Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 3 de abril de 2011

Rapidinhas


   Ficar doente em Conquista

     Cena da última quinta-feira na cidade de Vitória da Conquista.
     Um professor interrompe sua aula ao perceber que uma aluna está chorando. Perguntada sobre os motivos do choro a aluna mostra a mão arroxeada e diz que deu um jeito no pulso.
     O professor a dispensa para que vá imediatamente a um médico. A aluna perturbada diz que não tem dinheiro.O professor recomenda que ela procure um hospital público, mas ela diz que em Vitória da Conquista a única emergência em hospital público é a do Hospital de Base, que é conhecido por não atender ninguém. Não há um Pronto Socorro Municipal, numa cidade de mais de 300.000 habitantes.
     E isso que a cidade é administrada por um médico que já está no seu terceiro mandato.

A Obra de Chico

   Alguém deveria regravar toda a obra de Chico Buarque. Tem coisas lindas e muito atuais.
     Pra quem não conhece, aí vai a letra de "Bom Conselho".

Bom Conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade


Histórias de outras vidas (43)

Bolão

     Tem coisas que as novas gerações não sabem, simplesmente porque foram se apagando da memória coletiva. Uma delas é a origem do apelido bolão, muito comum quando eu era pequeno para os meninos gordinhos, numa época em que quase ninguém era gordo.
     A causa era um jogador do Vasco da Gama, cujo apelido era Bolão, ou melhor, Bolão do Vasco. Coisa rara até hoje, um jogador gordinho. E parece que ficou famoso por ser muito bom mesmo assim, o que prova que nem sempre a famosa barriga de tanquinho, tão endeusada hoje seja pré-requisito para um bom desempenho físico.
     Mas eu tive um amigo cujo apelido era bolão e que era magrinho. Ele explicava que quando era pequeno era muito gordinho e depois que cresceu continuou sendo chamado ele assim.
     Na verdade seu nome era (ou é ainda, pois há muitos anos que não o vejo) Ricardo, como eu.
     Bolão era uma figura. Eu o conheci quando voltei do Chile, em 1973 e fiquei alguns meses morando no Rio, antes de ir para a Bélgica, fugindo novamente da ditadura que nos oprimia.
     No Chile me apaixonei por uma jovem, separada do marido brasileiro, que por acaso vinha a ser o irmão do Bolão. Nosso namoro não foi muito à frente, ela voltou com o seu ex, e depois do golpe nos encontramos todos no Rio. Foi aí que conheci Bolão.
     Ficamos muito amigos e íamos à praia todos os domingos, fazendo o percurso a pé de Copacabana até o Leblon, ida e volta, descalços, como era costume na época, Saíamos de casa assim mesmo, só de sunga, com o dinheiro enfiado do lado, sem sapato, chapéu, protetor solar, chinelo nem nada. Quase nus, numa boa. Pegávamos ônibus e isso era normal no Rio. Ninguém ficava olhando, nem havia nenhuma conotação sensual nisso. Era apenas o exercício da liberdade de ir à praia com o corpo exposto.
     Discutíamos muito a política, influenciados pelos acontecimentos no Chile e pela luta contra a ditadura no Brasil.
     Mas meu amigo não era muito certo da cabeça. Aliás, todos na sua casa eram meio pancadas. Eles eram uma espécie de ramo pobre de uma família tradicional carioca e tinham herdado da família uma pequena vila de casas no bairro de Laranjeiras.
     As vilas no Rio marcaram época, pelo seu aspecto pitoresco e pela ambiente muito agradável que criavam. Eram locais de moradia popular no início do século XX e reuniam poucas casas, todas semelhantes, geralmente numa rua sem saída.
     Até hoje algumas existem, não só no Rio, mas também em São Paulo.
     Aliás, as novelas da Globo usam muito esse artifício, de colocar os pobres em casa de vilas (com aqueles telefones antigos), porque se os colocassem nas favelas onde realmente moram hoje, tudo se tornaria muito chocante.
     Pois a família de Bolão tinha herdado uma vila de casas onde em cima era uma residência e embaixo outra. A casa dele era em cima e ele morava só lá, já naquela época, com pouco mais de 20 anos.
     Trabalhar não trabalhava, mas recebia algum dinheiro dos pais e vivia perambulando pelo bairro. Era um cara bonito, embora meio maltratado. Branco, meio alourado, muito magro e sempre com as roupas meio esculhambadas, numa época em que isso era uma moda da esquerda que significava desapego aos bens materiais.
     Em 1974 saí do Rio e só fui rever meu amigo quase 10 anos depois, quando havia me separado e saído de Salvador para mais uma temporada no Rio. Eu estava muito sozinho naquela época, curtindo a dor de cotovelo do fim de um casamento, já com mais de 30 anos e um dia, enquanto examinava um livro numa livraria no Largo do Machado, ouvi uma voz ao meu lado:
     _Oi Álvaro.
     Era ele. Bolão me chamava de Álvaro devido ao meu sobrenome, Ricardo Alves, que ele trocava por Ricardo Álvaro, não sei por quê.
     Custei um pouco a reconhecê-lo, pois estava muito magro e acabado. Mas logo voltamos a nossa velha conversação de sempre e a amizade ressurgiu, numa época em que eu precisava muito de amigos.
     Voltamos às caminhadas na praia e as conversas sobre política e sobre a vida. Mas percebi que ele estava mais perturbado. Me convidou à sua casa e fiquei impressionado com o estado da residência. Faltavam telhas, chovia dentro, tudo muito sujo, na pia se acumulavam pratos e panelas de semanas, mas ele não parecia se importar.
     Parecia a casa de um mendigo.
     Costumávamos sair eu, ele e outra amiga que eu havia conhecido no Chile. Íamos tomar um chope à noite ou ver algum espetáculo musical com outros amigos.
     Bolão se vestia mal, suas roupas eram grandes demais e pareciam ter sido dadas por algum parente preocupado com seu estado. Às vezes chegava com a braguilha aberta, sem cuecas e tínhamos que chamá-lo a atenção. Ele ria, fechava o zíper e parecia não ligar. Continuava sem trabalhar.
     Acabamos formando uma turma e nessas saídas conhecemos uma menina meio hippie que ficou logo muita amiga dele. Ela parecia meio doidona também e logo eles formaram um casal. Ela se mudou para sua casinha na vila e todos ficamos muito esperançosos de que ela pudesse dar um jeito naquela bagunça e ajudá-lo a tomar um rumo na vida.
     Fiquei poucos meses no Rio e depois saí em busca de trabalho e acabei voltando para a Bahia, quando fui morar em Itabuna.
     Nunca mais ouvi falar dele. Em 2006, passando uns dias no Rio, tive vontade de visitá-lo e fui procurar sua pequena rua sem saída, perto do túnel Santa Bárbara. A Vila estava lá. Fui até a porta da sua casa, mas já haviam se passado mais de 10 anos desde a última vez que o vi. Fiquei parado embaixo sem saber se subia e batia naquela porta, tão acabada estava a casa.
     Será que ele me reconheceria? Será que tinha pirado de vez? Estaria vivo ainda?
     Não tive coragem de subir e me afastei me recriminando pela minha timidez, mas minhas pernas queriam sair dali e se afastar de vez daquele passado, guardando na lembrança aquela amizade do jeito que eu havia deixado, sem coragem de saber o desfecho que teve aquele jeito maluco de viver e de se deixar cair, como se a vida fosse um abismo aberto ao qual alguém se atira, indiferente à sua sorte.





domingo, 27 de março de 2011

Rapidinhas

   A Ilha Fantástica

     Germano de Almeida é um escritor caboverdiano. Pra quem não sabe onde fica, Cabo Verde é um país, situado num arquipélago em frente à África. Tecnicamente os caboverdianos são africanos, mas onde fica a linha que separa a América da África?
     Ainda não conheço esse país, que fica logo ali após Fernando de Noronha, em muitas das inúmeras ilhas atlânticas, mas para mim eles não são africanos ou americanos ou não pertencem a nenhum continente: pertencem simplesmente ao mar.
     Sua cultura é extraordinariamente parecida com a nossa. Falam portugues e crioulo, que me parece uma corruptela do portugues (que me perdoem os linguistas se estou falando besteira).
     Ler o livro A Ilha Fantástica é como passear um pouco pelo interior do Brasil, nos anos 60, com a diferença de ainda estar preso a Portugal e cercado de mar por todos os lados. Realmente é uma experiência fantástica. Comprei esse livro num stand de Cabo Verde, numa exposição de livros em Brasília e deixei-o dormir na estante, até que este fim de semana embarquei nessa viagem.
     A editora é a Ilhéu Editora, de Cabo Verde mesmo.
     Eles estão bem ali na nossa frente e a gente nem parece estar vendo a sua existência. É um pouco da lusofonia perdida no meio do mar. É um pouco de nós mesmos, açoitados pelos ventos do oceano atlântico.
     Muito bom.

   Bruxarias

     Como dizem os céticos, yo no creo en brujas, pero que las hay...
     Confesso que estou um pouco impressionado com as notícias sobre a prática de bruxarias em Rio de Contas. Parece que algumas pessoas resolveram brincar com as forças do oculto, como se isso fosse uma moda inofensiva. Não gosto muito desses modismos, um pouco porque não acredito, um pouco porque acho perigoso mexer com os espíritos primitivos, espírita que sou.
     Cristo é meu guia e ele disse: deixem que os mortos cuidem dos mortos.
     A vida já é bastante difícil para ficarmos procurando coisas ruins, ainda mais para se divertir com isso.
     Algumas pessoas que admiram o poder, acham que se acercando dessas práticas obscurantistas vão adquirir poder sobre os outros, mas não sabem que terão que pagar um alto preço por isso.
     Não gosto de bruxas nem de bruxarias. Não gosto de obscurantismos. Acho que isso é atraso.
     Gosto da luz e de olhar para o futuro. Gosto de fé e confiança, de democracia e do poder compartilhado entre todos os seres humanos, uns cuidando dos outros com amor, como tem que ser.
     Talvez por isso Rio de Contas esteja na situação tão difícil em que se encontra, dominada pelas forças obscuras.
   Baile Horrendo

     Transcrevo artigo de um jornalista de Alagoinhas sobre a pobreza da música baiana atual. Concordo e se for preciso assino embaixo.

Música baiana

     Pagode baiano usa expressões chulas, palavrões que são reproduzidos por crianças, adolescentes e jovens, e que empobrecem a cultura e reforçam a idéia de um estado analfabeto.
     Quando alguém pronuncia a palavra analfabetismo na Bahia, e se essa declaração parte de um acadêmico, branco ou da elite, parece tratar-se de racismo, discriminação e ódio.
     Quando dizem que o som do berimbau é simplório, e que qualquer um pode reproduzi-lo sem maiores conhecimentos instrumentais, por possuir apenas uma corda, logo diriam, é mais um que odeia as raízes baianas, suas influências e sua cultura. Isso já ocorreu na Bahia e deu muito pano pra manga.
     E quando dizem que a música baiana está cada dia pior, e que o pagode não passa de mais um sonoro palavrão multiplicado por milhares de incautos, ignaros e estúpidos, certamente repetiriam, trata-se de mais um a ver-nos como sub raça, desinformados e inconformados.
     Pois é. E quando essa declaração parte de um pardo, de origem negra e indígena, e que cursou apenas o segundo grau? Aí, certamente dirão, trata-se de um oportunista, um comunicador frustrado ou de alguém que não conseguiu galgar os seus objetivos.
     Pois bem, esse rodeio, meio despretensioso, mas importante, é para falar do grau de imbecilidade a que chegou a música baiana, principalmente ao pagode aqui produzido e consumido. Não falo do Axé, que apesar da mesmice, não usa palavrões nem ridiculariza a Bahia como Estado analfabeto.
     Como estudei numa das escolas mais influentes da Bahia, principalmente nos anos 50 e 60, o Colégio Central, participei da coletânea poética em homenagem ao sesquicentenário da instituição, fiz teatro e poesia nas ruas de Salvador, pronunciar algumas palavras (ões) e gestos obscenos da música baiana é assinar embaixo aos que dizem da Bahia no Brasil afora, a de que é um povo mal educado, e que só gosta de balançar o bundalelê.
     E vendo de perto, em algumas coberturas jornalísticas Bahia adentro, chego a interrogar-me quanto às minhas origens. E chego a duvidar que tivemos em nosso berço um Raul Seixas, um Castro Alves, um Wally Salomão, um Jorge Amado – que mesmo produzindo alguns palavrões, nunca foi um turpilóquio, e tantos outros que enalteceram e alguns que ainda enaltecem e fazem lembrar que tínhamos uma cultura.
     Mas, quando vou ao Campo Grande, e ouço Caetano Veloso dizer que Xanddy é lindo e que ele é uma das novas expressões culturais da Bahia chego a duvidar que sou baiano de verdade, daquele que comeu tripa seca e farinha de rosca pra não morrer de fome. E acho Caetano uma das maiores expressões da música mundial, apesar de requentar vez ou outra alguma música que no passado foi considerada brega.
     Aí me conformo e vou ouvir um pouco de Xangai, onde, entre as suas pérolas, fez o ABC do preguiçoso, que endossa a tese dos sulistas de que o baiano só é gente até o meio dia. E então o que será o baiano durante a tarde? É uma legião de trabalhadores, cujo estigma de preguiçoso foi amplamente difundido pelos meios turísticos, uma forma de falar da tranquilidade, da “maresia” e do sossego baiano.
     O saudosismo aflora e me remete à década de 1980. Lá, até 1985, os shows em Salvador, no projeto verão, no Centro de Convenções da Bahia, eram bastante disputados. No palco, Gil, Caetano, Milton, Beto Guedes, Barão Vermelho e tantos outros que arrastavam multidões. Na Barra, shows com Morais Moreira, Luis Caldas e Armandinho com A Cor do Som, encantavam e lotavam a praia.
     Retorno ao meu trabalho de coberturas de eventos com música baiana, e lá, estampada em minha frente, uma multidão de 20, 30 mil pessoas numa avenida. As meninas, os meninos, dançam como se tivessem sido libertados naquele instante. Mais parece um balé de zumbis, daquele extraído dos filmes de terror das décadas de 70 e 80. Ou então em um orgasmo coletivo, algo do tipo promovido César ou qualquer outro Calígula da nossa imaginação.
     E em uníssono, eles repetem as frases, os refrões e fazem todo o gestual obsceno para completar o enredo empobrecedor. E o vocalista da banda grita, berra e pede para que todos ecoem aos quatros cantos; “Aponte o corno aí, diga que é corno”. E todos riem, como num circo, mas deveriam chorar ao debruçar a cabeça no travesseiro.
     A grande maioria desempregada, deseducada e pobre. Desiludida pela face cruel do ensino que lhes oferecem nas escolas públicas, entregam-se aos bailes horrendos como se fossem a última ópera da vida deles. E se entregam de corpo e alma à missão.
     Os maiores patrocinadores da música baiana no interior são as prefeituras, que gastam somas vultosas em festas, micaretas, aniversários e inaugurações, contratando bandas que em nada enriquecem a cultura popular, em detrimento do folclore, das raízes de cada cidade e de sua história. E lá se vão tubos e mais tubos de dinheiro público pelo ralo.
     E voltam para casa sem saber um verso de Vinícios de Morais, sem ter-se envaidecido em ser brasileiro ao ouvir Pixinguinha, em ter-se delirado com os versos não menos preguiçosos de Dorival Caymi, em ter-se deleitado à sonoridade de Bethania e Gal, ou ter-se maravilhado ao som poético de Gilberto Gil. “Esses moços, pobres moços, a se soubessem o que eu sei”, disse Lupicínio Rodrigues em uma de suas canções imortalizada na voz de Gilberto Gil.
     E aí vão me perguntar o que tenho feito para mudar o que já está construído. Nada. Sinto-me impotente. Apesar de radialista de profissão, jornalista por paixão, não consigo convencer ninguém do contrário. A música baiana vai continuar tocando assim durante muito tempo. Mas um dia acaba. Lutar contra o mercado é muito difícil. É uma máquina de fazer dinheiro a qualquer custo. E ninguém está preocupado com a educação, com a cultura, com o folclore. A mídia baiana enaltece, enobrece, escancara esses palavrórios como deuses. Até que duas meninas aparecem decapitadas numa esquina qualquer. De quem é a culpa?

Vanderley Soares

radialista/jornalista DRT 5892

Editor do Jornal Gazeta dos Municípios/Alagoinhas-Ba

domingo, 20 de março de 2011

Rapidinhas

É possível um tsunami no Brasil?

Momento em que a usina atômica de Fukushima explode, após tsunami no Japão.

     O Brasil não sofre grandes tremores de terra por se encontrar no meio da chamada placa sulamericana, enquanto nós sabemos que os terremotos acontecem, principalmente, no encontro de placas tectônicas.
     É a fricção das placas que libera energia e provoca os tremores e terremotos.
     Pois não é que a tal placa sulamericana se encontra com a placa africana no meio do Oceano Atlântico, bem em frente às nossa imensa costa, embora muito distante? Da fricção das duas placas, a sulamericana e a africana, nasceu a cordilheira meso-atlântica, imensa cadeia de montanhas submersa que divide o oceano ao meio e cujo cumes mais altos formas as ilhas oceânicas brasileiras, como Fernando de Noronha.
     Claro que se as duas placas resolverem se estranhar, uma imensa quantidade de energia será liberada e poderá formar tsunamis em direção à costa brasileira e à costa africana. Será que estamos preparados para isso? Claro que não! O Japão que tem treinamento constante não resistiu. Alguém já viu algum treinamento para isso na Brasil?
     Em Angra, a única rota de fuga, uma rodovia, passa ao lado da usina. E para completar o quadro, nossas usinas nucleares estão todas concentradas num mesmo local, à beira mar. Não é inteligente? Como se não bastasse ter duas usinas atômicas numa mesma cidade, ainda vão construir a terceira no mesmo local. Ou seja, se o local for atingido todas explodem ao mesmo tempo. Genial não é mesmo?
    
Enquanto isso em Sucupira...

     O secretário do prefeito de Rio de Contas, João Souto, mais conhecido como João de Carlito, fez mais uma das suas. Alugou as escolas e outros prédios públicos municipais para "amigos" no carnaval.
     Instado a esclarecer a situação, João de Carlito disse em entrevista à rádio que não alugou coisa nenhuma, apenas "cedeu alguns prédios em troca de contribuições" ao carnaval de Rio de Contas. Deu inclusive o valor da "contribuição" que os tais amigos pagaram pelo uso do Colégio Barão de Macaúbas: R$1.500,00.
     João Souto parece que está cada vez mais solto na Prefeitura. E o Prefeito? Alguém tem notícias dele?
     Parece piada.

Obama no Rio

     Que tédio. Obama chega ao Rio fazendo demonstrações do seu poderio militar, com porta-aviões, helicópteros, limusines, mandando bombardear a Líbia, etc., depois vai jogar bola durante trinta segundos com um neguinho da Cidade de Deus, pra fazer populismo.
     O discurso na Cinelândia foi cancelado, porque certamente o carioca não ia perder o seu domingo pra ouvir conversa de presidente americano. Deram como desculpa a segurança, mas a verdade é que eles não tem nada para nos dizer. Pensam que somos uns miseráveis do terceiro mundo que vamos ficar muito impressionados com essa operação de marketing político. Que coisa mais antiga...
     Talvez no Chile ele faça algum sucesso.
     A propósito: será que ele vai mandar bombardear o Bahrein e a Arábia Saudita, onde monarquias pré-históricas, apoiadas e armadas pelos Estados Unidos,  também estão massacrando o povo que pede democracia?
Histórias de outras vidas (42)

ONDE FICA A 408?
     O ano era 2001, o dia, 22 de setembro, onze dias depois dos atentados às torres de Nova Iorque. A cidade: Brasília. O local: setor comercial local da superquadra 102 norte, nos fundos do Hospital Regional da Asa Norte, o HRAN. A hora: 11:30 da manhã.
     Eu estava em Brasília a pouco tempo. Tinha largado o emprego na Prefeitura de Itaberaba, atendendo ao pedido de meu pai para que voltasse a Brasília, para fazer o projeto e acompanhar a obra do condomínio que ele queria implantar no seu terreno, no bairro Park Way.
     Meu filho pequeno já tinha ido pra Brasília desde fevereiro, depois que uma epidemia de dengue derrubou a metade da cidade de Itaberaba, inclusive eu. Ele gostava de desenho e pintura e estava matriculado havia poucos dias em uma escolinha naquela quadra. A aula terminava as 11,30 e eu o aguardava no estacionamento, no carro de minha mãe, um bonito Toyota Corolla, enquanto lia a Folha de São Paulo.
     Um jovem se aproximou da minha janela e perguntou:
     _Por favor, o senhor sabe informar onde fica a quadra 408 norte?
     Abri a porta e saí, para indicar a direção. Ficava do outro lado do Eixo (a grande avenida que corta todo o plano Piloto de Brasília), era preciso atravessar pela passagem subterrânea e depois virar a esquerda e caminhar seis quadras. Fui até a calçada e expliquei tudo. Ao lado do rapaz, um pouco distanciado, um outro, mais velho, também magro e com uma careca inicial, escutava as explicações.
     Ele agradeceu e voltei para o carro e para meu jornal, mas pude observar que eles não seguiram na direção indicada. Achei estranho, mas decidi não controlar para onde eles iam. Vai ver resolveram passar em algum outro lugar antes. Mas a aquilo ficou na cabeça, como uma pequena luz acesa, de que havia algo de errado.
     Alguns minutos depois o mesmo jovem bateu novamente no meu vidro. Trazia um casaco enrolado na mão. Abri, pensando que ele iria me pedir mais alguma informação, e então ele desembrulhou rapidamente, de dentro do casaco, um enorme revólver que colocou na janela, na altura do meu coração, e me disse:
     _Passe para o banco do carona!
     Surpreso, sem saber o que fazer, obedeci.
     O outro, entrou rapidamente no banco de trás e me encostou na altura da cintura, do lado esquerdo, algo que ele disse ser uma arma.
     _É melhor você colaborar porque hoje já matamos dois – disse ele.
     O mais jovem, ao volante, me pediu explicações sobre o câmbio automático e saiu satisfeito com o carro. O de trás pegou minha bolsa e começou a escarafunchar minha carteira, retirando cartões de banco e pedindo senhas.
     Pegaram a avenida do Setor de Indústrias,que passa por fora do Plano Piloto e pararam num posto Shell que existe ao lado do supermercado Extra. Ali vi minha chance de pular fora. Pensei: eles não vão atirar em mim aqui, no meio de todo mundo. Eu podia simplesmente ter aberto a porta e saído, enquanto o bombeiro enchia o tanque. Mas o de trás apertou a arma na minha cintura e disse que se eu me mexesse atiraria.
     Era uma questão de avaliar rapidamente qual eram as chances e assumir riscos muito grandes. Certamente se eles atirassem iam tentar sair correndo do posto. Aquele modelo de carro abria a tampa do tanque por dentro, portanto, a chave continuava na ignição durante o abastecimento, permitindo que eles arrancassem a qualquer momento. Isso facilitaria a fuga, o que talvez evitasse uma situação em que os bandidos ficassem encurralados e começassem a atirar em todo mundo.
     Eles mandavam que eu ficasse com os olhos fechados e disseram para o bombeiro que eu tinha bebido muito e estava dormindo. Foi nessa hora que me decidi. Até aí estava sendo arrastado pelos acontecimentos, ainda surpreso com tudo aquilo e sem querer acreditar no que estava acontecendo. As várias alternativas sobre o que fazer percorriam minha mente rapidamente, procurando respostas nos meus seqüestradores.
     Eu podia dar uma de herói e sair correndo do carro, podia me revoltar contra eles, ou simplesmente entrar em pânico. Mas a decisão veio súbita: iria procurar dialogar com eles, de forma que pussesse minimamente em risco minha vida e a deles também. Procuraria vê-los como seres humanos, iguais a mim, com quem podia dialogar.
     Assim, quando o bombeiro viu que eu estava de olhos fechados e fez algum comentário, e o cara ao volante disse que eu havia tomado muito Red-Bull, me fiz de bêbado e disse com a voz meio embriagada:
     _Eu tô legal..., muito legal.
     Eles riram e isso provocou uma distensão geral. Eu estava tentando quebrar aquela parede entre bandido e vítima, mas não tinha a menor idéia do resultado.
     Na seqüência, mandaram eu permanecer de olhos fechados e seguiram. Eu, pelo canto do olho, pude ver que estávamos indo para o núcleo bandeirante e que depois tomamos o caminho de Taguatinga, mas o sujeito ao volante me disse:
     _Você está olhando, fecha o olho!
     Achei melhor obedecer e procurei conversar com eles, pedindo que me deixassem em qualquer lugar e levassem o carro. O de trás, revirando meus documentos, me fez um monte de perguntas. Onde eu morava, de quem era o carro, além, é claro, sobre senhas e dinheiro nas contas. Fiquei com medo de que eles fossem para a casa dos meus pais e assaltassem todo mundo. Eles podiam simplesmente entrar lá comigo, render todo mundo e fazer uma porção de barbaridades.
     Menti, dizendo que o carro era de uma tia minha, que eu tinha vindo da Bahia a poucos dias e estava desempregado (o que era verdade) e que ninguém dava emprego para um homem de 50 anos como eu. Aí eles concordaram e disseram que era por causa do desemprego que eles faziam aquilo. Concordei que a situação estava mesmo ruim e que os homens do governo eram uns filhos da puta. Foi um segundo momento de distensão, em que eles deixaram a postura de carrascos e falaram da situação deles, muito embora eu não concordasse que aquilo fosse uma justificativa válida.
     Foi aí que comecei a receber alguns sinais. Eu sou muito atento a sinais.
     O de trás, no meio do interrogatório, tinha achado a identidade do meu filho (o que estava no curso) e me perguntado sobre ele. Disse que estava em casa e que eu estava ali parado fazendo hora para ir a uma entrevista de emprego (com medo de que eles voltassem e seqüestrassem o menino também). De repente, depois de examinar tudo, ele me entregou a identidade, dizendo:
     _Toma a identidade do seu filho.
     Achei estranho. Porque ele me devolveria um documento, no meio de um seqüestro? Gostei disso, porque esse filho é como uma benção para mim. Tudo que ele participa dá certo, e tudo que ele põe a mão também dá certo. Colocar sua identidade no meu bolso, foi como obter a proteção da luz que sempre emanou dele. Achei também que aquele foi um gesto de simpatia, como se ele dissesse, bom toma aí teu filho pra te fazer companhia.
     Enquanto corríamos pelo asfalto, eu perguntava a eles o que iam fazer comigo e pedia que me soltassem.Uma hora eles me disseram que iam me levar para um cativeiro, onde já se encontravam duas pessoas.
     Logo veio um segundo sinal. O da direção havia me pedido instruções sobre como ligar o rádio. De olhos fechados fui explicando. Ele ligou e sintonizou numa rádio qualquer. No meio da programação entrou uma música evangélica, dessas que só fala de Deus. Prestei atenção: a música falava algo sobre confiar em Deus e deixar nas suas mãos a solução. Depois entrou um anúncio e logo vieram outras músicas que não tinham nada a ver com religião. Pensei: uma música sobre Deus no meio de uma programação comercial, não é normal. Guardei a mensagem de fé e esperança.
     Depois de muitas voltas e algumas confabulações entre eles, finalmente pararam, à beira de uma estrada, onde havia um mato. Mandaram que eu caminhasse lá pra dentro, em direção à uma torre de energia. Pensei que eles iam me matar ali e disse para o do volante:
     _Você não vai atirar em mim, não é? Me deixa aqui que eu não denuncio vocês.
     Mas ele apenas dizia para que eu caminhasse. Houve um momento que eu não ouvi mais seus passos e pensei que ia ser baleado, mas logo depois ouvi novamente a voz dele, mandando que eu seguisse. Acho que foi nesse momento de ausência, que eles resolveram o que fazer comigo.
     Por fim mandou que eu sentasse junto a uma pequena árvore. Tirou uma corda fininha de uma sacola plástica e mandou que eu esticasse as mãos pra trás, em volta do tronco da árvore. Obedeci e ele começou a me amarrar, mas mandou que eu esticasse os braços. Não entendi, porque se eu esticasse, depois que eu relaxasse a corda ia afrouxar. Fiquei com medo de fazer isso e ele achar que eu estava querendo engana-lo. Aí foi demais a minha colaboração com eles, porque eles queriam justamente que eu me soltasse depois de algum tempo, o suficiente para que se afastassem.
     Ele pediu de novo que esticasse os braços e como eu vacilasse ele me amarrou assim mesmo, bem junto ao troco. Depois eu me arrependeria amargamente de ter sido tão bem comportado.
     Em seguida me amordaçou e me vendou com panos velhos. Antes de sair disse que ia chamar os bombeiros para me soltar, ...daqui a uma hora!
     E foi assim que me vi, no meio do mato, amarrado, amordaçado e vendado, como um bicho, para morrer. Qual tinha sido o meu crime para sofrer uma provação dessas? Eu não sabia.
     É aí que se sente o desafio pela vida gritar dentro da gente. Agoniado, comecei a me esfregar no tronco da árvore e rapidamente me livrei da venda e em seguida da mordaça, o que foi fundamental para minha salvação. Percebi que os panos que usaram para me vendar e amordaçar eram velhos se rasgaram facilmente. Parecia que eles queriam realmente que eu me soltasse e que tudo aquilo era só pra ganhar tempo.
     A partir daí foram quatro horas de gritos de socorro e tentativas inúteis de me soltar das cordas, até que meus pulsos ficassem em carne viva. Mas durante esse tempo muita coisa passou pela minha cabeça. Falava alto, conversava com os pássaros, pedindo que eles fossem avisar a minha família, conversei com as formigas, que rodeavam a árvore e nenhuma delas me mordeu. Falava comigo mesmo, amaldiçoando a hora em que não estiquei os braços, pensava nos meus filhos, conversava com Deus e os espíritos.
     Foi aí que me lembrei da menina do orfanato. Sim, eu havia dito que se tivesse um emprego a adotaria e logo depois fui chamado para trabalhar em Itaberaba, mas fiquei inventando um monte de desculpas para não adotá-la: estava velho demais, ganhava muito pouco, já tinha criado tantos filhos...
     Mas será que essas entidades seriam tão cruéis, a ponto de me colocar numa provação daquelas só para me obrigar a cumprir o prometido, só para que eu me lembrasse de uma promessa não cumprida? Aliás, será que eu havia feito mesmo uma promessa ou apenas tinha dito pra mim mesmo que faria aquilo?
     Fiquei triste pensando na menina lá no orfanato enquanto eu ia morrer ali, amarrado feito um animal. Pensei em tudo que podia ter feito na minha vida, que podia ter vivido, ao invés de ficar me preocupando em ter um carro novo ou em comprar coisas... Pensei nos meus filhos, nos sonhos que eu tinha de criar abelhas na serra, no meu sítio em Rio de Contas, que estava lá abandonado, enquanto eu ficava sonhando com empregos públicos, burocráticos...
     Pensava isso nos intervalos dos meus gritos de socorro. Tentava me soltar, mas não havia jeito. Consegui tirar os óculos, pendurados no pescoço, me roçando para cima e para baixo na árvore, até que eles caíssem nos meus pés. Comecei então a pisoteá-los, para que se partissem. Quando vi que uma das lentes estava partida, consegui me abaixar e pegar um caco, para tentar cortar a corda. Mas quando eu tentava, só conseguia cortar o meu braço.
     Uma tristeza enorme me invadiu ao perceber que estava ali por egoísmo, por materialismo, porque havia abandonado meus sonhos e minha maneira despojada de ser, por haver me deixado contaminar pelo materialismo da minha família, sempre me chamando pra Brasília, aquela cidade que sempre havia sido ruim para mim.
     Decidi, com lágrimas nos olhos, que se saísse dali, a primeira coisa que eu faria seria adotar aquela menina e viver todas as coisas que eu queria fazer... escrever, criar abelhas, morar no interior. Sim, eu abandonaria o cursinho que estava fazendo para um concurso e iria morar no interior, junto aos meus amigos, para uma vida mais simples, com meus filhos.
     Pensei na menina e pedi desculpas a ela, mentalmente. Jurei para mim mesmo, que nada me deteria, se eu saísse dali, para cumprir aquela obrigação. Que não seria por mim, mas por ela, não importasse o que acontecesse. Que se aquelas entidades queriam tanto que eu fizesse isso, então deveria haver um sentido maior em tudo isso.
     Passados poucos minutos da minha decisão, ouvi pela primeira vez uma resposta aos meus gritos. Fiquei em silêncio, para confirmar. Logo veio outro grito:
     _Tem alguém aí?
     Com o coração aos pulos gritei com força:
     _Tem. Eu estou amarrado, me acode por favor!
     A voz então perguntou:
     _Você está sozinho?
     _Estou! Respondi.
      _Espera aí que eu vou chamar a polícia!
     Entrei em desespero e gritei.
     _Por favor, não me deixa aqui!
     Mas a voz me respondeu firme:
     _Não se preocupe, eu não vou deixar você aí. Vou chamar a polícia!
     Depois disso se passaram alguns minutos de silêncio e eu me convenci que aquilo devia ser alguma crueldade dos bandidos só para se certificar de que eu continuava preso. Resolvi continuar gritando e tentando me soltar. Cheguei a conseguir me deitar, para tentar uma posição mais relaxada, que me permitisse cortar a corda, sempre com o caco de vidro na mão direita, mas nada.
     Eu só me cansava cada vez mais e começava a me sentir fraco e muito cansado. Pela primeira vez pensei em me deixar morrer, pra me livrar do sofrimento.
     Já havia passado um longo tempo, pelo menos para mim, quando ouvi novamente a voz:
     _Ei!
     _Estou aqui! Respondi de novo.
     _A polícia está aqui, já estamos entrando!
     Uma segunda voz então falou:
     _Você está sozinho?
     _Estou! Estou amarrado! Respondi.
     As vozes foram se aproximando e gritando e eu respondendo, para que eles me localizassem, no meio do mato, até que vi aparecerem quatro policiais. A cena foi parecida com, a que eu havia imaginado logo que os bandidos me deixaram. Foi como uns flashes que eu via na minha imaginação, com a polícia chegando.
     O Policial que liderava, quando me viu deitado no chão, todo sujo de terra, disse:
     _Olha isto!
     Pediu que eu me sentasse para cortar minhas cordas, mas eu não conseguia me mexer. Levaram alguns minutos cortando as cordas, minutos intermináveis antes da minha libertação. Finalmente, quando conseguiram, ele disse:
     _Me dá sua mão pra eu te ajudar a levantar.
     Mas quem disse que eu conseguia colocar meus braços pra frente. Eles simplesmente não me obedeciam. Foram preciso dois policiais para me levantarem.
     O guarda então me ofereceu um celular para telefonar e eu dei a ele o número da casa de meus pais Ouvi ele falando com alguém, que eu havia sido seqüestrado, mas já estava tudo bem e eles me levariam para uma delegacia em Taguatinga.
     Finalmente me tiraram dali e ao chegar na beira da estrada me apresentaram ao dono da voz inicial. Me disseram: foi ele que chamou a gente. Ele tem alguma coisa a ver com isto? Eu olhei bem pra ele e disse: não. Jamais me esqueceria do rosto dos dois bandidos. Perguntei o seu nome e ele disse: Antônio. Então o abracei e comecei a chorar dizendo: Antonio não, Santo Antônio, Santo Antônio!
     Fui na viatura pra tal delegacia. Lá, sujo e arrasado, fiquei sentado numa cadeira, respondendo perguntas de um agente. Depois veio um delegado e me perguntou o que tinha acontecido. Respondi que havia sido seqüestrado. Aí ele confabulou com o agente e me disse:
     _Isso não foi seqüestro. Seqüestro é só quando pedem resgate. Foi roubo.
     Fiquei olhando pra ele, pensando em que diferença fazia aquilo pra mim. Me lembrei também de quando eu me separei da minha mulher e levei meu pequeno filho e fui acusado de seqüestro. Engraçada essa polícia!
     Logo meu pai chegou, com dois amigos que estavam jogando pôquer com ele. Parecia irritado e quando me viu foi logo falando:
     _Você está todo sujo!
     Não entendi aquilo. Eu estava todo vermelho de barro, porque ele estava falando assim comigo?
     Quem agiu com um pouco de consideração foi um dos amigos dele, um velho dentista que freqüentava nossa casa. Se aproximou de mim, perguntou o que tinha acontecido, olhou minhas feridas e me disse algumas palavras reconfortantes. O outro amigo, um advogado particularmente desagradável, nem chegou perto de mim, e me olhou com uma cara esquisita. Não liguei muito porque ele sempre tinha uma cara esquisita, como se estivesse julgando os outros.
     No carro, de volta pra casa, meu pai foi conversando com eles, como se nada tivesse acontecido. Pediu desculpas a eles por haver interrompido o jogo.
     Pensei que fossem me levar para um hospital, mas não. Direto pra casa.
     Só depois de uns dias é que fui entender. Eles pensaram que eu estava envolvido em alguma coisa de natureza sexual, algum programa ou coisa assim, por isso a irrritação, a vergonha dos amigos e também um certo desprezo por mim e pelo meu sofrimento. Nas horas em que fiquei desaparecido, meu filho ligou para saber porque eu não havia ido buscá-lo e meu pai disse que eu devia ter ido fazer algum programa, porque eu era divorciado e coisas assim.
     Ele me conhecia mesmo muito pouco. Eu jamais abandonaria um filho me esperando, especialmente esse filho.
     Na noite seguinte, eu que há mais de um ano não tomava uma bebida alcoólica, nem comia nenhum tipo de carne, coloquei uma camisa de manga comprida para esconder os braços machucados, chamei um amigo e fui ao Beirute, tomar cerveja e comer quibe, para comemorar a vida.
     Fiquei quinze dias sozinho em casa, me curando, sem nenhum cuidado médico. Me entupia de calmantes e depois, quando me senti forte, liguei para meu amigo na Bahia, avisando que iria pegar a menina no orfanato. Ele me disse que achava que ela já havia sido adotada, porque tinha sido levada por uma família, mas que iria falar com a freira. Disse a ele que iria assim mesmo.
     Numa quinta-feira, véspera da partida ele me ligou de volta e falou que a família tinha desistido da menina e que ele iria tentar uma visita. Peguei o carro, chamei meu filho e me mandei para Vitória da Conquista. Antes passamos em Rio de Contas. Na manhã de sábado, quando saíamos de Rio de Contas pra Conquista ele me ligou na pousada pra dizer que tinha conseguido a visita, mas que era só até meio-dia, porque segunda-feira seria feriado e a freira ia viajar.
     Chegamos à Conquista a tempo e levamos a menina para o fim de semana. Na terça-feira, ao invés de voltarmos para o orfanato, fomos direto ao juiz. Ela havia decidido ficar comigo. A participação de meu filho havia sido decisiva. O Juiz, surpreendentemente, me concedeu a guarda provisória e me deu uma autorização para viajar. Na quarta-feira estávamos viajando para Brasília.
     Quando fui pegar suas coisas no orfanato, a freira me disse:
     _Deus vai te recompensar.
     _Já recompensou. Respondi, pensando na minha libertação.
     _Mas vai recompensar mais! Disse ela.
     Ao chegar em Brasília, depois de vencer a resistência inicial de minha mãe, quando viu aquela menina pobre e negra, de 9 anos, chama-la de avó, recebi um telefonema do Ministério da Integração, me chamando para um ótimo emprego, para o qual eu havia mandado um currículo havia meses e nem me lembrava mais.
     Deus havia me recompensado mais, como disse a freira.
     Do seqüestro guardo apenas uma certa perda de sensibilidade nos ombros, cujos nervos foram afetados e uma mancha no pulso esquerda, cuja pele ficou dilacerada pelas cordas. Guardo também a mágoa da reação de meus pais, tanto do velho, quando me pegou na delegacia, quanto de minha mãe, que só chorou com a notícia de que seu carro novo havia sido recuperado.
     Ajudei o rapaz que me salvou a construir sua casa, numa região muito perigosa e cheia de bandidos, até que um dia desconfiei que ele tinha algum contato com os seqüestradores e me afastei. Mas dever a vida a alguém é uma coisa muito forte e decidi não julgá-lo.
     Trabalhei mais três anos em Brasília e todo o dinheiro que ganhei, investi no meu sítio e em uma casa em Rio de Contas, para onde me mudei em agosto de 2004.
     Minha nova filha está comigo até hoje e é uma linda e inteligente moça, que alegrou nossa casa e nos libertou da solidão em que vivíamos.
     Só hoje, quase 10 anos depois, consegui publicar este relato. Espero que isso ajude a me libertar dessa terrível lembrança e que ajude também  a outras pessoas a tomar cuidado e a não permanecer desavisadamente dentro de veículos em grandes cidades

Boa segunda-feira à todos.

Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 13 de março de 2011

Rapidinhas

Carnaval de Rio de Contas

     O carnaval de Rio de Contas foi mais uma vez estragado pela praga que se tornou o chamado som de carro, ou seja, automóveis com gigantescas caixas de som, colocando músicas horríveis que são impostas a todos que estão num raio de 500 metros. 
     Como se não bastasse ter que escutar aquilo, ainda ocorre uma disputa entre proprietários de vários carros que ligam o som ao mesmo tempo, numa poluição insuportável, que não respeita hora nem lugar. Alguém deveria fazer um estudo psicológico da necessidade que esses proprietários de veículos tem de fazer tanto ruído, mesmo sabendo que desagradam as pessoas.
     A música baiana do palco principal também continua cada vez pior. Baixo nível, melodia ruim e letras idiotizadas, além de bandas que passam a maior parte do tempo falando (levanta a mãozinha, cadê os torcedores do flamengo?, etc) ao invés de cantarem. Claro que isso não é um problema local, mas da música baiana como um todo, que experimenta um período de decadência acentuado.
     Não é à tôa que o palco das marchinhas atrai cada vez um público maior.
     Mais uma vez o monopólio da Schin, com muita gente da prefeitura faturando. Os mesmos de sempre.
     Mas apesar de tudo, a alegria da população, especialmente dos mais jovens, o cenário de cidade histórica e o desfile de máscaras, atraem cada vez mais gente. Condições existem para fazer um carnaval organizado e muito alegre, de melhor qualidade. Falta vontade política.


A Lua vem da Ásia

     Sempre gostei muito desse livro, de Campos de Carvalho, que vem a ser uma espécie de diário de um louco, mas que nos coloca diante dos absurdos da nossa civilização burguesa e consumista. Mas a peça, com Chico Diaz, consegue ser melhor.
     Normalmente me irrito com o público de Brasília, que aplaude qualquer coisa de pé, mas dessa vez me levantei com muito gosto.  
     Chico Diaz faz um monólogo de uma hora e meia, fantástico, muito bonito e emocionante. Se puderem ver, não percam.
     No teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, de 11 de março a 03 de abril, com direção de Moacir Chaves.  

60 anos

     Reunindo familiares e amigos em Brasília, comemorei sábado, dia 12 de março, meus 60 anos.
     Muito bom perceber que quanto mais a gente caminha, mais gente vai caminhando ao nosso lado, sejam filhos, netos ou velhos amigos.
     O importante é seguir andando e procurar realizar as coisas que a gente quer fazer, preservando os outros dos nossos erros, o que nem sempre é possível. Por isso, nesse momento de alegria peço a todos que sejam tolerantes com meus defeitos e continuem tornando a minha vida cada vez mais alegre, com suas existências, nesse caminho onde o destino nos colocou juntos, pelo menos em alguns trechos.
     Um grande abraço carinhoso a todos os amigos e amigas, à minha mãe, aos filhos e netas que dão sentido à minha existência. Espero que todos tenhamos a oportunidade de viver num Brasil cada vez melhor e num mundo com mais justiça, paz e compreensão entre os seres humanos e a natureza.

Cisne negro

     Extremamente perturbador o filme de Darren Ronofsky, com Natalie Portman.
     Uma alegoria sobre a luta entre o bem e o mal dentro da alma humana, encarnados numa bailarina que deve viver dois papéis antagônicos.
     Toda a obscuridade do espírito gótico do hemisfério norte, vivido numa sociedade profundamente marcada pela competição, representados no mundo do balé clássico e na obra de Tchaikowsky, o lago dos cisnes.
     Não deixem de ver.
   Convergências

     Em 1993, quando publiquei o livro Contracorrenteza, fiz algumas predições políticas, que aos poucos foram se realizando. A única que nunca se realizou foi a de que PT e PSDB acabariam se unindo, devido à proximidade de seus ideários.
     Pois agora, quase 20 anos depois, parece que a profecia final está a caminho de se concretizar.
     Trata-se de vários movimentos simultâneos, aparentemente confusos, mas que não passam despercebido para um observador atento.
     Pela direita temos uma estranha movimentação liderada por Gilberto Kassab, o prefeito de São Paulo, eleito pelo DEM e que está louco para abandonar a sigla e se bandear para a chamada base aliada, a grande sopinha de letras que sustenta o governo de Dilma Roussef.
     Kassab tem grandes ambições políticas, entre elas a de governar o Estado de São Paulo, e sabe que no DEM, aliado ao PSDB, cheio de emplumados, não tem chances de sair candidato. Como não pode mudar de partido sem perder o mandato por infidelidade partidária, vai usar a única janela de fuga prevista pela legislação: a fundação de outro partido.
     Todos sabem que seu partido será apenas provisório (fala-se na sigla PDB) e depois será incorporado por algum partido da base aliada, provavelmente o PSB. Então Kassab finge que cumpre a lei e a justiça finge que não vê que tudo não passa de uma manobra para burlar a lei. Tudo na base do me engana que eu gosto.
     Até aí tudo normal, dentro da legalidade brasiliana. O estranho é que Kassab é aliado do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, que vem dando a maior força à manobra de fuga do aliado municipal para a base aliada de Dilma, teoricamente sua adversária política.
     Na base de tudo está o problema chamado José Serra. Tanto Alckmin, quanto Aécio Neves, querem se livrar de Serra e vem na manobra de Kassab uma ótima alternativa para enfraquecê-lo, já que ele controla o PSDB de São Paulo e deve se lançar candidato a prefeito em 2012, para depois tentar novamente a Presidência da República ou a candidatura ao governo do Estado de São Paulo, atrapalhando as pretensões de Aécio Neves para presidente e de Alckmin à reeleição para o governo do Estado. Complicado? Isso é só o começo!
     Do outro lado do espectro político, Dilma vê com bons olhos a saída de Kassab da oposição e sua vinda para a base aliada, tirando a hegemonia da aliança PSDB-DEM que governa São Paulo a 16 anos e de lambuja ajudando a enfraquecer Serra, que conseguiu se tornar inimigo de todos, proeza típica dele com sua habilidade inata para cultivar inimizades.
     Mas ainda não é tudo. Do lado do governo federal, a eminência parda é Antonio Palocci, o ex-trotsquista que caminhou celeremente para a direita neoliberal, como costumam fazer os trotsquistas depois que se dão conta das besteiras que fazem na juventude. Sua atuação no governo retirou rapidamente os cargos  que o PCdoB e as centrais sindicais, ocupavam no governo Lula, reduzindo sua importância e influência, como se viu no episódio do salário mínimo.
     Não é à tôa que Dilma ensaia uma aproximação com os Estados Unidos e o governo Obama, revertendo a política externa tão duramente construída no governo Lula e que projetou o Brasil internacionalmente como ator global. Em detrimento da nossa liderança regional, voltaremos à ser área de influência dos americanos, ou seja, voltaremos a ser o quintal deles, para regozijo das nossas velhas elites conservadoras, inclusive as famílias quatrocentonas de São Paulo que apóiam o PSDB, em nome das velhas tradições de submissão ao capital internacional.
     Por outro lado, Aécio Neves tenta se aproximar das centrais sindicais, tentando minar a hegemonia petista no setor, manobra considerada crucial para fazer crescer o eleitorado tucano no meio da classe trabalhadora, especialmente nas classes em ascenção com o aumento do poder aquisitivo e que começam a se ver como classe média consumidora, deixando para trás velhas tradições de luta proletária.
     Resumindo: o PSDB caminha para a centro-esquerda, tentando se livrar do estigma de representante da velha direita, enquanto o PT caminha para a direita, tentando conquistar o apoio das velhas elites, que nunca aceitaram sua hegemonia. Quando se dará o encontro triunfal? Em 2014 ou 2018? Não sabemos, mas as diferenças entre as duas agremiações tendem a desaparecer rapidamente e, na medida em que os egos inflados de FHC e Lula saem de cena, abre-se a perspectiva de um entendimento eleitoral para uma chapa unificada e para uma grande frente social-democrata no Brasil, dando abrigo a todos os políticos clientelistas e a todos os interesses obscuros que sempre dirigiram este país.
     O fecho desse processo seria a reforma eleitoral preconizada por José Dirceu, criando o voto em lista, que na prática extinguiria nosso direito de escolher nossos representantes, fazendo com que tudo se transforme num acerto interno entre eles, excluindo definitivamente o povo da cena política brasileira e jogando no lixo todas as lutas pela democracia travadas ao longo das últimas décadas.
     Mas os artífices dessa convergência, dessa criação de um verdadeiro partido único, estilo PRI mexicano, disfarçado de frente democrática ou algo do gênero, se esquecem de que o Brasil não é uma empresa, nem é um cartório eleitoral, onde eles montam suas falcatruas ao sabor dos seus interesses. Somos um povo que sabe se levantar e lutar, como já demonstramos muitas vezes.
     Mesmo em países mais atrasados, grupos que tentam se perpetuar no poder fraudando a livre vontade popular são derrubados quando o povo perde a paciência, como estamos vendo nos países árabes.
     Então, como na piada da assembléia dos ratos, só faltou combinar quem vai colocar o guizo no pescoço do gato, que nesse caso é o povo brasileiro. Se não souberem fazê-lo, correm o risco de ver outras agremiações sugirem e crescerem, ocupando o espaço vazio deixado pela esquerda analógica (como disse Emir Sader) fundando uma nova esquerda, pós-internet, ecológica, ancorada inclusive na convergência digital das grandes redes sociais e nas novas reivindicações de cidadania de um povo que não aceita mais ser reduzido à servidão.

Boa segunda-feira à todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza

    

sexta-feira, 4 de março de 2011

Rapidinhas

A Fera de Caxias


     Eu era pequeno e ainda morava no Rio, quando uma mulher seqüestrou uma menina, filha do seu amante que a havia deixado, e a assassinou como vingança. Seu pequeno corpo foi encontrado dentro de um poço dias depois e a criminosa ficou conhecida como A Fera da Penha, bairro onde ocorreu o crime.
     50 anos depois a história se repete, também no Rio de Janeiro, com o assassinato da menina Lavínia, de apenas sete anos, assassinada pela amante de um homem que queria se vingar dele por motivos ainda não esclarecidos.
     Segundo depoimento do pai, exibido pela televisão, a assassina teria ameaçado se vingar na filha, caso o amante a deixasse. Segundo outra versão, ela queria dinheiro.
   Independente do motivo, essas tragédias são causadas, na maioria das vezes por psicopatas, que não sentem absolutamente nada ao causar dor nos outros. Como se prevenir de tais coisas? Com certeza, dando mais valor à família e não se envolvendo em aventuras sexuais, numa época de liberalidade e hedonismo.  
     Existem coisas mais importantes do que o prazer. A família é uma delas. Sem querer embarcar em nenhuma onda conservadora, a família, não importa o seu formato, precisa ser mais protegida e respeitada no Brasil.
Vaudeville

     O empresário da noite, Ricardo Amaral, lançou seu livro de memórias, onde conta suas peripécias como dono de boates da moda nos anos 60, 70 e 80. Sua esposa Gisela Amaral e ele deram muitas entrevistas à TVs e revistas, se vangloriando da vida que levavam.
     Não tive estômago para ler seu livro e conferir se ele conta, entre os seus feitos notáveis, o fato de que provocou um acidente na rodovia Rio-São Paulo em 1973, quando sua Mercedes-benz atravessou a pista em alta velocidade e veio chocar-se de frente com um Volkswagen de um casal que voltava do seu sítio em Barra do Piraí, matando os dois.
     Ricardo Amaral não teve seqüelas graves, enquanto Gisela quebrou uma perna. Mas para evitar escândalo, se aproveitando das suas boas relações com os governos da ditadura, Ricardo comprou a polícia da baixada fluminense para que o casal fosse rapidamente enterrado como indigente, antes que a imprensa soubesse do caso e pudesse causar algum prejuízo à sua imagem de empresário da alegria da noite carioca.
     O dois mortos eram meus tios, Thomas Maracajá e sua esposa, irmã de minha mãe, Cyrene Stumpf Maracajá.
     Quem impediu que o enterro acontecesse foi um agente funerário de Barra do Piraí que conhecia meu primo, filho deles, funcionário do Banco do Brasil na época, e o avisou. Meu primo localizou os corpos dos pais, nus, sobre uma pedra, no necrotério de uma cidade da baixada, prontos para serem enterrados e esquecidos.
     Resgatou-os, deu a eles um enterro decente e conseguiu condenar Ricardo Amaral a dois anos de cadeia, pena que ele não cumpriu pelo benefício da Sursis, uma figura jurídica que permite manter em liberdade quem é condenado até dois anos no máximo. É claro que ele conseguiu o benefício devido às suas boas relações com as autoridades militares da época.
     Duro é vê-lo ainda hoje sendo tratado como herói pela imprensa, continuando com sua vida boa, seu vaudeville, enquanto nossa família teve que se contentar em ficar sem Maracajá e Cirene, duas figuras lindas, sem ver a justiça ser feita.



  Porque existem favelas?

     No filme Tropa de Elite 2, em determinada cena o Capitão Nascimento pergunta: porque existem favelas?
     Esta é uma pergunta que parou de ser feita no Brasil desde os anos 60, quando Carlos Lacerda lançou seu programa de erradicação de favelas no antigo Estado da Guanabara, criando junto com Sandra Cavalcanti os grandes conjuntos habitacionais que deram origem à Cidade de Deus e posteriormente ao Banco Nacional de Habitação, o BNH, extinto com a redemocratização.
     Este programa era tão autoritário e deu origem a tantas distorções que os favelados passaram definitivamente de infratores a vítimas e ninguém mais ousou mexer com eles.
     Ficou faltando, no entanto, a resposta para a pergunta. Na verdade a existência das favelas é a resposta a um sistema que permite a livre especulação imobiliária sobre os terrenos urbanos, o que provoca o constante aumento do preço dos imóveis e exclui do mercado a maioria dos trabalhadores assalariados.
      Juntando esse efeito nefasto com os monopólios sobre transportes urbanos existentes em todas as cidades médias e grandes brasileiras, tem-se montada a realidade que impede os trabalhadores de morarem próximos aos seus empregos ou de ter acesso a um meio de transporte barato, confortável e eficiente, para levá-los de bairros distantes a seus empregos, o que os obriga a invadir áreas próximas a seus locais de trabalho.
     Juntando o fato de que o sistema eleitoral permite que as grandes empresas incorporadoras de imóveis, assim como as de transporte urbano, sejam grandes financiadores de campanhas políticas de prefeitos, governadores, vereadores e deputados, temos o caldo de cultura que impede a mudança.
     Nenhum partido fala mais nisso, temendo perder contribuições de campanha e omodelo segue imutável.
     Paralelamente a isso, temos um discurso desenvolvido insistentemente pelo Sinduscon, Sindicato das empresas da construção civil, e apoiado pelos grandes meios de comunicação, que martela nos ouvidos dos eleitores a existência de um gigantesco deficit habitacional que exigiria a construção de 5 ou 10 milhões de casas.
     Na verdade esse déficit não existe. Não disponho dos dados atualizados, mas o número de famílias sem acesso a moradia no Brasil é mais ou menos semelhante ao número de imóveis fechados, aguardando valorização, ou subutilizados como residências de veraneio. Déficit seria falta de habitações e não é isso o que ocorre. O problema é de concentração da propriedade imobiliária nas mãos de uma minoria.     
     Democratizar a propriedade imobiliária no Brasil exigiria a coragem de fazer uma reforma urbana que agaravasse com impostos muito altos a propriedade da segunda, terceira ou quarta residência para uma mesma família, ou através de outros mecanismos, diversos, usados há séculos nas organizadas cidades européias e norte-americanas, para impedir que a especulação domine a vida das cidades criando essas enormes distorções.
     Uma reforma urbana verdadeira também exigiria do governo o enfrentamento do lobby dos transportes urbanos, construindo metrôs e trens suburbanos, articulados com linhas locais de ônibus, subsidiados, em cidades de porte médio e grande.
     Não é necessário esperar que uma cidade se torne inviável, como Salvador, para dar início à construção de um transporte de massas. Ele tem de ser planejado com antecedência, orientando o próprio crescimento da cidade ao longo de suas linhas, de forma a evitar os gargalos.
     Enquanto isso não ocorre, o discurso do déficit alimenta os lucros da indústria da construção civil e os milhões de imóveis constuídos vão parar nas mãos da mesma minoria de sempre, impedindo que o problema se resolva.
     Tudo com o apoio da Rede Globo e suas imitadoras, amigas dos negócios e do capitalismo selvagem tupiniquim. Depois vem o cinismo das próprias televisões, que faturam audiência em cima das tragédias dos deslizamentos em favelas e invasões, cobrando soluções dos políticos que eles mesmos ajudaram a manter no poder, através dos esquemas de favorecimentos dos lobbys empresariais. Tudo uma grande armação nojenta.
     A evolução da política no Brasil nos últimos 40 anos vem seguindo uma linha mais ou menos lógica, caminhando da direita mais abjeta, discípula da ditadura pura e simples, representada pela ARENA-PDS-PFL-DEM, para a corrupção do PMDB, depois para a direita sofisticada representada pelos engravatados do PSDB com seus programas neo-liberais de privatização e finalmente para as grandes coligações lideradas pelo PT, com sua social-democracia voltada para o saneamento fiscal e o aumento da renda das massas trabalhadoras, enquanto estimula o desenvolvimento do capitalismo nacional e a inserção do Brasil na economia globalizada, olhando o povo com certa condescendência, como quem entende que a povo precisa de uma classe média que o tutele, por não saber defender seus próprios interesses.
     Muitas questões restam mal resolvidas no Brasil. A educação continua horrível, o meio ambiente continua sendo destruído, a amazônia desmatada, a saúde pública continua refém da medicina privada, os transportes continuam maltratando diariamente centenas de milhões de brasileiros, habitantes das nossas grandes cidades e as favelas pedem uma reforma urbana corajosa.
     Os partidos que estão aí não oferecem respostas a essas questões, além das declarações de boas intenções de praxe. É o caso de nos perguntarmos qual será nosso próximo passo.

Bom carnaval a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza
     
    


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Khadafy massacra seu povo

     A guerra civil na Líbia se aproxima do seu desfecho, com as forças revoltosas se aproximando para atacar Trípoli, num movimento de pinça. Grande parte das forças armadas desertou para o lado dos rebeldes, dezenas de embaixadores renunciaram a seus postos, mas o ditador quer sangue. Não admite que o povo posso derrubá-lo com simples protestos.
     Na sua mente insana, deve se considerar algum ser superior, uma espécie de deus, sem o qual a Líbia não poderia viver. Seus filhos, executam sistematicamente um massacre contra o povo, tenatndo salvar seu poder e uma fortuna que, segundo os jornais, chegaria quase a 6 bilhões de dólares.
     Seu fim deverá ser triste e melancólico, como o de tantos outros ditadores que se arrogam poderes divinos. A nação árabe, liberta e democratizada, deverá se transformar numa grande potência com toda aquela riqueza em petróleo, fazendo jus ao papel que os árabes tiveram na história da humanidade.


Fantasmas no Bradesco II

     Seguindo as instruções da agência 0270 do Bradesco, em Vitória da Conquista, liguei para um número que eles chama de fonefácil que me informou que não aceitava ligações daquele tipo de aparelho (celular pré-pago). Tive então que trocar meu aparelho por um de conta, já que não tenho telefone fixo na cidade.  
     Na primeira vez em que fui atendido, contei a história do cartão de crédito que ressuscitou sozinho depois de 10 anos e a atendente mandou que eu esperasse, até que a ligação caiu. Na segunda vez a mesma coisa. Na terceira vez outra atendente me disse que a agência é que teria que resolver o problema.
     Voltei lá na quinta feira, dia 24 de fevereiro e outra moça já estava me encaminhando para um terceiro balcão, quando ameacei entrar na justiça para pedir danos morais, já que os pesadelos com o sequestro voltaram, depois de anos. Um gerente que ia passando ouviu a conversa e rapidamente me encaminhou para uma moça que também rapidamente cancelou o cartão e estornou a "dívida" de R$24,00. Mesmo assim mandou que eu voltasse a agência na próxima semana, porque o sistema demorava a reconhecer o estorno, para cancelar a conta (que segunda ela não estava cancelada, mas apenas inativa).
     Com essa serão três idas a agência, para resolver um problema criado pelo banco.
     Interessante observar a diferença entre os anúncios do Bradesco na TV e a realidade das suas agências. Caixas automáticos antiquados, velhos e sujos. Filas enormes e funcionários que dizem que não podem resolver seu problema porque são terceirizados. Na TV parece tudo tão bonito... Como é mesmo o slogan? O Bradesco sempre ao seu lado. Só se for pra inventar cobranças indevidas e não deixar a gente nunca em paz.


Tente tirar uma carteira de trabalho em Vitória da Conquista

     É facílimo. Basta ir ao SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão) as 5,30 da manhã, se arriscando a ser assaltado, entrar numa fila para pegar uma senha (sim, as 5,30 já tem fila), porque só dão poucas senhas por dia. Depois é só esperar o SAC abrir, às 8 horas, ou às 14,00, dependendo do número da senha que você pegou e apresentar seus documentos, tirar a foto e esperar uns 30 dias para receber o documento.
     Isso é que é respeito ao cidadão: serviço rápido e eficiente.
     Mas se você quiser entrar no SAC durante o expediente, verá que está tudo vazio e que todos aqueles atendentes, diante daquele monte de computadores, passam a maior parte do tempo na internet ou tomando cafezinho.
     Beleza! Sem medo de ser feliz!
Histórias de outras vidas (41)


Pressentimentos na estrada


     Desde a minha juventude comecei a ter pressentimentos. Percebia quando alguma coisa grave havia acontecido, quando algo se aproximava, via objetos à distância, embora nunca tenha dado muita importância a isso, nem tenha conseguido alguma vez controlar esse dom. Era, e ainda é, uma coisa que se manifesta quando quer, de forma imprevista.
     Me lembro, quando morei um ano na Bélgica entre 1974 e 75, que tinha de esperar um tran, um pequeno bonde urbano, para ir para casa, em Bruxelas. Era o bonde 32 Forest, que demorava muito a passar a depender da hora. Às vezes, eu e minha companheira voltávamos tarde da noite para casa e o 32 levava 30, 40 minutos para aparecer. De tanto esperar aquele tran, comecei a perceber sua aproximação antes que ele fizesse a curva, depois da qual ficava o ponto onde o tomávamos.
     Eu dizia: ele já está vindo, vai virar agora, e voilá: lá estava ele.
     Muitos anos depois, quando me formei, em 1981, fui morar em Salvador e aluguei uma caixa postal numa agência dos Correios no shopping Iguatemi. Passava por lá pelo menos uma vez por semana (numa época em que não haviam, e-mails) e ao entrar no grande corredor que ia dar na agência, que se localizava ao fundo, imagens apareciam na minha mente com os objetos que me aguardavam lá dentro.
     Em 1984 morei alguns meses em São Paulo, onde fui procurar emprego. Alugava um quarto numa pensão e saía de manhã cedo para me candidatar aos anúncios que apareciam no jornal. À tarde não tinha o que fazer e frequentava a biblioteca Mário de Andrade, onde ficava lendo.
     Muitas vezes, durante a leitura, era assaltado por uma imagem. Um envelope me esperava na pequena mesa ao lado da porta da pensão. Corria para lá e lá estava o envelope, da mesma cor e tamanho que eu havia visto.
    Esses pressentimentos também se manifestavam em relação à pessoas. Às vezes a simples presença de alguém me causava enorme aflição, coisa que eu não entendia. Só mais tarde tinha condições de verificar que aquela não era uma boa pessoa, ou por ser oportunista, ou por ter sentimentos negativos, os mais diversos.
     Essa última qualidade foi se acentuando com o passar dos anos, o que me levou a uma certa necessidade de me isolar, já que muitas pessoas me causavam sensações desagradáveis de incômodo, principalmente em ambientes de trabalho.
     Ultimamente esse dom, que não sei se é benéfico ou não, tem se manifestado de outra forma muito desagradável: através da comida. Ao ingerir alimentos preparados por outra pessoa posso perceber os sentimentos que aquela pessoa tinha ao prepará-los. Assim frequentemente passo mal ao comer coisas feitas por pessoas com sentimentos ruins, sejam em relação à mim ou ao mundo. Uma pessoa que cozinha com raiva, ou com tristeza, me transmite sentimentos através da comida que prepara, o que me provoca constantes mal-estares. Daí às vezes eu preferir comer na rua ou preparar meus próprios alimentos.
     Como os leitores podem observar esse dom nem sempre é uma coisa boa, pois na maioria das vezes provoca transtornos, que não ocorreriam a quem não tivesse essa percepção. Mas pelo menos uma vez ele me salvou a vida de uma forma impressionante.
     Como sempre viajei muito de carro desenvolvi uma técnica de viagem que inclui muitas formas de prevenção de acidentes, como nunca ultrapassar sem ter certeza absoluta que não vem um carro no sentido oposto, manter um velocidade que considero segura para o veículo, a estrada e a hora em que estou viajando etc. Mas ma vez, há muitos anos, eu seguia de Salvador para Recife pela chamada Via Parafuso, uma estrada sinuosa que corta caminho pelo Pólo Petroquímico da Bahia. Era uma tarde, num dia de semana, e o dia estava claro, bem iluminado, a estrada vazia, o carro em ordem, tudo tranqüilo, me convidando para aumentar a velocidade e aproveitar a delícia de uma viagem despreocupada.
     Porém, aos poucos um sentimento de inquietação começou a me assaltar. Era uma angústia que eu não sabia de onde vinha. Primeiro pensei em algo que poderia ter acontecido à minha família ou a alguém próximo, mas logo tive a certeza de que não era isso. Era algo na estrada, algo indefinido, e o sentimento foi se acentuando e me levando a tirar o pé do acelerador, até reduzir a velocidade do veículo a pouco mais de 50 Km por hora. Até que ao atingir o cume de uma pequena ladeira, dei de cara com dois caminhões parados lado a lado, um na mão e outro na contramão. Eles haviam parado no meio da pista e desligado os motores. Os motoristas tinham saído e se afastado dos veículos como se estivessem esperando alguém vir em alta velocidade para se chocar e se preparassem para assistir à tragédia.
     Como eu vinha em baixíssima velocidade pude parar antes e fiquei observando aquela cena insólita. O motorista que estava estacionado na contramão, então, sorriu para o outro como quem diz “não deu certo”. Foi para seu caminhão e retirou-o da estrada.
     Nunca me esqueci daquele sorriso malicioso, de uma malícia assassina.
     Eles estavam decididos a matar alguém para se divertir. Depois poderiam alegar que tinha havido um acidente para, quem sabe, receber o seguro do caminhão.
     Agradeci a Deus, então, pelo dom que permitiu salvar minha vida daqueles assassinos de estrada e nunca mais deixei de prestar atenção nos sinais que recebo quando estou dirigindo.
     Às vezes, até hoje, recebo esses sinais de forma confusa: algo errado vem por aí. Então trato de me prevenir, parando um pouco para esticar as pernas, ou reduzindo a velocidade e redobrando a atenção.
     E até hoje também, não tenho a liberdade de escolher minhas amizades ou as pessoas do meu convívio, já que o pressentimento faz as escolhas por mim.



Boa segunda-feira a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza