Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 15 de janeiro de 2012

Resgatando o espaço público


     A relação entre espaço público e democracia é direta.
     Lugares privados são dominados pela lógica dos seus proprietários, sejam eles condomínios, controlados por um síndico, ou locais comerciais como shoppings, cuja lógica é a obtençção do lucro máximo.
     Espaços públicos são regulados por leis, que nos regimes democráticos são elaboradas por parlamentos eleitos, portanto, a princípio, servem ao interesse público e aos princípios republicanos de igualdade entre cidadãos.
     Uma praça pública, tem como objetivo proporcionar o lazer à todos os cidadãos que a procurem, não importando sua condição social, cor, religião´ou gênero. É, por definição, um espaço democrático e aberto à utilização de todos.
     Assim como a praça é um espaço aberto, existem também espaços públicos fechados, que devem funcionar segundo a mesma lógica. Teatros municipais, centros culturais, estádios de futebol (cobertos ou não), ginásios construídos pelo pode rpúblico para a prática de esportes, são espaços destinados à todos e seguem normas estabelecidas e aceitas, que garantam o acesso à todos os cidadãos.
     A cidade capitalista tende a substituir os espaços públicos pelos privados, especialmente shoppings e locais de espetáculo, sujeitando os cidadãos à lógica de intereses particulares, o que, a priori, pode restringir o exercício da cidadania.
     Quando deixamos de frequentar a praça e passamos a ir ao shopping, estamos abrindo mão de direitos, cedendo aos interesses comerciais a decisão do que é ou não permitido fazer, do horário de frequência, do tipo de indumentária que devemos usar e até do comportamento.
     Existem exemplos muito negativos de shoppings que proíbem, por exemplo, a reunião de mais de cinco pessoas, ou proíbem o ingresso em determinados trajes (bermudas ou shorts), proíbem entrar com comidas, etc.
     Já houve casos explícitos de discriminação contra pessoas com aparência pobre, com exposição dessas pessoas a situações humilhantes. Aos shoppings só interessa os que tem dinheiro para consumir. Pobres só ocupam espaço e enfeiam o ambiente, espantando fregueses que realmente importam.
     Alguns espaços públicos das nossas cidades vem sendo paulatinamente abandonados pela onda consumista que transformou os shoppings em opção de laser nos finais de semana. Um exemplo típico é a Concha Acústica de Brasília, cenário de grandes espetáculos nas décadas de 1960 e 1970 e que hoje está tomada pelo mato (pelo menos estava da última vez que a vi).
O abandono da Concha Acústica de Brasília
     Quando conto aos meus filhos que assisti ao fantástico balé do Senegal na Concha em 1971 eles não acreditam.
     Mas é possível harmonizar interesses coletivos e privados em torno de espaços públicos. Um bom exemplo é o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, em Fortaleza, onde convivem espaços administrados pelo estado (Secretaria estadual de Cultura), como teatros, planetário, biblioteca, Museu de Arte Contemporânea, salas de exposição e de cursos, com cinemas privados (Espaço Unibando 1 e 2) e muitos bares e restaurantes dispostos numa espécie de "praça da alimentação" ao ar livre, com música ao vivo para todos os gostos, tudo entremeado por jardins onde se localizam esculturas, painéis e pinturas de vários estilos.

Dragão do Mar, em Fortaleza

     Cabe aos arquitetos e ubanistas, resgatar a função pública dos espaços de lazer das cidades brasileiras, garantindo o acesso democrático e plural a todos os cidadãos, reforçando assim sua identidade cultural e seus laços sociais.
     Isso inclui rodoviárias e aeroportos, que acham que podem cobrar o que bem entendem por serviços que não se diferenciam em nada dos prestados em outras áreas da cidade, seja um táxi, um lanche, um jornal ou um corte de cabelo.
     De nada adianta baratear as passagens de avião se nos aeroportos continuamos reféns dessa lógica que dá direito aos comerciantes da área de saquear à vontade os passageiros. Já basta o desrespeito das empresas aéreas que tratam os passageiros como gado enfileirado para o abate. É preciso democratizar esses espaços, que por definição são públicos, mas se encontram sob a lógica predatória dos mercados.
    

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Rapidinhas

Mundo novo

     Prezados leitores
     Estamos iniciando 2012 com a promessa de muitas mudanças neste nosso lindo e sofrido planeta.
     É um ano que promete consolidar grandes mudanças que se iniciaram em 2011 e vai depender muito de nós, do nosso trabalho, da nossa dedicação e capacidade de abrir um novo caminho, a construção de um futuro melhor para todos os brasileiros e latino-americanos.
     A América do Sul está se levantando, sacudindo a poeira e nos reservando um novo papel no mundo. O Brasil, daqui para a frente, será cada dia mais importante, e a nós que vivemos nessa quadra do século, cabe a responsabilidade de guiar todo esse processo. Tanto as novas gerações, com sua energia, quanto as antigas, com sua experiência.
     Este blog, que é apenas uma pequena gota d'água nesse oceano de informações que é a internet, espera contribuir com a construção dessa nova consciência.
     Meu chamado aos leitores de outros continentes, feito na semana passada, já rendeu seu primeiro fruto, com o contato da minha amiga de Infância, Lilian, atualmente residindo na França. Uma alegria imensa poder saber dela e do trabalho que realiza na área da linguística.
     Estamos abertos a outros contatos de outros continentes para que se manifestem.
    
O finzinho

     Pois é, amigos.
     Já chegado aos 60 anos, comecei a olhar para a velhice. É inevitável, até porque temos os exemplos familiares a nos mostrar para onde vamos, todos os que sobrevivem nesta terra até os 80 ou 90 anos, algumas vezes até passando dos 100.
     Envelhecer não é tanto o problema, já que com cuidados com a saúde e um pouco de sorte, se pode chegar bem até uma idade avançada. O problema é o finzinho, aquela idade em que o ser humano perde a autonomia, já não consegue se locomover sozinho, as pernas já não funcionam, as costas se curvam, a mente se turva, precisa-se voltar a usar fraldas, etc.
     Como é difícil esse fim. E como estamos despreparados para ele. Não importa se somos os que estão se findando ou se somos os que cuidamos de quem está no fim, o fato é que nunca estamos preparados.
     O que observo nas famílias é que não existe um planejamento para cuidar dos muito velhos, assim como nos planejamos para cuidar dos filhos que nascem.
     Quando vem uma criança, preparamos o quarto, compramos os móveis, temos esquemas legais de proteção à gravidez, licenças maternidade e paternidade para o nascimento, contratamos babás, ou as colocamos em creches e todos sabem qual é a sua responsabilidade. Mas quando se trata de cuidar de um idoso, é um jogo de empurra-empurra entre os filhos e ninguém sabe direito o que fazer e na verdade ninguém está muito preparado para isto.
     Isto justifica o triste ditado popular que diz: um pai sustenta dez filhos, mas dez filhos não sustentam um pai.
O império se retira

     E por falar em decadência, o Congresso americano começa a discutir os cortes orçamentários no seu gigantesco orçamento militar. As discussões em torno do assunto são esdrúxulas, com gente questionando quantas guerras eles conseguiriam travar ao mesmo tempo, como manter a ordem no extremo oriente, na Ásia e no pacífico, ao mesmo tempo, como se a eles coubesse a tarefa de policiar o mundo.
     Ao mesmo tempo em que começam a retirada do Iraque, proclamam seu "sucesso" naquela guerra sem sentido, que tirou a vida de mais de 100.000 civis iraquianos, segundo as estatísticas mais conservadoras, como se tivessem vergonha de admitir que estão se retirando e que tudo aquilo foi um grande desastre que  só encheu os bolsos do complexo-industrial-militar norte-americano.
     Os patéticos discursos de Obama, a respeito da manutenção da liderança americana no mundo, em parte estão voltados ao eleitorado conservador, obcecado pela idéia de dominação do mundo e pela paranóia da ameaça externa e em parte estão voltados para aqueles que os americanos consideram seus inimigos, como a Coréia do Norte ou o Irã, países que não tem a menos condição de travar uma guerra com eles sem seres rapidamente arrasados.  
     É uma situação estranha, em que a potência que se retira não quer admitir que a ordem das coisas possa se alterar com a sua retirada. É como se eles estivessem dizendo: olha, nós vamos sair, mas vocês precisam se comportar e continuar seguindo nossas ordens.
     Enquanto isso a China se arma silenciosamente, sabendo que o tempo trabalha a seu favor.
     Como já dizia Camões: Cessa tudo quanto a antiga musa canta, quando um poder mais alto se alevanta.

 
 
Praias do Ceará

     Em rápida excursão pelo litoral leste do Ceará, pude conhecer Canoa Quebrada e outras praias desse Estado e posso dizer que fiquei surpreso.
     Não se trata apenas da beleza natural, da qual eu já tinha ouvido falar muito, mas o que surpreende em quem pega a rodovia CE-040 é a qualidade de tudo, a começar pela estrada que está sendo toda duplicada.
     Os 125 Km entre Fortaleza e Aracati são de ótimo asfalto e um meio ambiente que mistura semi-árido com restinga, onde abundam os cajueiros, em verdadeiras florestas ao longo das margens. Pequenos vilarejos, aparentemente limpos, organizados e dotados de boa infra-estrutura vão desfilando aos olhos do turista, acostumado às imagens de pobreza do nordeste veiculadas pela grande imprensa do sudeste.
     A estrada não tem quebra-molas, mas "lombadas eletrônicas", que obrigam o motorista a reduzir a velocidade para 60 Km nos pequenos lugarejos. Tudo muito bem sinalizado.
     Não é à tôa que a revista The Economist apelidou o nordeste de China brasileira, pelo seu crescimento rápido e sustentado. Depois de muitos anos na Bahia, posso dizer que fiquei chocado com a diferença. O Ceará está se tornando rapidamente um lugar desenvolvido.
     Pobreza? Se vê sim, mas aquele pobreza simples do homem do interior. Não vi miséria nem favelas por onde passei, apenas um estado investindo pesadamente em infra-estrtura e um povo alegre e gentil.
     Aliás o cearense é por natureza engraçado. Adora rir e contar piadas. Alto astral.  
O que se vê de ruim são aqueles tipos magricelas, com tatuagens e brinquinhos na orelha, falando com jeito de malandro carioca, tentando conseguir algum dinheiro para consumir suas drogas. Infelizmente coisa comum em todos os locais turísticos do Brasil.
(Até quando vamos assistir o avanço do tráfico, destruindo pessoas e famílias, enquanto o governo assiste tudo passivamente, fingindo que existem políticas  públicas para isso?)
     A infraestrutura hoteleira também é ótima. Andamos por várias praias, Canoa Quebrada, onde ficamos hospedados no Hotel -pousada Canoa Quebrada, com tudo que um bom hotel necessita, fomos também a Morro Branco, Uruaú, Beberibe, Praia das Fontes, Pontal de Maceió, Fortim e outros pequenos lugarejos com saída asfaltada da rodovia estadual e achamos sempre pousadas com ótimo aspecto, oferecendo todos os confortos. 
     Outra coisa impressionante é a quantidade de parques eólicos que existem no litoral. Praticamente todas as praias tem seu conjunto de aerogeradores, que aproveitam a energia dos ventos abundantes que sopram no litoral norte do Brasil.
     Os parques eólicos, além de produzirem energia limpa, são bonitos, elementos poéticos na paisagem das praias. E são imensos. Devem medir mais de 30 metros altura.

     A última surpresa vem com a visão da construção do novo aeroporto internacional de Aracati  (à esquerda), preparado para receber grandes aviões em voos charter direto do exterior, principalmente da Europa, para o litoral leste do Ceará, onde os turistas europeus são comuns, especialmente os italianos.
     Em estilo rústico, coberto de palha, o aeroporto mistura elementos tradicionais com todos os confortos da modernidade.
     É o novo Ceará, o novo nordeste, o novo Brasil que surge rapidamente.
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domingo, 1 de janeiro de 2012

Rapidinhas

2012

     Assistir ao reveillón na praia de Iracema em Fortaleza é um espetáculo que vale à pena. Além de shows de grandes artistas, como Titãs, Raimundo Fagner e Yvete Sangalo, a queima de fogos com duração de 15 minutos é uma das mais bonitas que já assisti.
     A praia de Iracema, lotada, devia ter mais de um milhão de pessoas, muitas das quais levam isopores, toalhas e até mesas e cadeiras para fazerem verdadeiros acampamentos na areia e poderem desfrutar, com suas famílias, da entrada do ano.
     Esperamos que 2012 seja um ano bom para o Brasil e para os brasileiros e que aprendamos a ser mais responsáveis, cuidando melhor dos nossos semelhantes (ei pessoal, não bebam e saiam dirigindo por aí), do nosso meio ambiente e encontrando soluções para os nossos velhos problemas, dentre eles a educação.
     Como é um ano de eleições, é uma boa oportunidade para dar uma varrida em tantos corruptos, renovando nossa classe política e cobrando mais deles também. Não adianta nada falar mal dos políticos e continuar votando nos corruptos. Vamos ajudar a presidente Dilma a fazer a faxina.
     Faxina neles!
     E feliz ano novo para todos

O valor da pobreza


     A notícia de que o Brasil ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do planeta, tem dois lados. Primeiro mostra o acerto da linha seguida pelos governos do PT, de Lula e Dilma, em apostar em novos mercados como o Mercosul, os países árabes, a África e a Ásia, em detrimento dos velhos parceiros comerciais dos governos de direita, Europa e Estados Unidos.
     Lembram-se quando aquele sub-secretário norte-americano ironizou Lula, no início do seu primeiro governo, por ser contra a Alca (uma espécie de mercado comum americano, onde todo mundo venderia para os Estados Unidos) e disse que se o Brasil não vendesse para eles ia vender para os pinguins da Antártida?
     Lula respondeu que não discutia com o sub do sub do sub do sub, ironizando também a posição do norte-americano. O tempo mostrou que a política brasileira estava certa. Quem apostou em acordos comerciais com as economias mais ricas, está agora sem ter pra quem vender, com a crise profunda daqueles mercados.
     O outro lado da notícia é que a ascenção do Brasil não se deve a um crescimento muito grande da nossa economia, mas à queda da economia britânica.
     A ironia da situação é que hoje os países que contam com maior desigualdade tem um mercado interno a desenvolver (Brasil, Índia e China), enquanto os que sustentam populações ricas dependem de exportações.
 Nós podemos crescer "para dentro", eles não.
     É claro que países com grandes territórios, como Brasil, China e Rússia, tem também muitos recursos materiais. Somos ricos em recursos e temos um mercado interno a desenvolver, o que nos coloca um pouco (mas não totalmente) a salvo da crise deles.
     Na verdade a crise das economias ricas é muito mais uma crise de um modelo em que a riqueza estava concentrada em poucos países dominantes, enquanto os restantes se debatiam na pobreza.
     Essa crise tende a se tornar um momento em que o capital se espalha pelo globo, reforçando aquilo que os analistas chamam de "mercado global". Caem as hegemonias e o capital muda de endereço, procurando lugares mais rentáveis. Acredito que seja uma longa crise de mudanças profundas, mas a longo prazo a América do Sul, a Ásia e a África serão beneficiadas com ela.

Raimundo Carvalho

     Visitei a casa e atelier do artista Raimundo Carvalho, na pequena cidade de Teofilandia, ao norte de Salvador. Raimundo é professor e artista plástico e acaba de expor seus trabalhos na Filadélfia, Estados Unidos e se prepara para nova exposição, desta vez em Salamanca, na Espanha.
     Incrível as flores que nascem no interior da Bahia. Raimundo é uma delas. Um artista fantástico, que não abandona sua cidade, de onde tira sua inspiração e alimenta sua ONG , Fulô da Caatinga, dedicada a promover a cultura regional, sempre estimulado por sua esposa, Tamar.    
     A casa-atelier de Raimundo é muito criativa, com um projeto do próprio artista, que demoliu uma casa antiga, construindo a nova no mesmo terreno, sem derrubar a fachada antiga. Entre a frente antiga e a nova, moderna, um jardim interno cheio de plantas ornamentais. Quem olha da rua nem percebe a casa nova e quando entra se surpreende com o ambiente aberto, envidraçado, ventilado. Uma beleza.

Àesquerda a fachada antiga. 
À direita a fachada nova vista através da porta.
Abaixo vista interna da nova casa, com suas obras de arte.
    


    Raimundo Carvalho é a prova viva de que cada vez mais é possível viver e produzir no interior, antes atrasado e agora integrado às grandes redes globalizadas.
     Teofilândia é uma cidade muito simpática, nascida ao lado de um tanque de pedras, onde os antigos vaqueiros levavam o gado para beber.
     Hoje a cidade tem cerca de 25.000 habitantes e uma noite estrelada maravilhosamente sertaneja, com as pessoas sentadas nas calçadas a conversar e trocar suas experiências do dia-a-dia.
     Um privilégio poder conhecer essa cidade e essa família que me recebeu com tanta simpatia.
     Para quem se interessar em conhecer a obra de Raimundo Carvalho, seu blog está aí ao lado.
     
Canudos

     Em viagem por terra, entre Vitória da Conquista, na Bahia, e Fortaleza, tive a oportunidade de realizar um velho sonho, o de conhecer o sítio histórico e arqueológico da guerra de Canudos, no município do mesmo nome.
     De Conquista a Fortaleza há um só caminho, a BR-116, agora rebatizada de rodovia Santos Dumont.
     Ao norte da Bahia, chega-se ao município de Bendegó de onde sai a estrada para Canudos. Estão construindo uma nova estrada, larga, de primeira qualidade, com grandes pontes e aterros e por isso há alguns desvios, pois algumas partes ainda não estão prontas. Num desses desvios vê-se um arco de pedra à esquerda, que é entrada para o Parque Estadual de Canudos, administrado pela Uneb, Universidade do Estado da Bahia.
     A estrada nova segue em direção à nova cidade de Canudos, mas resolvemos entrar logo  no parque para conhecer.
     Logo na entrada uma casa, onde ficam os guardas que nos orientam para a visita.
     Nos explicaram que devíamos parar o carro no caminho, junto a placa que indica o Vale da Morte e daí seguirmos à pé, para depois seguirmos até o Alto da favela, novamente de carro, onde há um pequeno museu, com painéis explicativos.
     Fizemos como recomendado e entramos à pé pelo tal Vale da Morte, onde uma placa nos explica que ali ficaram acampados os soldados da terceira expedição militar enviada para destruir o arraial, no final do século XIX, derrotada pelos sertanejos.
     Fomos muito adiante da placa, até uma cerca que deve ser o limite do parque. Estávamos procurando uns túmulos, que o funcionário nos havia indicado, que afinal não achamos, mas atravessamos um brejo, sempre seguindo uma trilha, onde nascem os tais canudos, uma vegetação que tem os talos ocos, como canudos mesmo. Me senti como na oração: "ainda que eu caminhe pelo vale da morte...", imaginando o sofrimento daqueles soldados, derrotados, acampados ali naquele ermo, há mais de 100 anos atrás, esperando um reforço impossível de chegar e morrendo aos poucos sob o sol e o calor inclementes.
     Voltamos para o carro e fomos para o Alto da Favela, elevação de onde se descortina o açude de Cocorobó, construído pela ditadura militar para esconder a vila de Canudos, reconstruída pelo povo no início do século XX e que ainda guardava a velha igreja construída por Antonio Conselheiro, o beato que mobilizou uma multidão de sertanejos na ilusão de que seria possível viver uma vida autônoma, em meio aos fazendeiros que tratavam o povo como escravo, mesmo após a abolição.
     Lá está o pequeno museu com painéis, explicando como foi a guerra. Nenhum objeto: nem cartuchos de balas, nem túmulos, nem pedaços de construções, apenas painéis contando uma história. Os painéis nos contam que ali naquele local, se reuniram as duas colunas da quarta expedição, vindas da Bahia e de Sergipe, que finalmente conseguiram derrotar os sertanejos e destruir o arraial. Mas adiante uma outra placa nos dos indica onde ficava o banco de sangue do exército, para atender aos soldados feridos.  Só havia feridos do lado do exército, já que os "jagunços", como ainda são tratados pejorativamente os sertanejos livres, eram executados sumariamente, assim que aprisionados. 
     De lá uma estrada segue em direção ao acude, mas ninguém nos orientou a ir até lá. Mesmo assim seguimos até nos deparar com um portão, que estava apenas encostado. Observamos que mais adiante ainda havia placas indicativas ao longo da estrada e seguimos de carro até a beira do açude. No percurso uma placa nos avisa que estamos percorrendo uma estrada sagrada, a estrada de Massacará, onde Antonio Conselheiro fazia suas romarias com seus seguidores.
     Na beira do açude não se vê sinal da antiga vila, totalmente encoberta pelas águas.
     Frustrado, pensei que o museu conservava apenas os lugares importantes para os militares e que a vila e a velha igreja, foram muito bem escondidas, na tentativa de ocultar um dos maiores, senão o maior crime da história brasileira.
     A criação do parque foi uma tentativa de resgatar a história desse crime, que os militares tentaram esconder com a construção do açude, inaugurado em 1969, mas uma tentativa ainda tímida. O certo era abrir o açude, deixar a velha vila reaparecer e restaurá-la, para que as novas gerações pudessem conhecer o sítio histórico onde se deu o massacre de um povo que teve a ousadia de lutar apenas pelo direito de existir e viver em paz, e foi covardemente destruído por um exército que defendia o interesse dos fazendeiros em escravizá-lo.
     O açude, que represa o rio Vaza-Barris, poderia ser reconstruído mais abaixo de modo a não encobrir a antiga Vila, já que aparentemente não há plantações ao seu redor que justifiquem sua existência. Às margens das suas águas senti calafrios e uma dor profunda. Minha alegria de finalmente poder visitar o local foi substituída por uma estranha emoção, como se eu pudesse ouvir os gritos de dor e sofrimento daqueles que tiveram suas vidas ceifadas e sua memória afogada.
     Fiquei envergonhado na beira daquelas águas, de ser um turista tirando fotos. Quis sair, quis ir embora, nem fui visitar a Nova Canudos e seguindo ainda pela br-116, durante muitos quilômetros aquele sentimento me acompanhou e uma tristeza profunda tomou conta do meu espírito, como se todo o peso daqueles almas perdidas pesasse sobre mim e sobre toda a nação brasileira.
     Alguém precisa ter a coragem de abrir aquele açude e deixar a verdade aparecer, resgatando os fatos que verdadeiramente importam e fazendo justiça aos homens e mulheres que lutaram por sua liberdade e foram tão injustamente mortos. Não, a estrada de Massacará não é uma estrada sagrada, como o enfoque que os museólogos tentaram dar a ela. Não é a religião o legado de Antonio Conselheiro, mas é uma estrada histórica, um primeiro caminho na luta do povo brasileiro pela sua emancipação. 
     Restaurem a Vila Velha de Canudos, recuperem a verdadeira história daquele povo e a memória daquela guerra insana. Libertem aqueles espíritos afogados pelo sofrimento, toda aquela gente massacrada que jaz sob as águas vergonhosas daquele açude.
    
  
    

     

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domingo, 25 de dezembro de 2011

Rapidinhas



     Prezados amigos leitores

     Quero agradecer a todos que tem prestigiado este espaço de comunicação, que está completando seu quarto ano, pelo interesse, pela participação, pela paciência com meus erros e por partilhar também os meus acertos, sempre em busca de defender o que considero posições justas, que possam colaborar para formar uma consciência que leve o Brasil e o mundo pelo caminho do progresso e da paz.
     Quero agradecer, inclusive aos leitores desconhecidos, que me acessam de lugares longínquos, como a Rússia, a China, a Tailândia, Angola, a Eslováquia, os Estados Uidos ou a Alemanha. Fico curioso por saber algo sobre esses leitores. Quem são eles? Serão brasileiros residentes no exterior? Serão naturais desses países interessados no nosso dia-a-dia, serão simples cidadãos de um mundo globalizado?
     Gostaria de enviar uma mensagem especial a eles para que, se quiserem, se identifiquem de forma a trocarmos experiências e até citá-los no blog. Quem sabe até possam nos mandar alguma notícia da sua realidade para que comentemos aqui.
     De qualquer forma, agradeço muito a todos e desejo sinceramente que nos aproximemos cada vez mais, todos os cidadãos do mundo, na direção de uma vida de paz e prosperidade. Que 2012 que seja o início das mudanças pelas quais o mundo precisa passar para se libertar dos egoísmos e avarezas.
     Agradeço especialmente aos meus filhos, Mário, Micaele, Gustavo e Gisa, pela amizade e apoio, à minha mãe pelo carinho de sempre, aos meus melhores amigos de Rio de Contas (alô Angela), de Conquista (a lista é grande: Zé Mário, Alberto, Sidney, Nai, Mercês, Olguinha e tantos outros),  de Itabuna (alô João Vitor e Matheus),  de Salvador (Valeu Claudete), do Rio (Oi Eliane), de Santiago do Chile (Hola Lucho), de Porto Alegre (minha amiga Hanne e a família Porto inteira), de São Paulo (Oi Regina, você ainda está em São Paulo?), aos meus alunos da Faculdade de Arquitetura que dividiram este ano comigo na luta pelo conhecimento, aos meus colegas professores, aos jovens Anne e Alisson, que dividiram nossa casa conosco em Conquista durante 2011 e especialmente ao novo amor que veio dar novo sentido à minha vida, me resgatando da tristeza e da solidão.
     A todos vocês muito obrigado.

Autópsia

Silvia Paes e Ricardo Brunswick em Navalha na Carne

     Assisti à peça Autópsia, da mostra Dulcina de Teatro, no dia 20 dezembro aqui em Brasília.
     Trata-de se uma colagem dos textos de Plínio Marcos: Navalha na carne (na foto acima); Querô; Quando as máquinas param (abaixo); Dois perdidos numa noite suja e Abajur lilás.

                                                       Mário Luz e Sami Maia em Quando as máquinas param
Para mim, que nunca tinha assistido a nenhuma das peças, foi uma viagem impressionante ao submundo do povo brasileiro. Com atuações fantásticas de atores ainda estudantes, com excessão de uma atriz convidada (Silvia paes, professora da Faculdade Dulcina de Teatro) a peça mostra que a Dulcina continua sendo uma usina de grandes atores. Segundo minha amiga Regina Reis, atriz e diretora formada lá, essa pequena faculdade, que está sempre em dificuldades financeiras e vive para a arte, se mantém assim tão viva e importante pela presença espiritual de Dulcina de Moraes.
     Ela está lá Ricardo, pude sentir a presença dela!, me disse Regina quando foi visitar o local no ano passado.
     Quando é que o governo do Distrito Federal vai intervir ali e transformar a Dulcina em uma instituição pública e gratuita? Aliás aquele decadente centro comercial, conhecido como CONIC, é o lugar perfeito para sediar uma Universidade do Distrito Federal. Bem no meio da cidade, ao lado da rodoviária, com acesso fácil à todos, poderia se transformar num campus urbano compensando a distância da elitizada UnB, tão distante de tudo e de todos, com suas aulas ainda diurnas, impedindo que o povo tenha acesso aos seus cursos.
     Além disso, desapropriar e restaurar aqueles prédios seria um favor para Brasília e poderia dinamizar mais ainda aquela área da cidade.
     Por favor governador Agnelo Queiroz, faça alguma coisa pela Dulcina. Tenha coragem de criar a Universidade pública do Distrito Federal!
     A ficha completa do espetáculo já foi publicada na edição passada do blog.

Lançamento
Recebi da professora Esther Lígia, incansável batalhadora pela cultura de Livramento e de todo alto sertão da Bahia, o convite para lançamento do seu livro de cordel; Oasis do sertão baiano.
     Fica aí o comvite, para o dia 29 de dezembro, às 20,30, na Praça Dom Hélio Pascal.

Um conto chinês



     Este novo filme dá sequência a uma história de sucessos do novo cinema argentino.
     Dirigido por Sebastián Borensztein e tendo como principais intérpretes,  Ricardo Darín (de O segredo de seus olhos) como Roberto, Muriel Santa Ana como Mari, e Huang Sheng Huang como Jun, o filme começa com um fato absurdo.Na China, uma vaca cai do ceú sobre um barco, matando uma jovem que ia ser pedida em casamento pelo seu namorado.
     A partir daí a história se desenvolve em Buenos Aires, na loja de ferragens de um ex-combatente da guerra das Malvinas, Roberto, que vive recluso e solitário, colcecionando coisas, entre elas recortes de jornais com notícias de fatos absurdos que acontecem pelo mundo.


     O encontro de Roberto com o noivo da moça, que parte para a Argentina a procura de um tio, seu único parente vivo, cria uma situação cômica, pois o chinês não fala espanhol e o argentino não fala chinês.
     A convivência entre eles vai revelando o mundo dos dois e a interação possível entre pessoas tão diferentes, mostra que a dimensão humana cria pontes entre universos tão distintos e é capaz de mudar a vida das pessoas, mesmo daquelas que acham que a vida não faz sentido e que não há mais esperença.
     É uma ótima oportunidade para sair da mesmice dos filmes americanos. Se puder não perca esse conto moderno, muito bem narrado.
     Vale a pena conferir.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rapidinhas 
Três é demais...
     Semana passada três grandes nomes nos deixaram: Sergio Brito, um dos maiores atores do teatro brasileiro, Joãosinho Trinta, o carnavalesco que revolucionou os desfiles do carnaval carioca e Cesária Évora, a grande cantora caboverdiana, um dos maiores talentos musicais da língua portuguesa.
     Para eles, o fim desta vida chegou antes de 2012 e para nós que aqui continuamos, restará o muito que seus talentos nos deram em forma de arte, de poesia e daquele tipo de alegria que nos faz refletir e evoluir.
     Perder três talentos como esses de uma vez só é demais. Que seu legado nos inspire na construção de um mundo melhor.
  Mostra Dulcina de Teatro

     Recebi o convite para a peça Autópsia, como parte da Mostra Dulcina de Teatro que acontece todos os finais de ano, na Faculdade Dulcina de Teatro, em Brasília, que repasso a todos os leitores junto com a ficha técnica.


A falta. O limite. O excesso. A infinitude de sonhos que disputam,
irremediavelmente, o desejo de sobreviver uma rinha de cotidiano
precário. Tudo vale ou tudo se justifica para continuar vivendo.
A montagem compõem-se a partir das peças “Navalha na Carne”,
“Abajur Lilás”, “Dois perdidos numa noite suja”, “Querô” e “Quando
as Máquinas Param”, de Plínio Marcos.
Dias: 20 e 21 de dezembro
Local: Teatro Dulcina
Sessões: 19h (parte 1) e 21h (parte 2)
Elenco: Adriana Heilmann, Flávio Monteiro, Jeferson Alves, Mário Luz, Paulo
Carpino, Pedro Ribeiro, Ricardo Brunswick, Roberta Albuquerque, Sami Maia e
Sérgio Dhubrann
Atriz convidada: Núbia Karollyna
                                                 Figurino: Jonathan Andrade e Valéria Rocha
                                     Cenografia, Sonoplastia e Iluminação: Jonathan Andrade
                                                       Preparação Vocal: Dianete Ângela
                                                   Preparação Musical: Gislene Rodrigues
                          Colaboração no processo: Francis Wilker, Glauber Coradesqui, Lívia Bennet,
                                                Micheli Santini, Nei Cirqueira e Valéria Lehmann

 Gasolina cartelizada

     Da noite para o dia, todos os postos de combustível de Vitória da Conquista passaram a praticar o mesmo preço nas bombas: R$2,669, numa evidente cartelização dos preços.
     O Ministério Público e o PROCOM do município deveriam investigar o caso, para garantir o direito dos consumidores, que ficam privados de uma real e saudávelconcorrência.

sábado, 17 de dezembro de 2011



Corrupção endêmica

     Finalmente vem à tona o caso dos dossiês contra a filha de José Serra, Verônica, e seu marido Alexandre Borgeois, levantados pelo PSDB durante a campanha eleitoral de 2010, como sendo uma armação do PT para destruir a candidatura do tucano paulista.
     O livro, A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Junior (Geração Editorial), pretende esclarecer tudo a respeito da corrupção nos dois governos de FHC, na época das privatizações e o esquema de lavagem de dinheiro montado para encobrir tudo.
     A reportagem da edição da revista Carta Capital de 14 de dezembro, traz uma matéria de capa sobre o assunto, entrevistando o autor do livro. Já há até um site oferecendo download gratuito do livro antes que ele seja censurado  no endereço http://bolaearte.wordpress.com/..
    .Por outro lado, a revista Isto é, de 9 de dezembro, traz ampla reportagem sobre o esquema de fraudes montado no Ministério dos Esportes, ainda no tempo em que Agnelo Queiroz era ministro, à partir da história de Miguel Santos Souza, cujo papel seria o de fraudar convênios através de empresas-fantasma, para desviar dinheiro para o então partido do ex-ministro, o PCdoB.
     Na mesma edição a revista traz a acusação do Ministério Público contra o senador Cícero Lucena, PSDB da Paraíba, sobre fraudes em licitações no tempo em que era Prefeito de João Pessoa. Hoje Lucena é Primeiro-Secretário do Senado.
     Na UOL, esta semana, um ministro do Supremo Tribunal Federal, avisava que os crimes do mensalão poderiam prescrever, devido à demora do processo. Enquanto isso, seguem as denúncias contra o ministro Pimentel, do PT de Minas, que teria recebido um milhão de reais de uma empresa para passar um dia "conversando" com eles. Ele que é assessor pessoal da presidente Dilma desde a campanha eleitoral, imagine-se o que teria para contar nessa conversa que valesse tanto dinheiro.
     Se aparecer um partido comprometido com transparência de verdade, que mantenha as contas dos seus parlamentares abertas o tempo todo, que renuncie aos salários e benefícios parlamentares, periga ser um sucesso nas eleições. Hoje essa parece ser a maior urgência para o eleitor brasileiro. Acabar com a corrupção endêmica que compromete o esforço do povo brasileiro para melhorar de vida.
     Quanto às "vestais" do PSDB, sempre tão empenhadas em acusar a esquerda, cai a máscara, principalmente de José Serra, um indivíduo insidioso, rancoroso e cheio de truques sujos.
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     Golpe


     Por falar em corrupção, uma empresa fantasma, chamada Proseg, está enviando correspondências aos aposentados de todo o Brasil, avisando que depois de 13 anos de batalhas judiciais a pessoa ganhou um processo para receber um pecúlio de R$66.500,00 e mais um benefício em forma de aposentadoria e para recebê-lo precisa pagar as custas dos advogados, no valor de R$3.327,50 A correspondência vem com um número de telefone para esclarecimentos (11)7855-8800 e quando a pessoa liga uma mulher que se diz advogada atende e indica como fazer o depósito para liberação do benefício.
     Minha mãe recebeu a correspondência e resolvemos ligar para saber o que era. Claro que suspeitamos logo de um golpe. Mas bastou fazer uma busca na internet para encontrar uma enxurrada de reclamações.  
     Será que só a polícia não está sabendo do golpe?

Um mundo novo

    Estamos encerrando 2011, um ano longo mas promissor.
    Já repararam, amigos leitores, quantas mudanças ocorreram neste ano?
     As revoluções democráticas nos países árabes, os indignados pelo mundo lutando contra o capitalismo selvagem e o predomínio do setor financeiro (e suas crises cíclicas que arruinam países inteiros), as guerras do Iraque e do Afeganistão chegando ao fim, a ascenção dos emergentes, BRICS à frente, com o Brasil começando a ter voz no mundo e apesar da corrupção e dos problemas, melhorando nossas vidas.
     Mesmo neste aspecto,  a faxina de Dilma colocando o combate a corrupção em primeiro plano e, apesar dos pesares, a aliança de esquerda capitaneada pelo PT, acabando com a hegemonia secular da direita no Brasil e se preparando para derrubar seus últimos baluartes em 2012, seja em grandes cidades como São Paulo, seja nos últimos pequenos currais, pelo interior do Brasil. 
     A copa de 2014 e as olimpíadas, forçando nossas cidades a uma reciclagem geral, o povo saindo aos poucos da pobreza e começando a consumir, a vida mudando, tudo ficando informatizado com TVs digitais, 3D, tablets e outros aparelhos novos integrando as mídias, a internet tomando conta de tudo e a vida, apesar de tudo melhorando.
     A consciência planetária sobre o meio ambiente avançando rapidamente e até os países mais poluidores do mundo aceitando um acordo de limitação de emissões de carbono para controlar o aquecimento global.
     Não é pouca coisa. esperamos que 2012 não seja o anunciado fim do mundo, das previsões maias, mas o começo do fim de um mundo antigo, atormentado por guerras e nacionalismos anacrônicos e o início de outro, onde as nações se integrem cada vez mais e construam finalmente um mundo de paz e riqueza para todos, onde a fé dos homens não seja fruto da necessidade, da pobreza ou do desespero, mas da gratidão por uma vida plena e segura para todos.
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O Cemitério de Praga


     Este é o novo livro de Umberto Eco (Editora Record, Rio de janeiro e São Paulo - 2011) , o grande linguista e escritor italiano, autor de O Nome da Rosa, entre outros títulos. 
     Eu já tinha lido, recentemente, O Pendulo de Foucault, também de sua autoria, em que o autor cria uma trama entre editores que vão em busca de mistérios esotéricos, para depois se darem conta de que tudo não passava de uma grotesca falsificação. Mais do que isso, uma espécie de histeria coletiva de gente que se excita com teorias conspiratórias e fazem a fortuna de oportunistas que escrevem obras para esse público, procurando atender seus desejos de descobertas sensacionais e ocultas.
     Em O Cemitério de Praga, Eco vai mais longe e entra no mundo dos falsários, que criam documentos autênticos sobre histórias estapafúrdias, em torno de interesses de ocasião, seja de grupos políticos, seja de governos, seja de preconceitos raciais e religiosos.
     Tudo se passa na segunda metade do século XIX, quando as potências européias faziam seus joguinhos de espionagem, sempre contratando os serviços do personagem principal, que não hesita em desgraçar a vida de inocentes em troca de um bom pagamento, fazendo os serviços mais sujos para atender interesses escusos.
     Durante a trama, Eco nos leva por um passeio em meio a fatos históricos reais, como a luta de Garibaldi pela unificação da Itália, a Comuna de Paris, a guerra franco-prussiana e as conspirações que precederam a revolução russa de 1917, passando por personagens muito conhecidos que viveram naquela época, como Freud, por exemplo.
    Aliás, personagens é o que não falta no livro. A cada capítulo somos apresentados a dois ou três novos, que acompanham o principal, o capitão Simonini, e seu Alter-ego, o abade Dalla Picolla, que são a mesma pessoa. Simonini e Dalla Picolla se revezam nas páginas de um diário em que vão contando tudo que fizeram ao longo de suas vidas, enquanto estranham profundamente morarem na mesma casa sem nunca se verem e não entendem como, quando termina a narrativa de um começa a do outro, já que nem se lembram de se conhecerem.
     Mas o pano de fundo da história é a falsificação de um episódio, criado por Simonini e que ele considera a sua obra prima de falsário, destinado a acirrar o ódio contra os judeus na Europa, numa época em que os governos usavam o anti-semitismo como uma forma de atemorizar seus povos para mantê-los sob controle, usando a velha tática do inimigo comum.
     Este documento, que vai tomando forma ao longo da narrativa, sendo apresentado várias vezes ao longo do tempo a vários clientes diferentes, acaba se transformando nos famosos Protocolos dos Sábios do Sião, usados inclusive por Hitler como argumento para denunciar uma suposta conspiração judaica para dominar o mundo e implementar a sua terrível solução final, ou seja, o simples extermínio do povo judeu.
     A figura amoral de Simonini deve fazer refletir os que ainda se excitam com o esoterismo e as promessas de verdades ocultas a serem reveladas, sobre o fim do mundo e outras bobagens que circulam por aí.
      O pior é que Eco nos revela ao final, que, com excessão de Simonini, todos os personagens de sua obra realmente existiram, mostrando como foi possível manipular a opinião pública por tanto tempo, criando fatos inexistentes, pondo a perder a vida de muitos inocentes, para incrementar crendices e fantasias que visavam atingir, ora a Igreja Católica, ora a maçonaria, ora os judeus, ora os republicanos, ora os comunistas, numa sucessão de sujeiras de deixar tonto o leitor.
     Vejam esse diálogo de Simonini com um dos seus clientes, potencial comprador, para justificar a importância política de um documento falso que ele criara:
     "A multidão é bárbara, e age brutalmente em todas as ocasiões. Observem aqueles brutos alcoolizados, reduzidos à imbecilidade pelas bebidas, cujo consumo ilimitado é tolerado pela liberdade! Deveremos permitir-nos, e aos nossos semelhantes, fazer o mesmo? Os povos da cristandade estão desencaminhados pelo alcool; a juventude deles foi enlouquecida pelas orgias prematuras às quais nossos agentes instigaram... Na política, vence apenas a força genuína; a violência deve ser o princípio, a astúcia e a hipocrisia devem ser a regra. O mal é o único meio para alcançar o bem. Não devemos deter-nos diante da corrupção, do engano e da traição; o fim justifica os meios."
     Algo nesse discurso nos soa familiar?
     Pense nisso, meu caro leitor, e se puder leia o livro: vale a pena.
  


domingo, 11 de dezembro de 2011

Rapidinhas

Estrada da morte

     A BR-116, no trecho entre Vitória da Conquista e Feira de Santana se tornou uma sentença de morte para centenas de brasileiros que precisam trafegar por ela, simplesmente porque não suporta mais o tráfego pesadíssimo de carretas que transportam grande parte das meradorias que circulam entre o sul-sudeste e o nordeste.
     Este trecho da maior rodovia do Brasil já deveria ter sido duplicado há mais de 20 anos, no entanto, não entendo porque, nunca entra nos planos do governo, que já duplicou várias partes da mesma rodovia, mais ao norte e mais ao sul.
     No último domingo, dia 04, voltei de carro de Salvador para Vitória da Conquista, no dia seguinte ao acidente que vitimou 34 pessoas em Brejões. Denecessário dizer que viajei assustado, embora sempre que viaje pela Rio-Bahia me previna muito. São milhares de carretas enfileiradas, coladas umas às outras, rodando a mais de 100 km por hora, enquanto automóveis e ônibus ficam espremidos entre elas.
     Passar no local do acidente foi muito triste.
     Já vi muita gente morrer nesta estrada, por absoluto descaso das autoridades. Até quando vamos assistir a isso? Feira de Santana se tornou um importante pólo industrial, Vitória da Conquista também está crescendo rapidamente. Entre as duas, Jequié já desponta como uma importante cidade do sertão baiano.
     Mas o tráfego de carretas vem de muitas partes do Brasil, já que a116 liga o Rio Grande do Sul à Fortaleza.
     Caberia aos prefeitos da região uma mobilização para incluir no PAC a obra de duplicação desta rodovia tão importante para o Brasil.
     Aliás, o gigantesco tráfego de mercadorias já viabilizaria uma ferrovia, que cobrisse o mesmo trajeto, tirando milhares de carretas das estradas. Ferrovia e duplicação, seria a solução adequada. Será que dá pra gente sonhar com isso ou vamos continuar assistindo a cada vez mais gente morrer tragicamente?


Empreendedorismo?

     
Gente, não existe coisa mais chata do que o discurso dos administradores de empresa, desses que endeusam o SEBRAE e ficam dando aulinhas de capitalismo para os desempregados.
     Um horror!
     Acho que foram eles que inventaram os livros de autoajuda. Só pode! Ficam repetindo aquelas frases de efeito, tentando motivar as pessoas a só pensar em sucesso, em ganhar dinheiro, "vender" sua imagem pessoal, como se a pessoa fosse um produto de consumo.
     Depois reclamam que o mundo está violento, que os valores humanos estão desaparecendo...
O resultado dessa mentalidade gerencialista é esse mesmo. Se o que importa é ser bem sucedido na vida, então vale tudo, traficar, matar, roubar, desde que a pessoa consiga "atingir seus objetivos".
     Os heróis dessa gente são a Miriam Leitão (Arghh!), o Henry Ford, o Walt Disney e o dono da Wall Mart.   
     Mas será que empreendedorismo é isso? Eles dizem que empreender é inovar e criar, mas levam tudo para o lado do capitalismo mais selvagem. Será que não dá pra empreender em outras áreas que não seja só a busca de lucros? Para mim empreender é ter iniciativa. Em qualquer área.
     Lula foi um empreendedor na política. Mudou o Brasil. Gandhi também e mudou a humanidade. Irmã Dulce, o Marcehal Rondon, Juscelino Kubitschek, os grandes cientistas como Pasteur com sua penicilina e outros que fazem avançar a medicina. todos foram empreendedores. 
     Empreender não é só saber ganhar dinheiro, nem transformar tudo em mercadoria. Isso está errado. E o SEBRAE está impregnado desta mentalidade mesquinha horrível. Por isso as empresas brasileiras não duram nada. Empreender é ser criativo, mas sobretudo pensar no ser humano, na natureza, no que pode ser melhorado, no que é justo. Tanta criatividade neste país, perdida na mesquinharia de querer apenas auferir lucros, lucros e mais lucros.
     O lucro sustenta a empresa, mas se ela não tiver outro objetivo além desse, não passa de um projeto pessoal de acumulação de riqueza. A empresa precisa ter outro objetivo além da acumulação, algo que beneficie realmente a humanidade, seja uma invenção que facilite a vida, uma forma nova de se comuicar, um remédio para velhas doenças... Só querer lucro não leva à nada.
     Os protestos pelo mundo afora, mostram que esse modelinho está pra lá de falido. Chega desse velho capitalismo sórdido, disfarçado de coisa moderna.

Patrimônio Ameaçado

      O centenário Teatro São Carlos, de Rio de Contas, um dos teatros mais antigos do Brasil, está ameaçado de ruir, por descaso da Prefeitura Municipal, proprietária do prédio, que não lhe dá a manutenção adequada.
     O prédio é tombado pelo IPHAN, mas o Secretário de Cultura local não entende o que é isto. Casado com a funconária administrativa do escritório local do Instituto, os dois, não deixam que nenhum arquiteto permaneça na cidade à frente do órgão, tecendo intrigas e ameaças a todo profissional designado para lá.
     A funcionária usa o cargo para perseguir pessoas que são contra o Prefeito e o Secretário, transformando uma repartição pública Federal, num ninho de intrigas e usando o pequeno cargo que conquistou sem concurso, para fazer política.
     Enquanto isso, o teto do histórico São Carlos ameaça desabar.
    
Projeto de Arquitetura

     
 Estou terminando um ano de ensino de Projeto em uma faculdade recém criada, em Vitória da Conquista, Bahia. Peguei as quatro primeiras turmas que ingressaram em março e segui com três delas no semestre seguinte, ensinando Projeto I, no primeiro semestre e Projeto II no segundo semestre.
     Quando ingressei na Faculdade de Arquitetura, no distante ano de 1976, em Porto Alegre, os alunos só tinham aulas de projeto à partir do quinto semestre. Os quatro primeiros eram tomados com matérias preparatórias, como composição, desenho técnico, matérias teóricas de história, cálculo, etc.
     No primeiro seminário sobre currículo de arquitetura que fizemos em 1978, na UFRGS, uma das reivindicações foi que os alunos tivessem contato com projeto desde o primeiro semestre. De lá pra cá esta passou a ser uma prática comum nas faculdades de arquitetura brasileiras.
     Mas mesmo quando dei aulas de projeto na UnB, na década de 90, eram ainda apenas seis semestres de projeto. Agora são dez.
     Mas como ensinar projeto para alunos que acabaram de entrar no curso, sem a menor noção de desenho ou de metodologia de projeto? Ainda mais numa faculdade que estava abrindo suas portas e não tinha ainda nenhuma experiência acumulada?
     A ementa do curso de projeto I colocava a composição em primeiro lugar, muito corretamente.
     Nos lançamos ao primeiro mês, às aulas de composição, primeiro no plano, valorizando, movimento, ritmo, repetição, direção, sentido, cor e harmonia. Trabalhamos primeiro com pintura sobre papel, colagens e depois passamos aos trabalhos com volumetria. Tentamos trabalhar com Lego, o joguinho de armar, mas a experiência foi um pouco problemática, em função da dificuldade em achar peças adequadas à escala necessária (o Lego original é muito pequeno) e o preço. Como o original é muito caro, os alunos começaram a comprar umas cópias baratas que não se encaixavam bem. Mas mesmo assim conseguiram produzir alguns volumes bem interessantes e puderam sentir a forma, pela primeira vez, brotando das suas mãos e da sua capacidade de criar.
     Para encerrar a primeira unidade, propus aos alunos que escolhessem prédios na cidade e fizessem uma proposta de requalificação de fachadas, em forma de maquetes, ainda sem escala definida, (eles já estavam tendo aulas de maquete na disciplina de Plástica I e de expressão gráfica em Desenho I), desde que não houvesse mudanças na estrutura da edificação. A proposta era fazer maquetes em que uma face representava o edifício como é hoje e a outra a fachada requalificada.
     Uma surpresa. No final do primeiro mês de curso, recebi maquetes muito interessantes.
(nas fotos, a fachada original à esquerda e a modificada à direita)
     A seguir passamos à noção de planta baixa e escala, num rudimento de desenho técnico, que ainda estava sendo ministrado na disciplina de Desenho I, para que eles sentissem como era "entrar" numa edificação.
     Depois de um pequeno exercício, passamos a um seminário sobre condicionantes legais, para que eles entendessem o que era um Plano Diretor e um Código de obras, o que nos levou a tomar contato com a situação de extrema poluição do único córrego da cidade, o Rio Verruga, e resultou num movimento público denominado Abrace o Rio Verruga, que chamou a atenção da opinião pública local.. À partir daí fomos para um segundo exercício de projeto, uma pequena casa acoplada a um barzinho, num bairro popular da cidade, já com terreno definido e noções sobre orientação solar e divisão da planta em áreas; social, íntima e de trabalho.
     Por último passamos à um exercício de requalificação de um construção em final de obra. Eram três sobradinhos geminados, e aí já foi exigida uma primeira noção de apresentação de projeto, com pranchas com margem e carimbo, plantas, cortes e fachadas.
     Os resultados foram animadores e já pudemos observar os prmeiros talentos brotando das turmas.
     Em projeto II, começamos o semestre com um longo seminário sobre "Correntes contemporâneas da Arquitetura", que serviu para que os alunos aprendessem a identificar o que era um projeto moderno, um pós-moderno, uma arquitetura tradicional, vernacular, etc.
     Depois iniciamos nosso projeto do semestre, que era uma residência unifamiliar em uma área nobre da cidade, permitindo a eles grande liberdade criativa, já que o terreno era extenso (756m2) e o uso dos conhecimentos adquiridos até então.
     Novamente resultados muito animadores, com a reafirmação dos novos talentos que vão surgindo em Vitória da Conquista.
     No encerramento, com a apresentação das maquetes (nas fotos acima), além dos desenhos e um pequeno memorial descritivo, pudemos verificar o acerto da linha implementada pelo curso de arquitetura da FAINOR, o primeiro na região sudoeste da Bahia.
     Como profissional me senti realizado por poder coduzir estes jovens a bom termo, com resultados muitos promissores.