Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 19 de setembro de 2010

Histórias de outras vidas (29)

Viagem A Cuba

     O ano era 1997, quando eu e meu amigo Zé Mário resolvemos ir à Cuba.
     Morávamos em Ilhéus e estávamos filiados ao PCB, Partido Comunista Brasileiro, e a curiosidade por saber o que ocorria por lá após a queda da União Soviética era enorme.
     Me lembro que conseguimos um bom financiamento, com a mesma agência de viagens que tinha me levado à Turquia no ano anterior. Dólar a R$1,00, era uma oportunidade única. Vendemos algumas coisas e compramos um pacote em 10 vezes, para assisitr um congresso, nem me lembro do que, mas tinha alguma coisa a ver com arquitetura, cidades, algo assim.
     Faltou pagar a taxa de inscrição do tal congresso, que na verdade era só desculpa pra ir. A agência de viagem ficou de ver o preço da inscrição mas não conseguiu (naquela época a internet estava apenas começando) e nos disse que não nos preocupássemos, pois devia ser baratinho.
     Nosso pacote incluía seis noites no Hotel Presidente, em Havana, passagens e translados. Precisávamos levar dinheiro só pra gastar por lá. Juntamos 400 dólares e fomos.
    Fomos para o Rio de carro, pois não tinha com quem deixar meus dois filhos pequenos. Uma amiga do Rio, me salvou, ficando com os dois durante uma semana.
     O voo na Cubana de Aviación foi noturno e durou oito horas e meia. Chegamos em Havana de manhãzinha.
     Na chegada, muita emoção em pisar o solo cubano, e logo estávamos em um ônibus de turismo em direção ao nosso hotel. Pelas rua estranhei uma mulheres pelas esquinas, em colants coloridos, sobre saltos plataformas, aparentemente esperando alguém. Uma aqui outra lá, de manhã cedo?
     Mostrei pra Zé Mário e ele disse que deveriam ser as companheiras esperando pra ir trabalhar.
     Pensei comigo: será?
     O Hotel presidente era bem antigo e se orgulhava de ter hospedado Nat King Cole, o cantor negro americano, famoso nos anos 50. Puxa, eu adorava esse cara. Foi bom saber que ele esteve ali e também interessante perceber a ligação forte que havia entre Cuba e os Estados Unidos no passado.
     Logo que nos instalamos, resolvemos ir ao tal congresso, nos inscrevermos. Pegamos um taxi para o centro de convenções e chegando lá soubemos que nossas inscrições custavam 400 dólares, ou seja, todo o dinheiro que tínhamos.
     Fiquei super chateado com a agência de viagens, por nos fazer pagar um mico desses. Disse ao funcionário que estava fazendo as inscrições que então não íamos poder participar e em lugar disso faríamos turismo na Ilha. Ele ficou furioso e nos botou pra fora do centro. Disse que não poderíamos passar dali e nos fez sair por onde entramos. Zé Mário queria brigar mas achei melhor não arranjar confusão e voltamos para o Hotel.
     Depois disso ficamos meio cismados. Aí começamos a caminhar por Havana. Primeiro pelo Malecon, que é uma avenida à beira mar, bem no centro da cidade. Tudo meio abandonadinho, assim, meio decadente. Na ponta do Malecon chegamos à Havana Velha, o centro histórico.
     Parece o centro velho do Rio: Praça Tiradentes. É lá que ficam aqueles táxis antigões, que são uma atração turística à parte. Dizem que os mecânicos cubanos são os melhores do mundo, por manter carros de 50 e 60 anos rodando. Mas são bonitos. Velhos chevrolet e buick, coloridos. Andamos num, não me lembro a marca. Acho que era um Nash ou Dodge dos anos 50. Um barato.
     Na época estava passando a novela brasileira A Próxima Vítima e o pessoal do taxi (o motorista e uma auxiliar, que parecia ser sua esposa) só queria saber quem era o assassino da trama. Uma fissura!
     Os primeiros dias tudo nos pareceu muito estranho, em Cuba. Praticamente não havia comércio. Quisemos fazer um lanche na rua e entramos em algo que parecia um bar. Tinha mesas e balcão e duas atendentes. O balcão de madeira e vidro, meio empoeirado, tinha uns salgados e doces que pareciam estar ali há meses.  Não havia café, nem bebidas, nem refrigerantes, nada. As moças conversavam no balcão com cara de fastio.
     Quisemos comprar filmes para máquina de retrato (que ainda não era digital) e nos informaram que só nos hotéis. Fomos a um e descobrimos que as lojas eram só para turistas e tudo era em dólar.
     A relação entre o dólar e o peso cubano era absurda. Um dólar para eles valia uma fortuna no câmbio paralelo. Oficialmente um dólar valia um peso. Então se íamos ao cinema (e fomos assistir um filme cubano muito bom no cine-teatro karl Marx), pagava-se, por exemplo (não me lembro), dois pesos ou dois dólares, mas se trocássemos os dólares na rua conseguíamos mais de 100 pesos por dólar. Uma loucura.
     Na rua, quando viam que éramos estrangeiros, vinham puxar conversa e em seguida vinha o pedido: me puedes dar un dólar? Era um negócio chato e desanimador. Quando pensávamos que tínhamos feito uma amizade, vinha sempre o pedido.
     Andamos por toda Havana, até ficar com bolhas nos pés. Descobrimos um bar que vendia cerveja em lata (muito boa) e ficávamos sentados lá, no Malecón, no final da tarde vendo o mar.
     Pegamos uma excursão a Varadero e passamos um dia na praia. Foi muito interessante. Barraca de praia, com uma proprietária negona que era a cara da Bahia, tomando cerveja e comendo umas coisas que ela vendia. Com direito a um aviso com cara de bronca, do agente de turismo, de que aquela comida era particular e portanto não tinha garantia do governo. Engraçado.
     Lá vimos uma cena muito desagradável: uma negra sendo expulsa da praia por guardas. Depois soubemos que era uma prostituta e que eles não deixavam que elas se aproximasse dos turistas que estavam nas excursões "oficiais", como a nossa. Aliás, depois de alguns dias constatamos que as mulheres de colant pelas esquinas eram prostitutas mesmo. E como havia!
     Num desses passeios por havana conhecemos duas cubanas, professoras, morenas muito bonitas. Elas nos levaram para conhecer a  Bodeguita, bar famoso onde as pessoas escrevem seus nomes na parede. Pedimos uma bebida tradicional deles (se não me engano era um mojito), mas fiquei chocado com o preço. Parece que La Bodeguita é ótima para uma certa classe média que vai lá curtir o socialismo como férias. Por causa disso achamos que era uma dessas armadilhas comerciais a que estamos tão acostumados por aqui e não quisemos escrever nossos nomes naquelas paredes. Ao contrário da sorveteria Copélia, que fica no meio de uma praça e está sempre lotada de cubanos. Que delícia de sorvetes! Parecem os da Ribeira, em Salvador.
     No segundo dia em que saímos com as cubanas, elas nos disseram que estávamos sendo seguidos. Ficamos intrigados. Seria porque não quisemos participar do Congresso? Bom, naquela época houve uns atentados à bomba em Cuba, provocados por estrangeiros, terroristas financiados pelos Estados Unidos, infiltrados entre os turistas. Mas a sensação foi muito desagradável.
     Uma noite, quando íamos entrando no hotel um homem pediu a Zé Mário que mostrasse la tarjeta. Essa história de tarjeta era um saco. Era um cartãozinho que eles davam, uma espécie de identidade provisória para os turistas. Em todo lugar que a gente ia tinha que ficar mostrando aquilo. Mas desta vez foi pior, porque o tal sujeito, com cara de meganha, pediu a tal tarjeta só para o meu amigo, já na porta do elevador, quando já havíamos passado na recepção e pegado a chave do apartamento. Zé Mário, como bom baiano, se retou e começou a falar alto com o cara. Perguntou se era porque ele era negro. Aí o cara baixou a bola, pediu desculpas e disse que era para nossa própria segurança, etc e tal. Depois ficamos achando que ele tinha pensado que meu amigo fosse cubano, pois eles eram proibidos de entrar nos hotéis.
     Ruim, né?
     Outro dia resolvemos ir à Playa del Este, a praia mais popular de Cuba. Alugamos um taxi particular, um Lada soviético em estado razoável e fomos. Ali sim pudemos conviver com o povo cubano, sem o risco de ver gente ser expulsa da praia. O mar em Cuba é lindo, de um azul claro transparente. Pode-se ver o fundo em qualquer lugar.Lá conhecemos uns rapazes que nos convidaram para ir a uma boite gay.
     Imagine, boite gay em Cuba!
     Topamos e na hora marcada passaram para nos pegar de carro. Fomos por umas ruas meio escuras, pegamos outra pessoa no caminho, descemos e entramos pelo corredor lateral de um edifício até chegar na boite: cheia de turistas.
     Muito interessante. Era um show daqueles de rapazes montados, ou seja, vestidos de mulher, cantando aquelas músicas melodramáticas que os cubanos adoram. Uma espécie de Drag Queen apresentava os números e fazia gracinhas com os espectadores, perguntando de que país eram e fazendo piadas. Quando chegou a nossa vez ela nos disse:
     _Brasil? Que pasa en la novela?
     Uma mulher vestida de macacão, muito masculinizada se levantou e pediu algo para ela (creio que uma música), mas antes que pudesse terminar de falar a Drag engraçada disse:
     _Habla companheiro! Referindo-se ao aspecto de operário revolucionário da mulher.
     Foi bem engraçado e estranho ver essas duas culturas misturadas, a revolucionária e a gay.
     Numa mesa próxima, dois casais que pareciam cubanos faziam uma bonita figura. Os homens negros, altos e fortes, com calças jeans e camisas de brim. As mulheres muito bonitas, com cabelos meio Black, saias coloridas e muitos colares. Pensei, devem ser a classe média cubana. Na hora da dança, surpresa! Os dois homens dançaram um com o outro, e as mulheres idem. Todos muito carinhosos e apaixonados.
     Nossos almoços eram sempre iguais: sanduíches de bife com Coca-Cola (fabricada no México). Era a coisa mais barata que tinham no hotel e que alimentava alguma coisa. Comíamos bastante no café e economizávamos na comida, pra tomar cervejinha no Malecon.
     Uma das últimas noites saímos a caminhar até uma praça onde havia muita gente conversando. Compramos uma garrafa de rum (ótimo) e fomos pra rua beber, como fazem os cubanos. Uma mulher que estava com um grupo puxou conversa. Falou muito sobre a vida na ilha até que nos identificamos como sendo do partido Comunista Brtasileiro. Imediatamente a conversa mudou de rumo. Ela passou a falar também da novela. Ficou com medo da gente. Aí tivemos a noção exata da falta de democracia na Ilha.
     Aquilo não é socialismo. Muita pobreza, muita gente desdentada, enquanto uma burocracia se beneficia de alguns privilégios (não muitos). Depois de tantos anos não conseguiram construir nada além daquilo?
     Outra coisa, tem gente e produtos do mundo inteiro por lá (os taxis estatais eram renault, novinhos). Então onde está o bloqueio? Só os Estados Unidos bloqueiam a ilha, mas parece que Fidel e a turma que está no poder por lá usam isso para manter os cubanos unidos. Realmente eles tem uma bronca histórica dos americanos, desde o tempo das lutas pela independência, quando os americanos esperaram os cubanos vencerem os espanhóis para então invadir a ilha pretendo transformar Cuba numa colônia deles.
     Saímos chateados de Cuba, com uma decepção muito grande com o regime político.
     Mas o povo é muito vivo, inteligente e simpático. A Ilha é linda e o mar é fantástico. Tenho muita fé que Cuba se reintegrará à comunidade latino-americana, deixando em segundo plano suas diferenças com os norte-americanos (as mesmas que nós também temos) e construirá uma economia justa e solidária, como eles sempre quiseram, ancorada numa democracia forte e verdadeira como os cubanos merecem.

Boa segunda-feira à todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza


  
    



    

domingo, 12 de setembro de 2010

Rapidinhas

Nosso lar    

No Rio, esta semana, fui assistir ao filme Nosso lar, baseado no livro de Chico Xavier, psicografado a partir das revelações do espírito André Luiz.
     O filme conta a história de André, um médico brasileiro e relata o que acontece com ele após a sua morte até chegar em Nosso lar, uma cidade espiritual que flutua sobe a Terra. Mostra não apenas a cidade, com seus edifícios e espaços abertos, como explica o seu funcionamento e como se dá a recuperação dos que morrem, a vida e o aprendizado na cidade nas alturas e o processo de decisão para reencarnar novamente, deixando bem clara a filosofia espírita do aprendizado, da tolerância e da consciência evolutiva.
     A história se passa no início do século XX e uma cena muito emocionante é a chegada dos judeus, mortos na segunda guerra, à cidade.
     Tudo muito bonito: história, fotografia, efeitos especiais, trilha sonora.
     Vale a pena, mesmo para quem não é espírita. É uma superprodução brasileira e as filas estão imensas. Aliás há muitos anos eu não via fila em cinemas tradicionais (como no Roxy em copacabana, onde fui assistir). Ingresso na fila e só para o dia seguinte.
     Veja entrevista com o diretor e trailer do filme, clicando nos links abaixo:
http://cinema.uol.com.br/ultnot/2010/09/01/temos-o-direito-de-falar-de-tudo-no-cinema-inclusive-no-que-acontece-depois-da-vida-diz-o-diretor-de-nosso-lar.jhtm
http://paginadocinema.com.br/reportagens/index/95

Nosso 11 de setembro

     Pois é amigos, escrevo na véspera do 11 de setembro e estou me preparando para uma enxurrada de imagens do ataque terrorista ao World Trade Center em Nova Iorque. Certamente vão mostrar as imagens de sofrimento de todos os que morreram e dos habitantes da capital financeira do império americano, atingida no seu coração pelos fanáticos islâmicos.
     É claro que não vão mostrar as vítimas civis dos bombardeios americanos no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, na Palestina e em tantos países que os americanos e seus aliados estão sempre atacando e bombardeando.
     Não apoio os terroristas que derubaram as torres gêmeas, porque sou contra qualquer tipo de terrorismo (ataques a civis inocentes), mas para mim 11 de setembro é dia de lembrar outro atraque terrrorista, este perpetrado pelos americanos, que patrocinaram o golpe no Chile e o assassinato do seu presidente constitucional, Salvador Allende, atingindo em cheio o coração da democracia latino-americana.
     Aqui se faz, aqui se paga.
     Para quem quiser saber mais, sobre o 11 de setembro, vale a pena ler o artigo Setembro se chama Allende, (em espanhol) do historiador e jornalista chileno, Mário Amorós, clicando no link abaixo.
http://www.diarioreddigital.cl/index.php?option=com_content&view=article&id=1222:septiembre-se-llama-allende&catid=40:opinion&Itemid=61

Virada em Brasília

       Finalmente parece que Brasília vai ter um governador à sua altura.
       O baiano Agnelo Queiroz, médico, radicado em Brasília há muitos anos, passou nas pesquisas o eterno candidato Joaquim Roriz, ficha suja que insiste em se manter na campanha, apesar de sua candidatura ter sido recusada pelo TRE e pelo TSE. Mas o apego de Roriz (que já foi governador quatro vezes) ao poder é tanto, que ele se recusa a indicar outro nome e permanece na disputa, amargando uma queda expressiva nas intenções de voto dos brazilienses.
       Assim, parece que se encerra uma era de populismo e corrupção no DF e há uma boa chance de nos livrarmos para sempre desse presentinho que José Sarney nos deu, quando nomeou Roriz governador biônico, antes da Constituinte de 1988. De lá pra cá ele criou um monte de cidades periféricas, verdadeiros currais eleitorais para se manter no poder, comprometendo todo o planejamento da Capital da República para obter benefícios políticos para ele e sua camarilha, hoje toda enrolada com a justiça.
     Chegou a hora do povo de Brasília retomar o controle da sua vida política e do seu destino.
   Libertação
    


     Prezados amigos.

     Semana passada escrevi sobre o Cena Contemporãnea, festival de teatro internacional, que ocorre em Brasília todos os anos. Dentre as cinco peças que pude assistir, comentei a Balada do Palhaço, de Plínio Marcos, cujo texto final me encantou.
     O texto trata da disputa entre idealismo e pragmatismo, tão atual nesse momento em que as utopias foram todas enterradas pelo capitalismo, em nome de uma realidade que se mostra cada vez mais absurda.
Mas ao contrário da ideologia dominante nos dias de hoje, Plínio faz a apologia do idealismo, não como uma construção utópica de coisas inantigíveis, mas como a matéria prima da verdade, como o único caminho para a libertação da humanidade da sua condição de submissão às realidades dadas como naturais.
     Enquanto o pragamtismo rasga nossos sonhos em nome de uma realidade medíocre, enquanto nossa sociedade abandona o caminho da transformação e envereda pelo da gestão de um mundo que poderia ser muito diferente, mas que nunca muda, Plínio reafirma o contrário.
     Eles nos dá um texto, que embora sem título específico (é apenas parte do texto completo), é uma verdadeira oração à vocação, à liberdade, à força criadora e transformadora que existe em cada ser humano.
     O palhaço Bobo Plin, ao abandonar o circo na última cena, escolhe seu ideal, em detrimento das promessas de ganhos feitas pelo dono do circo, sem dúvida representando o empresário com sua ideologia pragmática.
     O texto, de 1986, é de uma incrível clarividência porque antevê o que estava para acontecer na sociedade brasileira e mundial, no início da rolo compressor neoliberal dos anos 90.
     E então, amigo leitor, se você é daqueles que está na dúvida entre sua vocação e o pragamatismo de um bom emprego, leia e tire suas conclusões.

(Fala do palhaço Bobo Plin na cena final de Balada de um Palhaço)

Ó ideal

Que estás no meu céu interior
Verdade viva
Que faz da minha alma
Imortal
Para que tua tendência
Evolutiva
Seja realizada,
Para que teu nome
Se afirme pelo trabalho
Para que tua revelação
Seja manifestada a cada
Espetáculo
A cada espetáculo concede-me
A idéia criadora
Que assim como ela está
Entendida no meu coração
Seja entendida no meu corpo.


Ó ideal

Preserva-me dos reflexos
da matéria
Que eu compreenda
Que o sofrimento benfeitor
Está na origem da minha
Encarnação
Livra-me do desespero
E que teu nome seja
Santificado
Pela minha coragem
Na prova.


Ó ideal

Faze com que eu não diferencie
O fracasso do sucesso
E perdoa a minha
Dificuldade de comunicação
Assim como eu perdôo
Os que não tem ouvidos de ouvir
Nem olhos de ver

Ó ideal

Destrói meu orgulho
Que poderia afastar-me
Da tua luz-guia
Nutre meu devotamento
Porque és,
Ó ideal
A realeza, o equilíbrio, a força
De minha intuição.

Plínio Marcos
Histórias de outras vidas (28)

    Reencontro

     Corria o ano de 1996, quando eu resolvi participar da conferência da ONU de habitação, Habitat II, em Istambul, na Turquia.
     Formamos um grupo de dez arquitetos, entre amigos da Bahia e de Brasília e fomos. O pessoal de Brasília arranjou a agência de viagens, que conseguiu ótimos descontos, e ficamos 10 dias em Istambul.
     Ao entrar na cidade uma emoção me subiu ao peito e fui reconhecendo tudo, como se já tivesse vivido ali. Ao passar embaixo de uns arcos de pedra de um aqueduto antigo, o sentimento foi muito forte, embora eu não entendesse o que estava acontecendo comigo. O hotel em que ficamos ficava perto desses arcos.
     Istambul é uma cidade linda, com 12 milhões da habitantes, cortada ao meio pelo estreito de Bósforo, com suas águas limpíssimas e azuis, que divide a Europa da Ásia. Assim a cidade se espalha pelos dois continentes, que se ligam por muitas pontes e por serviços de barcas de passageiros parecidas com as do Rio de Janeiro.
     Nos primeiros dias tentei participar da conferência, mas era uma chatice, cheia de autoridades de todo o mundo dizendo coisas que eu estava cansado de saber depois de tantos anos trabalhando com habitação popular.
     Então fui ver a igreja de Santa Sofia. Emoção total!
     A antiga igreja fica no meio de um parque, no centro de um gramado com pequenas ondulações. Passei um dia inteiro só olhando por fora. Sentava de um lado e ia vendo todos os detalhes, passsava pra outro lado e ia assim bebendo as informações que meus olhos conseguiam captar, sobre sua técncica construtiva, o que era mais antigo e mais novo, o que era um acréscimo, etc.
     No segundo dia me animei a entrar. A imensa cúpula de tijolos era tão alta que eu calculei que um edifício de 22 andares caberia debaixo dela, dentro da igreja. Ladeiras laterais abobadadas (em forma de túnel) levavam a pavimentos superiores.
     Me informando sobre a construção, soube que ela foi mandada fazer por Constantino, o imperador que dividiu o Império Romano em Ocidente e Oriente, dividindo também a igreja cristã em Católica Apostólica Romana e Ortodoxa (oriental). Isso ococrreu no ano 300 da era cristã.
     Portanto, a igreja teria mais de 1700 anos se não tivesse sido destruída por um incêndio e reconstruída por volta do ano 500. Pouca diferença. A velha igreja de Santa Sofia tem aproximadamente 1500 anos e seus tijolos ainda estão lá sustentando a maravilhosa cúpula, obra fantástica da arquitetura do mundo antigo.
     Com a conquista de Constantinopla (antigo nome de Istambul) pelo muçulmanos, a igreja foi transformada em mesquita, foram então construídos os quatro minaretes que a circundam e recobertos por um espesso reboco os maravilhosos mosaicos feitos pelos romanos que representavam o imperador como Cristo e outros membros da corte como santos. Quando estive lá Hagia Sofia já não era uma mesquita, mas um museu e o reboco estava sendo removido por restauradores e os desenhos antigos estavam começando a aparecer. Incrível.
     Alguns dias depois, acordei de madrugada com a sensação de que estava ouvindo uma música muito bonita. Mas não havia nada. Acordei meu companheiro de quarto e perguntei se ele tinha ouvido alguma coisa. Ele disse que não e me mandou dormir.
     Na noite seguinte acordei com a música de novo, mas desta vez ela ainda estava lá. Acordei meu colega e ele disse que também a ouvia. Fiquei encantado com a beleza, cantada por uma voz muito suave, as quatro da manhã, parecendo vir de muito longe.
     No café da manhã, uma jornalista brasileira me disse que também ouvira a música e me explicou que era o sacerdote muçulmano fazendo a primeira chamada para rezar, numa mesquita que havia alguns quarteirões do hotel.
     Na outra manhã, já intrigado com aquilo, resolvi ir conferir. Assim que clareou, por volta das cinco horas, saí por uma estrreita rua lateral que descia em direção à mesquita, uma cópia da Santa Sofia como são todas as mesquitas.
     Lá chegando fiquei observando como as pessoas agiam para entrar: tiravam os sapatos e lavavam os pés e as mãos numa fonte que havia na entrada. Os calçados ficavam na porta e ninguém mexia neles.
     Fiz do mesmo jeito e entrei, temeroso pelos muitas coisas ruins que ouvimos sobre o islamismo no Brasil, mas encontrei uma atmosfera de paz e silencio. Grupos de mulheres se reuniam na parte superior, enquanto no centro se concentravam os homens. Todos pareciam discutir os ensinamentos do Alcoorão, a Bíblia muçulmana.
     Fiquei muito impressionado com o tapete gigante que cobria todo o piso da mesquita, sem que eu pudesse encontrar uma só emenda. Como podem fabricar aquilo? Meus olhos de arquiteto também vasculharam seu interior e se maravilharam com o lustre, um aro circular, onde se prendem pequenas lâmpadas, pendurado por finos cabos de forma que parece flutuar sobre as nossas cabeças.
     Permaneci algum tempo no interior do templo, orando e meditando junto com aqueles homens e mulheres, que não me olharam, não me perguntaram nada, me deixando completamente à vontade.
     Dentro havia mulheres com vestes tradicionais, cobrindo-se dos pés à cabeça, todas de preto, outras com roupas cinzas mostravam os braços e ainda outras vestidas normalmente, com saias ou calças compridas, blusas coloridas, mas todas elas com o lenço na cabeça. Na Turquia não se usa véu para esconder o rosto.
     Novamente aquele sentimento de familiaridade tomou conta de mim e me emocionei mais uma vez.
     Dali fomos para a Grécia e vimos muitas coisas bonitas, mas nada que mexesse comigo daquele jeito.
     Até hoje sonho com Istambul, com suas torres às margens de águas tão azuis. Quando leio sobre os terroristas islâmicos, tenho certeza de que eles não tem nada a ver com aquela paz que eu senti. São extremistas, que usam o nome de Deus para matar inocentes, na sua luta contra os Estados Unidos.
     O Islã, na sua essência, não tem nada com isso. Acho que sei disso com muita profundidade. Acho que ja vivi lá um dia, em alguma vida e amei muito aquele lugar, aquela gente, aquela religião.

Boa segunda-feira à todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 5 de setembro de 2010

    
Primavera

Prezados amigos

     Escrevo hoje desde Porto Alegre, onde vim visitar meu filho Gustavo, empenhado na camapanha eleitoral da deputada Manuela do PCdoB.
     Muito bom rever esta cidade onde morei nos anos 70 e início dos 80, quando fazia arquitetura na UFRGS. Achei  o astral um pouco triste. O Parque da Redenção, ícone da cidade está praticamente abandonado. Mas os jacarandás e os ipês amarelos começam a florescer, dando sinais da primavera que se aproxima. Oxalá também a política local se renove, para que Porto Alegre e o Rio Grande possam também florescer.
     Muito bom também rever velhos amigos, Hannelore, D. Iracema e sua família que me recebem como se eu nunca tivesse ido embora. Sempre que volto é como se eu tivesse ido apenas ali na esquina, não importa quantas décadas tenham se passado.
     Isso sim é um privilégio.
     A vida vale a pena por essas pequenas coisas. Obrigado a todos vocês, meus amigos.
     Obrigado ao meu amigo lá de cima, por me permitir rever Porto Alegre na primavera.
CENAS

     Prezados amigos leitores, assistir ao Cena Contemporânea 2010, Festival Internacioal de Teatro de Brasília,  foi um privilégio. Infelizmente, devido a uma viagem, não pude assistir a mais espetáculos, mas aqui dou conta do que vi em pequenos comentários.
    Nem tudo foi bom, mas a sensação de ver expressões artísticas de vários países reunidas em um evento como este é muito impactante.

     Decir lluvia y que llueva

     Espetáculo apresentado pelo grupo espanhol Kabia-Espacio de Investigación Dramática de Gaitzerdi Teatro.
     Teatro experimental, investigativo, livre interpretação do imaginário poético do poeta basco Joseba Sarrionaindia. Espetáculo de grande beleza plástica, utilizando água, fogo, areia e efeitos de iluminação combinados com a utilização de adereços com grande significado cênico, como as sombrinhas que se abrem e fecham sob luz vermelha, como batidas de um coração.
     Apesar da beleza plástica e do excelente desempenho dos atores em cena, falta um enredo, um discurso novo, que ultrapasse a mera contestação gasta do mundo urbano e consumista.
     A impressão que se tem é a de que quando não se tem nada a dizer parte-se para o experimentalismo.

Balada de um Palhaço

     Apresentado pelo Grupo de Teatro Artes e Fatos, de Goiás, o excelente texto de Plínio Marcos se perde um pouco nas falas excessivamente gritadas e nos palavrões escancarados ao público, se tornando um pouco arrastado e cansativo. No final a trama ganha consistência e tem seu ponto alto na oração à vocação, texto incrivelmente belo e atual do autor, muito bem interpretado, dando um fecho emocionante ao espetáculo.

Odysseus Chaoticus

     O ISH Theater de Israel apresenta este espetáculo, criação de seus três atores, que gira em torno de uma família italiana, cujo marido procura fugir do cotidiano se imaginando protagonista da Odisseia de Homero.
     Embora a qualidade dos atores seja evidente, o espetáculo não consegue ultrapassar a barreira do humor fácil, tornando-se uma espécie de besteirol israelense. Para nós brasileiros é difícil entender a atmosfera cultural de um país tão longínquo, mas percebe-se nitidamente a influência americana nas piadas e gags. Tinha tudo para ser uma boa história, mas não é.
     Destaque para o ator Noam Rubinstein quando utiliza recursos de mímica, especialmente na cena com Poseidon, em que flutua no mar e se afoga. É realmente muito bom.
     O público braziliense contribui para a sensação de banalização do teatro. Ri de qualquer coisa, aplaude de pé qualquer espetáculo, bate palminhas quando os atores dançam. Desisti de tentar entender.

   O Jardim do Mundo

     A peça encenada pela companhia Creaciones Artísticas Las Cuatro Esquinas, da Espanha, foi construída sobre um poema de Walt Whitman e tem como inspiração o livro A morte e a donzela, de Ariel Dorfman.
     O espetáculo fala sobre a tortura, mas não do modo como estamos acostumados a falar no Brasil, como uma coisa do passado, algo horrível que aconteceu durante um período e passou. Fala sobre a tortura presente no mundo inteiro, como uma prática constante, que existe hoje.
     Apresenta os discursos dos torturados, dos torturadores, dos que preferem não ver e dos que não voltaram pra contar suas histórias.
     Fala da convivência dos torturados com os torturadores, coisa que vivenciamos hoje no Brasil e em toda América Latina, que ainda vive à sombra de ditaduras recentes.
     Fala sobre o absurdo das técnicas que despersonalizam as pessoas para arrancarem informações, sobre o desprezo pela dignidade do ser humano e pela vida humana, do prazer em fazer sofrer e em matar pessoas comuns.
     Fala direto às nossas consciências que procuram não ver o absurdo, porque tem medo de não aguentar e assim permitem que o absurdo prossiga.
     Muito importante o texto e o trabalho deste grupo.
    Visualmente o espetáculo é pobre, sem cores, o que está adequado à temática.

Dulce

     Espetáculo criado e apresentado pelos atores Michel Blois e Thiare Maia, do Brasil e Nuno Gil e Claudia Gaiolas, de Portugal.
     Dois casais de classe média jantam juntos e aos poucos vão mostrando suas contradições.
     O título Dulce, faz referência a uma história antiga, contada por um dos casais, sobre uma noiva que passa a vida esperando por um noivo que morreu.
     Reflexões sobre o ódio, o ciúme, a frivolidade, o conservadorismo, mas sobretudo sobre o amor.
     Atuações maravilhosas desses atores criadores. Um cenário intimista, em que se entra pelo palco do pequeno Teatro II do Conjunto Cultural do Banco do Brasil, um semi-arena, com uma platéia pequena (talvez 60 lugares). Ao entrar, a mesa posta e um atriz já em cena, sentada tomando um copo de vinho enquanto lê distraidamente um livro.
     A diferença dos sotaques, nos coloca no centro de uma comunidade internacional de língua portuguesa  em ascenção, o que nos leva ao encontro de uma identidade lusa, que se afirma sobre os oceanos que separam seus povos.
     Tudo muito bonito e cativante. Uma beleza. Para mim, o melhor do Cena Contemporânea 2010, dentre as cinco peças que pude assistir.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Histórias de outras vidas (27)

ALGUÉM MORREU NO ANDAR DE BAIXO

     Corria o ano de 1996 e eu morava em Ilhéus com meus filhos pequenos, um com sete e outro com nove anos. Como nossa casa no bairro do Pontal estava em reformas, passamos um tempo em um pequeno apartamento de veraneio de meus pais, em Olivença.Eram doze apartamentos, seis térreos e seis no segundo pavimento.
     O nosso ficava no segundo andar. Durante a semana éramos os únicos moradores, mas aos sábados e domingos o condomínio se enchia de gente de cidades vizinhas,especialmente Itabuna, a apenas 30 Km, que vinham para a praia.
     Eu não gostava desses fins de semana, principalmente dos domingos, quando um tipo de gente barulhenta e mal educada se apossava da piscina, ouvia som alto e fazia churrascos e em meio a muita cerveja.
     Num sábado, eu ia chegando da rua e estacionei no terreno ao lado. A porta que ligava o estacionamento ao interior do condomínio dava para um quiosque de apoio à piscina e ao entrar me vi no meio de um churrasco, de uma gente de quem eu não gostava.
     Era um homem gordo, de uns cinqüenta anos, que falava alto e bebia muito. Já o tinha visto conversando com meu pai.
     Ele estava sentado numa mesa, com uma mulher e um outro homem, mais jovem e magro, ao lado da churrasqueira. Ao me ver, me chamou, e não tive como escapar de sentar à mesa, comer um pouco de churrasco e dar uns goles na cerveja. Na conversa me apresentou a mulher, como sendo sua companheira e o outro como um amigo de Itabuna.
     Rondando em volta da mesa, uma gata miava pedindo pedaços de carne, ronronando e se roçando às nossas pernas. A conversa fluiu entre coisas óbvias e chatas, que pareciam ser chatas também para a bela mulher, de longos cabelos negros. Eu procurava fingir interesse, enquanto planejava minha fuga, e ela se mantinha alheia, apenas fingindo que participava da conversa.
     De repente ela deu um grito e olhou por baixo da mesa.
     _Essa gata me deu uma mordida! Exclamou.
     Todos procuramos a gata que saiu correndo, dando um miado esquisito. Foi uma coisa muito estranha.
     Aproveitei a deixa pra fugir rumo ao meu apartamento.
     Naquele dia um amigo veio nos convidar para uma festa de São João, no outro lado da cidade. Fiquei sem muita vontade de ir, mas como ele viera de longe, de ônibus, só para nos convidar, resolvi aceitar o convite.
     Arrumei os meninos e fomos a tal festa, mas acontece que deu dez horas e nada do conjunto começar a tocar, 10 e meia e nada, aí resolvi voltar pra casa. Não gostava de ficar com os meninos na rua à noite, em festas de adultos. Era adepto de dormir e levantar cedo, como hábito salutar para as crianças, por isso só saía quando eles ficavam na casa de alguém.
     Meu amigo não gostou, mas nos acompanhou ao apartamento, para dormir no sofá da sala.
     Ao chegarmos, umas onze da noite, o condomínio estava deserto. Pela manhã, acordei bem cedo, como de costume e fui caminhar na praia. Deviam ser umas cinco horas quando saí. Ao chegar à praia resolvi caminhar para a esquerda, pois o dia ainda estava clareando e eu tinha medo de andar àquela hora perto de umas moitas que haviam para o outro lado, onde já tinha visto uns vagabundos dormindo. Fui até o clube do antigo Baneb e retornei. No caminho de ida encontrei apenas um casal de meia idade, daqueles que gostam de se exercitar bem cedo. Ele magro e alto, os dois bem brancos. Ao chegar na entrada do condomínio achei que podia caminhar mais um pouco, e como estava bem claro, prossegui para o outro lado, até as pedras que interrompiam a praia.
     Umas seis horas voltei ao apartamento. Meu amigo já estava de pé e querendo ir embora. Disse a ele que não podia levá-lo àquela hora, pois estava cansado, queria tomar um banho, um café e dar uma descansada. Ele, porém, estava inquieto, irritado com a festa perdida e disse que ia de ônibus mesmo. Saiu batendo a porta.
       Tomei um banho frio e resolvi me deitar mais um pouco. Passada uma meia hora, ouvi batidas na porta. Era ele voltando. Havia se cansado de esperar um ônibus àquela hora do domingo. Mas não era só isso, ele parecia assustado e estava mais agitado. Me disse:
     _Tem alguma coisa acontecendo aí embaixo. O vizinho está tentando arrombar a janela dizendo que a mulher não quer abrir a porta do quarto.
     Desci e vi o mesmo homem gordo do dia anterior, ajudado por seu amigo mais jovem, tentando arrombar a janela do quarto que ficava bem embaixo do meu. Limpando a piscina o caseiro do condomínio comentava em tom debochado:
     _Hoje vamos ter defunto fresco aqui!
     Subi as escadas e acordei os meninos, pressentindo que era melhor sair dali.
     Enquanto arrumava nossa saída, meu amigo desceu e subiu com a notícia: a mulher que a gata mordera na véspera estava morta na cama, com um tiro.
     Pedi a ele que levasse os meninos para o carro sem deixá-los ver a cena e tratei de fechar a casa. Sabia que, sendo o único morador, certamente seria chamado para depor e não queria me meter naquela confusão. Ao descer fiz questão de olhar a cena do crime. A mulher estava estendida na cama, morta. Seus cabelos cheios de sangue se esparramavam pelo lençol.
     Passei a manhã na casa de meu amigo e já por volta das duas da tarde retornei, parando primeiro na casa de veraneio de meu irmão, próxima ao condomínio. Lá encomendei um almoço ao restaurante vizinho e pedi ao caseiro que desse uma olhada para ver como estava a situação. Finalmente, quando a polícia saiu, retornamos ao apartamento e nos trancamos lá dentro. Tudo do lado de fora estava deserto e lúgubre.
     Dias depois fui intimado a depor. Contei tudo o que havia visto e feito à delegada e sua assistente. Quando terminei elas disseram que eu havia acabado de desmentir todo o álibi do marido e do seu amigo, assim como do caseiro do condomínio.
     Eles haviam dito que deram uma festa até uma hora da manhã e que de manhã o tal gordo havia ido caminhar na praia. Nós chegamos às onze da noite e não havia festa nenhuma. Se ele tivesse ido caminhar na praia eu o teria encontrado, pois andei no mesmo horário que ele declarou e nas duas direções. Também a descrição da cena do crime não batia com o que eu havia visto, o que indicava que havia sido modificada por eles.
     Fiquei estarrecido. Eu era a única testemunha de um assassinato e morava sozinho com meus filhos no local do crime, do qual certamente o caseiro tinha sido cúmplice. O que fazer?
     Tratei de voltar rapidamente para minha casa no Pontal e dois anos depois soube que tinha sido intimado a depor no júri. Mas nessa época eu já havia me mudado para Vitória da Conquista e quando soube da intimação o julgamento já havia ocorrido.
     Não sei qual foi o veredito, só soube que o tal gordo morreu pouco depois em um acidente de carro. Quanto ao caseiro, ainda o vejo quando volto ao local para veranear. Continua lá, com seu sorriso debochado. O amigo do gordo era conhecido de amigos meus de Itabuna.
     Sempre me lembro da bela mulher assassinada na flor da juventude, injustiçada por alguma trama sórdida, urdida por aqueles dois. Me lembro também da gata que a mordeu, como se tivesse querendo avisá-la do perigo que corria.
     Depois disso passei a observar mais os animais, acreditando que eles podem emitir sinais de perigo próximo.

Boa segunda-feira a todos.

Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 29 de agosto de 2010

RAPIDINHAS

Onde há fumaça...


     Prezados leitores.

     No dia 12 de junho, publiquei uma nota neste blog sobre um possível encontro entre o PT e o DEM de Rio de Contas e fui desmentido veementemente no blog de Altemar (Notícias de Rio de Contas) por Regis, um militante do Partido, e por um anônimo,que me chamou inclusive de desonesto.
     Agora recebo novamente a informação de que teria havido uma reunião entre a ala da direita riocontense que está na oposição e o PT local. Ou melhor a ala do PT local que atualmente controla o partido depois de uma batalha judicial contra a parte do PT que participa do governo Márcio, o que inclui seus 2 vereadores.
     Então temos o PT dividido em duas partes: uma que apóia e participa da direita que está no poder e outra que negocia com a direita que está na oposição.
     Confuso? É claro que sim. Mas essa é a realidade atual.
     Desta vez resolvi consultar o próprio PT e enviei e-mail para Alfredo Neto, ex-candidato pelo PT à prefeito em 2008, para quem inclusive fiz campanha.
     Em sua resposta, neto confirma a reunião nos seguintes termos:

     Estive presente na reunião, juntamente Regis, Carlinhos, Gerado Júnior (Diretor do HGVC), Ricardo, Edson, Júlio Cézar e João de Bráulio; solicitada por vereadores do PSDB de Rio de Contas para tratar da decisão dos mesmos em apoiar o Governador Jacques Wagner e Senadores da Coligação Pra Bahia Seguir em Frente (Pinheiro e Lídice) e me coloquei à disposição para levar ao comando da campanha o apoio à reeleição do nosso Governador. Aproveitei a oportunidade para pedir votos para Marcelino Galo e Valmir Assunção por quem não revelaram apoio, dizendo-se comprometidos com outras candidaturas parlamentares.
     Vale ressaltar que o Diretório Municipal do PT foi formalmente convidado para a conversa, diferentemente de representantes de quem hoje dirige o município que buscou "minar" o partido, tratando com lideranças isoladamente. Além de não ter tratado de forma nenhuma o pleito de 2012, nenhum dos presentes se apresentou como liderança do Democratas.
     Complementando a informação prestada sobre a adesão de Vereadores à campanha de Wagner e Dilma , também estiveram presentes na reunião do San Felipo os companheiros Huxley e Renê.

     A pergunta que faço é a seguinte: será que o PT ainda pode ser um vetor de mudanças para Rio de Contas?
     Deixo a resposta para os leitores.


João Cândido

     Atenção pessoal do movimento negro e todos os que prezam a nossa liberdade: dia 22 de novembro próximo, completam-se 100 anos da chamada Revolta da Chibata no Rio de Janeiro, quando o marinheiro João Cândido liderou uma rebelião para acabar com os castigos físicos usados pelos oficiais (brancos) da Marinha Brasileira, contra os marinheiros, na sua maioria negros.
       João Cândido, que ficou conhecido como o Almirante Negro liderou a revolta que tomou quatro dos maiores navios da marinha de guerra da época e ameaçou bombardear  o Rio de Janeiro, antiga Capital da Repúbllica.
     Os encouraçados São Paulo e Minas Gerais assim como o Barroso e o Bahia, ficaram sob domínio dos revoltosos até o dia 26 de novembro, quando o Congresso aprovou uma lei abolindo os castigos físicos e anistiando os revoltosos.
     Mas logo após a rendição os amotinados foram presos e acusados de traição, sendo que 16 deles tiveram uma morte não explicada na prisão. Os que sobreviveram, inclusive João Candido, foram finalmente absolvidos no julgamento que se seguiu.
     Ele morreu pobre e tuberculoso, trabalhando como peixeiro no Rio de Janeiro.
     Só em 24 de julho de 2008, através da publicação da Lei Federal nº 11.756/2008 (assinada por Lula) no Diário Oficial da União, foi concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, e aos demais participantes do movimento.
     O museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro tem um depoimento dele gravado no final de sua vida. Esse depoimento foi tomado em sigilo pelo museu, em plena ditadura militar e hoje constitui uma das jóias do seu acervo.
     Vamos homenagear João Cândido e os marinheiros de 1910, heróis do povo brasileiro.


Cena Contemporânea

      Está acontecendo entre 24 de agosto e 5 de setembro, o Festival Internacional de Teatro de Brasília - Cena Contemporânea, 2010. Além de vários grupos brasileiros este ano estão participando espetáculos da Espanha, Sérvia, Israel, Colômbia, Cuba, Suíça e Itália.
     A programação inclui:
     TILL - A SAGA DE UM HERÓI TORTO (Grupo Galpão/MG) PAISAGEM COM ARGONAUTAS (Kabia - Espacio de Investigación Dramática de Gaitzerdi - Espanha- foto ao lado);ILHAR ( Michelly Scanzi - DF); NÃO PRECISA CHORAR  (Teatro Viento de Agua/Cuba); NEVA ( Teatro en Blanco/Chile); TERAPIA DE RIS(C)O - POR UMA OUTRA VIA (Grupo S.A.J./DF); A CARTA DO ANJO LOUCO (William Lopes/DF); KABUL (Cia Amok de Teatro/RJ); DIZER CHUVA E QUE CHOVA ((Kabia - Espacio de Investigación Dramática de Gaitzerdi/Espanha); A BALADA DO PALHAÇO ( Grupo de teatro Artes & Fatos/GO); ENTREPARTIDAS ( Teatro do Concreto/DF); ABRACADABRA ( Luiz Päetow/SP); A COMÉDIA DOS ERROS (Adriano e fernando Guimarães/DF); O FILHOTE DO FILHOTE DO ELEFANTE (Esquadrão da Vida/DF); DESAVERGONHADA! (Anita Mosca/Itália); CABARÉ DAS DONZELAS INOCENTES (Murilo Grossi e William Ferreira/DF); CANÇÃO PARA SE DANÇAR SEM PAR (André Alfaia e Artur Tadeu Curado/DF); A DONA DA HISTÓRIA (Trup Estreante e Pé Nu Palco Grupo de Teatro/PE); TECENDO FIOS D'ÉTER (Companhia Fios de Éter/DF); ODISSEUS CHAOTICUS (ISH Theater/Israel); O JARDIM DO MUNDO (Creaciones Artísticas Las Cuatro Esquinas/Espanha); IN ON IT (Enrique Diaz/RJ);DULCE (RJ/Portugal); MEMÓRIA DA CANA (Os Fofos Encenam/SP); COISAS DE MULHER (As Caixeiras/Cia de Bonecas/DF); O BEIJO (Cia. Nova Dança 4/SP); A GALINHA CEGA (Corporación Gassho/Colômbia); FEDEGUNDA (Karen Acioly/RJ); AS TERRAS DE ALVARGONZÁLEZ (Centro Dramático Nacional e Geografias teatro/Espanha); A CELA (Cia Teatral Mapati/DF); SOLITÁRIO COWBOY ( Cie Phillippe Saire/Suiça).
     Maiores informações no site http://www.cenacontemporanea.com.br/.


  
     Pois é, amigos leitores, o site Operamundi é uma ótima alternativa para quem gosta de notícias na internet.
     Com uma visão bem mais à esquerda que os sites tradicionais, pertencentes ao que Paulo Henrique Amorim batizou de P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista), o Operamundi traz notícias dos movimentos sociais no mundo e uma visão de sustentabilidade que passa muito longe dos indicadores de crescimento que os principais jornais nos fornecem, como se fossem uma coisa boa.
     Transcrevo abaixo um artigo tirado deste site, para os que não o conhecem.
A Globalização da revolução

     Institucionalizada pelos atenienses, a democracia tem perdido seu significado e valor nas mãos de séculos de incontáveis tiranos que a corromperam por completo. Seu significado inicial, claro e direto que diz “o poder do povo” tem pouco significado hoje. A palavra se enfraqueceu, ficou ultrapassada. Todo cidadão, isto é, aqueles que não eram escravos ou estrangeiros, podia representar-se no governo da cidade.
     A representação cidadã é hoje em dia pouco menos que uma ilusão, quase um mito. A chamada democracia é atualmente um eufemismo com poderosos efeitos sedativos sobre uma população sonolenta. Os chamados governos democráticos mantém seus súditos em estado hipnótico, fazendo-os crer que seus interesses como cidadãos, estão representados e protegidos por um grupo de pessoas que pouco ou nada tem em comum com eles.
     Para isto, os usurpadores das democracias modernas se serviram de poderosas armas de controle da sociedade. Tradicionalmente utilizou-se a fé e a bala contra o povo, e mais recentemente, a palavra.
Com a fé, em franco e claro retrocesso, e a bala destinada a democratizar distantes países ricos em recursos naturais, a palavra se tornou uma forte arma para usurpar as democracias ocidentais. A palavra foi moldada à imagem e semelhança do capitalismo globalizador, que a converteu na mais eficaz das armas já usadas contra o povo. Os meios de comunicação de massa tornaram-se a ultima etapa de aperto do pescoço do povo com a corda do capitalismo.
     Agora já não precisam ameaçar-nos com deuses que estão nos céus nem sequer com balas que levam gravada a palavra “democracia”. A palavra é agora a droga que se força o povo a consumir até deixar completamente anulada sua capacidade de pensar por si mesmo. Lança-se um slogan que é repetido por quase todos os meios, e a sensação estereofônica adquire uma nova dimensão com um efeito demolidor da vontade do individuo, e afinal, em sua liberdade. Cada qual é livre para pensar o que eu lhe inculto, se diria que repitam até a saciedade. Em uma espécie de Admirável Mundo Novo, que Huxley teria reescrito o sistema totalitário que é o capitalismo, pensa por nos, consome por nós, fala por nós, vive por nós. Tudo por nós, mas nada para nós. Sem nós. (observe neste mesmo texto que a palavra “nós” perde seu significado depois de tanta repetição. Tome-se este como um bom exemplo das práticas globalizadoras do capitalismo).
     Como povo, nos roubaram a palavra e a puseram a seu serviço, contra nós e contra a democracia. Servem-se dela para nos usar, nos manipular, para nos transformar em um número de uma grande lista de escravos ou estrangeiros a quem permitem uma representação e uma participação direta nisto que só eles chamam de democracia.
     Não é a democracia o sistema que se coloca contra o povo, não é a democracia o sistema de governo que prega o interesse privado de alguns poucos e atenta contra o interesse geral. Como temos permitido que se continue utilizando o termo “democracia” para definir justamente o contrário?
     Mas ainda há esperança, ainda temos algo a fazer pelo povo pisoteado. Como se tivesse passado despercebido, depositaram em nossas mãos um tipo de poder que emana de nós: o dinheiro, seu dinheiro, o alimento desta fera voraz, devoradora de homens e corruptoras de almas que é o capitalismo. O circulo formado pela corda ao redor do nosso pescoço só se fechará se deixarmos escapar este poder. O circulo só se fechará se consumimos e devolvemos ao circuito financeiro todo o dinheiro que esperam que geremos.
     Além do essencial, não consuma.
     Além de uma vida digna e suficiente, não consuma.
     Além de preservar o planeta, não consuma.
     Além do que seja moral, não consuma.
     Além do que te satisfaz, não consuma.
     Além do que consideraria justo e racional para teu vizinho, não consuma.
     Se não consumirmos além disto, essa máquina que nos degrada como pessoas se deterá, cedo ou tarde.
     Todo cárcere precisa de seus presos, todo supermercado precisa de seus clientes, todo capitalismo precisa de suas vitimas.
     Ficou demonstrado então que não vivemos em uma democracia, vivemos como aqueles escravos ou estrangeiros que esperavam em Atenas uma liberação que não chega, que temos que sair procurando onde quer que esteja. Juntos podemos encontrar.

Outro mundo é possível.

Victor J. Sanz
Histórias de outras vidas (26)                     

 Animalidades

     O ano? Talvez 1958 ou 59. A cidade: Rio de Janeiro.
     Éramos sócios do Fluminense, sim o clube de futebol das Laranjeiras.
     Íamos à pé de casa, na Marquês de Abrantes, passando pela Rua Paissandú, com suas enormes palmeiras imperiais, até a Avenida Pinheiro Machado, onde fica a sede centenária do clube.
     Muitos domingos de minha infância foram passados lá e vi a inauguração da grande piscina de saltos, no final da década de 50, com seu enorme trampolim-plataforma, de dez metros de altura.
     Um dia meu pai apresentou, a mim e meu irmão, Castilho, o grande goleiro.
     Meu pai tinha mania de mostrar tudo pra gente e mesmo sem conhecer as pessoas, se metia no meio e nos levava juntos.
     Os domingos no Fluminense eram agitados.
     Meus pais se encontravam com conhecidos e ficavam conversando, enquanto meu irmão ia nadar com seus amigos. Eu também tinha uma turminha de meninos mas, às vezes, gostava de me afastar e ficar sozinho, andando pelas instalações do clube.
     Ia para o estádio, subia nas arquibancadas e ficava lá sentindo aquele espaço enorme, vazio, aquelas vibrações deixadas no ar pelas torcidas de tantos jogos famosos.
     Gostava de subir nas plataformas da nova piscina de saltos e ficar sentado no último andar, no cantinho, vendo os atletas saltarem, dando aquelas piruetas no ar.
     Um dia um garoto me empurrou lá de cima.
     Eu estava distraído, pensando, quando senti o empurrão e me vi no ar, caindo, de barriga e rosto diretamente sobre a água. O impacto foi tão grande que perdi a consciência por alguns segundos. Quando voltei a mim já havia pessoas me tirando da piscina e o moleque que me empurrara ia sendo retirado pelo braço, sob intensa reprimenda de uma mulher, que parecia ser sua mãe e olhares gerais de reprovação.
     Ao contrário dos clubes de hoje, a vida social no Fluminense não girava em torno de comida e bebida na beira da piscina, mas de esportes mesmo.
     As pessoas se sentavam para conversar, mas não me lembro de garçons servindo bebidas, apenas mulheres de toca plástica de nadador e homens molhados ou com uniformes de tênis ou futebol.
     Muito mais saudável.
     Mas o que mais me impressionava era o vestiário.
     Na hora de ir embora, íamos para o vestiário tomar banho e trocar de roupa e eu ficava impressionado com a mudança no cenário.
     Homens que há pouco se vestiam com roupas boas, que diferenciavam sua condição social, circulavam agora completamente nus, aparentando grande naturalidade e continuavam conversando como se ninguém reparasse naquilo.
     Eu achava muito estranho.
     Se a roupa era tão importante lá fora, porque de repente naquele espaço amplo (o vestiário me parecia enorme) ela parecia não ter nenhuma importância.
     Mais do que isso, parecia nunca haver existido a roupa, nem a necessidade dela.
     Eu olhava para o rosto daqueles homens e não via nenhuma alteração. Era a única parte do corpo que se via igual, com ou sem roupa. Era a identidade da pessoa; o rosto.
     E o resto do corpo, não significava nada?
     Barrigas grandes, peitos peludos, pernas finas, bundas murchas ou gordas, ninguém parecia ver o corpo do outro.
     As genitálias eram um espetáculo à parte.
     Cabeludas, com seus pênis murchos e encolhidos, de todos os tamanhos e cores, sacos grandes, sacos miúdos, chamavam a atenção no meio do corpo, a maioria muito feia, mas era como se não existissem. Ninguém olhava para aquela parte tão visível do corpo.
     Naturalmente temiam que qualquer olhar pudesse ser interpretado como uma manifestação de interesse e, o pior, que o olhar fosse correspondido pelo outro com uma ereção. Aprendi ali a me comportar em vestiários masculinos, compreendendo aqueles códigos de conduta tão estranhos.
     Mas enquanto criança eu ficava espantado com aquela exibição toda, enquanto meu pai me ensinava que aquilo tudo era muito natural. Mas eu não entendia porque então não se podia andar pelado na rua, se era tão natural. Porque só ali era natural?
     Porque aqui todos são homens, explicava ele.
     Sim, então só não era natural para as mulheres, devia ser isto.
     Ele então me explicava que no vestiário feminino as mulheres também podiam ficar nuas.
     Mas depois, quando saíamos e aqueles mesmo homens se encontravam com suas famílias, já cobertos pela marca social das suas roupas, eu não podia deixar de ficar imaginando como seria aquela gente toda pelada, conversando.
     Pensava em como seria engraçado vê-los como realmente eram e como seria mais difícil manter as poses com que tentavam se diferenciar.
     Foi a minha primeira noção do ridículo da espécie humana.
     Um monte de homens nus, por mais que tentem manter a dignidade, ficam bem mais próximo de animais. E a animalidade é tudo que mais tentamos esconder de nós mesmos.
     Apenas o rosto é treinado para ser civilizado, o resto é pura animalidade.
     Para o meu olhar espantado de criança, essas convenções humanas me pareciam assustadoras.

     Boa segunda-feira à todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 22 de agosto de 2010

   A América do Sul começa a ser feliz

     Interessante os desdobramentos da crise política entre Colômbia e Venezuela.
     A Suprema Corte colombiana declarou ilegal o acordo militar com os Estados Unidos, fonte de todo desacordo entre os dois países e também entre a Colômbia e toda a América do Sul, com excessão do Perú, cujo governo também  é aliado de Washington.
     A reação a esse acordo no Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Equador foi tão forte, que deixou isolado o governo de Álvaro Uribe e fez com que seu sucessor recuasse na política de enfrentamento com a Venezuela, com quem já normalizou as relações diplomáticas.
     Parece que os govenos democráticos sul-americanos vão conseguindo consolidar uma política continental de solidariedade e cooperação, que vai deixando para trás os tempos de submissão aos americanos e inaugurando uma nova era de paz e prosperidade, enquanto o gigante do norte se afunda em guerras intermináveis e uma crise econômica profunda.
     O sucesso econômico fez com que, inclusive novos governos de direita como o de Piñera no Chile, se alinhassem com as nações do continente no sentido do desenvolvimento baseado em políticas de autonomia e independência. Até o novo presidente colombiano, Santos, parece ter percebido que não há muito futuro em trazer as guerras americans para o nosso território e, a melhor notícia, as Farc pedem negociações e acenam com a integração democrática de suas forças, pois começam a perceber que se tornaram uma desculpa para a intervenção americana.
     O modelo que vai se impondo, na América do sul é a social-democracia, com forte presença do Estado, com respeito às minorias (principalmente aos povos indígenas andinos), comandados por partidos de esquerda que já foram revolucionários, mas permitindo tranquilamente que partidos de direita (que já foram golpistas) como o chileno, possam se integrar.
     O modelo venezuelano, que se equilibra entre a revolução cubana e a social-democracia, foi muito bem em relação as reformas que precisavam ser feitas na Venezuela, destruindo a hegemonia política de uma elite colonizada, que desprezava seu próprio país e seu povo. Mas agora esbarra nas questões econômicas.  
     Chavez, que se diz um admirador do chileno Salvador Allende, parece estar cometendo os mesmo erros que ele, ao priorizar a política em detrimento da economia. Está chegando a hora de definir um modelo econômico eficiente para a Venezuela e a melhor saída, a curto prazo, é se enquadrar no modelito social-democrata, que permite avanços sociais, enquanto mantém calmas as forças da direita (cujas empresas continuam lucrando), tradicionalmente golpistas. Pelo menos até que surja algo melhor no horizonte.
     Enquanto isso, no Brasil, a dianteira de Dilma nas pesquisas, sobre os que defendem o alinhamento com os Estados Unidos (PSDB), mostra que a população sabe o que representa essa eleição para os destinos do Brasil e da América latina.


    
    
   Antagonismos


     Esta semana recebi uma crítica, dizendo que eu preciso de antagonismos, preciso sempre estar comprando alguma briga, em síntese, que eu sou um chato criador de casos.
     Fiquei pensando muito e me lembrei de outra crítica, semelhante a esta, que recebi a poucos meses, e tanto a primeira quanto a segunda, partiram de pessoas que abandonaram seus princípios em busca de vantagens pessoais.
     Seria mesmo verdade que me tornei um antagonista por falta do que fazer, por prazer de ficar perturbando os outros, ou como forma de tentar ser importante ou me achar superior?
     É sempre bom ser lembrado destas coisas, porque às vezes, o fato de ter um espaço para escrever, mesmo que seja um pequeno espaço como este, dá uma sensação de poder que pode nos inebriar e confundir.
     De fato, tenho dois tipos de texto que podem incomodar: o primeiro é o memorialismo, onde cito as pessoas que conheci e vivi. O exemplo clássico é meu livro Contracorrenteza, de 1993, onde citei os primeiros nomes das pessoas e fiz críticas abertas a tudo que achava errado.
     Muita gente gostou e muita gente detestou e até hoje o livro é muito comentado. Referiu-se a uma etapa da minha vida e concentrou críticas sobre o Partido dos Trabalhadores, mostrando as entranhas do movimento popular, as manobras e pequenos golpes, muito comuns, vividos por mim na cidade de Ilhéus.     
     Achei que citando só os primeiros nomes, as pessoas poderiam dizer: não, esse é outro João, não sou eu. Mas não foi assim. A partir daí parei de citar os primeiros nomes, mas mesmo as pessoas se sentem identificadas do mesmo jeito.
     Fica mais difícil quando são pessoas da família, pois é preciso citar o parentesco para que uma história familiar faça sentido. Todo escritor memorialista tem problemas deste tipo com sua família. Isabel Allende cita em um dos seus livros que um dos seus genros a proibiu de citá-lo. mas de qualquer forma ele está lá, como genro.
     O segundo tipo de texto é a crítica política direta, citando nomes de pessoas públicas e criticando sua atuação. É claro que os políticos não gostam, mas se ninguém puder criticá-los não haverá democracia.
     Acontece que, desde o advento do neoliberalismo, se instalou entre nós uma cultura de que críticas são uma coisa nociva, que devemos ter pensamentos positivos, jogar energia positiva, e uma série de coisas desse tipo que deram origem a toda uma literatura de auto-ajuda e às correntes de power-point de fundo religioso que circulam na internet, com mensagens de amor e de como ser mais feliz, etc.
     Essa ideologia de que é preciso ser bonzinho para ser bem-sucedido é típicamente corporativa, ou seja, é usada nas empresas para que os funcionários se conformem e procurem se ajustar aos seus interesses. O espírito crítico sempre foi muito mal visto pelos empresários, que o associam com rebeldia.
     Essa mentalidade propõe que ser crítico é criar problemas para si próprio, ou seja, propõe que em troca de benefícios pessoais (muito discutíveis) a pessoa finja que não está vendo as coisas erradas.
     Mesmo na política essa visão vem ganhando adeptos. Vejam o PT e o próprio Lula, que começou tão rebelde, criticando tudo. Hoje vivem de conchavos e mediações, preferindo um consenso construído nas costas do povo a um embate verdadeiro. Tudo bem, pode até ser um a estratégia de desmobilização do adversário, mas não deixa de reforçar essa idéia de que ser crítico é trabalhar contra você mesmo.
     Então a mensagem é: pense em você em primeiro lugar e pare de ficar se preocupando com ética e honestidade.
     Bom, amigo leitor, fico me perguntando para onde irá o mundo se cada um se preocupar apenas consigo próprio e abandonar seus valores? Para onde irá nossa democracia se não houver mais espírito crítico? Para onde irá nossa liberdade se tudo não passar de uma competição entre interesses particulares?
     Prefiro continuar acreditando em justiça e liberdade, lutando pelos meus valores e pelo interesse público no meu pequeno espaço, do que ser feliz egoisticamente, consolado na minha solidão pela auto-ajuda, que melhor seria chamada de auto-anestesia.
    Sei que pago um preço alto por isto, mas esse é o preço a ser pago por quem pretende ser um livre-pensador, realmente independente.
     Na verdade, ser livre e poder dizer o que penso é a minha melhor ajuda a mim mesmo,
   Histórias de outras vidas (25)

UM SEGUNDO EM UM CACHORRO


     Essa aconteceu em Rio de Contas mesmo, em 2004.
     Tenho um cachorro chamado Aladim, um cachorro diferente.
     Tudo começou em 1999, quando dei de presente à um amigo uma cadela pastor-alemão, não muito pura, que estava numa gaiola na frente da loja de animais em Vitória da Conquista.
     Meu amigo havia comentado que precisava de um cão para tomar conta da casa, e era aniversário dele na mesma semana. Não resisti àquela cadelinha tão simpática que parecia tão desamparada na gaiola.
     A cadela ganhou o nome de Lola e no início de 2001 depois deu a luz a dez cachorrinhos. Isso mesmo: dez! Eu estava na casa dele e ajudei no parto, que durou mais de seis horas. Aparei nove filhotes e achei que já tinha acabado. Já tarde da noite fui dormir e no dia seguinte ao contar à ninhada vi que havia mais um, meio vermelhinho.
     Era ele!
     No mesmo ano me mudei para Brasília e meu amigo foi me visitar de carro, levando os três filhotes que lhe haviam sobrado, pois não tinha com quem deixá-los. Foi uma farra quando eles desceram do carro e começaram a subir nas pernas dos meninos e correr pela casa e o gramado.
     Eram dois machos e uma fêmea. Um dos machos era Aladim, o vermelho. Imediatamente ele grudou em mim, como se me conhecesse de longo tempo. De início achei aquilo chato, mas sua amizade era tão forte que ele acabou me conquistando e fiquei com ele.
     Com o tempo Aladim foi revelando suas estranhas habilidades.
     Não há corda que o segure muito tempo. Escala muros de 2,20 de altura com enorme facilidade e uma vez o vi escalar uma pedra, que começa dentro do açude do meu sítio. É uma grande pedra, meio arredondada, de uns três metros de altura, cuja base se encontra dentro d’água. Eu estava na outra margem quando Aladim saltou de dentro da água, agarrou-se com as quatro patas à pedra, como se fosse uma aranha e foi galgando tranquilamente até atingir o topo.
     Se eu não tivesse visto não acreditaria.
     Pois esse é o meu cachorro.
     Hoje ele vive no sítio e quando chego ele gruda em mim como no primeiro dia. Quando saio o caseiro tem que deixá-lo amarrado por umas duas horas para que ele não venha atrás. Mesmo assim, outro dia apareceu pela cidade, depois de percorrer 20 Km e perambulou por tres dias procurando a casa. Pessoas que o conheciam me avisaram e pude encontrá-lo, faminto.
     Pois um dia destes eu o trouxe para a cidade, para ver o veterinário. Depois de medicado ficou uns dias comigo. Quando eu me deitava na rede da varanda ele vinha e se deitava do lado. Nos comunicamos por gemidos, pois descobri que nós humanos e os cachorros conseguimos emitir os mesmos sons de gemidos o que facilita a comunicação. É claro que a interpretação dos significados é subjetiva, mas não é tão difícil assim decifrá-los.
     Pois estávamos nesse afã, eu na rede, olhando as estrelas pela nesga de céu, entre o muro e o telhado e ele ao meu lado, dando gemidos esporádicos para nos comunicarmos, quando notei uma inquietação no bicho. Olhei para ele, no fundo dos seus olhos e então aconteceu uma coisa incrível:

Eu entrei dentro do cachorro e vi o mundo pelos olhos dele!

     Durou apenas um segundo, mas eu estive lá. Não sei se ele também esteve no meu corpo naquele segundo, mas pude sentir tudo que ele sentia e então compreendê-lo muito melhor. Só me lembro de sentir muito medo. Sim, senti o medo com que os cães vêem o mundo, porque não o entendem e então compreendi porque atacam, porque são agressivos. Eles tem medo constante, se sentem ameaçados por tudo que não entendem, e não entendem quase nada, e por isso estão sempre vigilantes. Talvez por isso sejam tão amigos dos humanos, porque precisam de nós para protegê-los dos seus medos.
     Terminado o transe, dei um pulo da rede, apavorado e fiquei olhando cismado para o animal.
     Foi uma experiência perturbadora, que prefiro não repetir. Talvez tudo não tenha passado de minha imaginação, ou quem sabe, pude captar realmente o que se passava em sua mente e seu espírito primitivo.

Boa segunda-feira a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 15 de agosto de 2010

Histórias de outras vidas (24)

O CAVALO DISPAROU
     O ano era 1957? Talvez 58 ou 59, não sei. Sei que já tinha coordenação suficiente para andar à cavalo.
     Cavalgava-se em pelo, ou sem sela.. No máximo jogava-se sobre o lombo do animal um pequeno acolchocado, forrado com panos quadriculados, que minha mãe fazia na sua máquina de costura.
     O cavalo era o Castanho, que normalmente puxava a charrete e que tinha o mau hábito de disparar quando se assustava, principalmente com o apito do trem, a velha maria-fumaça que levava camarões de Cabo Frio para Niterói e passava em Araruama, às 7,05 da manhã.
     Nosso sítio ficava nos arredores da cidade, na saída para São Vicente. Tínhamos 365 coqueiros anões, que nos forneciam farta produção de cocos, que meu pai abria para nós no carramanchão de sapê que ele mandou construir para isso e também para servir de garagem para o carro, almoços e encontros familiares, com as redes preguiçosas que se entrelaçavam ligando os pilares de madeira.
     Me lembro dele ainda jovem, embora já careca, com um facão na mão, abrindo os cocos para mim numa taboa que funcionava como uma espécie de balcão. Eu bebia a água e devolvia o coco, que ele abria com um golpe seco e me devolvia para comer a polpa. Sua habilidade e força no manejo do facão me impressionavam e me faziam sentir seguro e protegido. E ele parecia gostar de me impressionar.
     Meu único irmão, cinco anos mais velho, tinha outros amigos, outras brincadeiras e não havia uma cumplicidade real entre nós. Ao contrário, houve sempre uma rivalidade, baseada em algum tipo de ressentimento por eu ter acabado com a sua posição de filho único. Mas nessa época, antes que a modernidade de Juscelino Kubitscheck nos envolvesse no turbilhão da mudança para Brasília, ainda havia alguns interesses comuns entre nós.
     Um dia, em Araruama, o pai e mãe tinham saído e ele me olhou com aquele jeito meio sádico que ele tinha, quando queria me torturar um pouco, e me propôs pegarmos o Castanho para dar uma volta. Sem arreio, jogamos a manta em cima, ele montou e me colocou na garupa, dizendo que eu me segurasse na sua cintura, enquanto se agarrava na crina do cavalo.
     Descemos a rua lateral, à passo. Essa rua só dava acesso à nossa casa e por isso estava sempre tomada de mato, um capim alto que ameaçava tomar conta do caminho marcado pelas rodas do velho Standard, o carro inglês de meu pai. Embaixo, viramos à esquerda e tornamos a subir, desta vez em direção a São Vicente, na rua principal, onde passava o único ônibus, vermelho e amarelo, do Expresso Araruama, dirigido por Durval, seu proprietário.
     O cavalo ia tranqüilo e fomos subindo. Paramos no topo, uns dois quilômetros adiante, para olhar a paisagem. Não me lembro se íamos adiante ou não, mas o fato é que o cavalo se assustou com alguma coisa e disparou ladeira abaixo, no rumo de casa, enquanto nos segurávamos como podíamos, eu magrinho e leve, agarrado na cintura dele, e ele no pescoço do cavalo.
     O acolchoado começou a deslizar para o lado esquerdo, nos levando juntos. Ao nos aproximarmos da esquina, onde certamente o cavalo iria virar, ele me gritou para pular no capinzal, assim que ele desse o sinal, enquanto continuávamos a escorregar para o lado e para trás. O cavalo dobrou à toda e ele gritou:
     _Agora!
     Me joguei e saí rolando no mato, que amorteceu minha queda. Logo adiante o vi despencar para o lado esquerdo, enquanto o cavalo passava galopando pela porteira aberta. Ninguém quebrou nada, mas ele se queixou de dores no braço e na perna e sob severas ameaças me proibiu de contar qualquer coisa para o pai ou a mãe.
     Nesse dia, sua maneira de me oprimir revelou o que eu veria nele pelo resto da vida: fragilidade.
     O ciúme e o ressentimento que o levavam a tentar me machucar, faziam com que ele se machucasse mais do que eu.
Rapidinhas

Tampando o nariz

Prezados amigos, juro que eu ia mesmo votar em Marina Silva, porque achava que ela era uma grande ecologista, de renome internacional, capaz de levar o Brasil a um novo caminho, liderando uma economia verde em um mundo cansado de guerras e poluição.
Mas o que estou vendo é outra coisa. Saiu a ambientalista e entrou a crente fundamentalista, contra o aborto, contra o casamento gay e finalmente contra as pesquisas com células tronco. Sou a favor das tres coisas, como posso votar nela?
Como entregar o futuro do país a quem coloca premissas religiosas à frente de direitos civis?
Nesse caso, mas uma vez será preciso tampar o nariz e votar no PT.
Porque Serra é o que há de pior para o Brasil. Ele representa o retrocesso total à uma política de traição da pátria e entrega das nossas riquezas ao capital internacional.
Acho ainda que o governo de Dilma será uma incógnita, pois não sabemos o que ela realmente pensa. Até agora é uma boneca criada pelos marqueteiros. Gostava mais quando ela era aquela velhinha invocada, com os óculos na ponta do nariz. Mas fazer o que? Tem que ser Dilma mesmo.

Parando de sofrer

Fim de semana muito bom, com mãe, filhos, netas e amigos, muita alegria, música e gente nova chegando.
Interessante os ciclos da vida. Às vezes a gente se acomoda no sofrimento só pra depois descobrir que a alegria estava a um passo e que era só deixar o medo de lado para enfrentar o desconhecido.
A vida se renova por si mesmo e é sempre mais forte que o medo e a desesperança.
A família também não é uma coisa estática, se renova sempre, como todo agrupamento humano. É dinâmica,
principalmente quando é composta de gente inteligente e livre, apesar das forças conservadoras que querem que nada mude.

Jornais

Gente, os jornalões impressos estão acabando.
Outro dia me surpreendi no Setor Comercial Sul de Brasília, procurando uma banca de jornais e...não achei.
Foi a maior dificuldade para comprar um exemplar do Correio Braziliense, que além de tudo é muito ruinzinho. Enchem páginas e páginas com fotos enormes e manchetes sensacionalistas, mas conteúdo mesmo, muito pouco. Salvam os classificados e alguns colunistas, porque quando o jornal chega de manhã as notícias já estão velhas na internet.
Parece que estamos caminhando rapidamente para um mundo saturado de informações, cada vez menos manipuladas pelos grupos tradicionais (as famílias donas das mídias, como a família Marinho, dona da Globo) e mais democrática também, embora com muito lixo circulando por aí.
Além de tudo, já repararam quanto papel desperdiçado nessas edições de domingo? Que coisa mais anti-ecológica! Quantas árvores derrubadas para imprimir tanta informação manipulada.


Nota: apartir de hoje passo a publicar cada artigo separadamente, de forma a permitir aos leitores fazer comentários específicos sobre cada texto.

Boa segunda-feira à todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza