Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Rapidinhas
O trem de Cuiabá
     Interessante como a oposição muda seu foco de acordo com a situação, revelando um imenso oportunismo. Quando Cuiabá anunciou que construiria um corredor de ônibus para a Copa da Mundo, um BRT (Bus Rapid Transport), na sigla dos tecnocratas, a direita caiu de pau, dizendo que estavam gastando dinheiro à tôa com essas obras da copa, com aquela cantilena de que com essa verba daria pra construir não sei quantas escolas (como se o Brasil precisasse de mais prédios escolares) ou casas populares.
     Depois, quando o governo local resolveu mudar o projeto para um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que carrega muito mais gente, não polui e pode no futuro ser facilmente transformado num metrô, agora reclamam que não vai dar tempo pra ficar pronto para a Copa.
    Me parece que a decisão matogrossense é acertada, pois mira o futuro da cidade, muito além da Copa de 2014. Está, portanto, focada no interesse público e não nos interesses imediatistas da Fifa.
    Quanto às escolas, pra quem não sabe, a matrícula do ensino básico vem caindo nos últimos anos, devido à diminuição do crescimento populacional. Não precisamos de escolas novas, e sim de mais qualidade no ensino. Quanto a construir casas, o famoso déficit habitacional não passa de invenção do sinduscon (Sindicato da indústria da Construção Civil) para que o governo invista no setor, financiando as construtoras, pois o índice de imóveis fechados no Brasil é semelhante ao de famílias sem casa. O problema não está na falta de casas, mas na especulação imobiliária, promovida pelas próprias incorporadoras, que aumenta o preço dos imóveis levando à uma concentração da propriedade imobiliária.
     Não é à tôa que o DEM e o PSDB estão desaparecendo da cena política nacional, atropelados pelo trem do progresso planejado.

A Grécia lidera a rebelião contra a austeridade


     Depois do rotundo Não, que o povo grego deu aos acordos que o governo anterior da Grécia (socialistas e conservadores) fez com a Troika (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI), não restou outra alternativa ao presidente grego a não ser convocar novas eleições, para o dia 17 de junho.
     O partido Syrisa, que a imprensa ocidental chama de ultra-esquerda, nada mais é do que um ajuntamento de movimentos alternativos, de novo tipo, que reflete a insatisfação do povo com a política criminosa imposta a eles, que os levou à miséria e ao desespero para salvar os bancos, responsáveis pela situação desastrosa da economia grega.
     O que o Syrisa propõe é simples: renegociar a dívida, em outros termos, sem sair do Euro. No fundo estão fazendo a mesma coisa que a Argentina fez em 2001 e que a levou a ter um dos maiores crescimentos da sua história, quando mandaram o FMI às favas.
     Os franceses também já deram seu recado nas urnas e agora os alemães inventaram um partido genial: o Partido Pirata. Nesse partido, os seus líderes não tem propostas fechadas, mas trabalham on-line levando ao parlamento as propostas que o povo faz através da internet. Democracia direta!
     Nas últimas eleições locais já alcançaram 8% do eleitorado, o que lhes garante a entrada no parlamento.
     Ninguém aguenta mais esses truques dos partidos tradicionais para transferir a riqueza dos trabalhadores para as instituições financeiras, tudo disfarçado de política econômica.
     Os gregos deram a partida, e muitas novidade vem por aí, apesar do terrorismo da mídia e da direita, que já está ameaçando os eleitores gregos com o caos, caso a esquerda vença. Mas para o povo grego o caos já foi instalado, justamente pela troika e seu modelo de austeridade.

Falta um!

     O ex-chefe militar dos sérvios da Bósnia, Ratko Mladic começou a ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional. Também o ex-presidente da Libéria, país africano, Charles Taylor, vai ser julgado, ambos por genocídios em guerras absurdas. Acho muito bom que esses "líderes" paguem por seus crimes contra a humanidade. Mas e o ex-presidente Geoge Bush que matou mais de 200.000 civis iraquianos, com a desculpa mentirosa de procurar armas de destruição em massa, quando vai ser julgado?

Lançamento

     Dia 24 de maio, às 19,00 horas, haverá o lançamento oficial do livro Escola, Espaço e Discurso, de minha autoria, na Fainor, em Vitória da Conquista.
     Embora o livro já esteja à venda, de forma virtual, este será o primeiro lançamento em papel, com sessão de autógrafos e a presença do autor.
     Na mesma ocasião também serão lançados também os livros; Panorama para o Administrador e o Gestor Contábil na Contemporaneidade, de  Alexandre Alcantara da Silva; e Elementos Para Teoria Geral do Processo, de Benedito Mamédio, ambos professores da Fainor.
O que é isto?

     Pesquisando sobre São Gabriel da Cachoeira, cidade do extremo noroeste do Brasil, proxima à fronteira da Colômbia, me deparei com a notícia de que, em 2009, um estranho ser, metade homem, metade animal, foi morto por habitantes locais. A foto é muito impressionante e não sei se é uma montagem, por isso prefiro não publicá-la, mas coloco aqui o link para quem quiser ver o bicho, que alguns dizem ser um lobisomem e outros o lendário curupira. A imagem é muito impressionante.
     Amazônia




Aproveitando o tema amazônico, publico hoje a poesia de Manoel de Andrade, intitulada Amazônia.
Antes da pátria, eras úmida promessa…
semente primordial
árvore mãe
planta continental
arvoredo, floresta, selva palpitante.
Hoje canto tua vertical beleza
o mogno gigantesco, sua estatura secular
seu colossal diâmetro
canto essa caudalosa geografia
essa multidão de vidas que sustentas
canto o itinerário sazonal da seiva
e essa infinita linfa…
parto de infinitas criaturas.
Canto teu verde planetário
e no teu imenso respirar,
canto o nosso pão de oxigênio…
Canto a ti… Amazônia
bosque inquietante da esperança…
e eis porque denuncio esse machado cruel sobre teu peito…
essa fruta milenar, dia a dia devorada.
Antes da grande nação…já eras tu…
a nação primogênita
filha dos filhos da mata.
A infância da pátria foste tu,
sílaba aborígine, idioma tupi
cerâmica, canoa e tacape
ritual, dança e canção.
Foste tu a raiz, sangue ameríndio
o parto da nacionalidade.
Hoje canto os povos da floresta
e o desencanto dessa memória esquecida.
Falo de sobreviventes
de tribos desgarradas
de aldeias tristes
de sonhos desmatados
de segredos e tradições pirateadas
das águas lavadas na bateia do mercúrio.
Amazônia….Amazônia…
quem deterá o teu martírio
uma vida tão diversa num adverso viver…
Falo dos teus hectares de sangue
da lâmina cruel, da pira ardente
dessa cartilha de serras, rifles e archotes
dessa morte plural
na diversidade de aves e primatas
roedores, felinos e serpentes.
Falo de uma terra de cepos
de raízes degoladas
de caules retalhados
de castanheiras preservadas… a morrer de solidão.
Falo da linha negra do fogo
e desse cemitério de troncos defumados.
Falo da floresta sitiada
por uma legião de máquinas assassinas
falo de estradas e picadas clandestinas
de súbitas clareiras
desse assalto interminável… lento e invisível.
Falo de grileiros, posseiros, garimpeiros, bandoleiros
e de terras demarcadas sob a mira das pistolas.
Falo de dragas e crateras
das águas manchadas e dos rios estropiados.
Falo da vida degradada pelas pastagens da ambição.
Amazônia…Amazônia…
com que verde vestiremos nosso mapa
acuados pelo apetite voraz das motosserras,
por uma fronteira incinerante que avança insaciável.
Acuados pelo gatilho mercenário da violência
e pelo estigma oficial da impunidade.
Passo a passo e esse avizinhar-se do colapso…
quantos fóruns se abrirão para “resolver” essa tragédia!?
Crimes silenciados na cumplicidade regional dos gabinetes…
gritos sem eco nas vozes da omissão…
acenos sem resposta nos protocolos renegados…
e o poder dos maiorais contra tudo o que respira.

domingo, 13 de maio de 2012

Rapidinhas

Viva Hollande

     Enfim a velha Europa se levanta contra os absurdos praticados pela troika (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI) para impor um ajuste fiscal criminoso, que premia os bancos, responsáveis pela crise, e penaliza os trabalhadores, que não tem culpa nenhuma no cartório.
     O "ajuste" grego foi tão grave que provocou uma onda de suicídios no país.
     Os dois partidos que o promoveram, e que detinham 77% dos votos, caíram para 32%. O povo deu sua resposta nas urnas.
     Mas a resposta mais significativa foi a eleição de François Hollande, na França, despertando a esquerda européia de uma letargia que já durava anos. Agora uma onda de esquerda deve varrer os governos conservadores e formar uma nova maioria, que leve a Europa para o caminho de um crescimento sustentável.
     A festa da vitória na Praça da Bastilha foi linda. Vive la France!

13 de maio

     Há 124 anos a primeira mulher a governar o Brasil (embora interinamente), assinava a lei que abolia a escravidão no Brasil, a abominável instituição, tão comum na antiguidade, e que se prolongou absurdamente no nosso país.
     Ser escravo não era apenas uma condição, em que grande parte da humanidade se via forçada a viver, era também um estigma, transmitido de geração para geração, como se a vítima também fosse culpada pelo seu infortúnio, pois aos escravizadores era preciso "justificar" para si mesmo e para a sociedade, que outro ser humano fosse tratado como animal ou como mercadoria.
     Para isso nada melhor do que escolher pessoas de etnia diferente, que pudessem ser facilmente reconhecidas como estrangeiros, e portanto "diferentes".
     Assim os árabes preferiam os nórdicos, ingleses ou finlandeses, e posteriormente (quando conseguiram domesticar o camelo para atravessar o grande deserto), os negros da África subsaariana.
     Também os próprios reinos africanos, tratavam de escravizar povos distantes, para evitar que suas vítimas fugissem de volta para suas comunidades. O escravo era, de preferência, um estrangeiro, retirado à força de suas raízes e levado para uma cultura diferente, onde se via isolado, sem família, numa terra diferente, tendo que aprender uma língua diferente, de forma a ficar completamente à mercê de seus dominadores.
     "A esse estrangeiro absoluto, busca a comunidade dominante aviltar, despersonalizar, infantilizar e despir de todas as relações grupais. E é o fato de ser um estranho, que perdeu a família, a vizinhança, os amigos, a pátria e a língua, e a quem se nega um passado e um futuro, o que permite a sua redução de pessoa a algo que pode ser possuído" (A Manilha e o Libambo - A África e a Escravidão de 1500 a 1700 - Alberto da Costa e Silva - Editora Nova Fronteira 2011).
     Até hoje, grande parte dos nossos problemas sociais são derivados da longevidade dessa terrível prática. É significativo que tantos anos depois, quando o Estado brasileiro se preocupa minimamente em compensar os descendentes das vítimas desta instituição, e no momento em que o Brasil é governado por outra mulher e o dia 13 de maio coincide com um dia das mães, ainda exista gente que tente questionar as políticas de cotas nas universidades.

Orações

     Em homenagem ao dia das mães, quero agradecer a todos aqueles que fizeram e continuam fazendo orações por minha mãe, D. Lucy, que segue lutando por sua recuperação na UTI do hospital Santa Luzia, em Brasília.
     Ela tem dado uma lição de força e coragem ao enfrentar seu tratamento para superar uma trombose no braço esquerdo e uma pneumonia, com uma consequente insuficiência respiratória.
     Contra todas as expectativas iniciais ela vem se recuperando bem, graças também a toda essa corrente de pensamentos positivos e aos cuidados da excelente equipe de médicos  e enfermeiros.
     Obrigado a todos.
 Cora Coralina
      
     E por falar em mães, deixo hoje para vocês a poesia de Cora Coralina, esta fantástica goiana que encantou o Brasil ao ser revelada já em idade avançada, com sua poesia de mulher vivida, plena de humanidade. 
     Sua poesia fala da mãe de todos nós, a Terra.

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.



Professores em Greve

     A greve dos professores estaduais da Bahia vai entrando numa escalada de confronto absolutamente desnecessária. A recusa do governador Jaques Wagner em negociar com a categoria é uma estratégia burra, para ser gentil. Ele, um sindicalista de origem, não soube honrar o compromisso assumido com a categoria em 2011 e agora quer vencer pela força, se negando a negociar a única coisa que precisa ser negociada: o cumprimento do acordo assinado pelo seu governo.
     A educação na Bahia já sofreu demais, já foi descaracterizada demais, ja foi relegada a segundo ou terceiro plano, por tempo demais.
     Como fazer o Estado crescer e criar uma sociedade rica e desenvolvida, sem investir na valorização da educação? Porque um professor com curso superior, tem que se conformar em ganhar tão pouco? E os discursos eleitorais sobre educação, onde foram parar?
     Infelizmente o governo Wagner está cada vez mais parecido com o de ACM, com suas propagandas entusiásticas na TV, conjugadas com o autoritarismo e o desprezo pelas instâncias organizadas do povo baiano. Onde está a mudança prometida?
     Para me solidarizar com os professores em greve, transcrevo abaixo um texto de autoria de José Luis Peixoto, um caboverdiano, que tirei do blog Café Margoso, no qual introduzi algumas modificações para adaptá-lo ao nosso português e à nossa realidade.
Esperança
     "O mundo não nasceu conosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegamos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objetos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.
     O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efetiva. O trabalho dos professores é a generosidade.
     Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas, os seus automóveis com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O ato que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem, mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.
     Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro.  
     Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos ao não perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.
     Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.
     Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.
    Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontramos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança."
José Luís Peixoto

domingo, 6 de maio de 2012

Rapidinhas

Um Brizola no Ministério
     A presidente Dilma continua mexendo no vespeiro da política, trazendo à tôna novas lideranças que sejam capazes de renovar o cenário, superando a velha prática de negociar com gente que se apropriou dos partidos para fazer barganhas em nome de interesses particulares.
     Ao ungir Brizola Neto como Ministro do Trabalho, ela o alçou à liderança do PDT, partido à que ela já pertenceu, reforçando uma sigla histórica que andava capenga depois das trapalhadas do ex-ministro Lupi e reforçando a base aliada com sangue novo.
     Depois dizem que ela não tem habilidade política. Não tem, decerto, para praticar o velho "é dando que se recebe", fonte de tanta corrupção e que foi prática nos últimos governos. Dilma exerce sua liderança com grande energia, usando seu carisma e popularidade para colocar a política nos trilhos.
     O velho Leonel deve estar orgulhoso lá em cima.

Fim de uma injustiça


     A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a reserva Caramurú, no sul da Bahia, foi apenas uma questão de justiça. Trata-se de uma das reservas indígenas mais antigas do Brasil, formalizada em lei e demarcada pelo governo federal em 1938, e que havia sido presenteada por Antonio Carlos Magalhães a seus amigos e correligionários, na época da ditadura.
     Há décadas os índios vinham lutando para recuperá-la. Estive lá, em visita, em 1988, quando eles recuperaram as primeiras fazendas, logo após a Constituinte. Eram poucas as fazendas retomadas, as piores, onde não havia água. Mas os índios não desistiram e foram consolidando a reconquista de sua reserva, usurpada pelo "pequeno ditador" da Bahia.
     O chocante nessa história não é a arrogância de ACM, conhecida de todos, mas a maneira como a mídia trata o assunto, como se os índios estivessem roubando a terra dos fazendeiros, quando o ocorrido foi justamente o contrário. Ou seja, para o PIG (Partido da Imprensa Golpista), o direito de propriedade é apenas para os ricos. Quando a propriedade pertence a grupos minoritários, que não estão incluídos na sua lógica de mercado, ele não existe ou pode ser desrespeitado.
    Parabéns ao STF, que repôs as coisas no seu devido lugar.

Amigo é coisa pra se guardar...

 
     No lado esquerdo do peito, como dizia Milton Nascimento.      
     Em recente viagem ao Espírito Santo, reencontrei meu velho amigo Juca, que eu não via há uns 20 anos. Tudo graças a Odete, outra amiga e ex-colega de trabalho no Ministério da Educação, que o localizou para mim. Juca e eu nos conhecemos em Santiago do Chile, em 1972. Ele tinha 17 e eu 21, no tempo de Salvador Allende. Eu tinha ido para o Chile estudar arquitetura, fugindo da opressão da ditadura brasileira. Ele era filho de um exilado.
     Ficamos muito amigos e compartilhamos muitas experiências de vida durante aquele período, até que o golpe veio e me pegou viajando ao Brasil enquanto ele teve que ir exilado para a Suécia, onde fui visitá-lo.
     Depois disso nos vimos algumas vezes por aí, pela vida.
     Tempos depois, Juca sofreu acusações pesadas, quando era Deputado Estadual pelo Espírito Santo, fato que foi amplamente divulgado pela imprensa local e até nacional. No nosso reencontro, em longa conversa, se queixou de que foi vítima de fraudes e disse que foi inocentado de todas as acusações, mas que isso não saiu na imprensa. Ou seja, na hora de acusar a imprensa faz um espalhafato, mas na hora de inocentar silencia. Escândalo vende mais jornais do que reparação de injustiças, não é?
     Foi muito bom reencontrar com ele e ouvir dele mesmo as explicações para essas acusações tão graves.
     Coisa boa ter amigos deste quilate, do tipo que a gente passa décadas sem ver e não muda nada.
     Valeu a viagem à Vitória para ver esses dois.

Menelau e os Homens

    












     Recebi convite de Dênisson Padilha Filho, ex-Secretário de Cultura de Rio de Contas (pois é, Rio de Contas já teve um Secretário de Cultura), para o lançamento de seu novo livro; Menelau e os Homens, em Feira de Santana, dentro do evento; Celebração da Cultura dos Sertões, no Centro de Cultura Amélio Amorim, dia 08 de maio às 18,00 h. Vale a pena conferir.


Salif Këita

     A viagem a Cabo Verde me abriu as portas do riquíssimo universo musical africano, que não chega ao nosso "mercado", entulhado das porcarias que a Som Livre nos empurra.    
     O extraordinário músico do Mali, Salif Këita, canta com Cesária Évora a música Yamore. Ele canta primeiro na sua língua natal (que eu não identifico) e depois Cesária canta em Crioulo, o dialeto caboverdiano, derivado do português. A tradução em português da primeira parte está logo abaixo. O original segue depois. A letra fala das guerras e da esperança num mundo de paz. O link para ouvir está no final.

Yamore
Eu tenho fé, sim eu tenho fé
Que iremos viver sem medo
e confiar numa era mais risonha.
O olhar de nossas crianças
irá voltar a brilhar de inocência.
E entre suas gritarias o temporal talvez se acalme.
Na brandura e calmaria, nosso amor irá descansar
Dessa luta e resistência, para sobreviver na tormenta

Je t'aime mi amoré menebêff fie
Ene le arabylyla to much
Namafiye, namafiye guni yerela ba namafiye Niere a ná nifon
Ye namo kofue nerum silê don kile le, ina kola ahaha
Rile enela munuku mo sô
Nienama kofiye, soro falê é mo sonho mana osi koté
Nanana nekona, dê i lêlê fon
Je t'aime mi amoré menebêff fie Nê comf fop ach ari
Ene le arabylyla to much Xurin né bi feu J t'aim

Un tem fé, si un tem fê
No também viver sem medo e confians
Num era mais bisonho
Olhar de nos criança ta a tornar brilhar de inocença
E na mente CE esvitayada
Temporal talvez ta mainar
Na brandura y calmaria
Nosso amor ta vins cansando
De ser luta e resitencia
Pa sobreviver nas tormenta
Na brandura y calmaria
Nosso amor ta vins cansando
De ser luta e resitencia
Pa sobreviver nas tormenta


Je t'aime mi amoré menebêff fie Boi nhat zefiu, ermãos
Ene le arabylyla to much Boi etud nhiafieu , la paz
Xeritava pá, beru kuyê mobiliko yoi nhÊ
Ahaha rilê ene La munuku mo sô
In deburu ieu kordaine
Sank é noite a namo a cantor
Ê enela mulnuku mo sol
Yo sakenem mo sol
Un tem fé, si un tem fê
No também viver sem medo e confians
Num era mais bisonho
Olhar de nos criança ta a tornar brilhar de inocença
E na mente CE esvitayada
Temporal talvez ta mainar

http://www.youtube.com/watch?v=9VVa-GyhJek
Correntes antidemocráticas

     Pois é, amigos leitores, a gente sabe que tem de tudo na internet, mas fico impressionado com a constância dessas campanhas contra o Congresso Nacional e os políticos, colocando-os, todos, numa grande panela de corruptos e fazendo correntes com propostas para acabar com seus salários e os salários dos servidores públicos, como se fossem todos inimigos da nação.
     É claro que muitos políticos que andam por aí dão asa para esse tipo de campanha, e aí está o senador Demóstenes Torres para provar. Ele era um dos que mais falavam contra a corrupção e está envolvido até o pescoço com o tal Carlinhos Cachoeira, que resolveu invadir o Estado brasileiro, colocando-o à serviço dos seus interesses escusos.
     Nas prefeituras, então, a coisa é feia. Não há Controladoria Geral da União (e o baiano Jorge Hage é um bom controlador), que dê conta de todas as falcatruas em mais de 5.500 municípios, já que a justiça é muito lerda neste país e também muito sujeita aos corruptos.
     Mas as campanhas que eu recebo não são contra os corruptos, são contra o Congresso Nacional, como se ele fosse uma coisa inútil e devesse ser fechado.
     Semana passada recebi uma que dizia que o Congresso não iria aprovar a Lei da Ficha Limpa. Tive que avisar a pessoa que me enviou (ou melhor, reenviou), de que essa lei já havia sido aprovada há muito tempo pelo Congresso.
     Esta semana recebi outra (que já recebera antes várias vezes), dizendo que o Congresso estava prestes a extinguir o salário mínimo e o direito às férias remuneradas para todos os trabalhadores brasileiros. É claro que não existe tal projeto de lei.
     Lá vou eu de novo avisar a pessoa que me mandou de que tenha cuidado com o que repassa.
     Aquele e-mail de Roraima, dizendo que na reserva indígena de lá só podem entrar americanos e os brasileiros estão proibidos, etc e tal, é muito antigo e continua circulando. Pura invenção.
     Mas tem gente que parece não ter o que fazer e se elege a consciência do mundo via internet, achando que estão fazendo uma revolução moralizadora enchendo as caixas dos outros com mensagens alarmistas, sobre possíveis golpes, sobre comidas que fazem mal, correntes religiosas e outras bobagens. Um saco!
     São justamente esses que mais repassam esses e-mails contra o Congresso, que mal ou bem é a nossa representação política. Ruim com ele, pior sem ele. Já tivemos 21 de ditadura militar para saber disso.
     Hoje mesmo recebi um novo power-point falando sobre uma proposta de dois advogados gaúchos para reduzir as mordomias dos senadores e diminuir os salários dos servidores do Senado.
     Concordo que os senadores tem mordomias demais. Um carro para cada um, com motorista, é um luxo muito caro. Mas passagens aéreas para os seus Estados de origem são uma necessidade, assim como franquia para correspondências e telefonemas. Se eles fossem pagar dos seus próprios bolsos todas as despesas que a função de senador exige para representar seu Estado, não ia sobrar nada.
     Além disso, Senador é um cargo de prestígio, de fim de carreira para políticos, precisa ser bem pago. O que precisa mudar é a escolha dos suplentes, que não são eleitos pelo povo.
     Mas vá lá que possamos reduzir as despesas com eles. Mas rebaixar salários de servidores públicos? Porque um funcionário concursado não pode ganhar bem? Porque ninguém reclama dos salários dos juízes e dos servidores do judiciário? Só essa eterna campanha contra o poder legislativo? Porque não reclamam dos lucros exorbitantes dos bancos, com suas taxas absurdas e juros altísssimos? Só os parlamentares é que são culpados de tudo?
     Nos Estados Unidos o povo faz campanha contra os altos salários dos executivos das empresas que foram ajudadas pelo governo deles. Aqui ninguém toca no assunto. Todo mundo acha normal um jogador de futebol ganhar um milhão por mês, mas é um absurdo um funcionário do Congresso ganhar bem.
     Mas nesse power-point que recebi hoje, uma frase final levantava uma pontinha desse véu, quando dizia que era preciso moralizar o Congresso, caso contrário corríamos o risco de cair sob um regime socialista ditatorial.
     Vejam só, ressuscitaram a velha cantilena do perigo comunista  para justificarem a campanha contra o Congresso. Essa pegada é muito conhecida. É gente saudosa da ditadura, a velha direita que se esconde sob essas campanhas moralizadoras que a classe média adora e que já ajudaram a eleger Jânio Quadros, com sua vassoura que iria limpar a corrupção, e Fernando Collor, o caçador de marajás, dois políticos com passagem trágicômica pela Presidencia da República.
     Com certeza esses moralistas da internet são os que votam na direita, nos Demóstenes Torres, nos Marcondes Perilo e outros defensores do "mercado". É claro que muita gente bem intencionada vai na onda, achando que está prestando um serviço à nação. Mas é preciso ter cuidado com essas correntes antidemocráticas, cujo único objetivo é indispor o povo contra a democracia para permitir a volta de um regime de excessão, onde os corruptos, aí sim, nadam de braçada.
     O pior legado de uma ditadura é justamente a destruição dos controles democráticos sobre o poder político e econômico. Desde 1988 que esses controles vem sendo reconstruídos lentamente pela sociedade brasileira, que tem avançado muito nesse sentido. Falta fazer muito, é verdade, mas acabar com o Congresso seria um gigantesco passo para trás.

    

domingo, 29 de abril de 2012

Rapidinhas


Ramiracle

     O pequeno Ramires, foi fundamental nas duas vitórias do Chelsea, sobre o Barcelona. No primeiro jogo, em Londres, Ramires deu um passe sensacional para Drogba, o astro africano fazer o gol decisivo. Na segunda partida ele mesmo foi autor do gol decisivo.
     A imprensa inglesa falou em Ramiracle (Ramilagre), mas as TVs brasileiras não deram muita importância ao fato.
     Se o passe para Drogba fosse de Messi, todos diriam que foi sensacional. Se o gol fosse de Cristiano Ronaldo, a mesma coisa, mas como Ramires não é bonitão nem milionário, as TVs não falam sobre ele.
     Isso é que está virando o futebol mundial, um jogo de estrelas de salto alto.
     É o futebol fashion.
     Só esquecem que futebol é bola na rede e quem ganha jogo não é beleza, nem riqueza.

Viva a República espanhola
Esse rei infeliz matou esse bicho lindo só pra se "divertir"
     Depois da crise econômica e das políticas recessivas que jogaram 50% dos jovens pra fora dos seus empregos, a Espanha acumula um recorde de notícias negativas.
     Seu rei foi flagrado numa caçada clandestina a elefantes na África (só foi descoberto porque caiu e quebrou a bacia). A Argentina reestatizou sua petrolífera, a YPF, depois de descobrir que os espanhóis, ao invés de investirem, estavam mandando o capital de giro da empresa para cobrir seus rombos na Europa. Agora Real Madrid e Barcelona foram desclassificados da Copa dos Campeões da Europa (já repararam como sempre que um país vai mal politicamente seu futebol fracassa, e vice-versa?)
     Não sei se é trágico ou ridículo ter um rei em pleno século XXI e vê-lo cometendo um crime ecológico, às escondidas, enquanto seu povo passa fome. Um rei que assumiu sobre os cadáveres da guerra civil espanhola, num acordo entre remanescentes fascistas da era de Franco e as forças democráticas, que tiveram que aceitar a monarquia, forçados pelos Estados Unidos, que temiam a ascenção de um governo de esquerda na Espanha, após a morte de Franco, em 1975.
     Muitos fascistas da era franquista que enriqueceram às custas da ditadura, sobreviveram e estão aí, dentre eles o sinistro dono do Banco Santander, ligado a ala mais direitista da Igreja Católica, a Opus Dei (segundo reportagem da TV Record).
     São esses que estão no comando por lá novamente, jogando o povo na miséria enquanto se divertem com seus luxos no exterior e exploram outros países, com seu velho sonho de recolonizar a América Latina.
     Porque temos que fingir que não sabemos dessas coisas, quando esses fascistas ocultos tratam os brasileiros como cachorros, no aeroporto de Madrid, inclusive devolvendo (deportando) velhinhas como se fossem prováveis prostitutas, depois de deixá-las por dias passando fome e sede?
     Enquanto o povo espanhol não acorda para a derrubada dessa monarquia corrupta, devíamos aproveitar a iniciativa argentina e reestatizar a Coelba, dada de presente para esses ladrões da Iberdrola, outra empresa espanhola. Pegaram tudo pronto e só fazem aumentar a conta de luz, sem oferecer nada de melhoria ao povo da Bahia.
     Fora com esses espanhóis fascistas!

Lura


     Deixo aqui para vocês mais uma linda voz caboverdiana, cantando com Cesária Evora. É Lura.
     A música  chama-se Moda Bô e tem sua letra em crioulo, um dialeto do português. Observem a delícia do ritmo e da viola, além das duas vozes maravilhosas.
     A música é de autoria de Lura e Edevaldo Figueiredo e foi feita em homenagem à Cesária Évora.
     Eu não entendo bem o dialeto, mas dá pra perceber que é feito de contraturas de palavras em português, por exemplo nha, no lugar de minha, nôs, no lugar de nossa, etc., com outras palavras próprias. Mas não quero me arriscar a explicar mais do que não entendo.
     Deixo aqui a letra em espanhol (não achei o texto em crioulo) para que vocês possam curtir a música.

En mi infancia,soñe ser como tú,
soñe cantar igual,con una voz divina como tú.
En mi adolescencia,me quedaba enfrente de un espejo,
improvisando con un micrófono para cantar como tú.
Cómo tú quiero cantar,es contigo que quiero aprender,
para cantar cómo tú.
En mi vivencia, he conocido gente, ya conocí el mundo,
y realice el sueño de mi vida, cantarle a Cabo Verde, cantarle a mi tierra.
Es mi vivencia, repartirle a mi gente y al mundo entero la historia de un pueblo la historia de una vida.



     
Enfermaria

  
 A sala estava cheia. Idosos, muita gente com dengue (uma epidemia), pessoas de meia idade com crises de glicemia e outras mazelas do corpo humano. Nada de fraturas ou coisas ensanguentadas, que deviam estar sendo encaminhadas a outras salas.
     Na minha frente um senhor de olhos duros, sentado numa cadeira de rodas, respirava numa máscara de oxigênio, enquanto aguardava sua remoção para a UTI. Uma senhora mais ou menos da sua idade, aparentando muita fragilidade o acompanhava, solícita, de olhos brandos, passiva.
     Outras quatro, mais jovens, provavelmente filhas, se revezavam nos cuidados com o velho.
     Três se pareciam muito com a mãe. Magras, tinham um queixinho pontudo e as bocas precocemente envelhecidas. Só uma era diferente, bunduda, cabelão, pele boa. Nem parecia filha dele, mas o chamava de pai e era a mais carinhosa.
     Nos momentos em que ficava só, o homem me olhava de frente, olhos sinistros, de quem sempre foi autoritário e parecia ter reduzido aquela frágil senhora à quase nada, durante uma vida inteira de dominação.
     Um ex-militar da ditadura? Pensei.
     Duas das três filhas de boca murcha se revezavam nos cuidados, oferecendo um suco, uma água, um sanduíche ao pai, que invariavelmente respondia ríspido que não queria nada.
     A velha senhora procurou um lençol para cobrir suas pernas e livrá-lo do frio do ar-condicionado, esforço que ele repeliu com um gesto irritado, que ela recebeu calada, conformada, acostumada a ser um nada ao lado daquele homem que parecia ter construído sua segurança em cima dela, como sobre um pedestal.
     Mas quando a senhora se ausentou da sala por um minuto, o homem perguntou a filha mais nova, onde ela tinha ido. Não podia ficar sem ela, sem exercer sua dominação.
     Logo a velha senhora voltou e a mais nova (a terceira) das bocas-murchas se instalou numa cadeira à sua frente, deixando sua velha mãe de pé, enquanto comia um sanduíche. Dela o pai aceitou o suco e a comida. Era a filha preferida.
     Tinha os mesmos olhos duros do pai e havia aprendido com ele a desprezar a mãe. Seria sua sucessora na família quando ele se fosse.
     Ao meu lado, uma bonita senhora que tomava soro, como eu, e também observava a cena me disse com muita simplicidade:
     _Ela não tem paciência com a mãe.
     Na outra ponta do quarto, um senhor muito velhinho, mas lúcido, foi instalado numa cama por duas filhas de meia idade e um filho mais jovem (teria uns 45?). Muito carinhosos, eles ajeitavam o pai na cama, conversavam com ele e o faziam rir. Apesar de tudo estavam bem-humorados e agradeciam à vida por ter tido um bom pai que os permitiu viver e ser felizes.
     A senhora do soro, ao meu lado, olhou, sorriu e trocamos olhares cúmplices, num silêncio pleno de significados.
     Na outra ponta uma senhora chegou, muito agitada. Suas filhas jovens não entendiam porque ela não as reconhecia. Tentavam animá-la e choravam disfarçadamente, revelando uma dor genuína, o que espalhou por todos que ali estavam a noção exata da fragilidade da vida.
     Uma jovem chegou, com um pé torcido. Havia caído da escada do colégio. Seu pai, muito carinhoso, não saiu do seu lado um só minuto, segurando sua mão, conversando e também fazendo-a rir, simulando mordidinhas no seu braço.
     A senhora ao meu lado comentou novamente, com a mesma simplicidade desconcertante:
     _Que bonito!
     Meu soro estava terminando, me livrando das dores da dengue, quando o homem de olhos duros foi finalmente levado para a UTI, no meio de um alvoroço de equipamentos, cadeira de rodas, e enfermeiros.
      A enfermaria parou para ver. Em pouco tempo todos ali já se conheciam e compartilhavam seus dramas. A velha senhora ficou por último e pensei ter visto nos olhos dela, assim que o marido foi levado, um lampejo de alívio. Parou e olhou para os lados com uma certa curiosidade inocente, como se finalmente pudesse olhar para o mundo, liberta da ditadura daquele olhar duro e, quem sabe, das dúvidas sobre a paternidade da filha da bundona.
     Quem sabe agora teria um pouco de paz e receberia, como uma terra ressecada, que teimou em se manter viva, um pouco da chuva do tempo que lhe restava.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rapidinhas
     Viva Cristina

     A presidente Cristina Kirchner deu mais uma demonstração de que está disposta a enfrentar a ditadura dos mercados.
     A reestatização da YPF, a Petrobrás deles, corrige um crime histórico cometido pelo ex-presidente Menen, na época da privataria geral que ocorreu no mundo, após a queda do socialismo.
     Privatizações criminosas, sempre beneficiando interesses dos países hegemônicos, entregaram empresas lucrativas em toda a periferia do capitalismo aos tubarões europeus e norte-americanos.
     Depois vieram com essa história ridícula de que é preciso respeitar os contratos, defendidas pelos de sempre, tipo Rede Globo. Porque respeitar contratos fraudulentos que feriram interesses nacionais para beneficiar gente corrupta?
     Que bom que Cristina inaugurou essa prática entre nós (embora Chavez já tivesse revertido várias privatizações). Aqui também seria muito bom se o Brasil recuperasse a Embratel, a Vale do Rio Doce, e outras empresas estratégicas dadas de presente em troca de moedas podres, na época dos tucanos.
     Miriam Leitão ficou braba na Globo, atacando Cristina Kirchner. Eles morrem de medo que a moda pegue...

Gunter Grass e Israel
     O escritor alemão Gunter Grass, foi proibido de entrar em Israel por afirmar que aquele país é uma ameaça à paz no mundo, pela sua capacidade nuclear e sua agressividade em relação aos vizinhos islâmicos, especialmente o Irã.
     Democrático, não?
     Os israelenses consideram que toda crítica às políticas de Estado deles é um caso explícito de anti-semitismo.
     Na edição passada deste blog, analisei o livro de Jorge Querido sobre Cabo Verde, e nele, este autor comenta que um dos poucos países a apoiar a política colonial portuguesa na África até o final foi Israel. Todos se lembram também do apoio de Israel ao regime racista da África do Sul, em plena época do apartheid, e sabe-se que eles chegaram a oferecer aos sul-aficanos várias bombas atômicas para que fossem usadas em sua defesa, contra os "terroristas" que lutavam contra a discriminação racial.
     Israel não respeita nenhuma resolução da ONU, que desde 1967 manda eles se retirarem dos territórios ocupados da Palestina, e continua violando todos os direitos daquele povo, ocupado e massacrado por eles, sempre sob as bençãos protetoras da mão criminosa dos Estados Unidos.
     Não é, portanto, uma política do atual governo israelense, mas uma política de Estado, que vem desde a partilha da palestina em 1948.
     Desde o reconhecimento de Israel pelo Egito e Jordânia, na década de 1970, que as agressões de Israel não se justificam mais como uma "política de defesa" contra a intransigência árabe, passando apenas a ser uma política de ocupação de terras árabes e de genocídio do povo palestino.
     Até quando eles continuarão desempenhando o papel de vítimas baseados no holocausto nazista?
     Afinal eles não foram os únicos a sofrer. Os ciganos, os homossexuais e os comunistas também foram mortos pelos nazistas. O que eles fizeram com os judeus foi horrível, mas usar isso para justificar as políticas expansionistas e genocidas do Estado de Israel, já virou cinismo há muito tempo.
     É preciso ressaltar que Gunter Grass sempre foi um ardoroso defensor de Israel.
    
O golpe da recessão

     O debate final nas eleições francesas só comprova o que tem sido denunciado há muito na América latina, de que as políticas recessivas propostas opelo FMI, que nunca deram certo em lugar nenhum do mundo, só servem para concentrar riquezas, retirando direitos dos trabalhadores arduamente conquistados depois de séculos de lutas, para recompor as taxas de de acumulação do capital, que vem caindo historicamente.
    É, pois, muito mais um golpe político-econômico do que uma política que vise recuperar alguma economia, como vem denunciando o candidato da esquerda, Melenchon.
    Ninguém consegue se recuperar só cortando gastos, é preciso aumentar o consumo e os salários, na contramão do que vem sendo proposto, para que as economias cresçam, como vem fazendo a América Latina e a Ásia há muito tempo.


 Pedro Guerra

     Deixo aqui, hoje, para vocês a belíssima poesia e letra de música de Pedro Guerra, Tempo e Silêncio. Pra quem não conhece (eu não conhecia), Pedro Guerra nasceu nas ilhas Canárias, território espanhol no atlântico, em 1966. Fica também a gravação desta música por ele e Cesária Évora, a cantora dos pés descalços, de Cabo Verde, que faleceu há pouco tempo, aos 70 anos.
(Peguei o vídeo com a letra em espanhol e português, no Youtube e fiz umas modificações na tradução).


Tiempo y silencio 

      Tiempo y silencio        Tempo e silêncio
   Una casa en el cielo        Uma casa no céu
      Un jardín en el mar        Um jardim no mar
          Una alondra en tu pecho        Uma cotovia em teu peito
        Un volver a empezar        Um voltar a começar
         Un deseo de estrellas        Um desejo de estrelas
            Un latir de gorrión        Um gorjear de pardal
             Una isla en tu cama        Uma ilha em tua cama
  Una puesta de sol         Um pôr de sol
      Tiempo y silencio        Tempo e silêncio
       Gritos y cantos         Gritos e cantos
     Cielos y besos         Céus e beijos
       Voz y quebranto         Voz e quebranto
                 Nacer en tu risa        Nascer em teu sorriso
            Crecer en tu llanto        Crescer em teu pranto
          Vivir en tu espalda        Viver nas tuas costas
            Morir en tus brazos        Morrer em teus braços
       Tiempo y silencio       Tempo e silêncio   
     Gritos y cantos       Gritos e cantos
    Cielos y besos       Céus e beijos
     Voz y quebranto       Voz e quebranto
Una casa en el cielo       Uma casa no céu
   Un jardín en el mar       Um jardim no mar
       Una alondra en tu pecho       Uma cotovia em teu peito
     Un volver a empezar       Um voltar a começar
      Un deseo de estrellas       Um desejo de estrelas
         Un latir de gorrión       Um gorjear de pardal
         Una isla en tu cama       Uma ilha em tua cama
Una puesta de sol      Um pôr de sol
   Tiempo y silencio      Tempo e silêncio
    Gritos y cantos      Gritos e cantos
   Cielos y besos      Céus e beijos
    Voz y quebranto      Voz e quebranto
    Gritos y cantos      Gritos e cantos
   Cielos y besos      Céus e beijos
    Voz y quebranto     Voz e quebranto

Falem com eles



     Um dos maiores problemas das famílias que tem alguém com Alzheimer, é o isolamento social a que os doentes vão sendo submetidos, aos poucos, pois na medida em que as pessoas percebem os lapsos de memória e a confusão mental, se afastam por não saber como agir.
     Na verdade a maioria das pessoas não está praparada para enfrentar situações como esta e só sabe se relacionar dentro de padrões "normais" de comportamento social. Quando a pessoa entra em estado degenerativo e começa a perder sua capacidade de controlar uma conversa, ou de lembrar de fatos recentes, os interlocutores não sabem o que fazer e ficam se olhando constrangidos.
     No entanto, quem tem um parente numa situação dessas aprende logo que não se deve demonstrar surpresa com a confusão do paciente e procurar auxiliá-lo, quando no meio de uma frase, por exemplo, ele se esquece do que ia dizer.
     Ajuda muito também, ir lembrando nomes e fatos, com a maior naturalidade possível, de forma a ajudar a pessoa a manter viva sua relação com a realidade.
     É preciso compreender que o doente de Alzheimer, em geral não sabe que sofre da doença, e faz um esforço muito grande para se manter ligado ao mundo, com dificuldade crescente. Ele não entende porque as pessoas se afastam e fica muito mais constrangido do que quem está dialogando com ele, quando percebe sua incapacidade de manter uma conversação, sendo frequente cair em estado de depressão, numa situação dessas.
     Uma boa forma de lidar com isso, também, é levar tudo na brincadeira, procurando completar as frases que ficaram no ar, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo e introduzir o humor na conversação, para alegrar o doente, de forma que ele perceba que sua convivência pode ser agradável e divertida aos outros.
     A alegria sempre ajuda numa situação de doença, causando bem estar e a produção de substâncias que tem efeito positivo no corpo. Portanto, se você tem um parente com Alzheimer, ou conhece alguém assim, não deixe de visitá-lo, nem de conversar com ele. Isso será um ato de amor e de caridade que pode prolongar a vida dele, ou, o que é mais importante, dar a ele um pouco de alegria numa situação tão difícil como é a de sentir que seu cérebro está se apagando.
     Também é comum as próprias famílias ficarem envergonhadas de seus doentes e escondê-los de amigos e parentes, por medo do constrangimento, o que é outro erro.
     Fale para os outros sobre a doença, deixe que eles aprendam a lidar com ela e, principalmente, aceite o inevitável, sem fazer disso um drama maior do que já é.
     Não deixe seu paciente de alzheimer num quartinho isolado, saia com ele, vá pra rua, leve-o para passear e faça com que as outras pessoas tenham que encará-lo e aprendam também lidar com o problema, assim como você teve que aprender. Explique aos outros como se comportar e trate de alegrar o final da vida de quem você ama e teve a infelicidade de sofrer desses mal. Afinal de contas, todos nós estamos sujeitos a ele.

sábado, 14 de abril de 2012

O Povo do Mar
    Existe um povo que vive no meio do oceano, a 500 Km de qualquer coisa, em dez ilhas vulcânicas, em meio a paisagens fantásticas  que misturam praias paradisíacas, com a mais agreste natureza composta de rochas e abismos impressionantes.
    Eles quase não tem água doce, sua terra é árida, na maior parte, mas são calmos, tem uma veia artística surpreendente e além de tudo são nossos primos e conhecem muito o Brasil.
     Falam um português aportuguesado e também uma língua própria, que chamam de crioulo, muito sonora. São gente série e tranquila e conseguem se desenvolver, produzir seu alimento e criar um universo próprio, muito rico e surpreendente. É o povo de Cabo Verde, africanos temperados pelo isolamento no meio do mar e com um toque daquela lusitanidade, que muito mais do que européia é o resultado da amálgama de povos que se contituiu em torno das aventuras portuguesas pelo mundo, constituindo uma personalidade ímpar e da qual, nós brasileiros fazemos parte.
     Sua música é de uma delicadeza surpreendente e tem muitos autores e cantores, dentre os quais se destaca a voz majestosa de Cesária Évora, falecida recentemente, cuja imensa foto nos recebe no aeroporto de Mindelo, batizado com seu nome.
     São dez ilhas, divididas em sotavento e barlavento.
     As de Sotavento são Brava, Fogo, Santiago e Maio. A ilha de Santiago é a maior, onde se encontra a cidade de Praia, capital do país.
     As de barlavento são Boa Vista, Sal, São Nicolau, Santa Luzia, São Vicente e Santo Antão. Em São Vicente se encontra a cidade de Mindelo, a segunda maior do país e considerada a capital cultural do País.
     Em todas as ilhas, com exceção de Santa Luzia, que é desabitada, existem muitos pequenos povoados em situações muito diferentes.  Alguns se encontram ao nível do mar, em planícies, outros no alto das majestosas montanhas que se erguem no meio das nuvens.
     A Ilha do Fogo vista ao longe, desde a parte alta da Ilha de Santiago
Na Ilha do Fogo um vulcão ativo se ergue a quase 3.000 metros de altura. Na de Santo Antão outro vulcão, esse extinto, tem sua cratera a quase 1.800 m. dentro da qual brota a água, líquido precioso para os caboverdianos, e onde se pratica a agricultura.
A cratera de um vulcão extinto na Ilha de Santo Antão, a 1.800 m de altitude.
     Em uma semana de permanência, visitamos apenas as ilhas de Santiago, São Vicente e Santo Antão.
     As cidades são pequenas, comparadas com as nossas, muito simpáticas e bem arrumadas. Viajando pelo interior, nos deparamos com os vilarejos, cheios de vida e charme.

Santiago
     Assomada é a maior cidade do interior de Santiago. Lá encontrei uma praça com a estátua de Amilcar Cabral (à direita), considerado um herói caboverdiano e um grande líder africano e um homem que disse ser filho dele, posou comigo para a foto (à esquerda).
     Era sábado, dia de feira, e as ruas estavam cheias de gente fazendo compras, exatamente como no interior do Brasil. Parecido com a minha Rio de Contas, na Bahia, com a diferença dessa africanidade linda, que se expressa nas roupas, nos modos de falar e nas características físicas de seus habitantes.
     Para quem procura praias, Santiago tem uma linda, que fica no norte da ilha e parece cenário daqueles filmes de piratas. Aliás a ilha foi alvo de muitos ataques de piratas, principalmente ingleses e franceses.
     O famoso Francis Drake, que agia a mando da Inglaterra, apesar de ter sido condecorado com o título de Sir, pela rainha, foi um bandido da pior espécie e atacou a ilha duas vezes. Ele era traficante de escravos e pirata (corsário).
O mar em tarrafal
     Essa praia é Tarrafal, onde o mar é calmo e incrivelmente azul, permitindo um banho tranquilo. Lá se encontram bons restaurantes também para um almoço de frutos do mar e para saborear uma cerveja, a Super Bock, portuguesa (ótima), a Sagres, também portuguesa e a Strela, caboverdiana.
    
     São Vicente

     São Vicente também tem duas praias famosas: a de São Pedro (à esquerda), onde se localiza o aeroporto da ilha e a da Baía das Gatas (direita), onde se realiza um festival internacional de música, todos os anos.
A capital de São Vicente, cidade de Mindelo, tem uma baía linda (à esquerda) e surpreende por ser pequena e aconchegante. No centro, encontramos alguns exemplos de edifícios da época colonial (o país ficou independente em 1975) e da influência européia do séculos anteriores, como o museu de Mindelo (acima à direita) e outros mais contemporâneos onde cores fortes surpreendem o observador.

     Há bons restaurantes e agências de turismo para fazer passeios por toda a ilha.
Santo Antão
     Das três ilhas que visitei, Santo Antão é a mais supreendente pela natureza.
O ferry boat sai de Mindelo as 8 da manhã e leva uma hora na travessia, até chegar a Porto Novo, pequena cidade pesqueira em Santo Antão. Os visuais da travessia são incríveis, tanto da ilha de São Vicente (à esquerda) quanto da de Santo Antão (direita).
     Porto Novo (abaixo à esquerda) é uma cidade nova, situada na planície costeira. Mas a surpresa vem quando se atravessa a ilha, pelo grande maciço que se ergue a quase 1.800 metros de altura. Povoados (à direita) no meio da montanha coberta de nuvens nos transportam para outro universo, onde vamos margeando abismos gigantescos por uma estrada de pedra que parece a muralha da China, até atingir uma travessia com abismos dos dois lados, chamada de Delgadin, onde olhar para baixo provoca vertigens.
Delgadin: abismos dos dois lados.
     Mas a surpresa maior ainda está por vir, ao chegarmos ao outro lado da montanha. A paisagem árida dá lugar ao verde de florestas de pinheiros. Esta parte de arquipélago recebe ventos úmidos e os represa, permitindo o desenvolvimento da agricultura. Enquanto o sul da ilha é quente e seco, o norte, do outro lado é mais frio e no seu litoral rochoso se incrustam pequenas cidades entre a pedra e o mar, como Ribeira Grande (à esquerda) e Paúl, (à direita), redutos de agricultores, que cultivam vales gigantescos (abaixo à direita), e pescadores.
     O turismo de trilha e a pesca submarina (veja escultura abaixo à esquerda) também estão se desenvolvendo fortemente nessas áreas.
     Ao ver os vales rochosos cobertos de plantações me lembrei com uma certa amargura, do deboche de certas pessoas em Rio de Contas quando me viram plantar uvas no meio das pedras, mal acostumados que estão às terras férteis que abundam no Brasil.
 Gostaria muito que eles vissem como esse povo, literalmente, tira leite das pedras, com suas plantações em platôs e suas criações de cabras. O mal do Brasil é que estamos acostumados com a fartura e não sabemos tirar proveito dela. Apesar do meio ambiente hostil e da ausência de recursos, vi pobreza, mas não vi miséria como vejo entre nós. Uma lição para os que vivem se queixando de dificuldades.
     Os caboverdianos tem apenas 37 anos de independência, e já conseguem vislumbrar o progresso e o desenvolvimento, com os poucos recursos de que dispõem. É um povo muito interessante, que vive no meio do mar, num lugar que vale a pena conhecer.
     Como o voo sai de Fortaleza direto para Cabo Verde, as agências de viagens brasileiras parecem não ter despertado ainda para o turismo neste país. Procurei em várias, em Brasília e na Bahia, e as pessoas nem sabiam onde fica Cabo Verde (em uma me perguntaram se Cabo Verde era em Minas Gerais). Por isso o melhor é comprar direto na agência de Fortaleza.
     Para quem desejar maiores informações, recomendo procurar Sara Campos, (LSC Turismo, Rua Dr.Thompson Bulcão 523 SL 07, Fortaleza-Ce, Cep 60.810.460, Fone:85 3061 2265 / 87872684), que nos vendeu as passagens aéreas pela TACV e fez as reservas nos hotéis, onde fomos muito bem atendidos e tudo correu sem nenhum problema.
     Ouça abaixo, Cesária Évora cantando com Caetano Veloso a música Regresso, feita sobre a poesia de Amilcar Cabral, que publiquei na edição passada deste blog.

http://www.youtube.com/watch?v=JGZks6c1O3U

    E ainda Cesária Évora e Marisa Monte, cantando É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi e Jorge Amado
http://www.youtube.com/watch?v=9NWC1rEPMbE