Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 14 de outubro de 2012

O Paiz
 
 
Mensalões
 
 
     O julgamento do núcleo político do mensalão do PT não surpreendeu ninguém. Todos já haviam entendido que o grande esquema de compra de apoio ao governo Lula, organizado por José Dirceu, havia transformado nosso Congresso Nacional num grande balcão de negócios, repetindo em nível federal o que é comum em Câmaras Municipais pelo país afora, especialmente nas pequenas cidades.
     Na verdade um dos objetivos de Dirceu era realmente desmoralizar o Congresso e os partidos que ele chama de burgueses mostrando que eles trabalham apenas em prol dos seus próprios interesses.
     Não contava, porém, com a tradição da Câmara brasileira, que já abrigou grandes nomes em grandes batalhas pelos direitos do povo. Quis achincalhar o poder constituído, no intuito de destruí-lo, mas calculou mal e quem saiu destruído foi ele.
     O mais impressionante neste caso é que, ao contrário dos outros partidos, o PT não expulsou nenhum dos que foram condenados, pelo contrário, ainda insiste em que a Corte Suprema errou, como disse José Genoíno e recebe com aplausos um criminoso condenado, numa reunião partidária.
     O desempenho do PT no primeiro turno das eleições provou que as figuras de Lula e Dilma continuam descoladas dos aventureiros que quase afundaram um projeto político que vem dando certo. A insistência em defender os criminosos é que vai minando sua credibilidade. Porque será? Terão medo que os condenados abram a boca e comprometam mais gente do Partido, e por isso lhes fazem esses afagos?
     A tentativa de José Serra de usar este caso no segundo turno das eleições municipais paulistanas, não vai funcionar, já que o próximo caso a ser julgado pelo STF é o chamado mensalão mineiro, que não passa de uma cópia do petista, só que a nível estadual envolvendo o PSDB de Eduardo Azeredo, então governador de Minas, na compra de apoio de parlamentares estaduais.
     No Distrito Federal já tivemos o mensalão do DEM, que resultou na prisão e destituição do então governador Roberto Arruda. Assim, também ACM Neto, no segundo turno da eleição em Salvador, não poderá alegar que o mensalão é uma prática exclusiva do PT.
     A eleição de Joaquim Barbosa como presidente do STF, abre perspectivas ótimas de que essas práticas corruptoras sejam efetivamente punidos e extintas no Brasil, moralizando a atividade política. Junto com a lei da ficha limpa, temos dois avanços importantes no aperfeiçoamento da nossa democracia, que devem jogar no limbo uma boa parcela dos corruptos e aventureiros.
     Esperamos que todos eles sejam condenados a penas muito duras, para que sirvam de exemplo aos que ainda acreditam na impunidade para transgredir e enlamear nosso sistema político.
     Seria importante que a justiça aperfeiçoasse seus procedimentos, dando a eles a agilidade necessária para punir também os transgressores municipais, esses muito mais numerosos e difíceis de serem apanhados nas malhas da lei.
Rapidinhas
 
Solidariedade e egoísmo
 
 
     Duas propagandas me chamaram a atenção na televisão: uma de um presunto, em que um sujeito vai comer um sanduíche e quando percebe que sua mulher também quer, vai se virando de costas para impedir que ela coma. A idéia é que ele não compartilhe seu sanduíche com sua própria companheira.
     Em outra, semelhante, da cadeia de lanchonetes Bob's, um adolescente vê uma moça se aproximando, fica todo animado com a possibilidade do encontro, mas depois pensa na possibilidade dela querer um pouco do milk shake que ele está tomando. Então arranca a camisa numa atitude agressiva para espantar a jovem.
     As duas passam a idéia de não compartilhar alimentos com pessoas próximas. Aliás a do milk shake, ainda posta um endereço intitulado incompartilhável.com.
     Tudo muito triste.
     Propaganda explícita de atitudes egoístas como se fossem engraçadas, ou espertas.
     Esses estímulos, que o capitalismo lança a todo instante para a população, são responsáveis pelo crescimento da violência e da intolerância entre as pessoas.
      Que diferença, na minha pequena Rio de Contas. Outro dia fui comer um pastel na lanchonete de Nem, e um senhor ao meu lado se sentiu constrangido por tomar uma Coca-Cola sozinho.
     _O senhor está servido? me perguntou ele, quando eu já ia pagar minha conta.
     Agradeci feliz, certo de que o mundo ainda tinha jeito.
 

Ruas vazias
 
     E por falar em propaganda, já perceberam como os anúncios de automóveis apresentam sempre um modelo novo andando por ruas vazias?
     Que delícia dirigir um desses modelos por uma São Paulo sem ninguém nas ruas!
     Acho que eles devem filmar essas propagandas as cinco horas da manhã, porque a realidade é que enfrentar centenas de quilômetros de engarrafamentos não é agradável em automóvel nenhum. Muito melhor andar de metrô, que apesar de cheio, pelo menos anda.
 
 Pobre Democracia
 
 
     Democracia ainda é um sonho distante nas cidades do interior brasileiro.
     Após os resultados as agressões contra os perdedores se intensificam. Soltam-se foguetes de madrugada na porta de pessoas que votaram no candidato perdedor, carros de som se vangloriam da vitória e convidam os que votaram no eleito para comemorar, como se ele (ou ela) fosse governar apenas para os seus eleitores e tem gente comemorando com um até 2018! Que eu saiba o mandato de prefeitos é de quatro anos, portanto o certo seria até 2016! Será que não sabem fazer contas?
     Mas a julgar pela disposição do TSE de limpar a pauta nos processos contra candidatos, muitos eleitos prometem não chegarem até lá.
     Pior do que isso, pessoas civilizadas e educadas, continuam postando provocações na internet, gente que antes se cumprimentava educadamente, se olha como se fossem inimigos, parentes deixam de se falar, enfim, o que devia ser apenas uma escolha de governantes vira uma guerra sem fim, que atormenta os perdedores de hoje e atemoriza os vencedores, por medo de serem também hostilizados amanhã, se um dia vierem a perder, o que é muito normal numa democracia onde há alternância no poder.
     O nome disso é falta de formação democrática.
     Em lugares civilizados os candidatos se cumprimentam após as eleições, desejam bom governo aos vencedores e a vida segue normal.    
     De que adiantam as lições sobre democracia na escola, ou as propagandas do TSE dizendo que a eleição é uma escolha democrática de governantes, se grande parte da população age desta forma? Que exemplo é dado aos futuros cidadãos, às crianças brasileiras por adultos que tomam essas atitudes?
     Afinal não fingimos (pelo menos) acreditar que a liberdade, a responsabilidade e a tolerância são elementos fundamentais para construir uma verdadeira democracia?
     O exemplo começa em casa!
     A eleição acabou e pronto. Parabéns aos vencedores, que façam alguma coisa pelo bem da sua cidade e vamos trabalhar minha gente.
 
    Poesia da Semana
 
Outubro

 
Trago a nova: eu mudo
lento, e é tudo
Sinto ser assim
por estações: aos turnos
 
Posso voltar
Ao ponto de partida
Mas luto
 
Sei que vem outubro
Flores, fruto de seiva
romperão no mundo
(Trabalho duro:
sugar de pedras,
rasgar os caules,
colher ar puro)
 
Lento e bruto
Eu mudo
Sei que vem
Outubro
 
Nei Duclós

 

 

Europa: a crise é um golpe
 
       Cada vez mais vai ficando claro que a crise na zona do euro é um golpe perpetrado pelo FMI, Banco Central Europeu e União Européia, capitaneado pelo governo conservador da Alemanha, liderado por Angela Merkel, para destruir as conquistas dos trabalhadores europeus e transferir renda dos mais pobres para os mais ricos.
       Nada justifica jogar na miséria grande parte da população para salvar bancos que especularam irresponsavelmente, injetando neles bilhões de euros às custas da vida de povos que tinham um bom nível de vida.
     O empobrecimento da população e a retirada de seus direitos trabalhistas, beneficiando os bancos é uma brutal trasnferência de renda, planejada pelos conservadores, também, para quebrar o poder dos sindicatos, que já preparam uma greve internacional em todo o bloco.
     O primeiro país a sofrer com a crise, desencadeada nos Estados Unidos, foi a Islândia, que não seguiu nenhuma das recomendações do FMI e já se recupera satisfatoriamente, sem prejudicar seu próprio povo.
     Veja, abaixo, artigo de Salim Lamrani transcrito do site Opera Mundi.
 

Islândia mostrou o caminho ao rechaçar a austeridade

País nórdico recusou receituário do FMI, deixou bancos quebrarem e condenou os responsáveis pela crise
     Quando, em setembro de 2008, a crise econômica e financeira atingiu a Islândia – pequeno arquipélago no norte da Europa, com uma população de 320 mil habitantes –, o impacto foi desastroso, tal como no resto do continente. A especulação financeira levou os três principais bancos à falência, de modo que seus ativos representavam uma soma dez vezes superior ao PIB do país, com uma perda líquida de 85 bilhões de dólares. A taxa de desemprego se multiplicou por nove entre 2008 e 2010, ao passo que, antes, o país gozava de pleno emprego.
     A dívida da Islândia representou 900% do PIB e a moeda nacional se desvalorizou 80% em relação ao euro. O país caiu em uma profunda recessão, com uma diminuição do PIB em 11% em dois anos.
     Em 2009, quando o governo quis aplicar as medidas de austeridade exigidas pelo FMI em troca de uma ajuda financeira de 2,1 bilhões de euros, uma forte mobilização popular o obrigou a renunciar. Nas eleições antecipadas, a esquerda ganhou a maioria absoluta no Parlamento.
     No entanto, o novo poder adotou a lei Icesave – cujo nombre provém do banco online que quebrou e cujos correntistas eram, na maioria, holandeses e britânicos – com a finalidade de reembolsar os clientes estrangeiros. Essa legislação obrigava os islandeses a reembolsar uma dívida de 3,5 bilhões de euros (40% de seu PIB) – nove mil euros por habitante – em quinze anos e com uma taxa de juros de 5%. Diante dos novos protestos populares, o presidente se recusou a assinar o texto parlamentar e o submeteu a um referendo. Em março de 2010, 93% dos islandeses rechaçaram a lei sobre o reembolso das perdas do Icesave. Quando foi submetida novamente a referendo em abril de 2011, 63% dos cidadãos voltaram a rechaçá-la.
     Uma nova Constituição, redigida por uma Assembleia Constituinte de 25 cidadãos eleitos por sufrágio universal entre 522 candidatos, composta por nove capítulos e 114 artigos, foi adotada em 2011. Ela prevê o direito à informação, com acesso público aos documentos oficiais (Artigo 15), a criação de uma Comissão de Controle da Responsabilidade do Governo (Artigo 63), o direito à consulta direta (Artigo 65) – 10% dos eleitores podem pedir um referendo sobre as leis votadas pelo Parlamento –, assim como a nomeação do primeiro-ministro pelo Parlamento.
     Assim, ao contrário das outras nações da União Europeia na mesma situação, que aplicaram escrupulosamente as recomendações do FMI que exigiam medidas de austeridade severas, como na Grécia, Irlanda, Itália ou Espanha, a Islândia escolheu uma via alternativa. Quando, em 2008, os três principais bancos do país – Glitnir, Landsbankinn e Kaupthing – desmoronaram, o Estado islandês se negou a injetar neles fundos públicos, tal como havia feito o resto da Europa. Em vez disso, realizou sua nacionalização.
     Do mesmo modo, os bancos privados tiveram que cancelar todos os créditos com taxas variáveis que superavam 110% do valor dos bens imobiliários, o que evitou uma crise de subprime, como nos Estados Unidos. Por outro lado, a Corte Suprema declarou ilegais todos os empréstimos ajustados a divisas estrangeiras que foram outorgados a particulares, obrigado assim os bancos a renunciarem a seus créditos em benefício da população.
     Quanto aos responsáveis pelo desastre – os banqueiros especuladores que provocaram o desmoronamento do sistema financeiro islandês –, não se beneficiaram da mansidão que se mostrou diante deles no resto da Europa, onde foram sistematicamente absolvidos. Com efeito, Olafur Thor Hauksson, Procurador Especial nomeado pelo Parlamento, os perseguiu e prendeu, inclusive ao ex-primeiro-ministro Geir Haarde.
     Os resultados da política econômica e social islandesa têm sido espetaculares. Enquanto a União Europeia se encontra em plena recessão, a Islândia se beneficiou de uma taxa de crescimento de 2,1% em 2011 e prevê uma taxa de 2,7% para 2012, além de uma taxa de desemprego de 6%. O país até se deu ao luxo de realizar o reembolso antecipado de suas dívidas ao FMI.
     O presidente islandês Olafur Grímsson explicou este milagre econômico: “A diferença é que, na Islândia, deixamos os bancos quebrarem. Eram instituições privadas. Não injetamos dinheiro para salvá-las. O Estado não tem por que assumir essa responsabilidade”.
     Agindo contra qualquer prognóstico, o FMI saudou a política do governo islandês – o qual aplicou medidas totalmente contrárias às que o Fundo preconiza –, que permitiu preservar “o precioso modelo nórdico de proteção social”. De fato, a Islândia dispõe de um índice de desenvolvimento humano bastante elevado. “O FMI declara que o plano de resgate ao modo islandês oferece lições nos tempos de crise”. A instituição acrescenta que “o fato de que a Islândia tenha conseguido preservar o bem-estar social das unidades familiares e conseguir uma consolidação fiscal de grande envergadura é uma das maiores conquistas do programa e do
Salim Lamrani
 governo islandês”.
     No entanto, o FMI omitiu omitiu a informação de que esses resultados só foram possíveis porque a Islândia rechaçou sua terapia de choque neoliberal e elaborou um programa de estímulo econômico alternativo e eficiente.
     O caso da Islândia demonstra que existe uma alternativa crível às políticas de austeridade que são aplicadas na Europa. Estas, além de serem economicamente ineficientes, são politicamente custosas e socialmente insustentáveis. Ao escolher colocar o interesse geral acima do interesse dos mercados, a Islândia mostra o caminho ao resto do continente para escapar do beco sem saída.
      Num momento como este, em que a União Européia investe contra a democracia e as conquistas sociais, a outorga do prêmio Nobel da Paz a UE, é no mínimo uma ironia e apenas confirma a tendência direitista dos que decidem sobre esta premiação. Uma lástima.
 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Paiz
 
 
Dobrando a esquina
 
 
     Os últimos redutos da direita no Brasil, estão sitiados pelos partidos da base governista.
     Principalmente São Paulo e Salvador, tornaram-se disputas ferrenhas, onde ainda há uma polarização ideológica entre direita e esquerda. Pode-se acrescentar ainda Manaus, onde um dos maiores adversários dos governos do PT e desafeto pessoal do ex-presidente Lula, Arthur Virgílio Neto, vai para o segundo turno com a deputada Vanessa Graziotin, do PCdoB.
     Lula e Dilma devem jogar todo o peso de sua influência nessas eleições, para jogar uma pá de cal sobre as últimas lideranças neoliberais brasileiras, avançando para a extinção dos partidos que representam as idéias neoliberais no Brasil, PSDB e DEM.
     De resto houve uma mistura tão grande na chamada "base aliada", que gente que ontem era inimiga jurada, hoje faz aliança alegremente sob a bandeira da tal base governista. Não dá mais pra identificar ideologias.
     Na verdade a estratégia do PT, e mais especificamente de Lula, que vem se revelando um grande estrategista político, é justamente diluir os adversários dentro de uma imensa base sem ideologia definida, enquanto fortalece sua sigla partidária, e vai levando ao desespero os que ainda insistem em fazer oposição às suas bem sucedidas políticas de desenvolvimento com distribuição de renda.
     Com isso, a conjuntura política do Brasil parece estar dobrando uma esquina, deixando para trás a velha rivalidade entre partidos de esquerda e direita, e enveredando por novas demandas da sociedade, que agora exige um aperfeiçoamento democrático, focando suas exigências no combate à corrupção, a criminalidade, lutando pela inclusão de setores antes discriminados da sociedade, pela igualdade de gênero e raça, pelo fim da pobreza, pelo funcionamento rápido e equânime da justiça, pelo aperfeiçoamento do sistema de ensino voltado para a criatividade e a inovação, que tanto nos faz falta para atingirmos um patamar de país desenvolvido.
     O ataque frontal aos últimos bastiões da direita, é necessário para virar esta página e permitir ao país se postular novos objetivos, se quisermos alcançar as metas de desenvolvimento anunciadas e desejadas por todos nós.
     Dentro dessa nova realidade vem se destacando o PSOL, que tem sabido incorporar toda essa ânsia de aperfeiçoamento democrático com a construção de uma sociedade mais complexa e mais voltada para o conhecimento. Seus candidatos passaram a representar aquilo que o PT representou no passado, uma alternativa de futuro, e já vem disputando posições em cidades importantes, onde a geléia geral da tal base aliada já vai perdendo o sentido, por não ter mais nada de novo a propor.
     Assim, enquanto o PT vai cumprindo seu papel histórico de virar uma página da política brasileira, deixando de ser uma antítese ao poder da direita e passando a ser uma síntese de tudo que sobrou, novas teses vão se formando, dentro do processo dialético da civilização brasileira, que caminha a passos largos para recuperar o tempo perdido e ocupar seu lugar num mundo que muda rapidamente.
        
     
Rapidinhas
 
Eleições em Rio de Contas geram impasse
 
 
     A vitória do atual prefeito em Rio de Contas, pela estreita margem de 3% só aprofundou a divisão na cidade.
    Nem mudança, nem aceitação da continuidade.
    Rio de Contas amanheceu mais dividida do que já estava, prenunciando dias difíceis para uma administração que já era rejeitada por grande parte dos eleitores.
     O desafiante, Dr. Cristiano, cometeu alguns erros graves no final da campanha, colocando pessoas cromprometidas com o passado coronelista da cidade para falar no palanque, gente que não era candidata a nada e que só representava o passado e que assustou um pouco um eleitorado que pedia por mudanças.
     As confusões entre o PT local e o PT estadual, fizeram com que a eleição de vereadores permanecesse indefinida, até que a justiça resolva a questão, sobre se os candidatos do PT pertencem à chapa do 55 ou do 12. Enquanto isso, permanece o impasse sobre quem serão os representantes eleitos.
Guerra e paz
 
 
 
     Enquanto o mundo parece continuar apostando na guerra para resolver seus problemas, o Brasil insiste numa política de paz, que já é tradicional na nossa diplomacia.
     Agora mesmo, Síria e Turquia estão às portas de uma nova guerra, que só vai levar morte, destruição e sofrimento para seus países, enquanto Brasil, Uruguai e África, por iniciativa brasileira, tentam reativar a Zona de Paz do Atlântico Sul, uma proposta para manter afastado de nós esse flagelo primitivo, que significa tentar resolver as diferenças pela violência.
     Os países belicistas, acusam a política brasileira de ficar em cima do muro, quando se trata de conflitos internacionais, mas nossa história prova que temos razão.
     Agora mesmo o presidente Santos, da Colômbia, se rendeu ao nosso pragmatismo e resolveu abrir negociações com as FARC, grupo guerrilheiro que mantém aquele país em estado de guerra há 50 anos.
     Esperamos que as negociações sejam bem-sucedidas e que a paz desça definitivamente sobre nosso continente, que precisa canalizar suas energias para o crescimento e o progresso sustentável.
    
Poesia da Semana
 
        TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.
    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Fernando Pessoa
Mudar
 
 
     Há muitos momentos na vida em que precisamos mudar. Quando somos crianças, mudamos constantemente, acompanhando nosso corpo e nossa mente que crescem, recebendo a formação e as lições de vida daqueles que cuidam de nós, nos alimentam e educam.
     Depois vem a fase difícil da adolescência, quando nosso corpo se transforma finalmente naquilo que vamos ser e desabrochamos para uma vida plena de adultos. Então entramos numa fase de transição rápida, quando passamos a ter uma vida sexo-afetiva, e viramos cidadãos, com documentos: identidade, título de eleitor, carteira de motorista, de reservista para os rapazes, de trabalho, certidão de casamento, etc.
     Logo nos vemos à frente de muitas responsabilidades, como cuidar de filhos e de uma família, dando-lhe sustento e provendo o mesmo cuidado que recebemos no início de nossa vida.
    Então vem as responsabilidades profissionais, que exigem de nós mais responsabilidades,  maturidade, competência, capacidade de trabalho e conhecimento técnico específico de uma atividade, que será o nosso ganha pão durante o resto da vida.
     Para os que tiveram a felicidade de se graduar em alguma profissão de nível superior, isso implica em melhorar constantemente, valorizando seu currículo e adquirindo mais e mais conhecimentos com a experiência profissional que se acumula.
     Depois vem a fase em que nossos filhos entram na adolescência e passam a nos desafiar, tentando se afirmar sobre nossos conceitos, e passamos à defensiva, numa fase difícil também para pais e mães.
     Logo eles se vão de casa, cuidar de suas próprias vidas e nos quedamos com as lembranças deles, tendo que nos adaptar à uma vida que de repente se esvaziou. Aí entramos na fase de cuidar daqueles que nos cuidaram e que já tendo atingido a velhice, agora necessitam de nossa atenção.
     Quando eles se vão, já estamos entrando na nossa própria velhice e vem a fase da aposentadoria, em que temos que nos adaptar novamente a uma vida que se esvaziou mais ainda, sem filhos, sem trabalhos, até que, finalmente, precisemos também de alguém para cuidar de nós.
     Embora esse roteiro seja mais ou menos parecido para todos, com variações que a sorte e o destino nos preparam, a verdade é que estamos sempre mudando nesse itinerário terrestre, e isso quase nunca é fácil.
     Daí vem o aprendizado. Daí vem o sentido da vida, para que quando cheguemos ao final deste caminho, que todos temos que percorrer, uns mais outros menos, possamos dizer que aprendemos alguma coisa, que nosso espírito evoluiu alguns passos, que tiramos algumas lições do nosso caminhar.
     Mas a verdade é que nem todos evoluem. Conheço pessoas que se orgulham de não mudar nunca, de serem sempre as mesmas, como se isso fosse uma virtude.
     Conheço também pessoas que são verdadeiros vulcões, em eterna erupção, deitando lava que vai se transformando em pedra pelos caminhos onde passam, tal seu furor de transformação, sem que consigam tirar alguma conclusão de tantas transformações que experimentam pela vida.
    Outros simplesmente passam pela vida a contemplá-la, sem vontade de fazer nada, de ser nada, apenas deixando o tempo passar e sendo levadas pelas circunstâncias.
     Enfim, as experiências humanas de vida são tão variadas que seria impossível estabelecer uma gradação no que diz respeito às mudanças, já que estamos em constante movimento, como todo o universo.
     Mas há uma experiência sublime, capaz de nos fazer avançar profundamente no espaço da consciência, que age sobre nós como um casulo de borboleta, transformando um ser rastejante em um belíssimo e fugaz ser alado, capaz de irradiar beleza, consagrando a mudança como instrumento evolutivo da natureza.
     É o amor, que quando chega, muda tudo. Ele não tem hora para chegar. Pode chegar na época da reprodução, quando somos jovens e nos sentimos fortemente atraídos para uma vida conjugal, pode vir na tenra infância ou mesmo na velhice, nos surpreendendo com suas luzes e cores.
     Há aqueles que passam pela vida sem sentir essa grande transformação. Esses perderam a oportunidade de fazer sua maior mudança. Há aqueles que se iludem e confundem os chamados do corpo ou da solidão com esse sentimento profundo. E há aqueles que passam por ela e sofrem, mas mesmo assim foram abençoados pela luz da mudança mais profunda pela qual um ser humano pode passar e que nos aproxima mais dos mistérios do criador.
     Por isso, não devemos temer as mudanças. Elas sempre nos trazem algo novo, alguma coisa da qual sempre podemos tirar alguma lição. Ou como dizia aquele filósofo: mudo porque penso.
     Melhor ainda, poderíamos dizer: mudo porque estou vivo.


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Paiz

Rio de Contas é Rapa Cuia
 

     A campanha eleitoral em Rio de Contas chega ao final com uma manifestação apoteótica de apoio à candidatura de Cristiano, 12, e em repúdio à atual administração e suas práticas coronelistas.
     Cansados das perseguições políticas aos que não votaram no atual prefeito nas últimas eleições, a cidade em peso apoiou a mudança e demonstrou isto no último domingo, 30 de setembro, com a maior carreata da história deste pequeno município da Chapada Diamantina. e um magnífico comício que lotou a praça da cidade, como só se vê em época de carnaval.
     Os apoiadores do atual prefeito, para denegrir a imagem dos apoiadores de Cristiano, 12, apelidaram-nos de Rapa Cuia, querendo dizer que eram pobres.
     O pessoal de Cristiano aproveitou o apelido para se reafirmar como Rapa Cuia, com muita honra, e apelidou a equipe do atual prefeito de Rapa Cofre, referindo-se aos vários processos por licitações fraudulentas que o nosso triste prefeito sofre atualmente na justiça.
     A cuia (pra quem não conhece, fruto de uma planta, também conhecida como cabaça), utilizada pelos índios e também, em alguns lugares do interior, como prato, virou o símbolo da campanha da mudança.
     E assim, com muito humor, determinação e alegria, Rio de Contas deu seu grito de liberdade, para se livrar da opressão do que restou do Carlismo na Bahia e prepara-se para, no dia 07 de outubro, mandar para casa definitivamente esse restolho da ditadura militar que ainda infesta nossa política e comemorar uma nova era de progresso e bem estar.
     Abaixo, minha foto com minha candidata a vereadora, Angela Guedes, amiga, irmã, e grande batalhadora pela libertação de Rio de Contas.
    Dia 07 de outubro é Cristiano 12 para prefeito e Angela Guedes, 13130, para vereadora!

Rapidinhas
 
Formatura
 
     Foi com muito orgulho que compareci à formatura de meu filho Mário Luz Alves de Souza, em Brasília, no dia 28 de setembro.
     A turma de Mário, se graduou com o título de  Bacharel em Artes Cênicas, junto com outras duas turmas, uma em Licenciatura em Artes Cênicas e outra em Licenciatura em Artes Plásticas.
     O paraninfo da turma foi o ator global, Murilo Grossi, (à esquerda)também oriundo de Brasília e da mesma Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. A semente que Dulcina (à direita) plantou em Brasília, continua frutificando e a faculdade, apesar de todas as dificuldades financeiras, continua sendo o centro do movimento teatral da cidade.
     Parabéns Brasília, parabéns Mário, parabéns ao teatro brasileiro.
 
 
Casa de Anísio Teixeira
 
 
 
     Na viagem para Brasília, passei em Caetité e fui visitar a Fundação Casa de Anísio Teixeira, que eu já conhecia. Na verdade fui fazer uma visita à sua diretora, Maria Auxiliadora Ledo, que me deu grande ajuda na pesquisa para a realização do livro Escola, Espaço e Discurso, lançado recentemente.
     Mara, como é conhecida, é uma grande batalhadora pela cultura do muncípio e da região sudoeste da Bahia, além de ter a responsabilidade de guardar o acervo de Anísio.
     Pra quem não conhece, a Fundação Casa de Anísio Teixeira, está sediada na antiga casa deste famoso educador brasileiro e dispõe de biblioteca, auditório, salas para cursos de arte, teatro, terceira idade, biblioteca móvel e ainda um museu que conta com uma magnífica coleção de móveis antigos brasileiros.
     Vale a pena conhecer.
     É importante lembrar, que a recém estabelecida Comissão da Verdade, formada para investigar os crimes da ditadura militar, acaba de declarar como prioridade a reabertura da investigação sobre a morte de Anísio, falecido em um nunca explicado acidente, num poço de elevador, no Rio de Janeiro, no dia 11 de março de 1971.
     Anísio, que introduziu no Brasil as teorias do educador americano John Dewey, era acusado de comunista pelos militares, por se opor à ditadura e morreu quando fazia campanha pela sua eleição para a Academia Brasileira de Letras.
    
Adeus Hebe
 
 
     O Brasil perdeu a pioneira da televisão, apresentadora, cantora e atriz, Hebe Camargo.
     Famosa pela sua alegria e pela coragem com que denunciava alguns políticos, apesar de sua tendência conservadora, Hebe foi uma das poucas unanimidades da TV brasileira a não ser seduzida pelo poder da TV Globo.
     Durante mais de 60 anos fez rir e pensar o Brasil, com suas entrevistas, seus selinhos e sua forma engraçada de abordar temas e entrevistados.
     Perdemos aquela que chamava a todos a quem admirava de gracinha.
     Obrigado Hebe,
 
Eric Hobsbawn
 
     O mundo perdeu também nesta segunda-feira este brilhante historiador britânico (nascido no Egito), autor, entre outras obras, de Era dos Extremos: o Breve Século XX: 1914 - 1991, que marcou profundamente a minha geração ao explicar do ponto de vista marxista, o que foi o século XX, com suas guerras, suas revoluções e grandes transformações da sociedade humana e do qual ele foi parte importante.
    
     Poesia da Semana
 

Para os que virão


Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.


Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.


Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente - 
na primeira e profunda pessoa
do plural.


Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.


É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a lí­mpida
verdade dos nossos erros. )
Se trata de abrir o rumo.


Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
 

Thiago de Mello




 
Corte Raso
 

     O debate sobre o novo código florestal, pode parecer besteira para quem não acompanha a devastação promovida pelo agronegócio em grandes áreas do território brasileiro.
     Uma das práticas mais comuns e nocivas ao meio ambiente, é o chamado corte raso, quando toda a vegetação de uma propriedade é removida para o plantio, não restando nada da flora nativa e nem da fauna.
     Além do corte, após o plantio, aplicam-se os chamados defensivos agrícolas, eufemismo para venenos, com o objetivo de impedir que insetos prejudiquem a colheita. O resultado disso é uma terra devastada e envenenada, à perder de vista, onde a única forma de vida que resta é a da cultura que está sendo plantada. Pior do que isso, a produção que chega à nossa mesa também vem envenenada, aumentando em muito os casos de enfermidades na nossa população, dentre as quais o câncer, cuja incidência vem aumentando de forma alarmante.
     A foto acima foi tomada na estrada entre Correntina e a BR-020, no oeste baiano, área onde outrora havia uma imenso cerrado, famoso pelos pássaros e pela diversidade vegetal. Agora nada resta, senão um deserto, preparado para receber plantações de soja ou de algodão.
     A insistência dos ecologistas e da presidente Dilma em vetar as modificações que os grandes plantadores querem introduzir no código, é para prevenir situações como esta, onde a mata natural foi exterminada e a vida animal completamente extinta.
     O certo é que, para uma área devastada como esta, existissem outras, interligadas, de mata nativa preservada, de forma a manter a biodiversidade e a passagem de animais, nos chamados corredores, que permitem aos bichos passar de uma mata para a outra, continuamente, sem ficarem ilhados, sem água e sem condições de conseguir seu alimento.
     Além das consequências nefastas para a flora, a fauna e a nossa saúde, este tipo de devastação também afeta o clima, acabando com a evapo-transpiração das plantas e tornando o ambiente cada vez mais seco, o que acaba se traduzindo em secas catastróficas, que vão prejudicar os próprios produtores.
     Mas os que insistem nessas práticas só pensam no lucro rápido e não em uma atividade agrícola sustentável.
     Por isto é melhor não ter pressa na aprovação deste código, e insistir no seu aperfeiçoamento, até que esses predadores do meio ambiente se convençam de que o planeta não pertence apenas a eles, mas é um patrimônio de todos os seres vivos, formando um conjunto que funciona harmonicamente e que não resiste a essa mentalidade que pensa apenas em tirar proveito da natureza.





sábado, 22 de setembro de 2012


De volta ao começo
 
Pois é, amigos leitores, depois de passar o ano de 2011 em Vitória da Conquista, apoiando minha filha e dando aulas numa Faculdade de Arquitetura, depois ficar entre Brasília e Fortaleza o primeiro semestre de 2012 e apenas em Fortaleza após o falecimento de minha mãe, no final de maio, finalmente retorno para minha casa na minha pequena e querida Rio de Contas.
É como se eu tivesse dado a volta ao mundo e voltasse para casa.
Amo as noites estreladas e serenas desta cidade. Amo suas montanhas, o vento que balança as árvores da minha rua e que me trazem recados de lugares distantes, amo a educação e gentileza das pessoas, a maneira como seus habitantes sabem aproveitar a vida, apesar dos pesares, o cheiro das madrugadas, que tantas vezes me fizeram abrir minha porta e me sentar no muro da escola em frente, às quatro horas da manhã.
Venho de muitos sofrimentos e muitos descobrimentos também. Sofrimentos de dores de amores desfeitos e descobrimentos que fiz em viagens por lugares nunca dantes navegados, dentre os quais a África, o Ceará e o interior do Piauí, todos eles fascinantes.
Cabo Verde foi uma escola. Sentir o cheiro da África, pisar os meus pés nas suas terras, ver com meus próprios olhos como vivem nossos irmãos de lá, foi como retirar um véu que distorcia minha visão e me fazia enxergar aquele continente como se estivessemos no século XVI. A nova África está lá, esperando por nós, brasileiros, com suas contradições e suas belezas.
Bobagem ir a Europa, muito mais longe. Vão à África, nossa mãe. É linda e vale a pena.
O Piauí tambem foi uma surpresa, já contada também neste blog, principalmente o Vale do Gurguéia e o Parque Nacional da Serra da Capivara. Vale a pena conhecer.
Fiz essas viagens para amenizar a tristeza que me ia pelo peito e, junto com meu amigo Adriano Araujo, fui renascendo aos poucos, juntando os pedaços e voltando a vida, reconstruindo a vontade de viver, de fazer planos e de ser feliz.
O Ceará também foi muito importante. Não só pelas suas linda praias, mas pelo interior magnífico, muito mais desenvolvido do que supomos pelas lentes comprometidas das televisões sudestinas (Globo, Record, SBT e Bandeirantes). Ótimas estradas e cidades bem estruturadas, que revelam um estado em pleno desenvolvimento. Como diziam os mineiros na década de 60, o Ceará trabalhou em silêncio e é uma surpresa muito boa conhecê-lo.
Ao contrário do Piauí, não se trata de um potencial ainda começando a se desenvolver, mas de uma sociedade já muito avançada no seu crescimento e desenvolvimento, embora as marcas de séculos de pobreza e atraso ainda sejam visíveis.
Tudo isso foi muito bom, mas melhor ainda é poder voltar para Rio de Contas, onde tenho minha casa e meu escritório (que prazer em reabri-lo!) e poder reencontrar velhos amigos e conhecidos.
Viajar é ótimo, mas voltar pra casa é o melhor da viagem.
Pra quem não sabe, Rio de Contas e uma pequena e linda cidade da Chapada Diamantina, na Bahia, onde enterrei meu coração.


Rapidinhas

Incêndios em favelas

    
     Não é estranha a sequência de incêndios em 34 favelas de São Paulo, a cidade governada pelos conservadores do PSDB de Serra, junto com o PSD (ex-DEM) de Kassab?
     Todas as favelas incendiadas se encontram em terrenos altamente valorizados, em áreas centrais da capital paulista. No último, no início da semana passada, a Prefeitura não forneceu nenhum apoio aos moradores, que passaram a noite ao relento. Uma empresa nas imediações foi quem abriu suas portas para acolher os que ficaram sem suas casas.
     Carlos Lacerda, quando incendiava as favelas do Rio de Janeiro na década de 60, pelo menos retirava os moradores. Agora parece que grupos ligados aos especuladores, com o silêncio cúmplice da direita que governa a cidade, decidiu queimar as favelas com os moradores dentro.
     Qualquer semelhança com os fornos crematórios nazistas não é mera coincidência.

Provocações
 

     E por falar em nazismo, o filme com críticas ao Islamismo, feito por um amador nos Estados Unidos, seguido da publicações de charges contra o Islã por um semanário francês, são manifestações explícitas de intolerância religiosa, que escondem o racismo contra árabes e até contra os judeus (no caso do semanário francês).
     Porque atacar assim uma religião que tem centenas de milhões de seguidores no mundo?
     Como nos sentiríamos se eles começassem a publicar charges ofensivas sobre Jesus Cristo?
     Isso é um absurdo, uma provocação fascista, que se esconde sob o manto da liberdade de opinião.
     Acho que o princípio da liberdade religiosa deve estar acima do suposto direito das pessoas dizerem o que querem. A liberdade de se expressar não pode servir para ameaçar a liberdade dos outros de professarem sua fé. 
     Por muito menos Julian Assange está preso numa embaixada em Londres e o soldado americano que revelou os telegramas ao site Wikileaks, está preso incomunicável, nos Estados Unidos, o que mostra que a tal liberdade de expressão pode ser restrita, quando incomoda os poderosos.
     E na França, a justiça proibiu manifestações de muçulmanos contra a publicação. Mas manifestar-se publicamente também não se enquadra no livre direito de expressão? Então existe liberdade para axincalhar uma religião e não há liberdade para manifestar o desagrado com isso?
     Todas as religiões unem a humanidade em torno da idéia de um ser divino e, como tal, merecem ser respeitadas. A liberdade de culto é um direito fundamental reconhecido na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O ataque contra o islamismo é um ataque contra a liberdade religiosa de todos nós.

A Máfia da CBF


     Romário, mais uma vez, denunciou o técnico Mano Menezes e a CBF, pela prática de associação entre a convocação de jogadores  e a valorização de seus passes para venda ao exterior, que estaria beneficiando dirigentes brasileiros, em prejuízo da qualidade da nossa seleção.
     Nesta última denúncia ele pede a intervenção da Presidente Dilma Roussef na entidade que comanda o nosso futebol, para acabar com as negociatas que estão fazendo fortunas às custas da nossa seleção nacional.
     O estranho é que os grandes órgão de imprensa silenciaram sobre as denúncias do baixinho, como se estivessem participando do esquema.
     Está na hora de abrir essa caixa preta chamada CBF e fazer uma faxina lá dentro.
     A vitória da seleção por 2x1 contra a fraquíssima seleção argentina não convenceu ninguém, muito menos os torcedores que foram ao estádio Serra Dourada em Goiânia e pediam a volta de Felipão.

Poesia da Semana
 
Pus meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para meu sonho naufragar.
 
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.
 
O vento vem vindo de longe
a noite se curva de frio
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...
 
Chorarei quanto for preciso
para fazer com que o mar cresça
e o meu navio chegue ao fundo
e meu sonho desapareça.
 
Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas
 
Cecília Meireles




O Paiz

A praça é do povo

     O comício do candidato do PDT, Cristiano, em Mato Grosso, distrito a 1.500 metros de altitude, no município de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, mostrou que quando o povo quer, não há articulação ou manipulação eleitoreira que consiga impedir que ele tome as praças e expresse a sua vontade de mudança.
     O atual prefeito, e sua equipe inerte, que passaram quatro anos perseguindo os cidadãos riocontenses sem trazer nenhum benefício à cidade, usaram de todos os métodos lícitos e ilícitos para impedir a aliança entre todas as forças vivas da cidade para tirá-los do poder.
     Até a falsificação de atas da convenção do PT foi tentada, mas quanto mais eles querem obrigar o povo a votar no seu esquema falido e corrupto, mais o povo se revolta e apóia o 12, do candidato da oposição.
     A situação me lembra uma fábula árabe: o sol e o vento, ao observarem um homem caminhando com um grosso casaco, apostaram sobre quem seria capaz de fazê-lo tirar seu abrigo.
     O vento então soprou uma rajada traiçoeira, que quase levou o casaco do homem, mas este, se sentindo atingido pelo frio conseguiu segurar seu abrigo e apertá-lo em torno de seu corpo. E quanto mais o vento soprava, mais o homem apertava o casaco.
     Depois foi a vez do sol e bastou este aparecer com força para que o homem retirasse seu abrigo.
     Moral da história: não é com violência e força que se conseguem as coisas, mas com razões.
     A praça da pequena e histórica Mato grosso, onde ocorreu a primeira descoberta de ouro na Bahia, no início do século XIX, se encheu de alegria e esperança no domingo, na maior concentração de sua longa história.
     Foi uma festa bonita e uma linda prévia do que o povo está preparando para o dia 07 de outubro.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Paiz



Lógica Corporativa, lógica burocrática e lógica cidadã

     Impressinonante como as empresas tentam impor aos cidadãos a lógica que rege seus negócios. O mundo corporativo é movido por uma cultura própria, baseada na competição e que valoriza a capacidade de convencimento e de liderança.
     Quem já trabalhou em grandes empresas sabe o que é ouvir essas aulinhas de como se comportar, como ser "ético" (ou o que eles consideram que seja ética, como por exemplo, não usar produtos dos concorrentes), como "vender" sua imagem para ser bem sucedido, influenciando pessoas e chefes para conseguir bons resultados no seu trabalho, e até como se pronunciar nas redes sociais, evitando ser crítico, para que o olho dos empresários na rede não identifique na pessoa uma possível fonte de problemas.
     Por outro lado, quem já trabalhou em órgãos públicos sabe como funciona a lógica da burocracia. "quem pode manda e quem tem juízo obedece", diz um dos mais odiosos ditados brasileiros, que serve de justificativa para toda corrupção que anda por aí. Aliás a corrupção também existe nas empresas privadas e, frequentemente, anda de mãos dadas com a corrupção nos órgãos públicos, como podemos ver nos esquemas denunciados no escândalo conhecido como Mensalão.
     Mas a lógica burocrática, fundamentalmente, busca a riqueza através do poder, enquanto a lógica corporativa é o inverso, buscando o poder através da riqueza.
     A lógica burocratica preza antes de tudo a obediência, que garante a eficiência do poder exercido pelos que estão no comando, e através dele, seu acesso à riqueza. A lógica corporativa preza a eficiência, que garante os lucros que vão gerar o poder, que se estrutura ao redor do dinheiro.
     Contra as duas, existe a lógica da cidadania, que é a do bem estar coletivo, dos direitos civis e humanos, que se estruturam através das leis. É a lógica do progresso da humanidade em direção à um mundo melhor, onde todos tenham acesso aos bens e serviços que os valorizem como ser humanos e lhes permitam buscar a felicidade.
     O entrelaçamento dessas três lógicas, desses três discursos, se dá nos meios de comunicação e nos chamados "aparelhos ideológicos" da sociedade, (escolas, mídia, igrejas, etc), resultando numa formação discursiva que pode tender mais para uma ou para outra lógica.
     No capitalismo extremado a lógica corporativa transforma tudo em mercadoria, enquanto nos regimes com tendências estatizantes a lógica da obediência, baseada no patriotismo e em outras justificativas, prevalece. Nas sociedades profundamente democráticas, a lógica da cidadania se sobrepõe às outras duas e as domina, transformando empresas e Estado em instrumentos de progresso da humanidade.
     Nada disso, porém, fica claro para a população, que oscila entre uma e outra lógicas, enquanto vai formando sua experiência de vida coletiva. Países mais desenvolvidos tendem à terceira lógica, a da cidadania, mas como todos os demais, sofrem intensa pressão dos outros dois grupos.
     O Brasil avançou muito na cidadania, mas ainda não foi capaz de identificar com clareza os grupos que trabalham contra ela, seja no poder estatal, seja no mundo corporativo.
     O julgamento do mensalão talvez seja uma excelente oportunidade para passar isto à limpo, principalmente quando se conta com juízes da estatura de um Joaquim Barbosa, verdadeiramente comprometidos com a cidadania brasileira.