Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

segunda-feira, 21 de junho de 2010


Segunda-feira

     Prezados amigos

     Devido a algumas observações de leitores deste blog de que eu estava enchendo suas caixas de mensagens de tanto escrever e de que não estava sendo possível acompanhar direito o blog, com a leitura e posteriores comentários, resolvi publicar somente às segundas-feiras, e por isso mesmo, resolvi mudar o nome do blog para Segunda-feira.
     Passei também a usar meu nome inteiro Ricardo Stumpf Alves de Souza, ao invés de apenas Ricardo Stumpf pois, por incrível que pareça, existem vários Ricardos Stumpf na internet brasileira (procurando rapidamente achei seis).
     Espero que os leitores gostem e continuem mandando críticas e sugestões.


Trevas e meio-ambiente

     Viajando pela chapada neste final de semana, pude observar a grande transformação que a pavimentação de uma estrada pode causar. Povoados antes isolados, servidos por caminhos de terra, se transformam com a chegada do asfalto.
     Tudo muda e com a estrada chegam inúmeros outros benefícios, trazidos pelo trânsito de veículos e pessoas que vão passando, interagindo com aquelas povoações antes esquecidas, comprando, vendendo, trazendo novas idéias.
     O asfalto vai acabando com uma civilização antiga, que estava ali há séculos, parada, evoluindo muito lentamente e dá lugar ao choque do progresso. Sem dúvida pode-se dizer que o progresso é uma coisa boa na vida das pessoas que estavam longe dele. Mas junto com ele chega um novo padrão civilizatório que no Brasil é muito descuidado com o meio-ambiente e possui padrões culturais e estéticos muito precários.
     Se os antigos povoados e vilas se caracterizam pelas casas de adobe, com seus beirais, seus quintais, sua simplicidade digna, que dialoga muito bem com a rua ou caminho que lhe passa defronte, formando um conjunto harmônico, cujos signos principais, baseados em tradições antigas, são a base para o reconhecimento mútuo dos seus cidadãos, no novo padrão desaparece a harmonia, substituída por uma estética oportunista, feita de caixotes sem nenhuma beleza, surgem os muros, os portões de garagem, que vão bloqueando o visual do interior das propriedades, e a rua vai se tornando isolada das casas e as pessoas isoladas umas das outras, e vem o lixo, o descuido com o que está do lado de fora e o egoísmo, que só se importa com o que é de cada um, deixando o coletivo para o poder público, incapaz de substituir com seus poucos recursos, a responsabilidade comunitária que havia antes, sobre tudo e todos.
     Se é preciso vencer as trevas com o progresso, é preciso também estabelecer novos padrões de civilização e urbanização, com normas muito mais rigorosas a respeito das construções e também implementando iniciativas que reforcem o espírito coletivo das comunidades, evitando que as famílias se isolem e passem a agir de forma predatória, prejudicando o meio-ambiente natural e social de onde vivem.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Histórias de outras vidas (17)    

RUA ANDRÉ DA ROCHA

     Era uma pensão, quase no centro de Porto Alegre. Eu havia abandonado Brasília e a casa de meus pais para tentar me encontrar e construir uma vida própria. O ano era 1969 e eu tinha apenas 18 anos.
     Nessa pensão conviviam estudantes, vendedores, jovens do interior cheios de esperança em busca de uma vida nova na capital e senhores de meia idade, já sem esperança de construir alguma coisa na vida, arrastando suas lembranças e frustrações.
     Preenchi logo meus dias com várias atividades, mas os domingos eram especialmente parados. No segundo andar da pensão, no quarto da frente, havia um pequeno balcão em frente ao qual ficava minha cama. Lembro que a porta do balcão tinha um vidro quebrado, através do qual eu via a lua à noite, numa Porto Alegre ainda romântica.
     Aos domingos, me sentava em frente ao balcão para observar a vida na rua André da Rocha, onde se localizava um quartel do exército, dentro do qual um jovem capitão chamado Lamarca, se preparava para desertar e tentar começar uma revolução armada no Brasil. Eram tempos difíceis, de ditadura.
     O Rio Grande do Sul tinha para mim um fascínio de uma cultura diferente, cheia de tradições que preenchiam o vazio cultural que se sentia em Brasília uma cidade nova, com pessoas de várias partes do país, ainda sem tradições próprias e que apenas começava a sua história.
     Algumas coisas, no entanto, eram estranhas para mim. Coisas que eu entenderia melhor nos anos que ainda conviveria no Rio Grande. Aquele dia eu veria uma dessas coisas.
     Era final do ano, uma tarde quente de domingo, já quase verão, quando me postei no balcãozinho a apreciar a pachorra daquele dia, que parecia não reservar nenhuma surpresa possível.
     Foi quando ouvi uma gritaria vindo da parte baixa da rua. Uma mulher vinha subindo a rua e parecia despertar um tumulto por onde passava. Gente surgia nas janelas e se tomava de grande excitação à sua passagem, gritando e xingando. Eu não entendia o que estava acontecendo e fiquei atento.
     O tumulto veio crescendo na minha direção e percebi então que se tratava de uma mendiga, uma mulher negra e andrajosa. Suspeitei então que fosse uma dessas tristes figuras que povoam nossas cidades, enlouquecidas pela miséria e que despertam a crueldade natural das crianças, que lhes atiram coisas, debochando delas e das coisas sem sentido que dizem.
     Mas à medida em que o tumulto se aproximava, percebi que não era bem isso. Era apenas uma mulher negra e pobre que estava passando pela rua, talvez catando lixo por ali, e as pessoas que estavam lhe hostilizando não eram crianças, mas homens e mulheres brancos, adultos racistas, que riam e debochavam dela, por ser negra e pobre.
     Fiquei chocado. Pensei em descer e ir protegê-la, mas fiquei com medo da turba que se formava ao seu redor, atiçando-a com paus, ofendendo-a com gritos de macaca e outras expressões racistas.
     Outros jovens da pensão, atraídos pelos gritos vieram olhar e também se incorporaram, excitados, à bagunça que se fazia em torno da pobre mulher. Ela reagia como podia, respondia aos impropérios dizendo coisas que eu não conseguia ouvir, mas a turba respondia com mais agressões e deboches.
     Era uma demonstração explícita de racismo. A primeira contradição exposta da cultura riograndense, entre muitas outras que eu conheceria até me formar em Porto Alegre, doze anos depois.
     Custei para entender que nem sempre tradições são uma coisa boa. Na maioria dos casos apenas impedem que a sociedade evolua, embora às vezes também preservem bons valores. No caso do Rio Grande, várias tradições se misturam, entre elas às dos descendentes de imigrantes europeus, que trouxeram esse racismo em suas bagagens e a dos gaúchos da fronteira, mescla de índios com portugueses e espanhóis, que formam os CTGs, ou Centro de Tradições Gaúchas, com suas mulheres vestidas de prendas, seus homens de bigode e bombachas e muito machismo.
     Nada disso me agrada.
     Depois desse episódio, toda vez que alguém vem defender algum tipo de conservadorismo, em nome de alguma tradição, me lembro da mulher, acossada, lutando para não cair, fugindo daquela gente que se achava tão civilizada e penso em como é bom mudar, como é importante evoluir.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

segunda-feira, 14 de junho de 2010

    


Histórias de outras vidas (16)


HÉLIA

O ano era 1973, o lugar, Santiago do Chile.
     Eu estudava arquitetura em Santiago, fugido do ambiente político da ditadura brasileira, e arranjei um apartamento, que dividia com meu amigo Juca.
     Diga-se de passagem, que conseguir um apartamento em Santiago era tarefa quase impossível e tivemos que tomar, como se dizia na gíria revolucionária, aquele imóvel, usado pela organização política a que Juca pertencia, só para fazer reuniões, uma vez por semana.
     Quiseram nos expulsar, mas Juca os convenceu de que era um absurdo manter o imóvel vazio com tanta gente necessitada, no caso ele mesmo, que não queria mais morar com os pais, e então nos cederam o espaço, com a condição de que na hora das tais reuniões semanais, eu saísse uma meia hora antes, para não ver quem estava chegando.
     Vivemos ali por alguns meses, até o golpe militar de Pinochet.
     O apartamento era muito freqüentado por amigos e namoradas, minhas e de Juca. Algumas, amigas, vinham nos visitar em duplas, e acabavam ficando, uma comigo e outra com ele. Dentre essas, me veio um presente especial: Hélia.
     Era uma morena, alta e muito bonita, se não me engano de Goiás, descendente de árabes. Seu pai, do Partido Comunista Brasileiro, havia conseguido que ela fosse estudar medicina na URSS e ela havia ido para Santiago, para pegar o vôo da Aeroflot, a empresa soviética que fazia a linha Santiago-Moscou.
     Hélia teve que ficar algum tempo em Santiago, esperando a hora e a turma com a qual ela embarcaria. A Universidade Patrice Lumumba, de moscou era só para estrangeiros, e recebia muitas turmas de toda parte. Entrar para aquela universidade era um privilégio que os russos distribuíam aos filhos de dirigentes comunistas ou a líderes revolucionários pelo mundo afora.
      Sua primeira visita foi como a de tantas outras. Temperada pela interesse mútuo e pelo sexo, que praticávamos livre e revolucionariamente, num mundo ainda sem aids e sem camisinhas. Ela voltou muitas vezes e entre nós foi nascendo algo maior.    
      Começamos a nos ver sempre, saíamos juntos e as pessoas começaram a nos reconhecer como um casal. Juca ficava com a amiga dela, mas logo mudou para outra. Eu, sempre em busca de amores, muito mais do que de sexo, permanecia com Hélia.
     Um dia a chamaram. Levei-a ao aeroporto de Pudahuel. Lá um rapaz russo, estranhamente parecido com um americano, dava ordens e exigia uma série de coisas. Hélia me disse que os russos eram assim mesmo, tinham fixação por organização e tudo tinha que sair perfeito.
     O alto-falante chamou seu vôo. Nos beijamos longamente, fizemos promessas de reencontros e cartas e ela embarcou. Fui para a varanda do aeroporto (naquela época os aeroportos tinham varandas abertas, de onde se podia apreciar os aviões).
     O Iliushin 62, um jato com 4 turbinas grudadas na cauda, um par de cada lado, foi para a cabeceira da pista e lá ficou parado, por um tempo que me pareceu interminável. Logo se movimentou e sumiu no céu, buscando um destino do outro lado do planeta.
     Para mim a União Soviética era quase um outro planeta e de lá nunca pude receber nenhuma notícia, pois o golpe militar me pegou de férias no Brasil e não pude retornar.
     Por onde andará Hélia, tantos anos depois? Terá ela se formado, será um médica em Goiás, será ainda uma socialista, agora que a URSS nem existe mais?
     Aquela foi uma das inúmeras vezes que a felicidade pareceu escapar de minhas mãos. Consegui tudo que queria na vida, menos um grande amor para dividir a existência, coisa que não é fácil para ninguém.
     Às vezes ainda vejo aquele avião levando Hélia da minha vida, uma vida que nunca mais seria a mesma.
     Abraço a todos    
     Ricardo Stumpf

domingo, 13 de junho de 2010


    Histórias de outras vidas (15)


     UM LUGAR TRANQUILO

     O ano era 1996. O lugar, uma cidadezinha da Chapada Diamantina, um verdadeiro presépio: Mucugê. Eu vinha de Salvador, com meus filhos de 7 e 8 e um amigo, indo para Brasília e resolvemos cortar caminho pelo Parque Nacional, numa estrada belíssima, que acabava de ser asfaltada. 
     Ficamos hospedados na Pousada Santo Antonio, muito simples e limpa, onde fomos atendidos com muita simpatia. Passamos um dia inteiro em excursões pelos arredores, banhos em poços misteriosos, passeios em grutas e ruínas de garimpos. À tarde, ao retornarmos, a cidade repentinamente ficou sem luz.
     Resolvi tomar banho logo, já que a cidade é fria e não queria correr o risco de tomar um banho gelado.
     Eu e os meninos nos banhamos no chuveiro frio, mas meu amigo resolveu esperar a luz voltar.
     Saímos para jantar mas o único restaurante self-service que havia na cidade tinha aquela tipo de bandejas aquecidas eletricamente, onde ficam as comidas para os clientes se servirem. Sem luz, a comida estava fria. Descobri um bar que tinha uma chapa a gás e resolvi comer uns hamburguers, com os meninos. Meu amigo disse que não ia comer aquilo, que preferia esperar a luz voltar.
     Assim, banhados e alimentados, com a cidade na mais completa escuridão (era uma noite sem lua), voltamos à pousada e coloquei os meninos para dormir. Meu amigo, irritado, sem tomar banho e sem comer, resolveu se deitar também. Como ainda era cedo fui para a porta ver o movimento, como todo mundo faz quando fica sem luz e não há TV para nos entreter. Sentei num banco de madeira na calçada, onde muitas outras pessoas, sem ter o que fazer, vieram se sentar também e começou a conversa.
     O dono da pousada era um jovem e logo se formou uma turma de rapazes e moças, seus conhecidos. Ao meu lado sentou-se uma moça que disse ser enfermeira. Nos apresentamos e ela me disse que Mucugê era um lugar muito tranqüilo, coisa que eu não duvidava. Em seguida me contou que lá apareciam regularmente uns discos voadores, que muita gente já tinha visto e que ela havia atendido no hospital um garimpeiro todo queimado por um raio que teria sido lançado por tripulantes de um disco, surpreendidos pelo tal sujeito, de madrugada, em volta de sua cabana.
     _Lugar tranqüilo? Pensei comigo.
     Depois ela passou a me contar sobre o assalto ao Banco do Brasil, quando bandidos armados tinham invadido a pequena cidade, rendido os poucos homens da polícia militar, esvaziado o cofre e seqüestrado o gerente.
     _Muito tranqüilo o lugar, pensei já meio cismado.
     Passado algum tempo alguém surgiu do escuro, alvoraçado, contando que um armazém havia sido roubado no centro da cidade, próximo dali. Disse que haviam visto o vulto sair de dentro do velho casarão com um casaco comprido, golas levantadas, andando rapidamente. Só depois que ele desapareceu no escuro, viram a porta aberta e a caixa registradora vazia.
     Excitados, passaram a discutir sobre quem poderia ser o ladrão que se aproveitara do apagão para atacar. Pela descrição, alto e magro, chegaram à conclusão que só poderia ser um tipo que chegara à pouco de São Paulo e tinha hábitos meio reclusos, logo identificados como de um drogado.
     Passado algum tempo, no meio da conversa animada, alguém apareceu com uma garrafa de licor de genipapo e a animação aumentou. A essas alturas meu amigo que não conseguia dormir, sujo e com fome, levantou-se e veio ver o que estava acontecendo, tomando também seus golinhos de licor.
     À toda hora chegavam notícias de gente que surgia do nada, na escuridão, excitados com novas teorias sobre o caso do roubo. Não demorou muito para que alguém viesse com a notícia explosiva: o ladrão tinha entrado pelo telhado do armazém, pulado sobre o balcão e, nesse gesto, deixado cair sua carteira com todos os documentos! E não é que eles estavam certos? Era mesmo o tal sujeito esquisito.
     Achei engraçado, um ladrão deixar cair os documentos assim.
     Logo a polícia civil encostou para ouvir a opinião do grupo.
     Alguém disse que o ladrão deveria estar escondido numa das pequenas grutas (que eles chamam de locas) que existem às centenas nas belas formações rochosas em torno da cidade. Outro discordou dizendo: aposto que ele está lá no anel viário pedindo carona pra fugir.
     O policial disse que iria fazer uma ronda pra ver se achava o cidadão, mas um dos jovens argumentou que ao ver o carro da polícia, provavelmente o ladrão se esconderia. Alguém sugeriu que eles fossem num carro particular e que se ele pedisse carona o deixassem entrar, então poderiam prendê-lo. Logo o delegado apareceu com um Gol creme, particular, e seguiu com o proprietário ao volante, com mais um policial no banco de trás.
     A conversa se animou novamente, enquanto a escuridão total prevalecia. Muitas hipóteses eram levantadas enquanto a garrafa de licor não parava de correr. A primeira já se esgotara e alguém se encarregara de trazes mais duas.
     Logo a bomba correu: o ladrão havia pedido carona ao carro com os policiais, que pararam para que ele entrasse e em seguida deram voz de prisão. Exatamente como aquele grupo de jovens havia previsto.
A essas alturas já eram duas horas da manhã e eu começava a ficar muito sonolento apesar de toda aquela agitação. Com o caso resolvido, achei melhor ir dormir antes que acontecesse mais alguma coisa.
     A energia elétrica só voltou às cinco da manhã, mas como eu estava bem banhado e alimentado, dormi sossegado, ao contrário do meu amigo, que reclamava arrependido de não ter se banhado e jantado e nem aproveitou direito uma noite tão interessante, naquela cidadezinha tão tranqüila.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sábado, 12 de junho de 2010



Rapidinhas de Rio de Contas


Zofir

A destruição da Nega do Zofir, obra de arte pintada sobre uma pedra às margens da estrada Livramento-Rio de Contas, apenas revela o descaso com que a cultura é tratada no município.
O Acervo do fantástico artista riocontense Zofir Brasil continua abandonado, deixado por conta da família, como se aquele não fosse um patrimônio de todo o município. A Nega do Zofir deveria ter tido algum tipo de conservação e tombamento, para que fosse evitada sua ruína. Existem outras obras do artista pintada em pedras, na mesma estrada. Será que elas vão passar a merecer alguma onservação?
Essa é a cidade baiana da cultura abandonada, ou melhor, vendida para os fariseus do turismo.

Crimes ambientais
Lixão de Rio de Contas: o outro lado do paraíso  

Muita reclamação na Associação dos Pequenos Produtores Rurais, pela atuação de fiscais ambientais do IMA, sob supervisão da Secretaria local do Meio Ambiente. Muita arrogância e violência contra os pequenos agricultores, mas o maior crime ambiental do município, o lixão, cometido pela própria Prefeitura, não é objeto de fiscalização e multa. Como sempre é fácil ser duro com quem não tem poder político. Abrem-se porteiras, invadem-se residências, sem mandado judicial e até destampar panelas pra ver se estavam cozinhando caça ilegal já fizeram. Enquanto isso, não temos uma gaiola para guardar embalagens de agrotóxicos no município, nem uma política para incentivar a agricultura orgânica. Isso é o que dá entregar o meio ambiente para ongueiros, com visão fragmentada, incapazes de formular uma verdadeira política pública.
Teatro











Projeto de reforma e ampliação do Teatro São Carlos

 Incluída no PAC das cidades históricas, será liberada verba para reforma e ampliação do Teatro São Carlos. O blog Notícias de Rio de Contas e outros meios divulgaram a notícia. Naturalmente ninguém se lembrou que o projeto arquitetônico é meu e que a inclusão do teatro no PAC é fruto de uma luta minha dentro e fora do IPHAN e, faça-se justiça, uma luta começou por iniciativa de Jorge Sá, que elaborou o primeiro dossiê sobre o teatro e o entregou em mãos ao governador Jaques Wagner, já com o projeto.
Agora o mérito é da Prefeitura? Reclamam das minhas críticas, mas se essas coisas estão acontecendo é porque pessoas se empenharam para consegui-las, apesar do notório desinteresse dos nossos atuais gestores.

Política

Correm rumores insistentes na cidade da aproximação entre Dr. Pedro (DEM) e Neto do PT local, ou melhor, da facção que controla o PT atualmente, pois parte do partido está no governo de Márcio. Se houver um fundo de verdade nisso, corremos o risco de ver uma polarização entre um candidato apoiado pelo PT e o DEM, contra o PMDB de Márcio, que por sua vez é ex-PT.
Parece que não existem mais partidos, idéias nem princípios, Tudo virou uma salada geral, um leguedê político. E a população como é que fica?

Abraço a todos

Ricardo Stumpf


quarta-feira, 9 de junho de 2010



    
Histórias de outras vidas (14)

DORMINDO NA RUA

     O ano era 1972. Eu morava em Brasília, recebi uns atrasados e resolvi ir à Bahia ver o carnaval. Aquele foi o primeiro carnaval badalado da Bahia, parecia que o Brasil todo resolveu ir pra lá. Foi o ano de Chuva, suor e cerveja, sucesso de Caetano Veloso.
     Eu conhecia Salvador mas nunca tinha ido lá sozinho. Estava naquela fase em que a gente se solta no mundo e começa a viajar e de repente me resolvi: peguei um ônibus para Belo Horizonte e de lá outro para Salvador.
     Na poltrona ao lado, no segundo ônibus, um rapaz da mesma idade, Agnelo, com o mesmo destino. Nos tornamos amigos e dividimos algumas coisas nessa aventura maluca de ir pra Salvador ver o carnaval.
     Naquela época a rodoviária de Salvador ainda era outra, situada em um bairro muito feio. Aliás a rodoviária também não era bonita. Esse foi o primeiro choque que tive com a Bahia, que eu ainda idealizava das canções de Caymi. Descemos do ônibus em pleno carnaval, com gente cantando pelas ruas, onde imperava uma mistura de cheiro de urina com lixo apodrecido pela chuva. Tudo muito louco.
     Depois de conseguir chegar ao centro, rodei por todos os hotéis e não achei uma vaga, até que consegui um lugar para dormir no sofá do corredor de um hotel antigo, na Avenida Sete. Com o pouco dinheiro que tinha comprei uma mortalha, que naquele tempo era uma espécie de camisolão de tecido muito fino que ia até os pés (hoje não passa de uma camiseta) e saí pelo centro vestindo apenas uma sunga por baixo.
     Naquela época não havia esses blocos particulares que hoje dominam o carnaval e mantém os foliões que não pagam (pipocas) fora de suas cordas.Tudo era público e democrático e podia-se ir atrás do trio elétrico, brincando e dançando sem maiores riscos de sofrer algum tipo de violência.
     No meio da folia encontrei um amigo de Brasília que era sobrinho do Arcebispo Primaz do Brasil, cuja sede ficava no Campo Grande em um belíssimo casarão antigo de azulejos brancos. Ele me chamou para ir ao encontro de seu tio e fui com ele, vestido como estava, de mortalha. Fiquei sozinho esperando na sala, olhando toda aquela arte da época colonial, que enchia meus olhos de estudante de arquitetura da UnB.
     Foi uma sensação estranha. Eu sozinho na casa do Arcebispo do Brasil vestido para o carnaval, perambulando por aqueles salões enormes. Não aparecia ninguém e fui ficando meio sem graça. Depois cismei que estava sendo observado e resolvi ir embora, sem esperar mais.
     Reencontrei Agnelo e conhecemos umas meninas que nos convidaram a ir a sua casa. Naquela época era fácil se hospedar em Salvador. Havia uma enorme hospitalidade por parte da população, que abria suas casas para os visitantes, de uma forma que encantava quem era de fora.
     Os dias se passaram e eu ficava na Avenida Sete tomando cervejas, comendo ovos cozidos coloridos (aqueles de botequim) e pulando o carnaval até o amanhecer. Quando tudo acabou fui convidado a ir a Arembepe para conhecer a colônia hippie. Fomos eu e Agnelo, juntos mais uma vez.
     Chegando lá, encontrei o amigo de Brasília novamente com outros conhecidos. Alguns deles me olhavam de modo estranho, porque eu, sendo filho de uma família classe média, havia rompido com meus pais e morava sozinho numa república, vivendo do meu trabalho. Era como seu eu tivesse rompido com o mundo que eles conheciam e me lançado em um universo paralelo que eles temiam.
     Engraçado, porque alguns desses rapazes se diziam progressistas, o que na época queria dizer de esquerda, ou seja, adeptos do socialismo, mas não lhes agradava que alguém como eu passasse das idéias aos fatos e rompesse de verdade com aquele mundinho pequeno-burguês ao qual eles também pertenciam. Esses mesmos progressistas,gostavam de revelar seu desprendimento do mundo fumando maconha e a erva rolava solta por lá.
     Ficamos, eu e Agnelo, num casebre de pescador, alugado por um conhecido desse pessoal de Brasília, para curtir a ressaca de carnaval com amigos, num estilo bem despojado. Ele era o chefe e nos recebeu para fazer parte da sua tribo. Mas não gostei dele, achei que nos olhou com um ar superior, como se fossemos gente comum demais. 
     Eram filhinhos de papai curtindo uma de hippie, mas na verdade apenas a fim de consumir drogas. Era evidente que quando acabasse o verão aqueles caras voltariam para suas vidas habituais, suas faculdades, carros e empregos, suas ambições de ganhar dinheiro e conquistar um lugar importante naquela sociedade que eles fingiam desprezar.
     Durante o dia saíamos para a praia convivendo com alguns hippies verdadeiros. Conheci também os pescadores, alguns já viciados na droga que os hippies traziam. O lugar era lindo, mas havia um problema: não havia muita comida. Eu tinha gasto quase todo o meu dinheiro e não havia nada para comprar.
     De noite, fazia-se uma roda dentro do casebre e corria a maconha, que eu recusava, criando um constrangimento geral. Então eu saía para caminhar e voltava tarde da noite. Às vezes rodava também uma garrafa de cachaça e dessa eu bebia um pouco.
     Fiquei três dias sem comer. No primeiro senti muita fome, depois o estômago foi amortecendo. Tomava uma água de coco e comia a polpa, depois um gole de cachaça e ia levando.Uma vez, percebi que eles haviam posto alguma coisa na cachaça, pois estavam oferecendo e rindo. Recusei e saí. Depois encontrei Agnelo dançando nas dunas, completamente alucinado e acompanhado por uns sujeitos que riam dele.
     Resolvi ir embora. No dia seguinte, cedo, peguei minha trouxa e fui para o ponto de ônibus. Eu tinha 16 cruzeiros para ir até Brasília, numa viagem de mais de 2.000 Km. Cheguei a Salvador e fui andando em direção a saída para Feira de Santana. Peguei uma carona até o entroncamento com a Rio-Bahia. De lá fui numa carreta vazia, junto com outros jovens, até Governador Valadares e depois consegui que me levassem até Ipatinga.
     Cheguei em Ipatinga à noite e não tinha onde dormir. Como eu estudava arquitetura na UnB e tinha minha carteira de estudante, me ocorreu pedir abrigo na casa do estudante local, onde esperava ter a solidariedade dos colegas mineiros. Bati e fui atendido por uns rapazes da faculdade de agronomia. Expliquei minha situação, mostrei a carteira da UnB e eles ficaram gozando com a minha cara. Um dizia pro outro:
     _E aí cara, o que vc acha, a gente deixa esse sujeito dormir aqui?
     E davam risada.
     Depois de alguns minutos percebi que não iam me abrigar e ainda estavam debochando da minha dificuldade. Saí caminhando pela rua, sem destino e sem dinheiro. Já era tarde. Passei num ponto de ônibus e vi uma família inteira dormindo enrolada em panos brancos. Percebi que não eram mendigos porque os panos estavam limpos e havia umas trouxas por perto. Eram retirantes e deviam estar vindo do nordeste, como eu, sem dinheiro, provavelmente rumo a São Paulo.
     Eu estava muito cansado e desanimado e senti naquela família, pai, mãe e filhos pequenos, uma possibilidade de encontrar um pouco do calor humano que eu precisava. O problema era não assustá-los. Me deitei bem quieto, perto de uma das crianças, e adormeci sem fazer barulho. Acordei com os primeiros clarões, me levantei em silêncio e parti, agradecendo mentalmente a acolhida involuntária daquela família.
     Com dificuldade consegui outras caronas que me levaram próximo à Belo Horizonte. Me lembro que anoiteci num posto de gasolina, na serra, fazia frio. Eu fumava e fui pedir um cigarro a um casal que estava jantando. O homem me tratou mal:
     _O que você quer?
     _Um cigarro, respondi.
     _pegue logo seu cigarro e saia daqui!
     Peguei  e saí pensando que talvez eu já tivesse tratado alguém necessitado com a mesma arrogância daquele sujeito. Quando o posto fechou um funcionário da lanchonete me deixou dormir em cima do balcão. De manhã me deu café com leite e pão com manteiga.
     De lá segui com minhas caronas até Paracatu, já próximo à Brasília. Uma camionete Chevrolet parou para abastecer, com uma família. Mostrei minha carteira de estudante e o homem falou:
     _Se você é mesmo estudante de arquitetura, me diga o teorema de Pitágoras!
     _A2=B2+C2, respondi sem titubear.
     Ele sorriu e me mandou entrar. Era um professor da UnB e me deixou na porta de casa. Cheguei na minha república extenuado, faminto, mas satisfeito. Eu tinha visto coisas que não conhecia. Vi a solidariedade dos pobres, o escárnio dos ricos, a falsidade dos discursos libertários dos maconheiros, vi um Brasil em movimento, vi a Bahia, com todas as suas alegrias e tristezas, sua compaixão e sua crueldade e senti que aquela noite em que dormi na rua entrei em contato com algo profundo, uma força que aquelas pessoas adormecidas me transmitiram e que eu nunca mais perdi, uma fé que me reconstruiu o sentido da existência.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Gueto de Gaza

     Os fins justificam os meios, dizem aqueles que acham que podem tudo.
     Os meios condicionam o fim, dizem os mais sábios, que sabem que por caminhos errados não se chega a nada de bom.
     O sonho judeu de reconstrução de uma pátria começou errado, com os terroristas de Menahen Begin explodindo hotéis, com hóspedes dentro, para forçar a saída dos ingleses e do seu mandato sobre a Palestina e expulsando famílias inteiras de suas casas para explodi-las em seguida, criando milhões de refugiados e expulsando um povo inteiro de sua terra.
     O holocausto não foi só de judeus, mas também de ciganos, de comunistas, de homossexuais e teria se estendido aos negros e latinos, considerados raças inferiores pela loucura nazista. E hoje essa imensa tragédia serve de desculpa para as atrocidades cometidas pelo Estado de Israel contra os palestinos e contra todos que os apoiem.
     Israel pode tudo, protegido pela grande irmão Estados Unidos, que dá guarida aos seus crimes. Não respeita nenhuma resolução da ONU, ao contrário, debocha das Nações Unidas bombardeando suas escolas e usando seus funcionários como escudos humanos em Gaza. Não se submete a Agência Internacional de Energia Atômica e todos sabem que tem armas nucleares, mas exige cinicamente que o Irã se submeta, que respeite as ONU e a AIEA.
     Decretaram o bloqueio à Faixa de Gaza, porque não gostaram que os palestinos tenham eleito um governo do Hamas, como se eles pudessem decidir quem vai ganhar as eleições palestinas.
     Agora sequestraram embarcações que levavam ajuda humanitária para romper o cerco à Faixa de Gaza, transformada em um triste remake do Guetto de Varsóvia (onde os nazistas mataram milhares de judeus lentamente, de fome) e ao matarem nove civis desarmados, ainda afirmaram que eles mesmos foram os culpados, porque tiveram a audácia de resistir ao sequestro.
     O impressionante é a conivência da grande imprensa. Ao sequestro de navios em águas internacionais, estão chamando abordagem com mudança de rota. Imagine se isto fosse feito pelo Irã ou pela Venezuela, como não estaria sendo chamado pelos nossos jornalões e pelas TVs submissas aos interesses do decadente império americano.
     Tristes tempos. E são esses os que dizem defender a democracia.
     Duas grandes forças atuam hoje na cultura humana; uma quer a união dos povos e outra insiste em manter nações armadas, dominadoras e militaristas.
     Graças a Deus estamos no primeiro grupo, nós que somos descendentes dos navegadores lusos que há 600 anos abriram as portas de todos os mares; dos tupis, por sua vez descendentes dos que descobriram e conquistaram o continente americano há mais de 40.000 anos e dos reis africanos, que resistiram a 300 anos de escravidão nas américas e que descendem, eles mesmos, da raça fundadora da humanidade, dos primeiros homo-sapiens que saíram da África para conquistar o mundo há mais de 200.000 anos.
     Somos herdeiros de muitos impérios, muitas conquistas e muitas derrotas também. Herdeiros de sofrimentos e guerras, aprendemos que a melhor maneira de viver é a paz e que só na fraternidade é possível construir um futuro. Os que pensam em vencer escravizando, dominando, conquistando, não aprenderam nada.
     Israel apenas repete nos outros, o que sofreu. Aprendeu com seus algozes a oprimir, matar, negar o direito de povos inteiros à vida. Não tem futuro, assim como não terão futuro os descendentes dos bárbaros que conquistaram Roma e ainda sonham com novos impérios.
     Israel se encaminha novamente para um desfecho trágico, porque seu povo escolheu o caminho errado, porque se tornou apenas instrumento de um projeto de dominação imperialista.
     Muito sangue ainda correrá até que a justiça seja feita e as coisas voltem para o seu lugar, até que os próprios judeus se libertem desse projeto sionista, expansionista e opressor, mas já passa da hora do Brasil mudar sua posição em relação à Israel. Está na hora de repensar as relações com um governo que age como bandido.

     Abraço a todos
     Ricardo Stumpf

domingo, 30 de maio de 2010


Histórias de Outras Vidas (13)


LADRÕES DE FEIJOADA


     Pois é, amigos leitores, essa história se passou em Ilhéus, em 1998.
     Eu era amigo de uma turma muito alegre. Havia de tudo: meninas bonitas, rapazes jovens, outros mais velhos, gays, às vezes os pais de alguém também se enturmavam, enfim, gente que gostava de se divertir, beber e comemorar a vida.
     Assim iam escorrendo os fins de semana, sempre com muita cerveja, encontros do pessoal, churrascos e reggaes. Pode-se dizer que foram alguns verões divertidos.
     Um dia, um casal gay resolveu fazer uma festa de casamento, ou de ajuntamento, com uma feijoada. Assim nos reunimos para comer e comemorar a união dos dois rapazes, que apostavam numa nova vida juntos.
     A panela de feijão era impressionante, não só pelo tamanho, mas pela quantidade de carnes, das mais diversas, e da melhor qualidade, que transbordavam. Sem dúvida a comida daria para alimentar meio batalhão e o aroma delicioso que exalava, não deixava dúvida sobre as qualidades gastronômicas do cozinheiro.
     O dono da casa se esmerou em servir a todos, enquanto seu parceiro preparava caipirinhas e buscava na esquina as cervejas que faltavam. A tarde passou muito agradável, e quando finalmente o calor cedeu e a brisa da tarde percorreu o apartamento, todos já estavam saciados e razoavelmente embriagados.
     O problema começou na hora da saída. Uma amiga, convidada, perguntou se podia levar um pouquinho de feijoada para seu vizinho, que era muito amigo de todos e enquanto os donos da casa permaneciam na sala, a jovem, muito discretamente, tirou da sacola algumas tigelas plásticas, dessas de microondas, e foi para a cozinha providenciar a encomenda.
     Fiquei por último observando da varanda os amigos irem em direção ao ponto de ônibus, se despedindo como sempre, com muitas risadas e brincadeiras. 
     Na cozinha, como acontece nessas ocasiões, reinava o caos. Tampinhas de cerveja pelo chão, copos e pratos sujos, garrafas por toda a parte, bagaços de limão das caipirinhas que tinham caído fora da lixeira.  E no canto, reinando absoluta, a imensa panela de feijoada...vazia!
     Meus amigos não entediam direito do que havia acontecido. Eles olhavam para a panela e não se lembravam, preferindo deixar pra pensar no dia seguinte. Tratei de ir embora.
     Muitos dias se passaram e o assunto caiu no esquecimento.
     No fim do ano resolvi me mudar para Vitória da Conquista e para me despedir, resolvi fazer uma festa de Natal para as crianças do bairro São Miguel, uma colônia de pesca onde eu morava.
     Convidei vários amigos, entre eles o casal de rapazes e sua turma. Eles me ajudaram a organizar uma programação intensa: fizemos uma campanha de doações de roupas, para a realização de um bazar, que arrecadou os recursos para as despesas da festa. Foram muitos dias de preparação.
     O dia da festa transcorreu com muita agitação: promovemos uma gincana pela tarde, com premiação em medalhas para as três primeiras equipes. À noite houve o Natal ecumênico, com representante de várias igrejas, terminando com bolo, refrigerante e distribuição de presentes para as crianças.
      As crianças do bairro compareceram em peso fazendo uma tremenda algazarra, tanto durante a gincana, quanto após a cerimônia ecumênica, na hora de comer o bolo. O ponto alto da competição foi a corrida de gaiamuns (uma espécie de carangueijo azulado que vive na terra), disputadíssima, vencida pelo menor de todos, que em meio a uma fila de crianças gritando desesperadamente, correu reto para a chegada, levando sua equipe à vitória.
     Na cozinha, montanhas de comida, trazidas por vários participantes, entre elas uma enorme panela de feijoada presenteada pelo presidente do Partido Comunista, do qual eu era militante.
     Ao final da distribuição do bolo, os participantes foram de dispersando e a turma muito cansada, resolveu encarar a cozinha. Alguém então se lembrou da feijoada, esquecida no meio de tanta confusão.
     _Puxa, esquecemos de servir a feijoada! - eu disse, dirigindo-me à panela.
     _Vou guardar para amanhã.
     Mas quando tirei a tampa...nada. A panela estava vazia, raspada.
     Lembrei então da menina, a mesma da festa dos rapazes, e do seu vizinho, que estavam presentes e não desgrudaram da cozinha o tempo todo. Sim eram eles. Só podiam ser eles, com suas enormes sacolas cheias de tigelas plásticas estrategicamente preparadas.
     Lembrei-me então de vários aniversários infantis que eu tinha visto na Bahia, onde as crianças ficavam morrendo de vontade de comer o bolo depois do parabéns, mas este era deixado para depois e ia desaparecendo rapidamente nos tapewares, levados por várias mulheres, ...um pedacinho pra D. Lourdes, outra para a comadre, um para minha filha que ficou doente e não pode vir.
     Era o famoso bolo de fotografia, intensamente fotografado, mas nunca devidamente comido pelas crianças. Era um tipo de gente que adorava carregar comida de festas.
     Mas esse caso era diferente, não era como levar pedacinhos de bolo autorizados pelo dono da festa: era uma especialidade em roubar feijoadas inteiras, completas!

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quarta-feira, 26 de maio de 2010


ENERGIA E ALEGRIA

     
      Prezado amigo leitor.
      Quem assistiu ao programa Roda Viva, na TV Brasil, esta semana, teve a oportunidade de conhecer Jorge Caldeira, o historiador que escreveu História do Brasil com empreendedores (Editora Mameluco – São Paulo, 2009) e também Mauá, empresário do Império, O Banqueiro do Sertão, A nação mercantilista, entre outros.
     Caldeira defende uma revisão histórica, que nos liberte do maniqueísmo dos nossos atuais livros de história, que geralmente apresentam o povo brasileiro sendo formado como vítima das decisões cruéis de senhores de engenhos e colonizadores escravocratas.

     Nessa visão tradicional, o povo é sempre passivo, nunca é agente de sua própria história e fica sempre à mercê das boas intenções de algumas almas boas das elites, que defendem seus interesses, inclusive contando a sua história.
     Já escrevi antes sobre este assunto aqui, quando analisei a obra de Steve Biko, o sul-africano que morreu lutando contra o apartheid na África do Sul. Os negros sul-africanos também tiveram esse problema da tutela ideológica das elites brancas que julgavam saber o que eram melhor para os negros, pobres vítimas incapazes de construir seu próprio destino.
     Steve Biko rompeu com essa tutela com o livro Escrevo o que eu quero, onde questionou a visão passiva que os brancos tinham dos negros e propôs novos caminhos para o movimento negro, se afastando dos liberais brancos (na cultura anglo-saxã, ao contrário da nossa latina, o termo liberal designa pessoa de esquerda. No Brasil ser liberal significa ser de direita).
     A tradição historiográfica brasileira é um pouco assim, na medida em que quem escreveu sobre o povo foram sempre pessoas de famílias abastadas e/ou tradicionais, como Sergio Buarque de Hollanda e Caio Prado Junior.
     O que Jorge Caldeira tentou explicar no debate (ainda não li o livro) é que as análises históricas desprezaram a participação popular, principalmente na economia, já que seu livro tem principalmente um viés de história econômica.
     Em nenhum momento do debate ele levou a questão para o lado ideológico, nem contestou a validade dos estudos que formaram a visão histórica que temos hoje, apenas diz que não havia pesquisa histórica suficiente na época em que Caio Prado e Sergio Buarque escreveram suas obras fundamentais (década de 1930), para compreender o que era a economia colonial.
     Embora a direita tenha comemorado (a Veja adorou), na verdade Caldeira tenta desqualificar essa vitimização do povo brasileiro e do país-nação em que nos transformamos, que só serviria para construir desculpas para o nosso atraso econômico histórico, não contribuindo para enxergarmos os fatos históricos de forma objetiva.
     E quando olha para os novos fatos encontrados observa que nossa população foi muito ativa, procurando sempre alternativas econômicas, interligando as regiões através de tropeiros, garimpeiros, e outras iniciativas pessoais em busca de ganhos, que contradiziam as diretrizes colônias de manter o Brasil sempre trabalhando exclusivamente para a metrópole, criando assim um dinâmico mercado interno que fez nossa economia, já no século XVIII ser maior que a de Portugal.
     Resumindo, ele quer dizer que o povo sempre se virou sozinho, não ficou esperando a política, nem a legalidade e nem mesmo a independência para procurar melhorar de vida. A distância entre uma legalidade feita de cima e uma economia feita por baixo até hoje é facilmente verificada, observando a economia informal.
     Embora o SEBRAE insista com seu modelito de abrir empresas e pagar impostos, os mais pobres sabem que a melhor maneira de prosperar é não se registrar, trabalhar na informalidade o máximo possível, e tratar de fazer sua própria economia, pois as leis favorecem sempre os grandes em detrimento dos pequenos.
     O povo trabalha como pode, mas é ele que reinventa o Brasil todos os dias. O conceito de empreendedorismo é muito mais amplo do que propõe a direita. Não se trata de apoiar o capitalismo, nem de nenhuma questão ideológica, mas de ter iniciativa e não ficar esperando pela tutela dos governos nem pelas promessas dos políticos. Lula é o exemplo do empreendedorismo na política, é o retrato do Brasil reinventado ou reinterpretado à luz do seu povo ativo e prático.
     Fiquei muito satisfeito ao encontrar as idéias de Jorge Caldeira, porque sempre as defendi, sem contar com nenhum respaldo no meio acadêmico. Meu primeiro artigo publicado (1979) foi Arquitetura e Cultura Popular, onde defendia a aplicação da visão estética e construtiva das edificações espontâneas, na arquitetura feito por arquitetos.
     Na vida pessoal sempre admirei e procurei me aproximar de pessoas do povo (inclusive em dois casamentos) por sentir essa energia, mas sempre encontrei barreiras em pessoas que diziam que eu me relacionava com pessoas que não estavam à minha altura.
     Interessante isto, como essa crença na incapacidade do povo de pensar é arraigada nas nossas classes médias, quando na verdade, onde encontro incapacidade de formulação é na própria classe média, sempre copiando idéias importadas da Europa ou Estados Unidos, sempre surfando nas ondas do momento e sempre procurando se mostrar afinada com as idéias de pessoas famosas e prestigiadas.
     Jorge Caldeira nos deu um dado surpreendente sobre isto. Ele disse que a primeira obra literária a apresentar um personagem popular na primeira pessoa (eu) foi de Guimarães Rosa, na década de 30. Até aí o povo era sempre visto de fora (ele), por alguém que o analisava com curiosidade.
     Tenho dois filhos negros e me lembro de como eles detestavam estudar a história da escravidão na escola. Eles diziam que só tinha coisa ruim e que eles não gostavam daquele passado, que deveria haver alguma coisa de bom. Talvez Jorge Caldeira tenha aberto uma nova janela sobre a nossa história, nos mostrando de onde veio tanta alegria e tanta energia desse povo maravilhoso que é o brasileiro.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf
    

segunda-feira, 24 de maio de 2010



   

    Amor Virtual

     Prezados amigos leitores, estive no Rio de Janeiro em abril para rever amigos e resolver problemas particulares na minha cidade natal. Aproveitando a visita e o reencontro com uma amiga chilena, resolvemos procurar outra amiga comum dos tempos de Chile, que não víamos há 25 anos.
     As buscas na internet e nos velhos catálogos telefônicos que encontramos no apartamento do Rio não foram suficientes para encontrá-la e então resolvemos tentar seu último endereço, na verdade o enderêço de seus pais, que já eram idosos na última vez que a vimos.
     Meio sem jeito, minha amiga chilena desceu do carro em Copacabana, enquanto eu dava a volta no quarteirão, pois vagas ali eram impossíveis, e foi à portaria do edifício perguntar se alguém já tinha ouvido falar na nossa amiga. O porteiro disse que não apenas a conhecia, mas que ela ainda morava ali e estava em casa.
     Voltamos mais tarde com aquela tensão de quem vai para um reencontro sem saber direito o que vai acontecer, depois de tanto tempo. Mas fomos muito bem recebidos e posso dizer, fiquei mesmo emocionado por rever uma pessoa de quem sempre gostei muito.
     Ela continuava a mesma, alegre, engraçada, inteligente, bem informada e ligada em tudo. Conversamos e rimos muito, lembrando histórias do passado e pondo os assuntos em dia.
     Foi quando ela falou de um amigo virtual. A princípio achei que era apenas alguém que ela tinha conhecido na internet, mas depois, pelo seu tom de voz, percebi que havia algo maior.
     Imagine, amigo leitor, que ela conheceu um internauta tcheco, isso mesmo, da República Tcheca, e que eles conversaram durante anos pela internet, em inglês, se vendo apenas pela webcam, mas trocando idéias sentimentos e experiências de vida.
     Pelo pouco que conversamos deu para ver que a correspondência virtual havia se transformado numa grande amizade e mais do que isso, em amor.
     Mas seria possível alguém amar outra pessoa assim, à distância, sem nunca tê-la tocado ou sentido seu cheiro, ou posto seus olhos pessoalmente sobre ela?
     Ela me disse então, que estava muito preocupada, porque sabia que ele tinha um câncer e já faziam algumas semanas que ele, antes tão assíduo nas conversas, não entrava na internet.
     Segui minha viagem para Brasília e depois para Rio de Contas e só aí ela (agora na minha lista de bate-papo) me disse que ele realmente havia morrido. Depois de mandar muitas mensagens, finalmente havia recebido uma resposta de uma neta de seu amigo, dizendo que ele havia falecido durante o sono no mês de março.
     Muito emocionada me disse ainda que passou a se corresponder com essa jovem e através dela teve certeza de que era um bom homem, amado e respeitado por todos.
     Minha amiga agora se consola dizendo que ganhou uma neta, mas não esconde sua dor pela perda de um amor, que embora virtual, foi tão verdadeiro quanto qualquer outro.
     Isso me fez refletir sobre a imensa capacidade de amar que os seres humanos tem e de como essa enorme energia dentro de nós transforma constatemente o mundo, apesar daqueles que teimam em colocar o dinheiro no centro das coisas.
     Uma vez um desses filósofos disse a respeito do que importava na política de uma nação: é a economia idiota! A frase ficou famosa e é repetida sempre que alguém tenta pensar em ideais elevados, como uma forma de trazer as pessoas de volta à realidade.
     Mas não sei se por ser um idealista crônico, um sonhador de nascença, um construtor de utopias, prefiro acreditar que o que move o mundo é essa gigantesca energia do amor que existe dentro de nós e que foi tão bem resumida por aquele amigo que nos visitou há dois mil anos:
     Amai-vos uns aos outros!

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf
    
    
    

sábado, 22 de maio de 2010

Histórias de outras vidas (12) 

 O LAGO

     Todos haviam ido embora e eu fiquei sozinho em Manaus. Na verdade havia deixado meu pequeno filho com meus pais, em Brasília, por causa de uma hepatite e voltei à Manaus para trabalhar, ainda em recuperação, com medo de perder o emprego.
     O tempo foi passando e acabei passando aquele ano, de 1992, praticamente sozinho. Nos finais de semana me aborrecia na cidade quente, ia ao cinema no shopping, sábado à noite, e aos domingos de manhã ao centro comprar a Folha de São Paulo para ler em casa.
     Um dia cansei daquilo e resolvi arriscar. Eu sabia que aos sábados saíam barcos do porto flutuante em direção às praias do Rio Negro, onde os aguardavam acampamentos previamente montados para receber os turistas de fim de semana.
     Pagava-se de acordo com a dormida. Levando rede para dormir no acampamento era bem barato. Barraca de camping era mais caro e cabine no barco mais ainda. Não era preciso comprar com antecedência. Era só chegar, escolher um e embarcar.
     Peguei minha rede e embarquei em um que já estava cheio, com uma turma animada. O barco saiu em festa com o som à toda no bar, que ficava no tombadilho superior, e depois de mais ou menos uma hora aportamos em uma imensa praia de areias brancas, numa das ilhas Anavilhanas, situadas ao norte de Manaus.
     O acampamento se dividia em duas partes. Uma mais alta, numa espécie de duna, uns cem metros à frente do barco e outra numa lateral à esquerda, onde a areia descia em direção a um braço do rio.
     Como todos, procurei também um lugar para me instalar, o que no meu caso significava procurar um lugar para atar minha rede. Eu já tinha aprendido que dormir na mata, mesmo no meio de um monte de gente, tem os seus segredos. Um deles é tratar de ficar a pelo menos 1,5m do chão, para evitar ser alcançado por cobras ou outros bichos peçonhentos que se arrastam por perto durante a noite.
     Tive sorte e encontrei duas árvores próximas, que cresciam numa encosta, de forma que suas raízes ficavam na beirada e os troncos se inclinavam sobre o declive. Assim, a rede ficava próxima o suficiente da beirada, para que eu pudesse subir, e suspensa sobre o pequeno abismo de areia criado pela duna, me deixando fora do alcance de qualquer animal que tentasse alcança-la à partir do solo.
     Era julho, mês de seca, e a probabilidade de chuva era remota.
     Ali me estabeleci e procurei logo fazer amizade com as pessoas que se instalaram ao redor, procedimento de segurança e também de integração, já que mais do que um acampamento, tratava-se de uma espécie de happening, uma verdadeira festa ao ar livre, atividade eminentemente coletiva. Dentre essas pessoas percebi logo uma moça gordinha e simpática.
     Durante a viagem visto que outra moça me olhava e comentava com os amigos. Sua turma parecia ter grande cumplicidade com ela, que exercia algum tipo de liderança sobre eles, e todos me olhavam esperando que eu aceitasse a paquera e ingressasse na sua tribo, como amante da sua líder.
     Estranhei aquela situação, me sentindo intimado a me submeter aos caprichos daquela liderança desconhecida. Como a gordinha também me olhava de modo bastante receptivo, resolvi ignorar o outro grupo e me aproximar dela.
     Nos entendemos bastante bem e tratamos de ir comprar cervejas e participar do luau que ia se armando em volta de uma grande fogueira, enquanto o som do barco enchia a praia com o som brega, então em moda em Manaus.
     Curiosamente ficamos sabendo que a parte baixa do acampamento era gay, e a de cima hetero. Achei engraçado e fiquei satisfeito de poder contar com a alegria contagiante daquele pessoal.
     Nossa noite foi alegre, mas sem intimidades, já que não tínhamos um espaço com a privacidade necessária. Entrar na floresta à noite, nem pensar. Dormimos cada um na sua rede, embora próximos e de manhã bem cedo nos levantamos para o banho de rio.
     O acampamento foi despertando aos poucos e reinstalando o clima de festa e brincadeira. Após o café, servido no barco, resolvemos explorar um pouco os arredores.
     Saímos pela lateral, atravessando o acampamento gay e fomos seguindo pela margem do pequeno igarapé que desembocava ali. Ficamos surpresos ao ver ao longe uma pequena cabana, com um morador idoso na porta, sem dúvida um pescador, pois lidava com uma rede de pesca. Ele nos acenou amigavelmente de longe, com um cigarro de palha pendurado na boca.
     Seguimos por uma trilha que certamente era usada por ele e pouco adiante, observamos que havia água. Seguimos em frente e fomos dar num lago. Era incrível a clareza daquelas águas cristalinas, em comparação com as do Rio Negro, a apenas uns 100 metros dali.
     Contornamos o lago, com suas bordas de areias brancas cobertas de uma relva macia e encontramos um lugar aprazível para o banho. Mergulhamos e sentimos o frescor daquelas águas.
     Era estranho estar ali, tão próximos do acampamento que ainda podíamos ouvir seus ruídos, e próximos também de um morador (como existem tantos às margens dos rios amazônicos, gente que cansou da cidade e resolveu viver sozinho), mas ao mesmo tempo nos sentíamos completamente isolados.
     Sentimos um conforto muito grande e também uma segurança estranha. Parecia que aquele lugar tinha sido feito para nós, que estava nos esperando. Ali permanecemos um bom tempo, a princípio nos banhando e depois nos entregamos ao amor, com uma calma que parecia vir daquele lago. Nos amamos dentro da água várias vezes, numa espécie de febre de sensualidade, uma energia tectônica, que aquelas águas nos transmitiam.
     Passamos ali a manhã toda e enfrentamos uma tormenta tropical repentina, cheia de raios de trovões, quando nos refugiamos sob a copa de uma árvore. Foi aí que vimos o estranho fenômeno dos raios horizontais. A faísca riscou o lago, saindo da margem que ia dar na cabana para a outra e continuou sobre a terra, em direção ao Rio Negro. Ficamos assustados e imóveis. Foi a única vez que aquele solitário habitante se dirigiu a nós. Saindo de sua pequena habitação veio ver se estávamos bem e disse que aquele tipo de descarga elétrica era muito perigosa, principalmente se estivéssemos dentro d´água, disse ele.
     Depois o sol reapareceu e nem vimos mais a hora passar. Não sentimos fome nem sede, e depois de um tempo que não conseguíamos mais medir, fomos despertados do torpor pelos apitos do barco.
     Resolvemos voltar e o encontramos já pronto para partir, parado na curva do igarapé, apenas esperando por nós.
_Estamos apitando há mais de meia hora. Já íamos embora, pensamos que vocês tivessem se perdido. Íamos chamar a polícia para procurar vocês! - nos gritou o capitão lá de cima.
     Subimos ao barco envergonhados, sob os olhares de todas aquelas pessoas, e fomos embora com a sensação de que havíamos vivido algo diferente, algo que durante a volta foi desaparecendo, como se despertássemos de um sonho.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

quarta-feira, 19 de maio de 2010



Uma nova esperança

     O acordo entre Brasil, Turquia e Irã, e a reação negativa dos Estados Unidos, me fizeram lembrar das palavras de Sadam Hussein quando viu seu país ser invadido em 2003.
     Esta será a mãe de todas a batalhas, disse ele.
     Na época isso pareceu mais uma fanfarronada de um ditador, mas hoje acho que talvez ele estivesse enxergando com mais clareza do que nós, aqui no chamado ocidente, um futuro sombrio.
     A guerra começou no Iraque, depois passou para o Afeganistão e logo para o Paquistão. Os atentados terroristas já sacodem a Índia regularmente, país que estava fora do conflito quando começou a invasão do Iraque. Agora a histeria de Hillary Clinton contra o Irã mostra claramente que o militarismo, que domina a política externa de EUA e Israel, quer iniciar uma nova guerra.
     Por trás de tudo isto está a absurda situação do Estado de Israel, país que não respeita nenhuma resolução da ONU, que não aceita inspeção da Agencia Internacional de Energia Atômica, que tem armas nucleares clandestinas, conhecidas por todos, que pratica uma política racista e expansionista invadindo continuamente o território palestino, expulsando e massacrando impunemente sua população, baseado no apoio incondicional dos Estados Unidos para fazer o que quer, desrespeitando a tudo e a todos.
     Os americanos parecem dispostos a pagar qualquer preço para proteger Israel porque esse pequeno país funciona como uma ponta-de-lança dentro do mundo islâmico, usada para garantir a presença dos interesses norte-americanos na área, especialmente assegurando o fornecimento de petróleo, do qual os EUA são completamente dependentes para manter sua economia perdulária.
     Corremos o risco de ver essa guerra se expandir continuamente, já que ela alimenta um sentimento de fanatismo religioso anti-americano e anti-ocidental que não dá mostras de enfraquecimento, ao contrário, só parece ficar mais e mais decidido na medida em que o mundo muçulmano é mais agredido.
     O Brasil mostrou sua capacidade de negociar dando uma possibilidade à paz.
     Com isso nossa política externa nos deu, pelo menos, a garantia de que não nos envolveremos nos conflitos, ficando fora do alcance dessas bombas.
     A possibilidade de sermos ouvidos pelas grandes potências parece pequena, pois elas não querem novos atores mexendo no "seu" tabuleiro de xadrez e acredito que esse foi o principal recado que Hillary quis passar ao desprezar o acordo.
     Mas nossa voz foi ouvida e como toda mensagem nova talvez custe a ganhar crédito. Com certeza vai conquistar alguns interlocutores abrindo uma brecha nessa triste lógica do militarismo e da dominação do mundo por meia dúzia de países.
     Pode ser o primeiro passo de uma nova esperança para a humanidade.
    
     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

terça-feira, 18 de maio de 2010



Estresse Hospitalar

     Pois é, amigos leitores, em recente visita ao Chile, fiquei hospedado na casa de amigos, onde conheci uma jovem estudante de medicina, que se dizia muito desapontada com a profissão. Ela havia trancado a matrícula na faculdade e se debatia numa crise de consciência sobre continuar ou não o curso.
     Curioso, perguntei os motivos de tanta desilusão. Ela me respondeu que não concordava com a maneira como eram tratados os pacientes nos hospitais, que médicos e enfermeiras não eram preparados para lidar com eles como seres humanos, mas apenas como corpos, cujas necessidades afetivas e psicológicas não eram levados em consideração.
     Sua família achava que isso era bobagem, uma crise tardia de adolescência ou algo assim, e naturalmente se preocupava com seu futuro querendo que ela se formasse. Mas gostei da maneira como ela encarava a questão e fiquei pensando se aquilo não era fruto de uma nova geração que já encontra os problemas básicos principais resolvidos (a existência de um serviço de assistência médica eficiente no Chile) e começa a olhar por ângulos novos uma prática antiga que pode ser aperfeiçoada.
     Pois na semana passada me lembrei muito da jovem chilena, quando minha mãe teve que ficar internada por oito dias devido à uma pneumonia.
     A princípio muito eficiente, o hospital em Brasília tomou todas as medidas necessárias para debelar a infecção além de lhe proporcionar um atendimento correto no quesito hotelaria, com um quarto individual, com geladeira, televisão, ar-condicionado, cama para acompanhante, etc.
     Os primeiros dias, quando nossa preocupação era com a infecção, transcorreram ótimos, mas à medida em que ela melhorava e recobrava sua percepção das coisas ao redor começou a se queixar de ruídos. Passei uma tarde com ela e realmente percebi que havia uma obra num andar abaixo e se ouviam barulhos abafados de furadeiras e marteladas.
     Depois percebi que a parede, na sua cabeceira, fazia divisória com o balcão da enfermagem e de lá vinham também ruídos, junto à parede.
     Mas ela se queixava também de ruídos à noite, quando não havia obras nem muito movimento na enfermagem. Era ruídos de passos no corredor, que vibrava muito e reverberava os saltos de sapatos das funcionárias.
     Depois ela foi parando de comer. Dizia que estava enjoada, que nada lhe apetecia e começou a sentir dores nas pernas e coceiras nas costas. Percebi que a comida (aquela típica de hospital) quase não variava.
     Pedimos fisioterapia no quarto para as pernas e ela passou a ter dores no peito. Assustado chamei o médico que fez um eco-cardiograma e um eletro-cardiograma que não indicaram nada. Por via das dúvidas ele a deixou mais um pouco em observação e mandou lhe dar remédios contra enjoos.
     Aí ela não conseguiu mais dormir, o que levou o médico a recitar calmantes. Então começou a vomitar: mais insegurança do médico e mais remédios.
     Por fim começou a confundir as coisas, deixando todo mundo apavorado.
     Então me lembrei da chilena e também do que eu conhecia de minha mãe e percebi que ela estava apenas estressada do hospital, de tantos dias deitada, de tanto ser furada por injeções e soros, de tantos remédios recebidos nas horas mais impróprias, ministrados por uma enfermagem que parecia não enxergá-la como uma pessoa, mas apenas como um objeto de trabalho.
     Calmantes para dormir as 4 da tarde, laxantes ás 11 da noite, exames de sangue à 1 da manhã para verificar a glicemia, acendendo a luz na sua cara depois que, com muita dificuldade ela conseguia cochilar e outras práticas abusivas que a iam deixando cada vez mais fora de si
     O médico aparecia uma vez por dia, muito gentil, mas não ficava mais de 10 minutos. Se alguma coisa acontecesse na sua ausência era preciso esperar o outro dia ou ligar pra ele. Expliquei a ele meu ponto de vista, que acabou se convencendo e dando alta no oitavo dia.
     Quando chegamos em casa, depois de todo o sofrimento, ela comeu um prato enorme de comida, deitou-se na sua cama, dormiu 12 horas e acordou em ótimo estado, provando que eu estava certo: aquilo era estresse causado pelo próprio hospital, que depois de algum tempo deixou de ser um meio de cura e passou a ser, ele mesmo, a doença.
     O engraçado é que os médicos e enfermeiras não se dão conta disso. Parece que nunca ouviram falar no assunto e que isso é chatice de família.
     Hospitais públicos querem se livrar logo dos pacientes, para economizar. Hospitais particulares querem retê-los ao máximo para lucrar. Nenhum deles dialoga efetivamente com eles e não percebem o quanto de influência do próprio hospital pode resultar no agravamento do seu estado.
     Estava certa a jovem chilena.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf
    

segunda-feira, 17 de maio de 2010




Histórias de Outras Vidas (11)

O HOMEM QUE CABIA ENTRE OS MEUS DEDOS


     O ano? Nem sei. 1957, 58...
     Só sei que eu era pequeno e ficava em casa de manhã com minha mãe, enquanto meu irmão mais velho ia para a escola e meu pai ia trabalhar. Meu avô morava com a gente e gostava muito de sair e nunca dizia aonde ia.
     Nosso apartamento, do antigo IAPI, na Rua Marquês de Abrantes, zona sul do Rio, ficava em um enorme edifício que começava de frente para a rua e ia se desdobrando em quatro, cinco portarias, cada uma com seu elevador, sendo que a última era a nossa, virada para o Morro Azul, nos fundos.
     O terreno do edifício subia pelo morro até um imenso muro, que devia ter uns cinco metros de altura.
     Do lado de cá do muro o Rio de Janeiro branco, de classe média, do lado de lá, o mundo do trabalho. Negros pobres, misturados a brancos e mulatos igualmente pobres, se espremiam numa favela que crescia pelas encostas de rocha nua, rumo às árvores da mata atlântica, situadas no alto, onde havia uma chácara.
     Nosso apartamento era grande, três enormes quartos, como já não se fazem hoje. A sala, avarandada, se debruçava sobre o morro, indiferente à pobreza e ao sofrimento daquela população, carregando latas d’água na cabeça como em algum pitoresco samba antigo.
     Da lateral da varanda observávamos a centenária Casa dos Expostos, conhecida antigamente como A Roda, onde mães que tinham filhos de amores proibidos deixavam as crianças recém-nascidas na porta, numa plataforma giratória, que permitia o abandono sem que a pessoa fosse vista de dentro. Depois era só tocar o sino que as freiras vinham recolher o enjeitado.
     Meu quarto, que eu dividia com meu irmão, tinha uma janela lateral de onde se via uma nesga da rua, por onde passavam bondes na mão e na contramão, ônibus, automóveis, aqueles carrinhos com duas rodas puxados por um homem, conhecidos no Rio como burros-sem rabo, e outros prestadores de serviço que já não se vêem mais, como os afiadores de faca, vendedores de vassouras e carvoeiros, na sua maioria portugueses. Dali via-se também a entrada da favela com seu burburinho incessante, hoje substituída pela entrada da estação Flamengo do metrô.
     O grande edifício de 12 andares era uma invasão de modernidade no que restava do Rio antigo, colonial, presente ali em todos aqueles negros e portugueses. Talvez por isso foi morada de pessoas importantes:   Clarisse Lispector e seu filho Pedro, os irmãos Assis Brasil, gêmeos geniais, um pianista e o outro saxofonista, a primeira garota propaganda da TV carioca, que anunciava as lojas Tonelux.
     Depois de tomar café e fazer meus deveres do colégio, que minha mãe transformava num exercício militar de obrigações e horários rígidos, eu brincava sozinho. Meu armário de brinquedos, situado no meu lado do quarto, era embaixo da janela, convenientemente protegida por uma grade de madeira.
     Eu gostava de pegar os carrinhos e colocar no parapeito de mármore. Me abaixava e olhava por dentro e as pessoas que passavam na rua ficavam do mesmo tamanho dos brinquedos. Tinha a sensação de que os brinquedos eram de verdade, os carrinhos misturados aos automóveis da rua e aos transeuntes.
     Às vezes, também, acompanhava pessoas que iam passando, colocando-as entre meu indicador e o polegar, como se fossem também meus brinquedos e falava com eles como velhos conhecidos.
    Um dia, sozinho no quarto, peguei entre os meus dedos um homem que ia passando e fui conversando com ele, imerso no meu mundo infantil. Mas de repente: surpresa! O homenzinho se materializou, daquele tamanho mesmo, e ficou em pé entre meus carrinhos. Me olhou e falou comigo.
     Desperto da brincadeira, fiquei paralisado olhando para ele.
     Me olhava e falava comigo com uma certa malícia, como se estivesse se divertindo com aquilo.
     Assustado gritei pela mãe. Ela respondeu:
     _Que é? Mas não veio.
     O homenzinho continuava ali, andando e falando comigo, com uma voz baixa e rouca. Com medo corri para chamá-la.
     _Mãe, tem um homenzinho na janela!
     Ela me disse, um pouco irritada, que estava ocupada, mas veio até o quarto. Não havia mais nada.
     _Ele estava ali! Apontei.
     _Ele quem?
     _O homenzinho que ia passando na rua e eu peguei ele!
     Ela resmungou alguma coisa sobre imaginação e hora de tomar banho e se foi.
     Desconfiado, revistei todos os brinquedos para ver se ele não havia se escondido por ali. Guardei tudo e tratei de ir tomar banho e me aprontar para a escola.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf