Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A ARCA já navega!

       Pois é, amigos leitores, ontem, dia 27 de fevereiro, foi fundada a ARCA, Associação Riocontense de Cultura e Arte, com objetivo de promover e defender a cultura no nosso município.
       21 pessoas compareceram à reunião de fundação e votaram por unanimidade pela sua criação. Foi escolhida também uma comissão provisória, composta por quatro pessoas, para elaborar a proposta de estatuto a ser votada na próxima reunião, quando também será eleita a primeira diretoria.
       Na rodada de avaliação para decidir a criação ou não da ARCA, muitos presentes fizeram relatos impressionantes das dificuldades que enfrentam na cidade para exercer seus ofícios e sobre o desprezo que os governantes locais devotam às atividades culturais, principalmente aos artistas locais.
       Cada vez fica mais claro que o grupo remanescente dos governos anteriores vem consolidando seu domínio sobre o governo de coalizão que se formou e reconstruindo o clientelismo anterior, que tanto atraso causou ao nosso município.
       O histórico de agressões contra artistas e intelectuais de Rio de Contas, pelo grupo que se mantém no poder, apenas revela a importância da questão política sobre a arte.  Não há arte sem apoio, sem respaldo político e financeiro, coisa que está completamente fora da compreensão dos nossos atuais governantes, que parecem ver a arte como ameaça ao seu domínio, baseado na ignorância e no comércio de favores em troca de votos.
       A ARCA é um caminho para nos libertarmos desta situação, pois o movimento artístico passará a contar com uma entidade que poderá arrecadar recursos, através de editais, para realizar seus projetos sem necessitar de apoio do poder público local, podendo também dialogar diretamente com outras instâncias de governo, como a Secretaria Estadual de Cultura.
       A criação da ARCA é uma resposta àqueles que temem a arte como livre forma de expressão de um povo e promete ser uma poderosa ferramenta de reivindicação e representação da classe artística. Temos muita fé que os tempos ruins passarão e Rio de Contas florescerá como o pólo artístico que é, dado os incontáveis talentos que possui.
       Convidamos todos os artistas do município a embarcarem nessa Arca, para navegarem pelos mares da criação e da alegria de viver.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


Multipla Cidade
Intervenção urbana

Este é o nome do trabalho que está sendo apresentado em Vitória da Conquista nesta semana (de 23 a 27 de fevereiro), em áreas abertas, esquinas de ruas, rodoviária, feiras, etc.
Trata-se de um painel com diversas expressões artísticas, com fotografia, poesia, teatro, vídeos e literatura.
Segundo seus curadores, Rogéria Maciel e Rogério Oliveira, a idéia surgiu de um debate sobre a arte em Conquista, considerada por muitos como aprisionada em formas tradicionais, que a distanciavam da população que não está acostumada ou não tem condições financeiras de consumir cultura. Por isso mesmo, a arte também não vinha refletindo a vida da cidade e ficando presa a referências externas.
 Levar a arte para espaços não tradicionais, abertos, cenários do cotidiano do conquistense e especialmente, tratar o tema da migração, já que Conquista é uma cidade que recebe muita gente de fora, foram os objetivos principais.
Do debate inicial o grupo partiu para a elaboração de um projeto, dentro do Edital Matilde Matos, do programa Mais Cultura, do Governo do Estado da Bahia, e foram contemplados com os recursos para realizar o evento.
 Ponto: teatro de rua em Conquista
Pude assistir à peça de teatro de rua intitulada Ponto, que simula situações vividas pela população em um ponto de ônibus. O texto foi elaborado a partir da idéia inicial de Shirley Ferreira, que também o dirige, mas é uma criação coletiva dos atores, o que inclui ela mesma, Don Dellarquezza, Iara Soares e Mário Luz.
Shirley pertence ao grupo de teatro Finos Trapos, surgido em Conquista e hoje atuando em Salvador, para onde seus componentes se mudaram em busca de formação acadêmica. Seu retorno para a montagem desse trabalho em Conquista demonstra seu compromisso com a cultura de sua cidade natal.
A performance dos atores no meio da rua é impecável, resultado de um texto muito rico e uma direção rigorosa, que parece compreender muito bem a linguagem e as situações vividas pelo povo de Conquista.
 
Poesia na rodoviária: temas do cotidiano conquistense

Bom saber que não se faz cultura na Bahia só em Salvador.
Esperamos que a experiência se espalhe pela região sudoeste, tão rica em saberes e fazeres e com tanta coisa a dizer à Bahia e ao Brasil.
Para quem estiver em Conquista, ainda dá pra assistir à última apresentação do grupo, amanhã, sábado, 27 de fevereiro, no CEASA, às 8,00 h. da manhã.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

 
POLUIÇÃO SONORA
  
  
  
 

      Prezados amigos

      Recebi este comentário sobre o carnaval de Rio de Contas (publicado em um site intitulado Mural 15 Soluções em mídia exterior), que me pareceu bem equilibrado.
Veio com muitas fotos, mas o arquivo ficou muito grande, razão pela qual reproduzo (acima) apenas algumas, relativas à poluição sonora.
      Com esta postagem, gostaria de encerrar este assunto.
      
      Abraço a todos.

      Ricardo Stumpf 


Fotografei alguns dos carros de sons que desfilaram suas potências tecnológicas e mau gosto geral no carnaval de Rio de Contas.
O bonecos, as caretas, as fanfarras, crianças e velhos nas ruas compõe o cenário.
Dois palcos: um menor das músicas velhas e das bandas de sopro e um maior, das bandas "modernas", com seus cantores malhados e suas bailarinas enfeitadas. Um " varre, varre, vassourinha" e o outro " enfia, enfia, a calcinha".
Contraditoriamente, mas, sinalizador da tendência, é no palco das fanfarras onde o público mais brinca e dança, mas é no palco grandioso onde a juventude se concentra e os "nativos da roça" fixam olhares indecifráveis.
A maioria dos "carnavais particulares" em áreas públicas ocorriam em frente às casas alugadas ou das barracas armadas. Nossa incapacidade de entender começa pela condição imposta a todos de não ter nenhum diálogo que não seja no "grito de pé de ouvido". A segunda é pela qualidade das músicas nos seus aspectos de letras e ritmo, sintetizando idiotia nos dos itens. A socialização da seleção de forma autoritária, impositiva e compulsória é a questão.
O desfile da baianas tinha mais "baianos fantasiados de mulher", como são muitos outros blocos. O concurso de fantasia, tinha seus participantes "identificados" para que os "juízes" pelo meio da rua fossem atribuindo-lhes nota, ao encontra-los dispersos, sem uma passarela ou participação popular.
Rio de Contas vive o dilema entre o velho e o novo. A cidade busca equilibrar-se entre a sua característica histórica / bucólica e repousante e o agito das ruas das grandes cidades em dias de carnaval. A palavra Carnaval encerra os sinônimos de muito álcool, pegação, aperto, suor, energia, hormônio, liberdade e liberalidade, sexo, droga, pouco sono, lixo, mijo na rua, barraca, churrasquinho, acarajé e zoada. Como compatibilizar isto em uma cidade Patrimônio ? Como fazem em Minas Gerais, as cidades de Diamantina, Tiradentes, Ouro Preto, Conceição do Mato Dentro.
Como aproveitar as oportunidades de aumento de fluxo turístico e renda para toda a população, sem descaracterizar e violentar a cidade ? Como agregar os novos visitantes sem afastar os velhos ? Qual o perfil do público do carnaval de Rio de Contas ? O que traz e deixa os distintos públicos visitantes ?
Rio de Contas tem seus desafios, suas questões, seus caminhos. Amor à cidade, respeito às suas tradições e história, responsabilidade patrimonial, civil e política deve ser a base do debate que não deve subordinar-se a interesses pessoais, de grupos ou setores econômicos. É claro e óbvio, que com seriedade e competência, sem corrupção e suborno, ninguém poderá atentar contra uma cidade sem ser punido e responsabilizado. Favelas existem por irresponsabilidade, negligência, incompetência, banditismo, desgoverno, corrupção, desmandos e as demais mazelas da natureza humana.
Rio de Contas vai fazer seu Plano Diretor Urbano. Ele não deve e não pode ser uma peça de ficção ou para prateleiras de Bibliotecas, não deve ser os "pacotes prontos" financiados pelo Banco Mundial para cumprir leis "me engana que eu te engano". Deve ser um plano que contemple os rumos presente e futuros, a vocação da cidade, sua arquitetura e urbanismo, sua cultura. Educação, educação, educação ! Deve ser um plano que norteie o dia a dia da cidade, seus vetores de crescimento, seu controle de solo, de possibilidades empresariais e econômicas. Não se pode permitir em Rio de Contas "qualquer" construção, indústrias poluidoras, galpões pré moldados sem estilo e padrão a exemplo do que já assistimos em Lençóis e até mesmo em Mucugê.
Rio de Contas deve fugir do tecnicismo, da burocracia desnecessária, da "chatice" do mofo de alguns funcionários públicos ou dos "bicho grilo" que só tem compromisso com seus umbigos e viagens. Tirar o melhor de todos, dos que podem e tem prá dar !
Turismo em Rio de Contas é real, existe, tem potencial mas é primitivo, pobre, jovem, amador, feito de boa vontade e boas intenções, até mesmo de sacrifico e abnegação de alguns, mas inseguro, sem sinalização, sem guias treinados e preparados, sem grupo de resgate, sem pontos de apoio.  
O Governo de Minas fez um forte investimento na "estrada real", com turismo solidário, sinalização, controle, permanentes treinamento e formação de mão de obra. Apoio de crédito real e justo, sem ganância e extorsão, pautado na condição verdadeira de pagamento e investimento dos empreendedores. Muito há a ser feito, e isto é muito, muito, bom !
O primeiro comentário e este segundo, são opiniões cidadãs, baseadas em experiências profissionais e políticas. São contribuições de um passageiro, de um andarilho, de um turista, naturista, nativista, viajante, trilheiro, praiano. montahista, apaixonado pela terra.
Todas as imagens são de livre uso.
Antônio Carlos Aquino de Oliveira
(71) 9975-4640 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010




Café Requentado

Mais uma carta meio irada do Sr. João de Carlito ao blog.
Vejam bem, prezados leitores, o que está acontecendo é que uma pessoa que não está acostumada a ser criticada está tentando calar os críticos. Não percebeu que os tempos mudaram.
O que não é mais possível é que uma festa tão importante como o carnaval fique nas mãos de uma só pessoa, que faz o que quer, sem consultar ninguém, achando que só ele sabe o que o povo de Rio de Contas gosta.
Mas o que eu tenho ouvido na rua são só reclamações.
Na verdade João de Carlito faz um carnaval para que alguns ganhem muito dinheiro, vendendo muito para quem vem de fora, sem se importar com o caos que se instala na vida dos riocontenses.
Quem mora no centro (ou mesmo nos bairros) tem a vida virada num inferno, com os carros de som à toda ou com as casas alugadas com som na porta e um monte de gente pelada nas ruas, dançando com bebida nas mãos o dia inteiro, músicas da pior qualidade, pura baixaria.
Os idosos passam mal, as crianças de colo não conseguem dormir e as pessoas que trabalham durante o dia ou simplesmente querem descansar no feriado, não tem um minuto de paz.
Será que ele perguntou a esses moradores se é isso que eles querem? Ou vai dizer a eles o que me disse, que se não gostam tem de ir embora da cidade?
Até quando vamos ter que ver nossas ruas e praças se transformarem em banheiros e puteiros, com gente urinando e defecando pelas esquinas, fazendo sexo publicamente ou cheirando cocaína na frente das famílias?
Porque segundo ele, é isso que o riocontense quer.
Quem já teve bar ou restaurante, como eu, sabe que a música seleciona a clientela.
O tipo de música que se toca naquele palco do axé, atrai esse tipo de gente, que só quer esculhambar nossa cidade. Outras cidades históricas, como Pirenópolis, em Goiás, resolveram proibir as baixarias, justamente para selecionar um público mais educado. Isso era o que se esperava desse governo, que se intitulava "da mudança".
Na verdade o que precisamos é de uma Secretaria de Cultura, que dialogue com os artistas e com o povo da cidade, ocupada por uma pessoa competente e séria, que promova um amplo debate sobre o carnaval e retire das mãos do sr. João de Carlito o controle das festas e da contratação das bandas.
Para reivindicar isso e outras coisas, é que estamos fundando a Associação Riocontense de Cultura e Arte, a ARCA, onde caberão todos os artistas da cidade, assim como os produtores culturais, e que poderá fazer projetos próprios e se libertar de mendigar favores à Prefeitura.
Por fim, quero apenas anotar, que não estou à serviço da oposição, como diz João de Carlito. Creio que ele se refere ao pessoal do 25, ao qual parece devotar um ódio todo especial, haja visto a perseguição aos restaurantes de Soraya e Rodrigo.
Na verdade estou na oposição a este governo por causa desses desmandos, principalmente na área da cultura, mas não tenho nada a ver com seus desafetos do 25. Todos sabem que fiz campanha para Neto e ultimamente me filiei ao Partido Verde, que não participa deste governo.
No começo apoiei Márcio e até critiquei seus opositores, mas depois de ver que os velhos esquemas estavam sendo remontados parei de participar de qualquer coisa na Prefeitura, inclusive do Plano Diretor.
Não gosto de café requentado.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

Abraço a todos

Ricardo Stumpf



domingo, 21 de fevereiro de 2010







A Necessidade da Arte


 
      Queridos leitores


      A arte é expressão da alma, do pensamento e do sentimento, mas diferentemente da ciência ou de outras atividades humanas, usa a poesia para se expressar.
      Há poesia nas artes plásticas, na literatura, na dança, na música, no teatro, em toda arte que reflete a experiência humana na terra, essa breve experiência da vida de cada um de nós. Mas arte é, antes de tudo, uma necessidade de expansão.
      O humano dentro de nós não se contenta com a rotina do dia a dia. Precisa de mais, precisa de amor, de sonho, precisa de um horizonte que o leve a prosseguir na sua jornada. Essa necessidade é que nos distingue dos outros animais, porque ela é, antes de tudo, aquilo a que chamamos inteligência.
      Sim, amigo leitor, inteligência não é apenas uma capacidade cerebral, medida por um Q.I. Inteligência é antes de tudo uma atitude, é estímulo ao cérebro e é o cérebro que registra e processa todas as nossas sensações, captadas por todos os nossos sentidos, que são muito mais do que os 5 ou 6 que a nossa educação, ainda tão escolástica, ensina.
      Alguns buscam essa expansão através das drogas, procurando tristemente, numa ilusão passageira, a expansão que suas mentes embotadas não conseguem realizar. Mas é na arte que essa expansão acontece verdadeiramente, é ela que nos liberta desse pequeno mundo material em que vivemos e nos permite voar, nos permite ir longe, muito longe, muito além da imaginação.
      E nesse voo da arte é que conseguimos enxergar as possibilidades de mudança, que conseguimos vislumbrar as utopias, que vem ao encontro dos desejos mais profundos e secretos das nossas almas, e assim vamos construindo novos mundos, num movimento incessante de crescimento da humanidade.
      Mas para que essa expansão aconteça, o artista precisa de duas condições fundamentais: liberdade de criar e condições de sobreviver com dignidade. A arte não é uma atividade econômica em si, embora em volta dela se crie um mercado e uma dinâmica comercial que permitam que muita gente viva dela. Mas o ato de criação, em si, não pode ser voltado para o ganhar dinheiro, sob pena de se corromper, de se degradar, sob pena de se tornar apenas um instrumento e não um objeto cujo maior valor está em si mesmo.
      Quantos artistas se perderam no comercialismo, procurando um caminho mais fácil e não encontrando nada além dos bens materiais que conseguem adquirir com seus lucros. Não há expansão nisso, não há inteligência, nem busca, nem sonho, nem crescimento.
      Por isso a arte precisa ser patrocinada, para que o artista possa criar sem se preocupar se vai ter o que comer amanhã, se vai poder sustentar sua família ou poder comprar os materiais que precisa. Depois, se muitos vão ganhar dinheiro com isso, se o próprio artista vai ganhar dinheiro, ótimo, não importa, desde que a arte não esteja condicionada a isso.
      Por outro lado, a liberdade é o oxigênio da criação. Não se pode criar andando pelas ruas estreitas de regulamentações, ordens, interesses de qualquer tipo, restrições políticas, ideológicas, religiosas ou morais.
O artista precisa de avenidas largas, para poder soltar sua criatividade, sem limitações, sem restrições, embora nada impeça que seu trabalho esteja atrelado a objetivos práticos.
      Um exemplo é o carnaval. Vejam como os carnavalescos das escolas de samba conseguem criar coisas fantásticas dentro dos objetivos e normas das escolas de samba. Nâo é isso que os tolhe. Delimitado o espaço prático para o exercício de sua arte, eles soltam a imaginação, sem censura, sem limites, e a cada ano aparecem novas expressões naquela incrível festa de alegorias e coreografia.
      Portanto, a arte para se desenvolver precisa de um ambiente de estímulo e liberdade. Sem ele não há espaço para o artista e para o desenvolvimento da cultura humana, pois os artistas, como já disse alguém, são as antenas da humanidade. São os precursores, os que advinham o futuro, os que abrem os caminhos.
Uma sociedade que não entende isso está condenada ao atraso e à decadência, aos egoísmos mesquinhos e à mediocridade.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf




sábado, 20 de fevereiro de 2010





Comentários



Prezados amigos leitores.

No artigo anterior (Carnaval) fiz alguns comentários sobre a festa e sobre seus organizadores.

Recebi resposta irada do Sr. João Carlos Souto, mais conhecido como João de Carlito, alegando que eu estava fazendo insinuações maldosas a seu respeito e dizendo que não recebeu nenhuma propina sobre o evento.

Gostaria que os leitores voltassem atrás e relessem o artigo (e o comentário) para constatar que não falei em propinas ou nada do gênero. Na verdade não sou eu quem fala essas coisas. Disse e repito, que os organizadores do carnaval não dialogam com ninguém e impõem um modelo de festa que, ao contrário do que ele afirma, não leva em conta a opinião dos riocontenses, enquanto gera muito lucro para poucos.

Vejam bem, lucro é uma coisa e comissões ilegais outra, completamente diferentes.

Depois vem com aquele velho discurso, de que eu não sou daqui e por isso não poderia criticar nada e deixar tudo por conta de quem é nativo, sugerindo inclusive que eu deveria ir embora da cidade.

Democrático não?

Imagine se as pessoas da minha cidade, o Rio de Janeiro, resolvessem mandar embora todos os baianos e inclusive os riocontenses que se mudaram para lá, caso eles resolvessem criticar alguma coisa? Então quem nasce aqui pode ir pra lá, participar, criticar, exercer sua cidadania, e quem é de lá não pode vir pra cá fazer a mesma coisa? Porque?

Talvez ele se baseie na suposição de quem nasceu aqui tem mais direitos, principalmente se pertencer a algumas dessas famílias tradicionais que vieram para cá há centenas de anos. Mas o fato é que todos vieram de fora. Só quem é da terra é o pessoal da Panelada, esses sim descendentes dos primeiros habitantes, que estão aqui desde tempos imemoriais e, no entanto são a parcela mais discriminada da sociedade, principalmente por essas famílias tradicionais, que com todo respeito a todos os bons cidadãos que delas fazem parte, só servem para atrasar a cidade, na medida em que deixam que alguns de seus membros, em nome de uma tradição, se achem donos de tudo e pensem que podem fazer o que querem sem poder sequer serem criticados.

Pela Constituição Brasileira de 1988, todos temos o direito de ir e vir, de morar em qualquer ponto do território nacional e lá exercer sua cidadania, o que inclui o direito a livre expressão do pensamento.

Quem tem vida pública está sujeito a críticas. O problema é que o Sr. João de Carlito não está acostumado a isso. Talvez não tenha percebido que o carlismo acabou e com ele, o mandonismo que atrasou tanto a vida da Bahia.

Não sou eu quem está deslocado, João, é sua política que está esgotada. Você não vai conseguir impedir por muito tempo que o povo de Rio de Contas se manifeste contra seu controle sobre a cultura, para que você continue controlando a contratação dos grupos musicais para todas as festas desta cidade.

De qualquer forma agradeço pelo seu comentário no blog. Já é uma evolução que você aceite rebater críticas publicamente. Melhor isso do que o que outros fizeram para calar Beto, não é?

Gostaria de chamar a atenção dos leitores que o que está em discussão não são disputas pessoais, mas que por trás disso se joga o futuro da cultura no nosso município, prisioneira desses esquemas que beneficiam interesses de grupos em detrimento de toda a comunidade.


Abraço a todos
Ricardo Stumpf

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Carnaval

Queridos amigos

O carnaval de Rio de Contas bombou, mais uma vez. Cada vez mais gente vem para esta pequena cidade, procurar diversão num cenário diferente e tranquilo. Pena que nossa Prefeitura não entenda isso e permita que a descaracterização do carnaval avance junto com sua fama, o que deve levar à uma rápida decadência e perda de importância nos próximos anos.
O melhor do carnaval foi o primeiro dia, quinta-feira, com o baile de máscaras.
A bandinha que faz a abertura rodou pela cidade, as pessoas fantasiadas queriam brincar e havia um astral de alegria e de cordialidade geral. Todo mundo contente. O baile no clube estravazou para a praça, pois muita gente que foi para a porta ver a entrada dos foliões fantasiados, ficou do lado de fora mesmo, só curtindo o clima de brincadeira.
No sábado o ambiente já era outro. As fantasias desapareceram e entraram os machões tatuados, mostrando o físico, com seus carros de som abertos a todo volume, tocando as porcarias do axé music atual.
Nada de novo. A mesma coisa de qualquer festa em Livramento ou em qualquer lugar da Bahia. Muito desrespeito e agressão, todo mundo enchendo a cara, muita gente bebendo sozinha, procurando a alegria no fundo da latinha de cerveja.
Um astral ruim, sem alegria coletiva, apenas a costumeira vontade de afirmação individual, em desrespeito à coletividade. É uma espécie de moral de bandido: eu é que mando, eu faço o que eu quero e todos vão ter que aceitar.
Aliás, o visual é de bandido também: óculos escuros, bonezinho virado pra trás, igual adolescente de filme americano e muita agressividade.
Foi assim até o final, com alguns absurdos a serem destacados, como a tentativa de obrigar os comerciantes a vender apenas a cerveja da Schin (mas como se pode ver pela foto, muitos comerciantes conseguiram vender a Skol). Que eu saiba isso fere uma coisa chamada liberdade comercial. É só alguem querer processar a prefeitura por essa arbitrariedade.
Mas, como sempre, alguém lucrou muito com tudo isso: quem?
Quem é que organiza o carnaval de Rio de Contas desde os tempos de Dr. Pedro?
Quem é que impõe sua concepção de "cultura" a essa cidade, desde tempos imemoriais?
Mas afinal, o que mudou mesmo por aqui desde a última eleição?

Cultura

Por falar em cultura, fui apresentado a Pitágoras (e agora o sobrenome?), coordenador cultural do Território da Cidadania na região da Chapada. Ele me disse que está em fase de finalização a montagem do Plano Municipal de Cultura para Rio de Contas, que propõe entre outras coisas a criação de uma Secretaria de Cultura para o município e uma Lei de Incentivo à Cultura.
Como se sabe, as políticas nessa área, estão atualmente todas voltadas a editais, que oferecem recursos para quem quer desenvolver trabalhos na área. Para conseguir captar recursos, é preciso saber fazer "projetos" de captação e ter apoio de organizações não governamentais.
Sabemos que essa visão pulverizada (não planejada) de distribuição de recursos, cria uma espécie de casta de consultores especializados em captação, que sabem se movimentar pelos meandros da burocracia oficial, o que deixa a maioria dos mortais a depender dessa gente e, portanto, fora do alcance desses recursos. Mas de qualquer forma o dinheiro está aí e pelo menos sabemos que existe um mapa do caminho para chegar até ele. Resta aprender a percorrê-lo e entrar numa espécie de corrida de espermatozóides, onde milhões correm para que um ou dois consigam fertilizar o ovo.
Bom, quem sabe, vindo de fora para dentro, nosso enigmático prefeito aceite fazer alguma coisa pela cultura, tirando-a das mãos de quem só pensa em benefícios para si mesmo.
De qualquer forma, bem-vindo Pitágoras, quem sabe você não será nosso anjo benfeitor.

Ainda falando em cultura, aí vai, com muito atraso, a foto do Terno de Reis que gentilmente visitou a minha casa na noite de 05 para 06 de janeiro.
Essa festa folclórica, muito viva na arte do povo riocontense, para mim era como uma referência distante, uma coisa que eu achava bonita mas não me tocava muito.
Mas a visita mudou completamente meu sentimento. Senti uma verdadeira invasão de alegria e a força da benção sobre a casa e o seu dono. Viva o Terno de Reis e sua força abençoada. Viva Rio de Contas e sua cultura que resiste.

Citrus

A Associação dos pequenos agricultores retoma suas atividades nesta semana, depois de um recesso de fim de ano e carnaval, com muitos desafios em 2010. Os principais são de se organizar, montando uma sede provisória e uma secretaria eficientes, o que deve ser conseguido neste mes de março e conseguir fazer uma venda coletiva e organizada, dos cítricos, principalmente a pocam, para outros mercados, nos libertando da ditadura dos atravessadores que só gera pobreza e desestímulo à produção.
Em 2009 tivemos nossa primeira compra coletiva de mudas (de cítricos) e, apesar dos boatos que circularam de que as mudas não eram boas, elas estão se desenvolvendo normalmente, mostrando que o compromisso do nosso fornecedor é sério e melhorando em muito nosso potencial de produção.
Precisamos agora conseguir um entrosamento maior com a Secretaria de Agricultura, que inicialmente viu com certa desconfiança a criação de uma Associação fora do controle político do governo, mas depois mudou de atitude e passou a propor parcerias interessantes para todos.
Vamos ver como vai se desenvolver essa colaboração, na medida em que nossos gestores públicos se preocupem menos em controlar politicamente os cidadãos e mais em apoiar iniciativas que levem o progresso para todos.
Não se faz administração pública pensando só em eleições, é preciso ter metas reais de desenvolvimento e cidadania, ou caimos numa espécie de farsa, onde todos fingem se preocupar com o coletivo enquanto se preocupam apenas com seus próprios interesses.
A Citrus vai trabalhar a favor de parcerias sérias com a prefeitura e com outros órgão públicos, sempre na defesa dos interesses dos seus associados e do desenvolvimento econômico de Rio de Contas.

abraço a todos

Ricardo Stumpf

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



Cidadania?

      Queridos leitores, prestem atenção no que está se transformando a base aliada do governo federal, com vistas a eleição de Dilma Roussef.
      Virou uma estranha salada, onde cabe de tudo, desde cenouras estragadas, como os notórios corruptos do PMDB (o que inclui o seu candidato a a vice-presidente, com algumas acusações pesadas no seu currículo), passando por algumas verduras e legumes que estavam há muito tempo na geladeira e acabaram ficando assim, digamos, meio passados, como o PDT, o PTB e outras legendas que vivem da lembrança da ditadura de Vargas, e ainda uns gilós amargos, sem preconceito contra o giló, que eu aprecio, desde que fervido antes para tirar a trava de amargura, que no entanto permanece em partidos que sairam da antiga Arena e foram minguando, minguando, até serem salvos do ocaso pelo governo Lula, que lhes deu o honroso título de base aliada. Um deles é o PP, que abriga tristes figuras da época da ditadura militar, alguns ex-ministros, inclusive.
      No afã de juntar todo mundo numa espécie de grupão, para isolar José Serra, Lula e o PT, se esqueceram do discursos de ética e cidadania, repetidos à exaustão nessas conferências que ele inventou para ocupar as lideranças populares, que assim não enchem o saco do seu governo com reivindicações, e baixou a lei do É dando que se recebe, tão criticada antes quando praticada pela direita no poder.
      Com esse sistema eleitoral que temos, que privilegia as grandes coligações amorfas, sem ideologia e sem propostas, apenas costurando interesses, vai montando esse monstro chamado base aliada, para obrigar a nação a votar na sua candidata.
      Esquece que a cidadania existe, a despeito das manobras petistas, inspiradas no oportunismo esquerdista infantil de José Dirceu. Sabemos que ela, a cidadania, é minoritária no país e que a grande maioria do povo se deixa ainda levar como uma grande manada de gado, mas já houve ocasiões em que a cidadania fez despertar o rebanho e ocasionou grandes mobilizações nacionais.
      O último desses momentos foi o das Diretas Já, na década de 80. Depois houve o Fora Collor, nos anos 90, mas sempre suspeitei que fosse um movimento manipulado. Classe média demais.
      O que parece que ninguém está vendo são os inteligentes movimentos que Marina Silva está fazendo, não para roubar votos da grande manada aliada, mas justamente para despertar a cidadania, roubando o papel que Serra gostaria de desempenhar mas não pode, porque está comprometido demais com um modelo neoliberal naufragado.
      Serra hesita em se lançar abertamente. Parece querer medir o espaço que ainda resta para as propostas do seu partido, que insiste na tese do Estado mínimo e das privatizações.
      Marina elogia FHC e Lula para colher votos na seara dos dois, e na verdade é a única que tem uma agenda nova para o Brasil.
      Se os adversários continuarem a agir na direção em que vão, abre-se uma brecha para que ela conquiste principalmente o eleitorado de Serra, que não suporta o PT e não aceita ser conduzido pelos "guias" do PT e da sua geléia geral.
      Esboça-se um plebiscito, não como Lula gostaria, entre PT e PSDB, mas entre a cidadania e a tentativa de manipular o povo em troca de privilégios para velhas e novas raposas da política.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010



O Pêndulo de Foucault

      Pois é, queridos amigos, num domingo chuvoso em Ilhéus, sem a mesmice da televisão, encontrei numa banca de revistas uma edição de bolso deste livro, de Umberto Eco, (Edições Bestbolso, 2009 - Rio de janeiro) por apenas R$19,90.
      Eu, que já tinha lido O Nome da Rosa e Como se Faz uma Tese, do mesmo autor, tinha (e tenho) a melhor impressão dele e já havia visto esse título nas livrarias, sem a menor idéia do que fosse.
      Italiano, Umberto Eco é uma das mentes mais brilhantes da nossa época, junto com Noam Chomski, o linguista norte-americano. São dois pensamentos livres, sem compromissos com ideologias, partidos ou mesmo com seus países de origem. Olham o mundo e formulam seus pensamentos, doa a quem doer, mostrando sem medo o que estão vendo. A diferença entre eles é o fino senso de humor de Umberto Eco.
      O livro é de 1988, com tradução brasileira de 2009. Pena que esperamos tanto tempo por uma reflexão que tem muito a ver com os anos 80, embora isso não diminua sua importância.
      Na verdade não é um livro fácil de ler. A erudição do autor nos brinda com uma fartura tal de citações, que se fossem explicadas todas em notas de pé de página, o livro, no mínimo, duplicaria suas 676 páginas.
      Citações em inglês, francês, italiano, alemão e latim, não são traduzidas. Cada um se vire como puder. Referências a lugares dentro de cidades também não. Do mesmo jeito que se refere aos bairros de Milão e Paris com a maior naturalidade, também fala de Salvador e Rio de janeiro, onde se desenvolve um dos capítulos da história.
      O estilo as vezes se torna cansativo, quando encontramos uma voz dentro da outra, dentro da outra. Mas aos poucos vamos entendendo que toda essa confusão de lugares e citações vai compondo um painel, uma espécie de mosaico, onde encontramos toda a cultura do século XX, com sua dinãmica política, econômica e artística, painel que ele usa como pano de fundo para uma história muito maluca.
      Um grupo de funcionários de uma editora, às voltas com autores esotéricos que eles não consideram sérios, começam a seguir uma pista trazida por um deles, sobre uma conspiração muito antiga, ligada a um segredo dos templários, lendários cavaleiros guardiões do templo de Jerusalém, na época das cruzadas.
      Meio de brincadeira eles começam a reconstruir o que seria o Plano dos templários e aos poucos vão se envolvendo numa conspiração real, cujo final surpreendente nos faz refletir sobre a necessidade que a nossa cultura tem de se nutrir de segredos e conspirações.
      Ao mesmo tempo que reflete sobre as aspirações e frustrações humanas, Eco nos revela um mundo aristocrático, dominado pelo segredo, pelos subterrâneos e pelo obscurantismo, um mundo que o cristianismo combateu, justamente por que ele nega a revelação da luz.
      O ocultismo que prefere a obscuridade, a violência, idolatra a morte e o privilégio de um conhecimento secreto, despreza a vida humana e a própria natureza da matéria, que também é uma criação divina.
      Mas na sua trajetória confusa, a narrativa vai nos revelando a origem das idéias e o encadeamento dos pensamentos, desde os primórdios místicos no Egito e na Mesopotâmia e de como esse misticismo se transforma através dos rosacruzes no iluminismo de Francis Bacon (um maçon), e desagua nos revolucionários jacobinos franceses, nos movimentos operários anarquistas, depois marxistas e ecologistas, sem que haja uma ruptura entre eles, mas uma evolução contínua, que se desenvolve em círculos secretos ou em correntes mais amplas, que interagem entre si.
      Ao final, compreendemos finalmente que todo delírio místico não consegue ultrapassar a verdade silenciosa da matéria, da qual somos feitos, que encerra em si todos os mistérios, inclusive o do eterno ciclo de destruição e renovação da vida. A matéria, portanto, não se opõe ao mundo espiritual, já que é parte da criação divina e  viver correndo atrás de segredos e conspirações é negar a própria vida e desperdiçá-la olhando para abismos sombrios ao invés de aproveitar as planícies ensolaradas desta vida breve.
      Mas o livro nos dá também um panorama da história do pensamento europeu, com todas as influências que recebeu dos judeus, dos árabes, dos indianos e dos chineses. Na época em que ele escreveu, ainda não havia Al qaeda e o terrorismo árabe que ele, sem querer, nos explica a partir da seita dos assassinos.
      Sim, era assim que se denominava uma seita muçulmana que treinava jovens para matar aqueles que atrapalhassem os planos de seu líder, que pensava deter o segredo de uma revelação divina.
      Esse nome passou a significar gente que mata sem nenhum motivo, com crueldade. É impossível ler sobre eles sem pensar em Bin Laden e seus homens bomba, lutando contra os impérios, sem respeitar nada nem ninguém, sacrificando inocentes, sem dó nem piedade.
     Assim, Umberto Eco nos mostra a origem das barbaridades contemporãneas, vindas do ocultismo oriental que nossos esotéricos tanto idolatram e, também, que talvez seja chegada a hora de parar de procurar mistérios e olhar o mundo com mais simplicidade.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf


     

domingo, 31 de janeiro de 2010




Marcelo e a revisão da anistia


Prezados amigos

Me emocinonei ao ler o artigo de Marcelo Rubens Paiva no jornal O Estado de São Paulo, do dia 30 de janeiro.
Marcelo, um escritor talentoso, é filho de um deputado assassinado pela ditadura e manda uma carta aos generais, almirantes e brigadeiros, chefes das forças armadas brasileiras, que resistem à revisão de uma lei de anistia feita pela ditadura para esconder seus próprios crimes.
Em muitos países da América latina essas leis já foram revistas e os criminosos mandados para a cadeia, permitindo que se conhecesse a verdade sobre o que ocorreu naquele triste período em que os Estados Unidos implantavam as ditaduras no que eles consideram seu quintal, aliados as elites locais, que desejavam exorcizar de qualquer jeito o sonho socialista de seus povos oprimidos e empobrecidos.
Na Argentina e no Chile, só para falar dos nossos vizinhos mais importantes, essa revisão foi feita, com toda dificuldade que um assunto tão espinhoso requer.
Não se trata, como alguns insistem, em revanchismo das esquerda, nem em anistiar um dos lados e deixar os crimes do outro lado impunes, já que eles dizem que houve uma "guerra" onde os dois lados cometeram excessos. Esquecem de diferenciar a violência dos que oprimem da violência dos que lutam contra a opressão, um direito reconhecido até na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Não que não hajam excessos também do lado da esquerda. Houve sim e deveriam também ser investigados, mas a essência mesma da luta dos que se opunham à ditadura era legítima: lutar pela libertação do Brasil de um regime que o oprimia para defender interesses estrangeiros.
Trata-se de colocar no banco dos réus aqueles que, em nome de uma ideologia (o capitalismo), acharam que podiam destruir a democracia, a Constituição e tratar seu próprio povo como inimigo. Mais do que isso, podiam desrespeitar a condição humana dos brasileiros, tratando-os com frieza e crueldade, sem o mínimo respeito,que até um animal exigiria de qualquer ética.
A tortura, implantada com auxílio "técnico" de especialistas americanos (como bem retrata o filme Pra Frente Brasil), foi aplicada indiscriminadamente em homens mulheres e crianças, mulheres grávidas inclusive, seguidas de assassinato puro e simples, com desaparecimento dos corpos e nenhuma satisfação às famílias. Tudo isto está documentado no livro "Tortura Nunca Mais", resultado de uma comissão de investigação dos anos 80.
Nada de novo, portanto.
A novidade no artigo de Marcelo, é que ele se dirige aos militares de hoje e lhes faz uma pergunta que todos os democratas deste país gostariam de fazer: porque eles defendem os torturadores?
Porque identificam os torturadores com as próprias forças armadas, como se estas fossem culpadas do que aconteceu? Condenar esses criminosos seria libertá-las de um estigma que não lhes pertence.
As primeiras vítimas dos fascistas que tomaram conta do Brasil, foram os próprios militares que resistiam à quebra de conduta representada pela inversão do seu objetivo fundamental, defender a nação brasileira.
Muitos militares foram mortos e torturados também. Perderam suas patentes, viram suas carreiras terminarem, para que os golpistas controlassem as armas.
Quando o Brasil se redemocratizou, Exército, Marinha e Aeronáutica também mudaram, se modernizaram, retomaram seus objetivos fundamentais, dentro de uma nova Constituição.
Porque então tratar o que aconteceu como um tabu? Porque não abrir esse segredo que todo mundo conhece e deixar que os culpados pelo desvirtuamento das nossas forças sejam punidos. Porque essa identificação com eles?
Marcelo pergunta:

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, como em Nuremberg? Porque não limpar a fama da corporação?

E a seguir resgata a honra das nossas forças armadas:

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das forças armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Ao final conclui:

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

Faltava alguém dizer isso e ninguém melhor do que ele que perdeu um pai, cujo corpo nunca foi encontrado.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf




domingo, 24 de janeiro de 2010




Excesso de Energia

Prezados amigos, já vi muita gente boa e sincera jogar fora sua felicidade por excesso de energia.
Quando estamos cheios dela, achamos que podemos e devemos fazer de tudo, experimentar de tudo e custamos a distinguir o que é importante na vida.
Me lembro de uma entrevista que assisti na TV com um antigo ator do cinema brasileiro. Ele havia participado das deliciosas chanchadas dos anos 50 e também do cinema novo, escola crítica, dos anos 60.
Como era um homem bonito, foi galã, muito admirado pelas mulheres e na entrevista, já velho, ao falar sobre isso apenas se lamentou de haver se separado da mulher que amava, uma também atriz e também muito bonita.
Questionado pela entrevistadora do porque da separação ele disse que foi porque queria viver mais, experimentar mais, ser livre, mas que depois nunca mais havia encontrado o amor e se arrependia amargamente de ter perdido e magoado aquela que o amava e que tinha sido (agora ele o via com clareza) seu único e verdadeiro amor.
Tarde demais e o desamparo daquele homem, já velho, ficou evidente na telinha.
Pois é, às vezes, quando jovens, achamos que não precisamos de ninguém e que na próxima esquina sempre encontraremos algo melhor do que o que temos e assim vamos jogando fora as pessoas e as oportunidades em troca de ilusões passageiras.
O pior é que existe gente especializada em alimentar essas ilusões para tirar proveito.
As vezes porque desejam o que temos, às vezes porque querem que trabalhemos para eles de graça (coisas como; agora não posso lhe pagar, mas estou pensando em aproveitar você no futuro, para uns trabalhos muito bons...) e muitas conversas fiadas com o intuito de que não vejamos nossa própria situação com clareza e sigamos no meio das ilusões.
Mas o tempo é implacável e nossa juventude passa rapidamente.
Quem sabe valorizar o que conquista não se deixa levar pelas ilusões e aprende a separar o que é importante de verdade do que é mera fantasia.
Aos iludidos está destinada a solidão, a frustração e o arrependimento. Quanto aos que sabem separar as coisas, bem, a vida continua sendo difícil, mas será mais fácil chegar a algum porto seguro.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Eles

A situação no nosso mundo não é das melhores. Estamos no fim de uma era e no limiar de outra.
A era que se finda é a das grandes nações armadas, dos exércitos, das guerras por interesses comerciais, do consumismo em escala planetária, da destruição do meio ambiente. É a era do capitalismo, com sua lógica implacável da acumulação e suas terríveis consequências, uma delas o imperialismo, que devasta e saqueia nações, impondo o terror em nome de um discurso cínico, baseado na democracia.
O final dessa era se aproxima, não porque ela seja injusta, porque outras eras de profunda injustiça foram muito mais longas, mas porque a ciência e a tecnologia não param de avançar, integrando os povos, que assim vão se tornando um só, e mostrando a todos que a natureza, que nos alimenta e dá vida, está sendo rapidamente destruída por esse modelo.
Mas toda era que se inicia, convive ainda com a que termina e isto é o que está acontecendo.
A integração dos povos se opõe ao nacionalismo imperial mas enquanto barreiras entre os povos caem, algumas nações ainda tentam reafirmar o velho modelo militarista.
Vejam a tragédia do Haiti. Enquanto o mundo se mobiliza na solidariedade àquele povo imensamente sofrido, a potência hegemônica decadente, tenta reafirmar o seu poder, se aproveitando covardemente da tragédia para ocupar um país indefeso.
Não há nenhuma justificativa para a ocupação militar que os Estados Unidos estão implementando no Haiti, enviando milhares de soldados, em flagrante desrespeito ao mandato da ONU, cuja liderança foi oficialmente entregue ao Brasil, e que já mantém tropas suficientes para controlar a situação.
Tudo é feito no maior desrespeito e arrogância, como se eles fossem os donos do mundo, desconsiderando fronteiras e soberanias.
Sem consultar ninguém ocuparam o aeroporto, o palácio presidencial, e resolveram agora "escoltar" os comboios da ONU.
Esta é a proposta de Barack Obama e de Hillary Clinton para a América Latina: a ocupação e a re-colonização do continente.
Começaram patrocinando disfarçadamente o golpe de estado em Honduras. Foi um teste, uma experiência com um novo modelo, um golpe civil, com apoio do Congresso e dos tribunais, controlados pelas mesmas famílias privilegiadas que dominam há muitos anos esses pequenos países, com apoio dos Estados Unidos.
Essa aliança de privilegiados latino-americanos com os interesses imperiais é antiga e nos mantém sempre no atraso e na submissão.
Quando as oligarquias daqui começaram a cair, nas décadas de 50 e 60, em plena guerra fria, os americanos não hesitaram em derrubar os governos eleitos e impor ditaduras militares que implantassem a ferro e fogo o capitalismo dependente que eles precisavam para dominar nossos mercados.
Agora as oligarquias estão novamente caindo, derrotadas nas urnas por políticos de esquerda, formados na luta contra as ditaduras, que mantém seus compromissos democráticos, mas afastam-se do modelo colonial obediente que eles pretendem impor eternamente a nós.
Desta vez, porém, o império não se disfarça mais atrás de um discurso democrático, usado no tempo da guerra fria para se contrapor ao comunismo, mas usa a guerra contra o narcotráfico e a guerra contra o terror, para justificar suas invasões e saques.
Já estão nas nossas fronteiras, com suas bases na Colômbia. provocam a China, vendendo mísseis para Taiwan. provocam a Coréria do Norte, patrocinando a agressividade da Coréia do Sul, provocam o Irã, armando até os dentes o governo genocida de Israel, estão abrindo frentes de guerra em todos os continentes, como se a guerra fosse a única atividade lucrativa que lhes resta, depois da debacle econômica e na medida em que vão sendo superados na ciência e na inovação tecnológica, por outros países.
Temo pela humanidade, com esse gigante ferido, querendo se afirmar diante do mundo.
Enquanto isso, no Brasil, o debate político se amesquinha, nas propostas tacanhas do Partido dos Trabalhadores (e das outras forças que o acompanham no poder), que não tem coragem de propor um modelo alternativo ao capitalismo, que seja democrático e auto-sustentável. Vivem numa neurose entre a necessidade de agradar os empresários que financiam suas campanhas (e com medo de serem desestabilizados por eles) e a nostalgia do socialismo autoritário, com seus partidos únicos e suas ditaduras burocráticas.
Do outro lado, a velha elite quer apenas continuar acumulando, sem um projeto nacional ou mesmo de integração com outros países, digno deste nome.
Marina Silva tem aparecido como a novidade, com a capacidade de superar o impasse filosófico, mas a tentação de se unir às forças conservadoras para buscar apoio contra os projetos da esquerda atual, podem comprometer definitivamente seu projeto político.
Na verdade, temos dois projetos no mundo, atualmente:
Um, conservador, visa manter e aprofundar a acumulação capitalista, através da aumento contínuo da produção, da competição entre as nações e da destruição do planeta, num ambiente de desigualdades sociais, miséria e guerras.
O outro, visa integrar os povos, construir uma economia dinâmica, porém regulada e submissa aos interesses sociais e ambientais dos povos, respeitando e valorizando a diversidade.
Não é uma luta fácil, porque trata-se de um princípio democrático contra um princípio autoritário.
O império tenta se manter através do domínio militar cada vez maior. Pretendem ocupar o mundo inteiro e dominá-lo militarmente. Mas terão recursos para tanto? No momento quem os desafia militarmente são os fundamentalistas muçulmanos, especialmente a Al Qaeda, que tem sido bem sucedida em mantê-los ocupados no oriente médio, nos dando um pouco de folga.
Mas parece que Barack Obama está disposto a encerrar essa trégua e a ocupação do Haiti é mais uma prova disso.
Nosso próximo presidente terá que lidar com esse enorme desafio.


Abraço a todos

Ricardo Stumpf



domingo, 17 de janeiro de 2010



Eufemismos

Pois é, amigos leitores.
A história do interior é a história das famílias e em cada família há sempre gente boa e alguns que se desviam do caminho.
A história da Bahia é cheia de famílias, muitas heróicas, deram filhos de valor à terra, outras nem tanto, mas que deram filhos e filhas de igual valor, embora anônimos.
O anonimato não tira o valor das pessoas e já dizia Jesus, que a Terra pertencerá ao mansos.
Mas entre histórias de famílias, envolvidas na política do interior, uma prática tornou-se comum, desde o tempo das sesmarias; que é a do entrelaçamento dos interesses familiares com o interesse público.
Começa-se sempre com um discurso idealista, amarrado depois aos interesses partidários, que já exigem algumas concessões e depois vem os cargos e os negócios, as vantagens, e aí não se pode mais apear-se do poder sem causar um grande estrago aos interesses familiares.
Então o que era um discurso cheio de ideais passa a ser um outro, cheio de justificativas, com as quais tentam se convencer, e também aos outros, que continuam sendo boas pessoas, mas que é preciso ser realista, etc, etc.
O que era errado, passa a ser uma contingência da política, o que era intolerável passa a ser tolerado em nome de um pretenso realismo e o que era traição, passa a ser flexibilidade.
A política adora eufemismos.
Não é uma pena?

Piñera

A direita ganhou as eleições chilenas.
Bem, o candidato derrotado não era bem de esquerda...
Digamos que era um pouquinho mais ao centro.
Isso é o que acontece quando uma força política tenta se eternizar no poder. Os quadros envelhecem, a corrupção se instala, a população desacredita.
A maioria dos jovens não foi votar (no Chile não é obrigatório). estão cansados da mesma turma no poder.
Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

2010 ou 2012?

Gente, que início de ano!
Desabamentos, inundações, terremotos...
Os que esperam ansiosamente pelo fim do mundo estão excitadíssimos: é o começo de 2012!
Minha prima mora no Haiti, deu depoimento na Globo. Sorte que estava no Rio com sua mãe, que é minha madrinha, e todos da sua família estão à salvo.

Coragem

Agradeço os comentários sobre meu último artigo a respeito da cultura em Rio de Contas.
Meu desencanto suscitou comentários interessantes, dois deles falando da minha "coragem". Não entendo muito isso. Alguns se esconderam sob a condição de anônimos para criticarem a Prefeitura.
Porque? Não vivemos numa democracia onde é livre a manifestação da opinião?
Não acho que eu seja especialmente corajoso, mas talvez haja uma cultura de medo por aqui e, no meio dela, pareço ter mais coragem. Vamos mostrar a cara pessoal: é permitido e garantido pela Constituição.
Se todos falassem muita coisa já teria mudado, com certeza.

Dilma x Serra

A tropa de choque do PSDB já entrou em campo na internet.
Recebi um e-mail falando que Dilma Roussef foi guerrilheira, assaltou o cofre de Ademar de Barros e era ligada aos comunistas (que horror!).
Esqueceram de dizer que Serra foi do Partido Comunista quando era presidente da UNE e que José Aníbal, que foi presidente do PSDB e líder do governo FHC na Câmara, também participava de organizações armadas e assaltou bancos, na luta contra a ditadura.
Muitos desses políticos que aí estão vieram da esquerda e participaram de ações armadas contra a ditadura militar, o que não é nenhuma vergonha.
Até o Fernando Gabeira, presidente do PV, participou do sequestro do embaixador americano, em 1970.
Isso quer dizer que eles continuam guerrilheiros e comunistas? Francamente!
Ainda por cima insinua que Dilma e seus companheiros teriam simulado torturas para sujarem  nome das forças armadas.
Agora essa! Os militares eram uns anjinhos...
Tudo isso passou, de ambos os lados foi superado e esquecido. Como diz o Gilberto Gil: Vamos enterrar esse defunto.
Mas o cofre do Ademar foi verdade. Descobriram que ele tinha 2 milhões de dólares em casa e acabaram de vez com a carreira do político que tinha a cara de pau de se intitular: rouba mas faz.
Ponto para a Dilma.
Mas apesar dessas qualidades, prefiro Marina Silva, justamente porque acho que temos de enterrar o passado e olhar para o futuro.

Agradecimentos

A todos os amigos e conhecidos, blogueiros e correspondentes, que enviaram mensagens de felicitações pelo nascimento de minha neta Cecília. Algumas mensagens me emocionaram e todas elas encheram nossos corações de alegria e paz.
Que Deus ilumine todos vocês.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

sábado, 9 de janeiro de 2010

AVATAR

Prezados amigos, estou em Ilhéus, passando uns dias de férias.
No caminho parei em Conquista onde pude assistir o filme AVATAR. É uma história incrível!
Mistura de ficção científica com crítica política, o filme destrói sem dó nem piedade o militarismo amercicano, mostrando como eles invadem e destróem qualquer lugar para tomar o que lhes interessa.
Além disso é um libelo pelo meio ambiente, lançando um novo olhar sobre a fortíssima ligação dos povos primitivos com a natureza e propondo novas idéias sobre esse suposto primitivismo.
Saímos do filme com a certeza de que os primitivos são os militares e os capitalistas que destróem tudo para garantir o "lucro dos acionistas".
Um épico com muitos efeitos especiais, que criam belíssimas paisagens.
São duas horas e meia de encantamento e magia.
Não é à tôa que está estourando nas bilheterias.
Não deixem de ver!!!!

CAMAMÚ

Surpresa!
Fui tentar chegar a Camamú via Itacaré e descobri que a estrada está prontinha e asfaltada!
Uma beleza!
São apenas 48 Km de Itacaré a Camamú, o que se faz tranquilamente em meia hora.
Em Camamú paguei apenas R$6,00 por uma passagem de barco, de linha regular, para Barra Grande, dando uma volta espetacular pela Baía de Camamú.
Em Barra Grande, dá pra pegar uma praia, tomar uma cervejinha e voltar duas horas depois em outro barco.
São tres barcos na linha, chegando e saíndo de hora em hora.
Tudo muito bonito. Vale a pena o passeio pra quem vai a Ilhéus.
Ponto para o governo Wagner.
Uma coisa me chamou a atenção: em qualquer lugar da baía, dentro do barco ou em um povoado às suas margens, sinal normal de celular.
Enquanto isso, em Rio de Contas... Ai, que preguiça!

Abraço a todos

Ricardo Stumpf


sábado, 2 de janeiro de 2010




RIO DE CONTAS: A CULTURA ABANDONADA


Final




Prezados amigos leitores.

Escrevi alguns artigos e entrevistei pessoas neste blog, sobre o abandono da cultura em Rio de Contas. As respostas que recebi foram poucas. As pessoas da cidade continuam com medo de falar, de criticar, de opinar. Vencem os que apostam no silêncio e no esquecimento para que tudo permaneça como está.

Uma sociedade onde as pessoas não se sentem livres para se expressar não é democrática e, como toda sociedade autoritária, tende a se estagnar.

Essa situação me deixou numa posição de profunda descrença em relação ao governo municipal. Por um lado advoguei desde o final das eleições, que a aliança PT-PV, deveria negociar sua participação no governo Márcio, entendendo que seria estratégico participar deste governo, para não deixá-lo cair nas mãos do grupo que dominou por muitos anos a política na cidade e que tinha sido finalmente derrotado.

Minha posição conquistou alguns corações e mentes e fez com que a atual Secretária do Meio Ambiente começasse a pensar seriamente em assumir a pasta, o que finalmente aconteceu com o aval do PT de Salvador (já que em Rio de Contas o Partido ficou dividido).

Se houvesse uma negociação séria, o grupo que apoiou Neto teria certamente conquistado pelo menos mais uma Secretaria, não teríamos a influência tão grande de pessoas que vieram da gestão anterior e ocupam secretarias importantes deste governo e estaríamos projetando PT e PV para um futuro mais promissor no município.

Portanto, nunca me coloquei como oposição à Márcio e seu governo, a não ser na crítica que faço ao abandono da cultura. E no entanto a contradição se agrava. O teatro continua esquecido, numa demonstração clara de abandono e irresponsabilidade de um bem tombado pelo Patrimônio.

Já disseram que tenho um problema pessoal com o Coordenador de Cultura, o que não é verdade. Apenas acho que ele não tem perfil para o cargo. Mas lembrem-se de que esperei quase um ano para fazer a crítica. Podia ser que ele se revelasse no posto como um bom coordenador, o que não aconteceu, não é do ramo, não é artista, não tem jeito para a coisa. Talvez seja ótimo em outro lugar, mas não neste.

Mas sinceramente não acho que a culpa seja dele. Quem o indicou queria alguém inerte no cargo. Porque?

Talvez porque a cultura em Rio de Contas seja vista como entretenimento para turistas ou como circo para alienar politicamente a população.

O controle sobre a cultura garante também algumas vantagens na hora de contratar bandas para os eventos festivos, que alimentam a política clientelista de pão e circo. Quem sempre controlou isso nos governos anteriores continua no posto em que sempre esteve, controlando as festividades e as contratações dos grupos musicais (além de perseguir os opositores, como fazia antes). Ou seja, controlar a cultura em Rio de Contas é controlar a política, porque é com festa que se ganha a simpatia dos eleitores.

Tudo como d’antes no quartel de Abrantes.

Mas para não dizer que apenas critico, gostaria de alinhavar alguns pontos que considero básicos para uma política cultural digna deste nome, na nossa cidade.

Existem quatro instituições fundamentais para a cultura riocontense:


                                      1 O Teatro São Carlos

                                      2 O Museu Zofir Brasil

                                      3 O Centro Cultural

                                      4 O Museu Arqueológico da Chapada Diamantina.



O primeiro trabalho de um coordenador de cultura (ou de um Secretário de Cultura, se a cultura fosse levada à sério este município), seria resgatá-los.

Em segundo lugar seria necessário estabelecer um calendário de eventos, que não apenas trouxesse turistas para Rio de Contas, mas promovesse a nossa cultura, realizando cursos, promovendo premiações, estimulando talentos.

Só para exemplificar: junto com Claudete Eloy levamos a Mucugê a proposta de promover um Festival Nacional de Teatro Universitário e fomos plenamente acolhidos. Nesse evento haverá espaço para os grupos amadores locais de Mucugê e da região, que aproveitarão a convivência durante alguns dias com professores e alunos de teatro de todo o Brasil para estabelecerem laços e aperfeiçoar talentos através de cursos e palestras.
Pena ter que ser em Mucugê.

Esse é apenas um exemplo de evento a ser promovido em Rio de Contas.

Festivais de música, gastronomia, dança, encontros científicos nas áreas de história, botânica, mineralogia, acordos com universidades para realização de pesquisas e quem sabe até da abertura de campus experimentais...

Além disso, o fato de ser uma cidade tombada, exigiria uma política municipal de preservação do patrimônio e uma colaboração mais estreita com o Iphan.
Nada disso é sequer cogitado e nem mesmo compreendido.

Lamentavelmente não há espaço para discutir essas coisas por aqui. E tenho que dizer aos meus leitores que, diante dessa situação, não tenho mais nenhuma ilusão com o atual governo deste município.





Abraço a todos



Ricardo Stumpf








terça-feira, 29 de dezembro de 2009



UMA ESTRANHA FORMAÇÃO


Ao fazer a monografia final do curso de especialização em lingüística, na Uneb em 2006/2007, escolhi a ênfase na análise do discurso, um campo de investigação muito interessante, que analisa os pensamentos que andam por aí e o que se esconde por trás deles.

Explico: para cada formulação que fazemos sobre a vida, a sociedade, a conduta dos seres humanos, a política, a religião, etc., existe sempre uma base filosófica ou algum tipo de interesse escondido por trás. Descobrir o que há por trás dos discursos e colocar cada um deles como uma pecinha de um quebra-cabeças, nos possibilita ter uma idéia mais clara do que realmente está em jogo.

Cada discurso não é monológico, mas atravessado por vários outros discursos, resultando no que é chamado de formação discursiva.

Faço esse preâmbulo, antes de abordar o discurso sobre o meio ambiente que está por aí, nas TVs, na internet e nos jornais. Para isso escolhi como exemplo o livro Desenvolvimento ao Ponto Sustentável: novos paradigmas ambientais, de Ricardo Braun (Editora Vozes, Petrópolis, 2001).

Na verdade usarei apenas a introdução, para tentar obter uma visão dessa formação discursiva e do que há por trás dela.

A introdução começa com uma análise do que é chamado de processo de modernização através do desenvolvimento tecnológico. Afirma que esse desenvolvimento trouxe melhor qualidade de vida para uma minoria e criou problemas para a maioria, o que demonstraria um desequilíbrio social e econômico que seria o chamado desenvolvimento insustentável.

Depois afirma que, baseado nisso, apenas uma minoria estaria preparada para desfrutar dos benefícios das tecnologias de ponta e que o homem, no seu contexto global, “ainda não está preparado para a vida moderna...dentro de um estilo de vida mais evoluído” (p.7).

A contradição é evidente entre a primeira afirmação, ou seja, de que o desenvolvimento beneficiou apenas uma minoria, o que nos remeteria para um discurso democrático (benefícios para todos) e a segunda, de que o homem não estaria preparado para a vida moderna, que nos remete a um discurso elitista, justificando o benefício para poucos e também entrando num discurso muito comum entre ambientalistas, o das utopias regressivas, ou seja de que tudo era melhor antigamente.

A confusão entre modernização e tecnologia, também é muito comum entre ambientalistas. Eles usam o termo tecnologia de uma forma genérica, vaga, e o termo modernização para significar conforto e consumo.

Na verdade tecnologia sempre existiu. Desde que o homem descobriu como fazer o fogo, ele começou a se apropriar e a desenvolver técnicas que facilitaram a sua vida. Já o conceito de modernização tem muitos significados, o mais frequente ligado aos novos hábitos de vida urbana, construídos na sociedade industrial do século XX.

A confusão entre conceitos é usada para evitar um outro discurso, de corte marxista, que considera como causa da degradação ambiental o consumismo capitalista.

Porque será?

Falam em padrão de consumo em ascensão, colocam a culpa na tecnologia e na modernização, para evitar identificar claramente os verdadeiros culpados pela degradação ambiental.

Ricardo Braun cita a idade média e seus castelos medievais, rodeados de florestas, como exemplo de sustentabilidade, esquecendo-se totalmente das suas preocupações iniciais com os desequilíbrios sociais e econômicos, que eram muito mais profundos na idade média onde os senhores feudais tinham direito de vida e morte sobre seus súditos, que viviam na miséria, enquanto eles dispunham de todo o poder e de todas as riquezas.

Para justificar sua utopia regressiva, cita um “ecólogo” do Banco Mundial, instituição que sustenta as políticas das grandes potências para o desenvolvimento econômico, baseado no aumento contínuo da produção, e compara o consumo das grandes cidades européias de hoje com o dos seus preferidos castelos medievais

Esse discurso ambíguo serve como pano de fundo para introduzir um outro, este de corte místico, que diz que a causa principal dos desequilíbrios planetários estaria no distanciamento do homem da natureza. Fala dos mestres iluminados contemporâneos e suas teorias sobre uma hipotética falha no processo evolutivo do homem causada pela modernização da vida e suas conseqüências, entre elas uma alta densidade sentimental e emocional estimulada pelo individualismo e pelo egoísmo.

A partir daí entra o discurso da mudança interior, que afirma que o processo de salvação do mundo tem de se iniciar dentro de cada pessoa, jogando para o nível individual a responsabilidade sobre a degradação do meio ambiente.

Depois vem o discurso holístico, de que nós somos seres da natureza em evolução espiritual, ou seja, um pouco de Alan Kardeck e um pouco do antigo naturalismo, que pregava a volta do homem à natureza.

Estabelecida essa imensa confusão conceitual, cercada de uma aura mística e cheia de referências a sábios do hemisfério norte, justamente dos países mais industrializados e consumistas, Braun passa aos exemplos de iniciativas e propostas para solucionar os problemas ambientais.

A Ecologia Profunda, baseada em conceitos holísticos, as Ecovilas e as Comunidades Sustentáveis (redes de pequenos povoados ao redor do mundo onde uma classe média consciente dos problemas ambientais se refugia, numa variação das antigas experiências socialistas utópicas do século XIX), a Permacultura (técnicas agrícolas de recuperação e manejo sustentável do solo), no dinheiro alternativo, usado em algumas dessas comunidades ecológicas, na Energia do Ponto Zero, que seria uma energia vital que moveria os planetas no universo (aproveitando um suposto estado vibracional meditativo do ambiente) e na espiritualidade.

O leitor há de convir, que essa imensa salada não identifica objetivamente a causa dos problemas ambientais do planeta, nem aponta soluções para eles, jogando tudo para o nível local, individual e espiritual.

A quem interessa esse tipo de teoria? A que interesses serve desviar o foco das grandes empresas e de todo o processo de crescimento econômico, baseado no consumo desenfreado, para o indivíduo? Porque o Banco Mundial, profundamente comprometido com todo esse processo de degradação teria ecólogos interessados no desenvolvimento holístico?

Poderíamos ainda falar de outros discursos recorrentes, que se misturam a esses, como o que afirma que por causa do aquecimento global, haveriam grandes secas e a água do planeta iria se acabar, que é o discurso da privatização da água, na contramão do que está acontecendo, ou seja, grandes inundações, muitos furacões e aumento da umidade em decorrência do degelo nos pólos.

O aumento do nível dos oceanos, varia de 50 cm a 100 metros, nas previsões catastróficas, nos deixando sem saber onde realmente estão os dados científicos.

Tudo isso é temperado pelo messianismo dos que parecem ter prazer em anunciar o fim dos tempos, como uma punição bíblica pelos pecados da humanidade, numa espécie de discurso do juizo final.

Essa estranha formação discursiva é, ela mesma, insustentável. Enquanto não conseguirmos um mínimo de objetividade nessa discussão, ficaremos a mercê dessa caótica armadilha filosófica, destinada a turvar as nossas vistas, enquanto os grandes conglomerados financeiros continuam de mãos livres para lucrar com a destruição do planeta.



Abraço a todos



Ricardo Stumpf