suserania e na sucessão patrilenear e matrilinear, baseada em clãs, como já vimos, enquanto a religião cumpria papel importante, já que ao soberano eram conferidos poderes mágicos para se comunicar com seus antepassados e influenciar na fertilidade das terras, dos animais, das mulheres e no regime de chuvas.  Um dos maiores reinos da região foi o Monotapa, (no mapa à esquerda)responsável pela construção dos zimbabués, (nas fotos à direita) ou fortificações de pedra, com muralhas muito altas, de forma circular, que deram nome ao atual Zimbabwe. Os reinos de Barue, Manica, Quiteve, Quissanga e Butua, eram tributários do rei Monotapa. Havia também os Lundus, o reino Tonga, os Tsongas e os Vendas. Esses reinos viviam em guerra, suas fronteiras mudavam constantemente e todos praticavam a escravidão, como sistema econômico e participavam do tráfico.
     Na região dos grandes lagos, especialmente o grande lago Vitória (ao centro da foto de satélite à esquerda), o lago Alberto (acima á esquerda), o lago Tanganika (o comprido, abaixo à esquerda) e o lago Malaui (que não aparece na foto, mais ao sul), povos cuxitas, sudânicos, nilóticos e bantos, formavam vários pequenos reinos. A noroeste, logo ao sul do Nilo Vitória (o Rio Nilo se forma no lago Vitória e inicia seu percurso com este nome) ficava Bugungu. A nordeste, Buruli. A leste, Bugerere. A sudeste, na beira do lago Vitória, Buganda e logo adiante Busoga, que se compunha de vários micro-estados: Bukoli, Bulamogi, Bukono, Bugabula e Bugueri. Ao sul Buddu e Bwera. A sudoeste, Kitakwenda e Kiala.Todos eles eram tributários do reino do Bunioro, cujo rei tinha o título de Omukama.
     Observem no mapa à direita que atualmente Uganda, Quênia e Tanzânia dividem o grande lago Vitória, enquanto Tanzânia e Congo (antigo Zaire), dividem o lago Tanganika e o Malawi e Moçambique o Lago Malaui. Observem também os nomes: Rwanda, que hoje é um pequeno país, a esquerda da Tanzânia no mapa, já era um reino naquela época. Também a coincidência de nomes entre a atual Uganda e o antigo reino de Buganda, situados no mesmo lugar, mostra que estão relacionados.
Etiópia


    Mais ao norte, no chamado Chifre da África, estava o reino da Etiópia, uma das civilizações mais antigas do mundo. Os gregos já se referiam à Etiópia, no século IV A.C. Conta a tradição oral, que o país teria se originado do antigo reino de Sabá (da lendária Rainha de Sabá), que já abrangia o chifre da África e parte da península Arábica. Os etíopes são oficialmente cristãos desde o século IV, sempre resistiram às investidas muçulmanas, na suas tentativas de expansão e são o único país da África que não se tornou cristão por influência européia. Sua religião está ligada à igreja Coopta, que reconhece como líder espiritual o Papa de Alexandria, no Egito, embora exista um papa Coopta etíope também.
       Seus primeiros contatos com os europeus datam do século XV, com os portugueses. Estes por várias vezes socorreram militarmente o Negus, título do sobreano etíope, que significava rei dos reis, contra as tentativas expansionistas islâmicas. Inclusive o filho de Vasco da Gama, Estevão da Gama, foi morto numa batalha contra os turcos, quando combatia ao lado dos etíopes.Porém a cooperação não frutificou, devido à falta de interesse dos portugueses, sempre em busca de riqueza fácil.
     Os etíopes também conhecim a escravidão e a praticavam corriqueiramente, tanto no interior do seu país, quanto comprando e vendendo escravos nos mercados do Mar Vermelho.
     O país está situado, na sua maior parte sobre um planalto úmido e fértil, e tem apenas um pequeno pedaço desértico (o deserto de Ogaden). No planalto estão algumas das maiores montanhas do continente africano (acima á esquerda), algumas com mais de 4.000 metros de altitude.
     Lá se encontram as famosas igrejas escavadas na pedra, (na foto a igreja de São Jorge em Lalibela, acima à direita)
    
Conclusão
  
     Como se pode ver pela detalhada obra de Alberto da Costa e Silva, da qual procurei fazer uma resenha em quatro partes, a escravidão não vitimou apenas os africanos, mas era uma prática generalizada no mundo antigo, até o século XV, quando ele começa sua narrativa.
     Os próprios africanos a utilizavam largamente, inclusive os hauçás e Iorubás, nações a que pertenciam muitos escravos que vieram para o Brasil.
     Tampouco eram selvagens, como querem descrever os colonialistas para justificar a posterior partilha da África pelos europeus, mas senhores de muitos reinos, em estágios civilizatório diferentes.
     Haviam reinos muito antigos e civilizados, outros mais primitivos e ainda povos desenraizados que se comportavam como hostes militarizadas. Todos, no entanto, conheciam a fundição dos metais, ferro, cobre, ouro e até o aço, a indústria textil, que fabricava panos de qualidade e a agricultura.
     A colonização européia veio interagir com essas civilizações, ajudando a desestruturar algumas e a desenvolver outras, mas não logrou destruir a cultura africana, que continua viva.
Máscara Iorubá

domingo, 12 de agosto de 2012


O Paiz

     O encerramento das olimpíadas de Londres, teve mais do mesmo: muita pirotecnia e a promoção dos "valores" britânicos. É claro que eles aproveitaram para promover seus produtos, ou que eles ainda tem que possa interessar ao mundo, como a música pop, os automóveis Rolls Royce e até manequins e costureiros que exportam moda.
     O show interminável de música no final, serviu para mostrar a decadência do rock britânico, que começou com uma belíssima apresentação de Imagine, de John Lenon, que o mundo inteiro conhece e que nos enviou uma mensagem inesquecível de paz. O que ele diria hoje do papel dos britânicos no Iraque e nas Malvinas?
     A continuação mostrou como a música que começou contestadora foi se tornando comercial e os ídolos rebeldes foram sendo substituídos por astros bem-sucedidos, que faturam milhões e não tem mais nada a nos dizer.
     A maioria deles são ilustres desconhecidos para os brasileiros.
     A pequena apresentação do Brasil não fugiu muito dos clichês, mas teve alguns méritos. Não mostrou mulheres semi-nuas, o que sempre desvaloriza a mulher brasileira. A dança dos índios com cocares iluminados foi mesmo especial, mas a passagem de Marisa Monte, caracterizada como uma Iemanjá flutuando sobre as águas, cantando a Bachiana n. 5 de Villa-lobos, (à esquerda) foi realmente fantástica.
     Um bom começo para as olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.
     Nossos resultados não foram tão ruins. Chegamos ao recorde de 17 medalhas, mas falhamos nas finalizações, o que nos fez conseguir poucas medalhas de ouro e comprometer nossa classificação, comprovando o que eu comentei na semana passada, que não temos segurança psicológica para enfrentar as finais.
     A excessão, para confirmar a regra, foram as maravilhosas garotas do volei. Parabéns, meninas, vocês deram uma lição de garra e vontade a todos os atletas brasileiros. Que seu exemplo frutifique.

Rapidinhas
Show de humor
     O desfile dos advogados de defesa dos réus do mensalão está se tornando realmente um espetáculo de humor. Não, sei, nunca ouvi falar, não tenho a menor idéia, isso tudo é invenção...
     Coitadinhos tão inocentes!
     Tem um que se chama Jacinto Lamas.
     Ô dó! Quem foi esta mãe cruel que previu o destino deste pobre?
     Espero que ele consiga provar sua inocência para fugir ao destino prenunciado pelo seu nome.
     E ainda falaram mal do Tiririca quando ele se candidatou.
     Quem disse que humorista não serve pra ser político?
Dia dos pais
     Vou pedir licença ao meu amigo Altemar, do blog Notícias de Rio de Contas, para reproduzir esta maravilhosa charge sobre este dia, e a campanha para que os filhos comprem presentes para seus pais. As imagens dispensam explicações.

Umbuzeiro

     Em 2001 trabalhei por seis meses na cidade de Itaberaba, em pleno semi-árido baiano.
     Lá pude conviver e entender um pouco mais o que é esse bioma fantástico, chamado caatinga, e tão estigmatizado pela sua agressividade ao homem.
     Uma verdadeira farmácia, cheia de ervas medicinais importantíssimas, que se fossem pesquisadas talvez nos trouxessem a cura de muitos males que afligem os seres humanos.
     Dentre toda aquela vegetação tão diferente, uma árvore sobressai pelas suas qualidades de dar água (que armazena em bulbos nas suas raízes), frutos (o delicioso umbú) e sombra, em meio à paisagem mais seca do sertão.
     Mexendo nos meus arquivos, achei esta poesia que fiz naquela época em homenagem ao umbuzeiro, à caatinga brasileira e à cidade de Itaberaba.
    

Umbuzeiro
Que dá sombra
E fruta fresca
No meio da caatinga.
Você, como o Umbu-Cajá
E o Cajá-Manga
Oásis e remansos
Do agreste brasileiro.
Me explique, como pode
Uma natureza
Tão agressiva
Frutificar tão protetoramente?
Que gente é essa
Que mora aqui
De onde vieram...
Há quanto tempo vieram?
Terão eles adquirido
Esse contraditório da natureza
Agressivos e espinhentos
Mas capazes dos frutos mais doces?
Suas lágrimas
Serão como seus rios
Intermitentes
E salgados?

Seus corações
Lagoas
Que se enchem e secam
Com a mesma facilidade veloz?
Quem são seus ancestrais?
Aborígenes
Que deixaram pinturas nas pedras
Por toda parte!
Quem são eles
Quem sou eu
No meio deles
No meio dessa aridez?
Dá-me tua sombra generosa
Pé de umbu
Para que eu também me refaça
Sob tua espinhenta proteção.
Deixe-me entender
Tua mensagem agridoce
De equilíbrio e resistência
De elo com o mistério dos antepassados.
Ensina-me essa magia
Da fartura e da fertilidade
No meio das pedras
E do sal

Ricardo Stumpf Alves de Souza - 2001


A Manilha e o Libambo III

O Reino do Congo
Jinga, a Rainha de Angola
     Em 1482, o rei de portugal, D. João II, enviou, em segredo, o navegador Diogo Cão ou Caão (abaixo à direita) para explorar a costa africana, ao sul do golfo da Guiné (então chamado Golfo de Benin), onde os portugueses estavam erguendo o forte de São Jorge da Mina, e tentar descobrir a passagem para o oceano índico e o caminho para a Índia das especiarias.
     Diogo Cão fez duas viagens. Na primeira, em 1483, aportou na foz do Rio Congo, onde foi acolhido pelo mani, ou senhor de Sônio, a província noroeste do antigo Reino do Congo.
     Este rio, que é o maior da África central, nasce no Lago Tanganika, corre para o norte e depois se curva para sudoeste, até chegar ao oceano atlântico.
     Os nativos da etnia bakongo, que viviam na embocadura do rio, o denominavam Nzere, que na sua língua significa o rio que engole os outros rios. Diogo Cão, deformou seu nome para Zaire.
     Diogo Cão ainda desceu a costa africana até a Namíbia, chegando ao litoral do deserto do Kalahari no ponto hoje conhecido como Cape Cross (na foto de satélite abaixo, à direita) e depois retornou, deixando marcos de pedra com inscrições, que ele chamou de padrões.
     Na foto à esquerda o padrão de Diogo Cão no cabo Cross, na atual Namíbia.
     Diogo Cão achou que o Cabo Cross era a extremidade sul do continente africano e por isso retornou à foz do Rio Zaire.
     O navegador, com a concordância do Mani, enviou presentes para o Rei do Congo, que vivia no interior, na cidade de Banza Congo, (ou M'Banza Congo) que naquela época já tinha cerca de 60.000 habitantes, junto com uma embaixada de portugueses (localização de Banza Congo na foto de satélite abaixo). Como seus enviados demorassem a voltar, ele retornou a Portugal levando alguns nativos, que tomou como reféns, prometendo trazê-los de volta dentro de 15 luas.
     Cumpriu o prometido, e em 1485 "...estava de volta, com os reféns em boa saúde, vestidos à européia e falando português. Diogo cão mandou um deles ao Manicongo, com ricos presentes, a mensagem de amizade do rei de Portugal e a proposta de troca dos portugueses que haviam ficado em Banza Congo pelos congueses que levara consigo."
     O Manicongo ficou muito impressionado com os relatos dos que haviam sido levados a Europa e resolveu aceitar a oferta de D. João II para uma aliança, inclusive militar, aceitando o batismo na fé católica. Para o rei de Portugal, seu sonho de encontrar um rei africano que se cristianizasse e se tornasse seu aliado, evitando a concorrência de árabes, espanhóis e holandeses, parecia finalmente se concretizar.
     O rei do Congo, Nzinga a Nkuwa, se tornou D. João I, procurando europeizar seu país segundo o modelo português e seu filho primogênito, Mbemba Nzinga, que o sucedeu (com a ajuda militar portuguesa) derrotando seu irmão Mpanzu a Kitima (que contava com a preferência dos clãs matrilineares que tradicionalmente elegiam o novo rei), se tornaria D. Afonso, um rei muito católico e estudioso das escrituras.
     Mas a tentativa de europeização do Congo não avançou muito, devido ao próprio desinteresse dos portugueses, para quem servir no reino do Congo era quase uma condenação à morte, devido às doenças que os abatiam facilmente. Depois da descoberta do caminho para as Índias, a importância do Congo diminuiu e os portugueses passaram a ver ali, apenas a oportunidade de obter escravos, com os quais tentavam enriquecer rapidamente e voltar à Europa, prática comum inclusive entre os padres enviados para a conversão dos africanos.
     Os mercadores de escravos de São Tomé, começaram a se opor aos esforços da coroa para desenvolver uma colônia no Congo, retendo os padres enviados para lá e muitas vezes escravizando jovens congueses enviados a Lisboa para estudar e que passavam pela ilha.
     O tráfico desenfreado de escravos fez com que o Manicongo tentasse regulá-lo, para impedir que congueses fossem escravizados (apenas os estrangeiros capturados em guerra podiam ser vendidos). Essa medida deslocou o comércio de seres humanos para o lago Malebo (à esquerda, na foto de satélite), muito acima da foz do rio, área de fronteira e constantes guerras entre os congos e os angicos, conflito que produzia uma grande quantidade de cativos.
     A procura por escravos fez com que as guerras se intensificassem e os pumbos, (mercados de escravos), se multiplicassem em volta do lago, sob controle do rei do estado Makoko, da etnia tio, que mandava prear em razzias no centro da África, ambundos, angicos, bobangis, sucus, ianzis, bomas, teges, e cotas. O Manicongo, continuou a lucrar com o tráfico, que pagava tributo para passar por seu território e ainda vendia produtos agrícolas para alimentar os cativos que aguardavam para serem embarcados no litoral atlântico.
     Mais ao sul, a costa era povoada pelos congos até a ilha de Luanda. Porém mais para o interior do continente, na embocadura dos rios Lucala e Kwanza, havia um outro reino, tributário do Manicongo, o reino de Dongo ou Andongo, cujo rei se intitulava ngola a kiluanje, a quem os portugueses chamaram o Angola.
     Esse reino se desenvolvia no planalto que existe à partir da embocadura de dois grandes rios, o Kwanza que deságua ao sul de Luanda e seu principal afluente, o Lucala.

A Invasão dos Jagas
    
     O Angola a Kiluanje era tributário do Manicongo, mas frequentemente negociava diretamente com os mercadores de São Tomé, fornecendo escravos, marfim e tecidos. Essa situação levou a uma guerra entre os dois estados, com a vitória do Angola, que consolidou sua independência, com apoio dos jesuítas que mercadejavam escravos e queriam romper o monopólio do manicongo sobre este comércio.
     Esta situação enfraqueceu o poder do Manicongo, que se viu ás voltas com revoltas internas, estimuladas por intrigas estimuladas pelos portugueses que habitavam o reino, que se aliaram aos pumbeiros do lago Malebo, que também não se conformavam com o controle sobre o tráfico de escravos exercido pelo rei conguês.
     Quando o Manicongo conseguiu controlar a situação viu-se invadido por uma verdadeira horda de bárbaros, os Jagas, que entraram no reino destruindo e matando, abrindo caminho para o oceano atlântico.
     Segundo Costa e Silva, esta onda de violência que desceu sobre o reino Congo foi resultado de uma seca terrível que assolava a região central da África e também do desespero causado nas pequenas comunidades agrícolas pelo crescimento das razzias para captura de escravos, realizadas pelo rei Makoko e os mercadores do lago Malebo.
     Não tendo como sobreviver e cada vez mais à mercê dos traficantes de escravos, os povos da África central começaram a abandonar as estruturas tradicionais de poder dos seus clãs matrileneares e passaram a se reunir em hordas de guerreiros móveis, onde os reis eram escolhidos entre os mais fortes. De vítimas das razzias, passaram a capturar gente, inclusive entre os makokos, para vender aos traficantes. Depois, percebendo que o grosso dos lucros ficava com os mercadores, quiseram abrir eles mesmos o caminho para o mar, para comerciar com os portugueses.
     Contam as lendas que os jagas (ilustração à esquerda) eram antropófagos e matavam seus próprios filhos, para que estes não atrasassem sua marcha, enquanto adotavam os pequenos rapazotes dos povos que iam conquistando pelo caminho, e que iam sendo treinados na disciplina militar. Mas Costa e Silva diz que essas lendas eram propagadas pelos europeus, intimidados por essa nova forma de organização social guerreira, tão distinta das tradicionais sociedades africanas que eles se habituaram a dominar.     O Manicongo, derrotado pelos jagas, refugiou-se numa ilha do Rio Zaire e pediu ajuda aos portugueses, que enviaram 600 homens sob o comando de Francisco de Gouveia, que após 5 anos fez os jagas recuarem para sua região de origem.
     No meio dessa guerra, muitos europeus ficaram no Congo e se misturaram com mulheres locais, criando uma população mestiça que passou a ameaçar o poder do Rei. Tudo isso foi minando as estruturas políticas tradicionais do reino, que ficou cada vez mais à mercê dos europeus e dos seus interesses, alimentados principalmente pelo tráfico de escravos. A sociedade conguesa foi se tornando fortemente escravista. "O Congo passara a girar em torno da escravidão".
     A guerra de Conquista
     Insistentes boatos sobre a existência de minas de prata em território Dongo, fizeram o rei de Portugal, D. Sebastião, se decidir pela conquista do território, abandonando a política de fundar feitorias no litoral e passando à tentativa de fundar uma colônia que avançasse para o interior.
     Para isso criou em 1571, a Capitania e Governança de Angola, no mesmo feitio das capitanias hereditárias do Brasil, cujo primeiro donatário foi Paulo Dias de Novais.
     "Deu-lhe D. Sebastião o que não era dele. Transferiu-lhe o governo e a posse de terras que não pertenciam a Portugal, mas a reis africanos".
     De início o Angola observou à distância o desembarque dos portugueses, já que as terras do litoral pertenciam ao Manicongo. Quando perceberam que os portugueses vinham para ficar, os próprios congueses começaram a lhes dar combate, em 1575, através do seu líder regional conhecido como kassanje
     Mas logo que os portugueses começaram a subir o rio Kwanza, o Angola entrou na guerra dando-lhes combate, já no ano de 1579. Os portugueses responderam com uma violência cruel, decapitando os chefes que faziam prisioneiros e incendiando as cabanas das aldeias com famílias inteiras dentro.  
     Os dongos respondiam com uma tática de guerrilhas, que fustigava os portugueses, com avanços e recuos, levando estes construir um forte na embocadura dos rios Kwanza e Lucala, o forte de Massangano (na foto acima à direita as ruínas do forte atualmente e à esquerda, o rio Kwanza e a igreja de Muxima, vistos do forte, em foto de 1961), onde se entricheiraram e onde morreu e foi enterrado o donatário da capitania, Paulo Dias de Novais, em 1589.
     O objetivo principal dos portugueses era chegar a Cambambe, onde supunham estar as minas de prata, o que só conseguiram em 1603, comandados por um tal Manuel Cerveira Pereira, que tratou de fazer um armistício com o Angola, enquanto verificava que as minas só continham chumbo.
      Muitos haviam morrido por uma quimera.
     Logo os portugueses, que na época estavam dominados pela Espanha, se desinteressaram da conquista e voltaram a mercadejar com escravos. a cidade fundada pelos portugueses, São Paulo de Luanda se transformou num grande entreposto de escravos. Entre 1575 e 1591 contaram-se 52.053 cabeças embarcadas.

     Os Imbamgalas

     As sociedades africanas, tradicionalmente, se organizavam em torno do poder matrilenear e da suserania. Assim um rei, casava-se com várias esposas, cada uma de um clã diferente, e depois da sua morte os chefes dos clãs se reuniam para decidir qual filho do rei morto assumiria o trono, promovendo uma rotatividade do poder entre os clãs.
     Os chefes dos clãs eram vassalos do rei, mas o sucessor real era escolhido por eles, dentre os filhos do rei, num esquema de rotatividade que garantisse a participação de todos os clãs no poder.
     Sociedades guerreiras, como a dos jagas, por exemplo, eram excessões. Nelas, o poder não era hereditário, nem a identidade do grupo era étnica, mas sim ritual. Era através da submissão a um rito que um indivíduo passava a pertencer à sociedade, mesmo que viesse de outro povo.
     Geralmente essa quebra da tradição, transformando uma sociedade tradicional numa sociedade guerreira, se dava quando um grupo entrava em decadência, por questões econômicas-ambientais (uma grande seca por exemplo) ou por pressão de guerras que desestruturavam os micro-estados, levando a migrações forçadas.
     Parece ter sido esta a origem dos imbangalas, que se transformaram numa sociedade guerreira, móvel. Eles vieram do leste e eram comandados por um líder do povo lunda, a quem chamavam de quingúri, originários do centro da África. Na sua marcha para o oeste, os imbangalas encontraram o reino do Libolo, ao sul do rio Kwanza, cuja organização era extremamente centralizada e disciplinada em torno de um exército em constante prontidão, que tinha o nome de quilombo.
     Nesse reino, embora sedentarizado, as estruturas matrilineares tinham se dissolvido e os ritos iniciáticos se davam em torno de uma terrível cerimônia, conhecida como maji a samba, que consistia no preparo de um unguento, à partir de gordura humana, feita com crianças mortas, misturada com ervas, que ao ser passada sobre o corpo dos guerreiros, os tornaria invulneráveis às armas dos inimigos.
     Os imbangalas adotaram o rito do maji a samba, a estrutura militar do quilombo, e se fragmentaram em vários grupos, nos quais bastava um guerreiro se desligar de uma comunidade e se besuntar com o unguento mágico para se proclamar um senhor da guerra ou rei imbangala. Um de seus ritos de iniciação, consistia em arrancar os dentes caninos dos rapazotes, o que fez com que os portugueses, mais tarde, passassem a chamar quem não tinha os dentes da frente de bangalas ou banguelas.        O Angola, deu combate a esses grupos, que acabaram se refugiando no litoral, onde entraram em contato com os portugueses, na foz do rio Cuvo.  Os imbangalas, ao verem as caravelas lusitanas, pediram ajuda para atravessarem o rio, em troca se ofereceram para prear escravos. À partir daí começou uma longa cooperação entre portugueses e os grupos imbangalas, que eram temidos pelos andongos, que os tinham na conta de antropófagos. Os portugueses inicialmente os confundiram com os jagas, que assolaram o reino do Congo e por isto às vezes os chamavam assim.
     Alguns historiadores dizem que o nosso Zumbi dos Palmares seria descendente dos imbangalas (sobre isto ver o link http://omenelicksegundoato.blogspot.com.br/2011/10/zumbi.html).
     O novo governador designado para Luanda, em 1611, Bento Banha Cardoso, se aproveitou dessa colaboração para fazer uma aliança militar com Kulashingo, um líder imbangala e romper o cerco em que viviam os portugueses, nos seus fortes e teve algumas vitórias militares importantes.
     Em 1617, um novo governador Luis Mendes de Vasconcelos, chegou e resolveu tentar novamente fazer a guerra aos andongos,  porém Kulashingo havia desertado, rumando para o sertão, onde se estabeleceu como um novo rei, entre os rios Lui e Cuango. 
     Nessa época, um novo Angola havia assumido, o rei Mbandi. As tropas portuguesas, sem o apoio do principal chefe imbangala, mais uma vez conseguiam avanços temporários, mas depois eram obrigadas a recuar. O Angola mantinha sua tática de se retirar para depois voltar a atacar, fustigando as forças portuguesas.

Jinga, a rainha guerreira

     Em 1621 Portugal enviou um novo governador, Luis Correia de Sousa, que apressou-se a fazer a paz com o Angola. Para negociar a paz, o rei andongo mandou a Luanda sua irmã, Jinga, que muito altameira, avisou os portugueses que estava ali para negociar de igual para igual, fazendo uma séire de exigências para interromper a guerra.
     Dois anos depois, com a morte de seu irmão, ela assumiu o trono do reino Andongo, sendo a primeira mulher a se tornar Angola. Para ser respeitada entre os clãs andongos, ela não aceitava o título de rainha e resolver se tornar socialmente homem, se fazendo chamar de rei, lutando como um soldado à frente de seu exército e mantendo um harém de homens vestidos de mulher.
     Como as negociações com os portugueses não avançassem, Jinga se casou com um chefe imbangala, chamado Kaza, assumindo a importante função que os imbangalas reservavam às mulheres, de ministrar o unguento mágico maji a samba aos seus guerreiros.
    A partir daí Jinga se libertou da estrutura matrilenear dos clãs que comandavam seu reino e imbangalizou seu exército, tanto no recrutramento quanto nas técnicas de combate, declarou guerra aos portugueses e mandou avisar a todos os africanos residentes em Luanda que lhes oferecia proteção e asilo, se eles abandonassem os portugueses.
     De uma hora para outra Luanda se esvaziou de escravos e africanos livres e os portugueses se viram privados de sua mão de obra e de soldados para seus exércitos.
     Como reação os portugueses se voltaram para os velhos clãs andongos, que não aceitavam as transformações promovidas por Jinga e nomeoaram um novo Angola, títere, chamado Ari Quiluanje, que se proclamou vassalo do rei de Portugal.
     Jinga atacou a todos e "...derramou a guerra por toda parte".
     Dois acontecimentos vieram a ajudá-la: uma epidemia de varíola, que matou o angola dos portugueses e boatos sobre uma possível invasão holandesa, que desviaram os esforços lusitanos. Com a morte de Ari Quiluanje, os portugueses entronizaram outro angola e o batizaram com o nome de Filipe.
     Com o apoio dos súditos de Filipe, os portugueses prosseguiram na guerra, tendo uma vez encurralado as forças de Jinga junto ao penhasco da Quina Grande dos Ganguelas. Ela, porém, surpreendeu-os fazendo seus homens descerem o precipício em cipós para o vale dos rios Lui e Cuango.
     Jinga aumentou seu poder conquistando o reino vizinho de Matamba, tradicionalmente governado por uma mulher. Depois passou a guerrear aquele imbangala Kulashingo, isolando-o dos portugueses e conquistando o acesso ao mar, onde passou a adquirir armas dos navios holandeses e a controlar o tráfico de escravos dos pumbeiros.Depois de mais de 15 anos, os portugueses finalmente reconheceram que a guerra não valia a pena e que teria sido melhor negociar com Jinga. "O próprio governo de Lisboa admitiria o erro e recomendaria, em outubro e novembro de 1641, que fosse corrigido, devolvendo-se à rainha Jinga o reino do Dongo, que dela havia sido "injustamente retirado". Era tarde. Em agosto daquele ano, Luanda já tinha sido tomada pelos holandeses".
Maiores informações sobre esta fantástica personagem da história da África podem ser obtidos no site http://www.leyaonline.com/catalogo/detalhes_produto.php?id=204, através do livro intitulado Ginga, Rainha de Angola, de Manuel Ricardo Miranda, 2007, Editora Oficina do Livro, Lisboa.

sábado, 4 de agosto de 2012

O Paiz

Aventureiros
     O julgamento do chamado mensalão começou, ocupando  os principais espaços da mídia, especialmente a mídia de direita, que sonha em aproveitar o episódio para derrotar o PT nas eleições de outubro.
     Apesar da postura oportunista desse tipo de mídia, que Paulo Henrique Amorim batizou de PIG, Partido da Imprensa Golpista, acho que esse julgamento pode balizar uma mudança importante de comportamento na política brasileira.
     No meu livro, Contracorrenteza, de 1993, contei alguns episódios que vivi como militante do PT, e que já revelavam a face de certo tipo de gente que habitava (e ainda habita) esta legenda.
     Me refiro a um tipo de esquerda aventureira e oportunista, que se diz revolucionária, usando este rótulo para justificar atitudes irresponsáveis que só funcionam em benefício deles próprios.
     Convivi com gente que se propunha a fazer assaltos, para angariar fundos em nome da revolução. Uma revolução que eles não conheciam e nem queriam fazer, estando interessados apenas em arrecadar dinheiro fácil.
     Combati, denunciei essas pessoas e me desliguei do PT em 1990, depois de 9 anos de militância, por causa delas e da desenvoltura com que circulavam dentro do Partido.
     O exemplo mais importante desses oportunistas, falsos revolucionários revelados pelo mensalão, me parece ser José Dirceu, que nunca pegou em armas, mas viveu clandestino no Paraná, depois de fazer uma plástica no rosto. Sem dúvida uma aventura capaz de criar um frisson em aventureiros pequeno-burgueses.
     Instalado no poder, no início do governo Lula, começou logo a montar seu esquema revolucionário de arrecadação de fundos, para realizar o projeto político de manter seu partido no poder por muitos anos, enquanto se beneficiava e deixava que muitos outros também se beneficiassem, dos seus esquemas financeiros.
     Tudo muito emocionante.
     Segundo denúncias muito sérias, ele já tinha montado esquema semelhante em Santo André, esquema que resultou no assassinato do prefeito Celso Daniel, quando este descobriu tudo e ameaçou abrir a boca. Pelo menos esta é a versão da família do prefeito morto, que hoje está asilada na França, depois de ver oito pessoas envolvidas no processo serem também assassinadas.
     A marca registrada desta gente é a arrogância e o desprezo pelas leis, que eles consideram burguesas. Acham que podem fazer o que quiserem, que o fim justifica os meios e não tem medo de afrontar juízes e opinião pública, que eles consideram manipulados pelo capital.
     Está na hora de dar uma lição definitiva nesse tipo de aventureiros, condenando-os e mostrando a quem quiser se refestelar com dinheiro público, seja em benefício próprio ou em nome da alguma revolução romântica, que a nação brasileira não aceita este tipo de prática e nem compacturá com ela.
     Dinheiro público é sagrado e condenar esse tipo de gente vai ajudar a fazer uma limpeza na política e no próprio PT, que ainda tem muita gente séria querendo transformar o Brasil num país melhor.
    
     
Rapidinhas
Venezuela no Mercosul

     Pra quem achava que a entrada da Venezuela no Mercosul não significaria nada em termos de negócios, a compra de 20 aviões Embraer 190, com entrega imediata de seis unidades, foi um tapa na cara. Em plena crise mundial, quem pode dispensar um sócio com dinheiro para gastar e disposição para ir às compras? Alguém está com saudades do Paraguai?
     A direita raivosa, só vê a questão ideológica, achando que o Mercosul se rendeu a Hugo Chaves. Não percebem que ele está doente e logo a Venezuela terá que buscar outro presidente. E o melhor que o Brasil tem a fazer agora é procurar atrair o país do caribe para sua área de influência, evitando possíveis tentações totalitárias de algum sucessor aventureiro.
     No Mercosul a Venezuela está garantida no campo democrático.
     Na verdade a guerra ideológica que se dá hoje no mundo não é entre capitalismo e socialismo, como nos tempos da guerra fria, mas entre o neoliberalismo e um capitalismo controlado por um estado forte e com preocupações sociais, modelo que vem dando certo em toda parte.
     Quanto ao neoliberalismo, vai patinando nos Estados Unidos e Europa, afundando lentamente, e arrastando com eles a liderança do velho mundo.

Vox populi...
     Pois é, amigos leitores, já repararam como os assaltos a banco no interior aumentam muito em época de eleições municipais? Porque será?
     A maldade do povo diz que é pra fazer caixa dois para as campanhas. Afinal, dinheiro roubado não existe oficialmente e, portanto, não presta contas, não é mesmo?
     Como diz o ditado: a voz do povo é a voz de Deus!
Fiasco olímpico
     O resultado do Brasil nas olimpíadas, depois de um primeiro dia com 3 medalhas, está sendo decepcionante.
     Depois ainda dizem que brasileiro não desiste nunca...
     Eu acho que nós brasileiros não temos é fibra de enfrentar o desafio de vencer. Ficamos nervosos no final. Isso é falta de preparo psicológico. Ou será o velho complexo de vira-latas?
     De qualquer forma fica mais uma vez demonstrado que um bom desempenho olímpico se constrói com programas governamentais de formação de atletas e não com valores individuais.
     Precisamos levar isso à sério, se um dia quisermos ter alguma expressão no esporte mundial.

Gore Vidal


     Os  Estados Unidos perderam esta semana uma de suas poucas vozes realmente independentes, capazes de dizer aquilo que todo mundo pensa, mas poucos tem coragem. Como por exemplo; que George Bush estaria por trás dos atentados de 11 de setembro.
     É o fim de uma era de grandes pensadores. Restam os bajuladores, os que cedem à lógica corporativa e os que se encalusuram com medo de dizer o que desagrada à opinião pública.

 Mário Quintana
DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mario Quintana