Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 22 de agosto de 2010

   Antagonismos


     Esta semana recebi uma crítica, dizendo que eu preciso de antagonismos, preciso sempre estar comprando alguma briga, em síntese, que eu sou um chato criador de casos.
     Fiquei pensando muito e me lembrei de outra crítica, semelhante a esta, que recebi a poucos meses, e tanto a primeira quanto a segunda, partiram de pessoas que abandonaram seus princípios em busca de vantagens pessoais.
     Seria mesmo verdade que me tornei um antagonista por falta do que fazer, por prazer de ficar perturbando os outros, ou como forma de tentar ser importante ou me achar superior?
     É sempre bom ser lembrado destas coisas, porque às vezes, o fato de ter um espaço para escrever, mesmo que seja um pequeno espaço como este, dá uma sensação de poder que pode nos inebriar e confundir.
     De fato, tenho dois tipos de texto que podem incomodar: o primeiro é o memorialismo, onde cito as pessoas que conheci e vivi. O exemplo clássico é meu livro Contracorrenteza, de 1993, onde citei os primeiros nomes das pessoas e fiz críticas abertas a tudo que achava errado.
     Muita gente gostou e muita gente detestou e até hoje o livro é muito comentado. Referiu-se a uma etapa da minha vida e concentrou críticas sobre o Partido dos Trabalhadores, mostrando as entranhas do movimento popular, as manobras e pequenos golpes, muito comuns, vividos por mim na cidade de Ilhéus.     
     Achei que citando só os primeiros nomes, as pessoas poderiam dizer: não, esse é outro João, não sou eu. Mas não foi assim. A partir daí parei de citar os primeiros nomes, mas mesmo as pessoas se sentem identificadas do mesmo jeito.
     Fica mais difícil quando são pessoas da família, pois é preciso citar o parentesco para que uma história familiar faça sentido. Todo escritor memorialista tem problemas deste tipo com sua família. Isabel Allende cita em um dos seus livros que um dos seus genros a proibiu de citá-lo. mas de qualquer forma ele está lá, como genro.
     O segundo tipo de texto é a crítica política direta, citando nomes de pessoas públicas e criticando sua atuação. É claro que os políticos não gostam, mas se ninguém puder criticá-los não haverá democracia.
     Acontece que, desde o advento do neoliberalismo, se instalou entre nós uma cultura de que críticas são uma coisa nociva, que devemos ter pensamentos positivos, jogar energia positiva, e uma série de coisas desse tipo que deram origem a toda uma literatura de auto-ajuda e às correntes de power-point de fundo religioso que circulam na internet, com mensagens de amor e de como ser mais feliz, etc.
     Essa ideologia de que é preciso ser bonzinho para ser bem-sucedido é típicamente corporativa, ou seja, é usada nas empresas para que os funcionários se conformem e procurem se ajustar aos seus interesses. O espírito crítico sempre foi muito mal visto pelos empresários, que o associam com rebeldia.
     Essa mentalidade propõe que ser crítico é criar problemas para si próprio, ou seja, propõe que em troca de benefícios pessoais (muito discutíveis) a pessoa finja que não está vendo as coisas erradas.
     Mesmo na política essa visão vem ganhando adeptos. Vejam o PT e o próprio Lula, que começou tão rebelde, criticando tudo. Hoje vivem de conchavos e mediações, preferindo um consenso construído nas costas do povo a um embate verdadeiro. Tudo bem, pode até ser um a estratégia de desmobilização do adversário, mas não deixa de reforçar essa idéia de que ser crítico é trabalhar contra você mesmo.
     Então a mensagem é: pense em você em primeiro lugar e pare de ficar se preocupando com ética e honestidade.
     Bom, amigo leitor, fico me perguntando para onde irá o mundo se cada um se preocupar apenas consigo próprio e abandonar seus valores? Para onde irá nossa democracia se não houver mais espírito crítico? Para onde irá nossa liberdade se tudo não passar de uma competição entre interesses particulares?
     Prefiro continuar acreditando em justiça e liberdade, lutando pelos meus valores e pelo interesse público no meu pequeno espaço, do que ser feliz egoisticamente, consolado na minha solidão pela auto-ajuda, que melhor seria chamada de auto-anestesia.
    Sei que pago um preço alto por isto, mas esse é o preço a ser pago por quem pretende ser um livre-pensador, realmente independente.
     Na verdade, ser livre e poder dizer o que penso é a minha melhor ajuda a mim mesmo,
   Histórias de outras vidas (25)

UM SEGUNDO EM UM CACHORRO


     Essa aconteceu em Rio de Contas mesmo, em 2004.
     Tenho um cachorro chamado Aladim, um cachorro diferente.
     Tudo começou em 1999, quando dei de presente à um amigo uma cadela pastor-alemão, não muito pura, que estava numa gaiola na frente da loja de animais em Vitória da Conquista.
     Meu amigo havia comentado que precisava de um cão para tomar conta da casa, e era aniversário dele na mesma semana. Não resisti àquela cadelinha tão simpática que parecia tão desamparada na gaiola.
     A cadela ganhou o nome de Lola e no início de 2001 depois deu a luz a dez cachorrinhos. Isso mesmo: dez! Eu estava na casa dele e ajudei no parto, que durou mais de seis horas. Aparei nove filhotes e achei que já tinha acabado. Já tarde da noite fui dormir e no dia seguinte ao contar à ninhada vi que havia mais um, meio vermelhinho.
     Era ele!
     No mesmo ano me mudei para Brasília e meu amigo foi me visitar de carro, levando os três filhotes que lhe haviam sobrado, pois não tinha com quem deixá-los. Foi uma farra quando eles desceram do carro e começaram a subir nas pernas dos meninos e correr pela casa e o gramado.
     Eram dois machos e uma fêmea. Um dos machos era Aladim, o vermelho. Imediatamente ele grudou em mim, como se me conhecesse de longo tempo. De início achei aquilo chato, mas sua amizade era tão forte que ele acabou me conquistando e fiquei com ele.
     Com o tempo Aladim foi revelando suas estranhas habilidades.
     Não há corda que o segure muito tempo. Escala muros de 2,20 de altura com enorme facilidade e uma vez o vi escalar uma pedra, que começa dentro do açude do meu sítio. É uma grande pedra, meio arredondada, de uns três metros de altura, cuja base se encontra dentro d’água. Eu estava na outra margem quando Aladim saltou de dentro da água, agarrou-se com as quatro patas à pedra, como se fosse uma aranha e foi galgando tranquilamente até atingir o topo.
     Se eu não tivesse visto não acreditaria.
     Pois esse é o meu cachorro.
     Hoje ele vive no sítio e quando chego ele gruda em mim como no primeiro dia. Quando saio o caseiro tem que deixá-lo amarrado por umas duas horas para que ele não venha atrás. Mesmo assim, outro dia apareceu pela cidade, depois de percorrer 20 Km e perambulou por tres dias procurando a casa. Pessoas que o conheciam me avisaram e pude encontrá-lo, faminto.
     Pois um dia destes eu o trouxe para a cidade, para ver o veterinário. Depois de medicado ficou uns dias comigo. Quando eu me deitava na rede da varanda ele vinha e se deitava do lado. Nos comunicamos por gemidos, pois descobri que nós humanos e os cachorros conseguimos emitir os mesmos sons de gemidos o que facilita a comunicação. É claro que a interpretação dos significados é subjetiva, mas não é tão difícil assim decifrá-los.
     Pois estávamos nesse afã, eu na rede, olhando as estrelas pela nesga de céu, entre o muro e o telhado e ele ao meu lado, dando gemidos esporádicos para nos comunicarmos, quando notei uma inquietação no bicho. Olhei para ele, no fundo dos seus olhos e então aconteceu uma coisa incrível:

Eu entrei dentro do cachorro e vi o mundo pelos olhos dele!

     Durou apenas um segundo, mas eu estive lá. Não sei se ele também esteve no meu corpo naquele segundo, mas pude sentir tudo que ele sentia e então compreendê-lo muito melhor. Só me lembro de sentir muito medo. Sim, senti o medo com que os cães vêem o mundo, porque não o entendem e então compreendi porque atacam, porque são agressivos. Eles tem medo constante, se sentem ameaçados por tudo que não entendem, e não entendem quase nada, e por isso estão sempre vigilantes. Talvez por isso sejam tão amigos dos humanos, porque precisam de nós para protegê-los dos seus medos.
     Terminado o transe, dei um pulo da rede, apavorado e fiquei olhando cismado para o animal.
     Foi uma experiência perturbadora, que prefiro não repetir. Talvez tudo não tenha passado de minha imaginação, ou quem sabe, pude captar realmente o que se passava em sua mente e seu espírito primitivo.

Boa segunda-feira a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 15 de agosto de 2010

Histórias de outras vidas (24)

O CAVALO DISPAROU
     O ano era 1957? Talvez 58 ou 59, não sei. Sei que já tinha coordenação suficiente para andar à cavalo.
     Cavalgava-se em pelo, ou sem sela.. No máximo jogava-se sobre o lombo do animal um pequeno acolchocado, forrado com panos quadriculados, que minha mãe fazia na sua máquina de costura.
     O cavalo era o Castanho, que normalmente puxava a charrete e que tinha o mau hábito de disparar quando se assustava, principalmente com o apito do trem, a velha maria-fumaça que levava camarões de Cabo Frio para Niterói e passava em Araruama, às 7,05 da manhã.
     Nosso sítio ficava nos arredores da cidade, na saída para São Vicente. Tínhamos 365 coqueiros anões, que nos forneciam farta produção de cocos, que meu pai abria para nós no carramanchão de sapê que ele mandou construir para isso e também para servir de garagem para o carro, almoços e encontros familiares, com as redes preguiçosas que se entrelaçavam ligando os pilares de madeira.
     Me lembro dele ainda jovem, embora já careca, com um facão na mão, abrindo os cocos para mim numa taboa que funcionava como uma espécie de balcão. Eu bebia a água e devolvia o coco, que ele abria com um golpe seco e me devolvia para comer a polpa. Sua habilidade e força no manejo do facão me impressionavam e me faziam sentir seguro e protegido. E ele parecia gostar de me impressionar.
     Meu único irmão, cinco anos mais velho, tinha outros amigos, outras brincadeiras e não havia uma cumplicidade real entre nós. Ao contrário, houve sempre uma rivalidade, baseada em algum tipo de ressentimento por eu ter acabado com a sua posição de filho único. Mas nessa época, antes que a modernidade de Juscelino Kubitscheck nos envolvesse no turbilhão da mudança para Brasília, ainda havia alguns interesses comuns entre nós.
     Um dia, em Araruama, o pai e mãe tinham saído e ele me olhou com aquele jeito meio sádico que ele tinha, quando queria me torturar um pouco, e me propôs pegarmos o Castanho para dar uma volta. Sem arreio, jogamos a manta em cima, ele montou e me colocou na garupa, dizendo que eu me segurasse na sua cintura, enquanto se agarrava na crina do cavalo.
     Descemos a rua lateral, à passo. Essa rua só dava acesso à nossa casa e por isso estava sempre tomada de mato, um capim alto que ameaçava tomar conta do caminho marcado pelas rodas do velho Standard, o carro inglês de meu pai. Embaixo, viramos à esquerda e tornamos a subir, desta vez em direção a São Vicente, na rua principal, onde passava o único ônibus, vermelho e amarelo, do Expresso Araruama, dirigido por Durval, seu proprietário.
     O cavalo ia tranqüilo e fomos subindo. Paramos no topo, uns dois quilômetros adiante, para olhar a paisagem. Não me lembro se íamos adiante ou não, mas o fato é que o cavalo se assustou com alguma coisa e disparou ladeira abaixo, no rumo de casa, enquanto nos segurávamos como podíamos, eu magrinho e leve, agarrado na cintura dele, e ele no pescoço do cavalo.
     O acolchoado começou a deslizar para o lado esquerdo, nos levando juntos. Ao nos aproximarmos da esquina, onde certamente o cavalo iria virar, ele me gritou para pular no capinzal, assim que ele desse o sinal, enquanto continuávamos a escorregar para o lado e para trás. O cavalo dobrou à toda e ele gritou:
     _Agora!
     Me joguei e saí rolando no mato, que amorteceu minha queda. Logo adiante o vi despencar para o lado esquerdo, enquanto o cavalo passava galopando pela porteira aberta. Ninguém quebrou nada, mas ele se queixou de dores no braço e na perna e sob severas ameaças me proibiu de contar qualquer coisa para o pai ou a mãe.
     Nesse dia, sua maneira de me oprimir revelou o que eu veria nele pelo resto da vida: fragilidade.
     O ciúme e o ressentimento que o levavam a tentar me machucar, faziam com que ele se machucasse mais do que eu.
Rapidinhas

Tampando o nariz

Prezados amigos, juro que eu ia mesmo votar em Marina Silva, porque achava que ela era uma grande ecologista, de renome internacional, capaz de levar o Brasil a um novo caminho, liderando uma economia verde em um mundo cansado de guerras e poluição.
Mas o que estou vendo é outra coisa. Saiu a ambientalista e entrou a crente fundamentalista, contra o aborto, contra o casamento gay e finalmente contra as pesquisas com células tronco. Sou a favor das tres coisas, como posso votar nela?
Como entregar o futuro do país a quem coloca premissas religiosas à frente de direitos civis?
Nesse caso, mas uma vez será preciso tampar o nariz e votar no PT.
Porque Serra é o que há de pior para o Brasil. Ele representa o retrocesso total à uma política de traição da pátria e entrega das nossas riquezas ao capital internacional.
Acho ainda que o governo de Dilma será uma incógnita, pois não sabemos o que ela realmente pensa. Até agora é uma boneca criada pelos marqueteiros. Gostava mais quando ela era aquela velhinha invocada, com os óculos na ponta do nariz. Mas fazer o que? Tem que ser Dilma mesmo.

Parando de sofrer

Fim de semana muito bom, com mãe, filhos, netas e amigos, muita alegria, música e gente nova chegando.
Interessante os ciclos da vida. Às vezes a gente se acomoda no sofrimento só pra depois descobrir que a alegria estava a um passo e que era só deixar o medo de lado para enfrentar o desconhecido.
A vida se renova por si mesmo e é sempre mais forte que o medo e a desesperança.
A família também não é uma coisa estática, se renova sempre, como todo agrupamento humano. É dinâmica,
principalmente quando é composta de gente inteligente e livre, apesar das forças conservadoras que querem que nada mude.

Jornais

Gente, os jornalões impressos estão acabando.
Outro dia me surpreendi no Setor Comercial Sul de Brasília, procurando uma banca de jornais e...não achei.
Foi a maior dificuldade para comprar um exemplar do Correio Braziliense, que além de tudo é muito ruinzinho. Enchem páginas e páginas com fotos enormes e manchetes sensacionalistas, mas conteúdo mesmo, muito pouco. Salvam os classificados e alguns colunistas, porque quando o jornal chega de manhã as notícias já estão velhas na internet.
Parece que estamos caminhando rapidamente para um mundo saturado de informações, cada vez menos manipuladas pelos grupos tradicionais (as famílias donas das mídias, como a família Marinho, dona da Globo) e mais democrática também, embora com muito lixo circulando por aí.
Além de tudo, já repararam quanto papel desperdiçado nessas edições de domingo? Que coisa mais anti-ecológica! Quantas árvores derrubadas para imprimir tanta informação manipulada.


Nota: apartir de hoje passo a publicar cada artigo separadamente, de forma a permitir aos leitores fazer comentários específicos sobre cada texto.

Boa segunda-feira à todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma Escola Família Agrícola
para Rio de Contas

     
 O projeto da EFA de Rio de Contas: um verdadeiro campus para desenvolver a agricultura no município    

     Pois é, amigos leitores, esse é o bonito projeto da Escola Família Agrícola, com que a arquiteta Scarlett Porto brindou o município de Rio de Contas.
     O projeto se situa na confluência das estradas que levam ao distrito de Mato Grosso e aos povoados de Fazendola e Caiambola, em terreno de propriedade do Sr. Carlos Bittencourt, pessoa muito comprometida com as questões sociais e que, em princípio, concordou em ceder a área para construção.
     Scarlett Porto me procurou há mais ou menos um ano atrás, porque buscava um tema para o seu trabalho final de graduação (TFG) na Faculdade de Arquitetura da UFBA, em Salvador. Seu interesse era fazer uma escola rural dentro da filosofia da Escola Família Agrícola. Alguém recomendou meu nome e eu a recebi em Rio de Contas, levei à Secretaria de Meio Ambiente, que demonstrou interesse pelo projeto e a encaminhou a algumas pessoas que poderiam fornecer dados sobre educação no município.
     Só agora, em julho, Scarlett me procurou novamente me convidando para fazer parte da sua banca de graduação, convite que aceitei com muito prazer.
     No dia 9 de julho participei da banca, em Salvador, que a aprovou.
     Na minha intervenção na banca, lembrei a importância do projeto para Rio de Contas, principalmente para os jovens do campo, sempre obrigados a migrar para as cidades por falta de perspectivas econômicas nas áreas rurais e lembrei-a também do seu compromisso com a cidade, coisa que ela prontamente reiterou.
     O projeto atenderia os jovens dos 12 povoados dos gerais em regime externo e ainda os jovens do baixio, em regime de semi-internato, 15 dias na escola e 15 dias em casa, pois é assim que essa filosofia se propõe a trabalhar com os estudantes de áreas mais distantes.
     A EFA de Rio de Contas tem o apoio da Associação de Pequenos Produtores Rurais (Citrus) e espera contar também com o apoio da Prefeitura local, em benefício do desenvolvimento da agricultura e da educação no município.
     A deputada federal Alice Portugal já se comprometeu a lutar pelo projeto na Câmara, em Brasília. Procurada por mim, em Vitória da Conquista, ela disse: gosto muito de Rio de Contas, tenho inclusive uma boa votação lá, mas nunca pude fazer muito pelo município. Quem sabe esse não será meu primeiro projeto para Rio de Contas?
    Oxalá seja! Deus abençoe Scarlett Porto, Carlos Bittencourt, Alice Portugal e todos aqueles que queiram ajudar Rio de Contas a ter uma agricultura moderna, produtiva, ecológica, assim como uma juventude rural resgatada do isolamento e antenada com o futuro.

Debate

     Poxa, que debatezinho chocho este da Band.
     Dilma pareceia mais preocupada com a imagem do que com as propostas. Serra, muito experiente e ágil, mas parece não ter proposta nenhuma, ou melhor, esconde suas verdeiras intenções (privatizar tudo, como sempre), para falar de saúde, educação, etc. Marina Silva é aquela coisinha sem graça, falando da sua vida de pobreza no Acre. História requentada. Plíno Arruda poderia ter pelo menos feito uma plástica. Aos 80 anos é um sacrifício ficar olhando para aquela cara tão feia, lançando propostas fora de contexto, de um modelo socialista que não existe mais.
     Aliás, igualdade nunca foi uma bandeira socialista, mas sim da revolução burguesa (liberdade, igualdade e fraternidade). Os marxistas sempre defenderam a cada um segundo a sua necessidade e de cada um segundo a sua capacidade. Ou seja, cada um dá o que pode e recebe o que precisa, o que é um reconhecimento de que igualdade é uma coisa utópica e racionalista, muito distante da realidade diversa da humanidade.
     Valia mais a pena ver São Paulo x Internacional na Globo, coisa aliás que a maioria dos telespectadores fez (o Ibope da Band foi de apenas 5% no debate).
     Acho engraçado o foco eterno em saúde, educação e segurança. Esses são serviços prestados pelo Estado (faltou o transporte). Mas governar não é cuidar apenas do que é obrigação do Estado, é principalmente formular políticas públicas em todas as áreas, para que o país se desnvolva mais e de forma equilibrada.
     Acho que os apresentadores da Band ainda estão em 1989.
    
    
Histórias de outras vidas (23)

   UM LAGO NOS ANDES

     O ano? Final de 1972. O lugar? San Fernando, Chile, onde fui passar um fim de semana na casa de meu amigo Lucho.
     Desde que havia chegado ao Chile, em junho de 1972, eu evitava a colônia brasileira formada por exilados e preferia ter amigos chilenos.
     Eu pensava que se havia ido morar naquele país devia conviver com o povo de lá, para entender sua cultura e conhecer a experiência do socialismo democrático de Salvador Allende.
     Muitos brasileiros que chegavam à Santiago, como eu, só se relacionavam com outros brasileiros e desenvolviam uma atitude negativa, falando mal do Chile e de seus costumes. Depois de algum tempo percebi que isso era uma espécie de síndrome comum em colônias de exilados. Acho que no fundo é um medo de se adaptar e não querer voltar mais ao seu país de origem.
     Lucho era meu colega na faculdade de arquitetura e às vezes me convidava para ir a San Fernando, sua cidade natal, que ficava mais ou menos a uma hora de trem de Santiago.
     Sua família morava num velho casarão de estilo espanhol com um pátio interno, avarandado, para onde todos os cômodos abriam portas e janelas. Sua jovem mãe era muito atenciosa comigo, me tratando como se fosse um filho.
     Quando eu chegava ela me cortava as unhas do pé, costurava minhas roupas e se preocupava com a minha saúde. Claro que eu gostava. Num país estrangeiro, sem família ou amigos brasileiros, encontrei ali um lar alternativo que me aquecia muito o coração. De vez em quando eu ia para San Fernando, passar o fim de semana.
     Daquela vez Lucho me convidou para ir à uma festa com sua família, numa área rural. Era uma espécie de almoço de fim de ano de colegas de trabalho de sua mãe. Ficamos lá um tempo, mas logo a reunião se tornou um pouco cansativa para nós, que não pertencíamos àquele grupo. Ele então me convidou a fazer uma trilha. Saímos e fomos subindo a encosta da cordilheira.
     Sim, a Cordilheira dos Andes é uma presença constante na vida chilena. De qualquer lugar do país em que se olhe para oeste, ela está sempre lá. Algumas cidades ficam ao pé da montanha, como Santiago e San Fernando e também o tal clube onde acontecia a festa.
     Fomos subindo e respirando aquele ar puro e tudo foi ficando muito bonito, a vegetação foi ficando rarefeita e continuamos até encontrar um lago.
      Lucho me disse que às vezes vinha até ali sozinho, quando queria pensar, e tomava banho sem roupa, em comunhão com a natureza. Achei a idéia ótima. Logo tiramos nossas roupas e nos metemos na água, que estava gelada, naquele domingo de verão.
     Lá de cima podíamos observar a cidade embaixo e as montanhas ao redor.
     O contato daquela água no corpo e a visão daquele ambiente fantástico, fez com que eu me sentisse vivo de uma maneira inesquecível. Era como se de repente todos os desígnios da minha vida ficassem claros.
     Naquele momento senti como se todas as barreiras que me separavam da natureza subitamente desaparecessem e eu conseguisse voltar à ela, me sentir parte dela.
     A consciência do meu lugar neste mundo, intrinsicamente ligado à natureza foi se reforçando ao longo da vida. Os valores materiais do mundo nunca me interessaram muito. Sempre vivi como alguém que está de passagem, observa tudo, sente as coisas e se vai, experimentando novos caminhos.
     Um observador participante, ávido por conhecer, sentir, experimentar. Talvez sabendo no subconsciente que esta vida é só um estágio, nesse planeta belíssimo, e que logo o estaremos deixando e colhendo os frutos das nossas ações por aqui.
     Uma consciência que fui adquirindo aos poucos, mas que naquele momento mágico, se tornou clara para mim, na água gelada de um lago tão alto, tão isolado e silencioso.

     Boa segunda-feira à todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 1 de agosto de 2010


   Odorico e Isabel

     Dois fatos muito distintos se entrelaçaram esta semana, me levando a pensar no futuro do Brasil. O primeiro foi assistir ao filme O Bem Amado, com Marcos Nanini no papel de Odorico Paraguaçú e Matheus Nachtergale como Dirceu Borboleta.
     Ao contrário do eu supunha, não se trata apenas de uma versão para o cinema, da famosa história de Dias Gomes, que já virou novela e seriado. O filme procura entrelaçar a história do prefeito corrupto com a história recente do nosso país, exibindo inclusive flashes de documentários antigos sobre a guerra fria, a renúncia de Jânio Quadros, a posse e a derrubada de João Goulart, à resistência à ditadura e o movimento pelas diretas.
     A atuação de Marcos Nanini é excelente, como sempre, apesar de que suas falas, cheias de neologismos, são um pouco rápidas demais. Para quem já conhece o personagem dá pra entender bem, mas para os mais jovens deve ser difícil compreender o significado daquela torrente de palavras estranhas.
     Matheus Nachtergale está impecável como o funcionário público exemplar, tendo que conviver com os desmandos de um prefeito completamente desligado da ética e capaz das piores artimanhas para se manter no poder, situação recorrente no Brasil.
     A ligação entre a história fictícia de Odorico e a realidade brasileira só fica clara ao final, quando sobre um globo terrestre mostrado sobre um fundo estrelado, o nome Brasil é trocado por Sucupira, sobre o mapa do nosso país, numa alusão clara à corrupção generalizada na vida política nacional.
     O Brasil teria se tornado uma grande Sucupira, a cidade de Odorico Paraguaçú.
     Apesar do mal-estar causado por essa alusão ao final do filme, saí do cinema pensando se este não seria realmente o grande problema atual do Brasil. Apesar das conquistas políticas, econômicas e sociais dos últimos anos, resta um travo de amargura na população brasileira em relação à falta de seriedade dos nossos políticos e da nossa justiça, que se mantém numa postura burocrática em relação ao cumprimento das leis, com a brilhante exceção do Ministério Público.
     E porque o Brasil não consegue ser um país sério? Porque toda troca de comando no poder nacional sempre cheira a acordos espúrios? Foi assim na redemocratização, com a posse de Sarney, ex-líder da ditadura, fruto de um arranjo que deu mais 20 anos de fôlego à velhos figuras carimbadas da política a la Sucupira, como Antonio Carlos Magalhães e outros.
     Foi assim também com a ascenção de Fernando Henrique Cardoso, cujo passado esquerdista desapareceu num acordo com o antigo partido da ditadura (atual DEM), mantendo Sucupira no poder. O mesmo se deu com Lula, quando na sua famosa Carta aos Brasileiros (muito pouco divulgada antes das eleições), detalhou as bases do acordo feito com as elites brasileiras para que permitissem que fosse ungido presidente, abandonando as principais promessas e princípios da sua trajetória política e tomando um rumo que, na prática, o compromteu a não mexer nos interesses da grande Sucupira que se esconde na sociedade brasileira.
     Assim, os discursos foram virando vento, a legalidade voltou a ser uma coisa relativa e o Brasil continuou a ser um país de faz de conta, que frustra a maioria do nosso povo. Mas esse é um tema que está fora da campanha eleitoral deste ano, onde os tres principais candidatos parecem colocar como pressuposto manter o seu compromisso com Sucupira, para não perturbar essa falsa social-democracia em que o Brasil se transformou, onde a cidadania continua sendo um mito.
     Mas o segundo fato, a que me referi no início, foi a comemoração de 164 anos de nascimento da Princesa Isabel, no dia 29 de julho, muito oportuno para lembrar que nem Dilma, nem Marina seriam as primeiras mulheres a governar o Brasil.
     Isabel, filha meio rebelde de D. Pedro II, assumiu a regência por três vezes: na primeira promulgou a Lei do Ventre Livre, libertando os escravos nascidos a partir daquela data; na segunda se envolveu com a questão religiosa e separou a Igreja Católica do Estado no Brasil e na terceira aboliu a escravidão.
     Embora sendo uma aristocrata, Isabel nos deu um exemplo sadio de rebeldia, de quem estava cansada de discursos vazios e partiu para a prática, terminando efetivamente com a estrutura arcaica do Estado brasileiro, com imperadores e escravos. Suas ações estão na base do nascimento de um Brasil moderno e republicano, mas que nunca conseguiu se libertar dos conchavos das elites para estabelecer uma verdadeira democracia, onde o povo exerça livremente o seu poder.
     Então a pergunta que fica é: até quando vamos ter medo dessas elites que nos mantém subjugados?
     Até quando vamos nos submeter a esses acordos espúrios e tolerar a corrupção e a inércia da justiça para promover e proteger privilégios?
     Quem sabe a rosa branca, símbolo da luta contra a escravidão adotado também pela princesa Isabel, nos inspire novamente. Quem sabe, como na música de Zé Ramalho, tenhamos novamente aquela vontade de sairmos do poço, da garganta do poço, na voz de um cantador....


Modelos
     Faz quase 40 anos, uma delegação chinesa visitou o Brasil para conhecer nosso modelo econômico. Foi na época do chamado "milagre brasileiro", tempo de grande dinamismo econômico, com o Brasil crescendo a 9% ao ano sob a ditadura de Garrastazú Médici. Os chineses, que na época viviam uma economia estagnada de privações e pobreza, queriam entender como podíamos crescer tanto.
    Viram, entenderam e trataram de aplicar na China (na época totalmente estatizada) a fórmula brasileira, que mesclava economia privada com controle estatal. Tínhamos grandes estatais que puxavam toda a economia, um Estado forte que regulamentava tudo para alavancar o setor privado que, em parceria com o Estado, sabia que podia investir pesadamente que o retorno era garantido.
     A base dessa economia mista era o planejamento, ferramenta desenvolvida nos países socialistas e adotada no mundo inteiro, como garantia de desenvolvimento.
     Passados alguns anos, desceu por aqui Henry Kissinger, então Secretário de Estado americano, para reclamar que nossa economia estava estatizada demais, que era preciso privatizar. Isso, se não me engano, já foi no governo de Ernesto Geisel.
     Daí em diante começou a se desevolver essa campanha pela desestatização, como se a presença do Estado na economia fosse um pecado. Com a queda da União Soviética, então, a privatização fez a festa. O baluerte socialista tinha caído e era hora dos privatistas avançarem. Daí em diante foi o que se viu. Sarney começou, Collor acelerou, Itamar continuou (privatizou a Açominas) e Fernando Henrique detonou. Privatizamos e desregulamentamos tudo. Resultado: paramos de crescer, mergulhamos numa crise profunda da qual só começamos a sair com o governo Lula, que parou de privatizar, embora não tenha tido a coragem de reestatizar.
     Lula governa com o máximo de consenso possível e não gosta de mexer em vespeiros. Se a recriação da Telebrás e a criação da pequena Petro-Sal já provocam náuseas nos privatistas, reestatizar as comunicações seria uma verdadeira guerra (muito embora a fusão da Brasil Telecom com a Oi e agora com a Portugal Telecom, possam ser uma forma de abrir espaço para a compra de ações por parte do governo, criando uma estatal gigante).
     Nesses 40 anos, primeiro faliu o modelo estatista soviético, depois o privatista veio abaixo, com a crise americana de 2008, fazendo o governo dos Estados Unidos regulamentar pesadamente o sistema financeiro e colocar dinheiro do tesouro americano nas empresas, rompendo com os famosos "novos paradigmas" e voltando à velha intervenção estatal.
     Enquanto isso a China desenvolveu nosso antigo modelo com muito sucesso, chegando a ser a segunda economia do mundo e se preparando para nos próximos anos, ultrapassar os Estados Unidos como maior economia mundial.
     Ou seja, nós os ensinamos como crescer, mas depois, com governos que representavam uma elite submissa e colonizada, injetamos em nós mesmos os venenos preparados pelos estrangeiros para nos impedir de assumir nosso papel de liderança no mundo.
     O grande mérito de Lula foi romper com esse complexo de vira-lata brasileiro e relembrar que podemos ter projetos próprios (como tívemos nos governos Vargas, Kubistcheck e Goulart), que podemos defender nossos interesses no mundo, que podemos ser um país que se leva à sério, (apesar dos seus acordos eleitorais com a velha Sucupira).
     Mas o modelo chinês, também tem seus percalços, pois não é democrático e é extremamente consumista.
     Qual seria então o futuro?
     O modelo de economia mista já provou que funciona bem, garantindo espaço para os investidores, que no entanto estão limitados pelo poder do Estado, um fiscalizando o outro. A tal economia de baixo carbono, proposta por Marina Silva, parece que se preocupa apenas com as emissões, mas não aborda com clareza a questão dos recursos não renováveis (com excessão do petróleo), que estão se esgotando rapidamente com o aumento contínuo da produção industrial.
     Parece que a solução aponta na mudança de uma economia de consumo de produtos, para uma economia de serviços.  Explico: a produção de bens descartáveis ou pouco duráveis seria substituída por bens duráveis, por exemplo: um automóvel seria feito para durar 20 anos e não 3, como hoje. Os modelos não mudariam todo ano, como agora, estimulando a troca, mas se manteriam por muito tempo. Seriam produzidos muito menos automóveis e a economia giraria em torno da manutenção desse veículos, vendendo peças de reposição, oferecendo regulagens periódicas e muito trabalho humano que pode ser aplicado a um veículo.
     Novidade? Nada disso: assim eram as economias socialistas, onde os bens eram feitos para durar e não para serem jogados fora. Só que isso era feito através de um planejamento burocrático, muito distante dos consumidores, o que engessava todo o processo. E mesmo no Brasil, há algumas décadas atrás, nada era descartável e o consumo era muito reduzido. Os mais velhos se lembram.
     O desafio seria planejar o consumo dentro de um processo democrático, dialogando com todos os setores da sociedade, sempre de olho na resiliência (capacidade de recuperação) da natureza do planeta.   
     Só que hoje em dia isso não poderia mais ser feito em cada nação isoladamente. Seria preciso algum tipo de governança global que monitorasse o quanto ainda temos de petróleo, minério de ferro, etc, para saber o quanto poderia ser gasto anualmente, sem ameaçar nossa existência, e buscasse fontes alternativas, renováveis, para substituir os recursos finitos.
     Além disso, muito trabalho humano poderia girar a economia de serviços em muitos outros setores, como o da educação, cultura, artes e ciências, além da uma agricultura que abandonasse o agro-negócio envenenador de solos e produtos, por uma agricultura ecológicamente correta.
     Não seria fácil fazer essa conversão, adotando um modelo planejado e racional, onde os negócios estariam muito mais regulamentados Também não seria fácil substituir a mentalidade consumista que se formou na população nos últimos anos, cujo melhor exemplo é o slogan da Ford: viva o novo, que teria que ser substituído por viva o durável!
     Esse é o modelo que vai se formando no horizonte possível: economia mista, democraticamente  planejada, voltada para os serviços e baseada na sustentabilidade.
     Quanto à governança global, as potências militares, que ainda acreditam no poder nacional, resistem à integração democrática, tipo União Européia e Mercosul, mas as crises econômicas e ambientais começam a falar mais alto e vão moldando na prática as leis globais.
     Quem viver verá.

    

   Histórias de outra vidas (22)

   VINCENT


     O lugar era Bruxelas, na Bélgica e o ano 1974 ou 75, não tenho certeza.
     Eu tinha ido para a Europa em 1974, fugindo da repressão do governo Médici que estava prendendo todo mundo que havia estado no Chile, cujo governo socialista acabara de ser derrubado por Pinochet.
     Fui sozinho na frente e alguns meses depois minha nova companheira, que eu havia conhecido no Rio, foi também. Lá alugamos um porão na casa de um casal belga, que achava que estava ajudando o terceiro mundo por nos receber. Jean Pierre e Myriam formavam um casal interessante: ele judeu e ela muito católica, os dois simpáticos e gentis.
     Quando chegamos ela estava grávida. Eles já tinham um pequena filha chamada Muriel, muito meiga e simpática. Logo nasceu Vincent.
     Nossa vida era muito corrida. Primeiro tentamos estudar e depois de alguns meses resolvemos voltar para o Brasil. Então nos dedicamos a trabalhar e juntar dinheiro para as passagens de volta.
     Saíamos bem cedo e voltávamos à noite, cansados. Às vezes nos encontrávamos no centro para tomar uma cerveja na Grand Place ou na Porte Louise. Que cervejas deliciosas são as belgas. Os Pubs nos protegiam do frio e da neve do inverno de 74/75, que gelava os ossos e a alma de qualquer brasileiro.
     Aos domingos, às vezes recebíamos algum amigo ou íamos a casa de outros, da grande colônia latino-americana que se formou após o golpe de Pinochet. Os exilados que estavam no Chile, fugindo de outras ditaduras latino-americanas, implantadas pelos americanos, foram para a Europa e a Bélgica recebeu um grande número deles.
     Um dos que nos visitava era o Gordo, exilado uruguaio, cujo nome verdadeiro nunca soube, já que ninguém perguntava essas coisas aos exilados políticos. Gordo era muito alegre e engraçado. Fumava charutos e gostava de sentar com a gente e ficar tomando cerveja a tarde toda de domingo, enquanto proseávamos e minha companheira fritava rosquinhas, que todos nós adorávamos.
     Sucede que os Belgas dão uma criação muito estranhas às suas crianças. Na porta de algumas lojas estava escrito: proibido entrar cachorros e crianças (Não sei se esse costume permanece até hoje). Parece que eles não gostavam muito dos pequenos e os reprimiam com severidade, segundo eles, para que crescessem disciplinados.
     Sabíamos disso, mas um domingo daqueles estávamos no nosso porão, bebendo e fumando e o choro de Vincent (lê-se Vançam) começou a nos incomodar. Fazia horas que o menino chorava e pensamos que talvez o casal não estivesse ouvindo. Subimos para verificar e achamos o pequeno no seu carrinho, na beira da escada que levava ao nosso porão, sozinho, todo assado e precisando urgentemente trocar as fraldas (que naquela época eram de pano).
     Minha companheira subiu para avisar Myriam, mas eles nos disseram que era assim mesmo, que ele precisava se acostumar a ficar sozinho, passando suas dificuldades e que com o tempo pararia de chorar.
Chocados voltamos ao nosso porão inconformados com aquela situação.
     O menino tinha no máximo dois meses e não podia ser deixado à própria sorte dessa forma. Como a situação não se alterava resolvemos levá-lo às escondidas para baixo. Lá ele foi trocado, recebeu fraldas limpas (não me lembro onde conseguimos) e depois foi colocado de volta no carrinho, dormindo profundamente.
     Muitas horas depois, Myriam desceu para nos explicar que Vincent havia finalmente se aquietado, porque compreendera que tinha que lidar com seus próprios problemas.
     Pode?
     Conversando com uma brasileira exilada que fazia psicologia na universidade de Louvain, ela nos falou que aquilo era comum na Bélgica. Que eles eram extremamente duros e até cruéis com as crianças, acreditando que aquilo os faria ter um temperamento forte para enfrentar as adversidades da vida. Talvez algum costume bárbaro herdado das hostes germânicas que invadiram o império romano e formaram os países do norte da Europa.
     Mas o fato é que esse tipo de criação endurece os adultos e talvez esteja por trás de tantas barbaridades cometidas pelos europeus em suas infinitas guerras. Os belgas mesmo cometeram verdadeiras atrocidades no antigo Congo Belga, sua colônia na África, que até hoje não se recuperou desse processo violentíssimo.
     Muitos domingos se sucederam e Vincent sempre ficava na escada, chorando.
     Nós, já sabendo da situação, comprávamos fraldas e fazíamos mamadeiras para dar a ele nos domingos. Ele passava a tarde conosco, entre cervejas, rosquinhas, as risadas de Gordo e adorava. Sorria muito para nós, agradecido dos cuidados e do conforto. No final da tarde voltava para seu carrinho e dormia satisfeito, antes que sua mãe fosse buscá-lo e ficasse também satisfeita de ver como seu pequeno varão estava se tornando um verdadeiro guerreiro e já não chorava mais.
     Onde andará Vincent, hoje com 35 anos? Terá se tornando um indivíduo mais fraco por ter recebido esse amor clandestino, ou quem sabe se tornou um adulto melhor, mais capaz de amar e ser amado?

Abraço a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza





domingo, 25 de julho de 2010

FETAG em Rio de Contas

     A Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAG, iniciou uma promissora colaboração com a CITRUS - Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Rio de Contas, no sentido de fornecer assistência técnica aos seus associados, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio de Contas.
     Os pequenos proprietários do município não contam até hoje com a Assistencia Técnica e Extensão Rural (ATER) que necessitam para desenvolver suas funções, de forma a aumentar a produtividade e a renda através da introdução do planejamento e de novas técnicas de plantio, adubação, poda e comercialização, se libertando do atraso, do isolamento e dos atravessadores.
     Região de vocação agrícola muito forte, Rio de Contas é dominada pelas pequenas propriedades e pela agricultura familiar, mas tem sua produção prejudicada pela falta de informações e apoio técnico dos órgãos de governo.
     Para dar início a esta colaboração foi realizada em Rio de contas, no dia 18 de julho, um curso de adubação orgânica promovido pela CITRUS, que convidou o agrônomo da FETAG, Rodrigo Haun para explicar essa nova técnica. Abaixo vemos fotos da parte prática do curso, ministrado em uma propriedade rural.
    

     O composto orgânico que vai servir de adubo folear (pulverizado sobre as folhas) é produzido com restos de comida, cinzas, esterco de vaca e outros materiais facilmente encontráveis nas propriedades rurais, com adição apenas de um micronutriente comprado no comércio, cujo valor não ultrapassa R$6,00. Depois de 20 dias o composto é coado, diluído em água e aplicado, servindo ao mesmo tempo de adubo e repelente contra pragas. O resultado dessa técnica já pode ser sentido pelos horticultores de Anagé, cuja produção triplicou em pouco tempo, aumentando produção e renda dos agricultores (veja vídeo a respeito em www.ibahia.com/bahiarural videos do dia 11/07 - agricultura orgânica no sudoeste e chapada).
     A intermediação entre CITRUS e FETAG foi feita pelo vereador Jean Fabrício, de Vitória da Conquista, que é candidato à deputado estadual pelo PCdoB. Esperamos que, se eleito, Fabrício continue colaborando para o desenvolvimento do associativismo e da produtividade da agricultura na região da chapada diamantina e dialogando com os movimentos sociais de Rio de Contas.
     Os interessados em pegar a receita, assim como a apostila do curso, procurar Aníbal Junior em Rio de Contas, na Ourivesaria Belas Artes (em frente à Padaria Belo Pão) ou pelo e-mail renascerrc@gmail.com.

    Decadência

     O governo Municipal de Rio de Contas está numa espiral de decadência impressionante. O prefeito deixa os secretários fazerem o que querem, enquanto cuida de seus interesses particulares. O Secretário de Agricultura, que participou do curso promovido pela Associação, nos disse que possui dois agrônomos e três técnicos agrícolas na sua secretaria, e não coloca nenhum para atender aos agrcultores. Disse ainda que sabia qual era a praga que dizimou as plantações de morango no município e, no entanto, que eu saiba, não mandou o resultado para os produtores. Dá impressão de que trabalha apenas para se reeleger vereador pelo distrito de Mato Grosso (onde perdeu a última eleição). Enquanto isso, nossa Associação batalha para conseguir um técnico agrícola para atender os agricultores do município.
     Não fazem nada pelos produtores rurais, vivem de reuniões e planejamentos, não dão assistência técnica nenhuma.
     Assim também a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (do governo do Estado) que tem um agrônomo em Rio de Contas, que parece só trabalhar para eleger o filho do presidente da EBDA como deputado, prometendo tudo aos agricultores e não fazendo nada.
     Tudo isso, ao que me consta, é crime eleitoral, mas a cidade está sem juiz e sem promotor púiblico, que defendam a cidadania desses desmandos.
     Democracia não existe. Quem votou contra esse governo é perseguido e não tem direito a nada. Se surge uma obra logo aparece o assessor do Prefeito que funciona como um comissário político, para decidir quem pode e quem não pode ser contratado. Até os peões de obra são escolhidos a partir de critérios políticos.
     Não há propostas em nenhuma área, tudo parado. A cultura continua nas mãos de pessoa incompetente (será que ele já leu algum livro na vida?), mais ligada ao turismo, que não deixa nada acontecer que não seja em benefício próprio.
     E mesmo o turismo, cujo Secretário parece contaminado pelo imobilismo geral, está parado. Em plenas férias escolares no sul/sudeste/centro-oeste, a cidade está vazia, enquanto Lençóis fervilha de turistas.
     A Secretária do Meio Ambiente, minha amiga de tantos anos, deixou de falar comigo devido às minhas críticas ao prêmio de Cidade Baiana da Cultura, dado a uma cidade que oprime os artistas e persegue a inteligência e a criatividade. Essa foi realmente uma decepção muito grande, ver uma pessoa inteligente como ela se bandear para o lado desse tipo de política mesquinha.
     De resto ninguém faz mais nada, a não ser exibir carros novos e se encontrar em rodinhas no restaurante Quintal para comemorar sua hegemonia sobre a cidade. 
     Mas tenho fé que dentro de dois anos esse grupo infeliz que se apoderou do poder em Rio de Contas será banido pelos eleitores e, quem sabe, teremos um(a) Prefeito(a) empreendedor(a), capaz de construir um futuro de democracia e prosperidade para esta terra abençoada.
     Por questões de saúde na minha família estou me ausentando da cidade, voltando a residir em Brasília. Levo comigo a mágoa de ver nossas esperanças neste governo frustradas desta maneira, mas também levo a certeza de que a mudança virá.
     Água mole em pedra dura...
    
    
Histórias de outras vidas (21)

   ANA LÚCIA
     Ela era linda.
     Seu irmão tinha sido meu colega de colégio. Gente boa, paranaense, a família morava na mesma quadra que eu.
     Comecei a namorar Ana Lúcia depois que voltei de São Paulo, em 1971. Eu estava numa época de grandes mudanças, afirmações e preparo para a Universidade, época em que entrei num profundo questionamento sobre a vida que levava, a realidade política do Brasil da época e estava me afastando dos antigos amigos e até da minha família, disposto a conviver com mentes mais abertas e progressistas.
     Ana pertencia ao mundo que eu estava deixando, era muito jovem e nosso namoro foi meio sem graça, principalmente da minha parte, que a via como parte de tudo aquilo que eu queria deixar.
     Além disso havia um desânimo grande com tudo, que me penetrava por todos os poros e me fazia jazer naquele torpor típico de crises adolescentes. Com 20 anos, eu me cobrava soluções e decisões para sair de uma situação com a qual eu já havia rompido e depois tinha voltado atrás.
     Decidi terminar com ela e quando lhe falei ela me surpreendeu, retrucando com amargura, que eu não gostava dela, mas que ela sim me amava de verdade.
     Fiquei perturbado com sua sinceridade e com a intensidade de seus sentimentos e me senti pior ainda. Percebi que eu nunca a havia visto como ela era, realmente, mas que por detrás daquela jovem de classe média, filha de um deputado, linda e aparentemente fútil, havia uma vontade forte e talvez, como eu, um desejo de mudança.
     Meu julgamento a seu respeito havia sido preconceituoso?
     Haveria eu julgado apenas pelas aparências, sem olhar a mulher que surgia dentro da garota? Tudo indicava que sim, mas isso não mudava o fato de que meu coração estava frio em relação a ela. Ela tinha razão: eu não a amava. Mas ela merecia ser amada e eu me senti um idiota, de novo.
     Passado algum tempo, fiquei sabendo que Ana estava namorando um professor de física que havia fundado um dos primeiros cursinhos pré-vestibulares de Brasília. Ele ficou rico de um dia para outro. Seu curso foi um sucesso instantâneo e ainda hoje é um dos maiores da capital.
     Mas que mudança! Então a frágil mocinha se lançava a namorar um sujeito muito mais velho que ela, como se quisesse romper com o estigma de moça bem comportada, casadoura, que as antigas famílias reservavam para suas filhas na época. Minhas suspeitas se confirmavam. Por trás daquela carinha inocente havia inteligência...e vida!
     Passei a acompanhar as notícias dela. Brasília, em 1971, tinha pouco mais de 200.000 habitantes, não era difícil saber o que acontecia. Morando na mesma quadra, menos ainda.
     Comecei a supeitar que tinha perdido uma oportunidade de conhecer uma pessoa muito mais bonita do que parecia à primeira vista e voltei a pensar nela, com intensidade.
     Um dia fui com uns amigos à Goiânia, numa velha perua Kombi de meu pai. Ao retornar, estacionando debaixo do bloco, tive um estranho pressentimento. Algo acontecera e eu saberia em momentos o que fora.
     Esses pressentimentos me acompanharam a vida inteira e me salvaram algumas vezes de acidentes e situações perigosas ou traiçoeiras.
     Ao subir, minha mãe veio logo me dizendo:
     _Senta que eu tenho uma notícia ruim.
     Como eu já estava esperando, não me surpreendi muito.  Mas a notícia me pegou em cheio:
     _Ana Lúcia morreu.
     O quê? Como?
     Acidente de carro. Na noite anterior, o tal professor tinha colocado quatro pessoas num carro esporte (um pequeno Puma) onde só cabiam duas e depois de uma festa saiu em alta velocidade, perdeu o controle e bateu na coluna de um viaduto.
     Morte instantânea para os quatro.
     Naquele dia tive a noção exata de que o amor havia batido à minha porta e eu o havia deixado escapar. Mais do que isso, me senti um pouco responsável por aquela morte tão prematura e, se já estava me sentindo mal naquele ambiente, me senti mais desamparado ainda, o que ajudaria a me decidir a partir no ano seguinte.
     Como todas as pessoas que foram importantes na minha vida, não esqueço de Ana Lúcia e do seu olhar magoado na despedida, me dizendo amargurada que eu não sabia amar.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza



segunda-feira, 19 de julho de 2010

DULCINA

     A Mostra Dulcina de artes cênicas e artes plásticas, que ocorre a cada final de semestre em Brasília, é um exemplo de interação entre uma instituição de ensino e sua cidade.Todo semestre são muitas peças de teatro e exposições de artes plásticas, com entrada grátis para o público braziliense. Este mês de julho pude assistir a duas peças, Aurora da Minha Vida (foto acima) de Naum Alves de Souza e Anjo Negro (abaixo), adaptação da obra de Nelson Rodrigues. O talento de atores e diretores e a seriedade da mostra, garantem a qualidade dos espetáculos.
      O interessante é que a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, funciona em lugar precário, é particular, não recebe nenhuma ajuda do governo do Distrito Federal e apesar de viver em eternas dificuldades financeiras, cobra relativamente barato, atendendo uma faixa da população que não consegue entrar na elitizada UnB.
     Mas é lá que se sente a vibração da arte, talvez por ter sido fundada por artistas, com a finalidade de desenvolver e difundir as artes cênicas e plásticas, está muito distante das universidades caça-níqueis particulares que povoam nosso país, com a única finalidade de obter lucros (o site é http://dulcina.art.br/fadm/site/).
     A Dulcina é realmente um templo da arte e da cultura, de onde saem os principais atores que militam no cena cultural braziliense. Falta o GDF fazer alguma coisa por ela, ajudando a fazer crescer a semente plantada pela saudosa atriz Dulcina de Moraes, que abandonou o Rio de Janeiro, depois de uma carreira consagrada para semear no solo de Brasília seu amor pelo teatro e pelas artes em geral.
     Quem sabe Agnelo Queiroz, uma esperança de renovação para Brasília nas próximas eleições para governador, ajude a fazer crescer esse sonho, desapropriando parte do decadente conjunto conhecido como CONIC (inclusive o antigo Cine Atlântida, um dos melhores cinemas de Brasília, perdido para Igreja Universal), para que a faculdade possa se expandir sem precisar pagar aluguel, com verbas também para reforma do prédio que ocupa atualmente.
     Brasília merece.


sábado, 17 de julho de 2010

Histórias de outras vidas (20)

CONVERSA NO TREM


     O ano era 1974. Me lembro bem porque era dia de jogo da copa do mundo de futebol na Alemanha. E onde eu estava? Na Alemanha, por acaso, passando de trem, vindo da Suécia para a Bélgica.
     Sim, eu tinha ido visitar um amigo brasileiro, que conheci em Santiago do Chile (dividiamos um apartamento) e que ficou exilado na Suécia depois do golpe de Pinochet. Saí do Chile para o Brasil de férias, em setembro de 1973 e não pude mais retornar por causa da situação política. Fui então reencontrá-lo em Gotemburgo, na Suécia. De lá peguei um trem com destino a Bruxelas, para onde estava indo morar, fugindo da repressão no Brasil, destino a que cheguei depois de muitas baldeações pela Europa.
     Foi num dos trechos desta viagem que caí numa daquelas cabines cara dura, em que passageiros que não se conhecem sentam-se uns de frente para os outros e ficam se olhando sem ter o que dizer.
     Nessa cabine iam; um americano sentado em frente a mim, dois marroquinos ao meu lado direito e um casal de australianos ao lado do americano. Pra passar o tempo comecei a ler um livro e o americano, vendo o título em português, puxou conversa em inglês, perguntando se eu era brasileiro. Respondi no meu inglês macarrônico e ele me disse que havia morado no Brasil e que era uma espécie de desertor do Vietnã, ou seja, tinha saído dos Estados Unidos para não ser convocado para a guerra.
     Demonstrei minha simpatia pelo gesto já que eu, como toda a juventude do mundo naqueles tempos, era contra aquela guerra absurda. Ele me disse então que estava fazendo uma pesquisa sobre a violência. Parece que era uma tese de alguma pós-graduação e envolvia o Brasil, já que ele tinha coletado dados por aqui também.
     O debate foi ficando interessante, mas não conseguíamos explicar muito nossos pontos de vista, porque eu me expressava mal em inglês e ele mal em português, embora ambos entendessemos o que o outro falava na sua língua natal.
     Então resolvemos falar eu em português e ele em inglês. Eu dizia o que achava em português e os marroquinos e os australianos ficavam me olhando com cara de besta. Depois ele respondia em inglês e pelo menos os australianos entendiam a resposta.    
     Os marroquinos, quando entendiam alguma coisa, davam palpites em francês, que eu arranhava também, e os australianos se metiam no raciocínio do americano mas não entendiam o que eu falava e o que os marroquinos falavam comigo (nem o americano que não falava francês).
     Pra completar a confusão o jogo que estava sendo disputado na copa naquele dia era Brasil e Marrocos (e que alguém ouvia em um rádio) e quando saía algum gol eu e os marroquinos ficávamos muito agitados até entender de quem era.
     Isso levou horas.
     O foco principal da pesquisa do americano era o que alguns chamam hoje de mal americano, ou seja, a prática quase habitual naquele país de um indivíduo sair atirando à esmo pelas ruas, shopings, escolas ou outros locais públicos, matando quem vai passando.
     Eu dizia que o mal estava no capitalismo, no way of life americano, e os australianos concordavam, mas ele não aceitava (os americanos nunca aceitam que o sistema deles possa estar errado) e tinha umas teorias meio enroladas para explicar o fenômeno.
     E assim fomos cruzando a Alemanha até chegar na cidade de Aachen, onde tive que descer já tarde da noite, para pegar outro trem que me levaria direto a Bruxelas.
     Mas depois de algumas horas a conversa tinha se generalizado a tal ponto na cabine, que não sabíamos mais em que língua estávamos falando.
     Um norte-americano, dois australianos, um brasileiro e dois árabes, haviam descoberto que todos pertenciam à mesma espécie e que o mundo poderia ser bem melhor.
     Uma euforia foi tomando conta daquele estranho grupo e pode-se dizer que uma amizade múltipla começou a nascer. E naqueles tempos difíceis, quando a guerra do Vietnã chegava ao seu auge, com os ataques vietcongs que já prenunciavam a derrota norte-americana, celebramos a paz do nosso jeito.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 11 de julho de 2010




    Bolero

      Noite de sábado em Salvador, um bar qualquer na Barra e um pequeno conjunto toca num ritmo gostoso, músicas antigas e novas, gêneros misturados. O pequeno público espalhado em meia dúzia de mesas canta junto, alguns mais afinados pedem pra cantar ao microfone e surpreendem: verdadeiros cantores anônimos.
      Do outro lado da rua, um catador de latas começa a dançar. Ninguém presta muita atenção, mas ele não canta pra aparecer, parece estar realmente embalado pela música. Um freguês, sentado a uma roda de homens muito animada, atravessa a rua e lhe entrega um copo de cerveja. Volta e continua bebendo e dando risadas com os amigos. A solidariedade se instala naquele canto de mundo.
      Carros brilhantes passam devagar, curiosos pelo intrigante fenômeno da alegria coletiva e saltam deles pessoas bem vestidas, que em outros ambientes estariam preocupadas em mostrar carros e roupas, mas ali, despem-se de vaidades e se reúnem ao grupo que vai aumentando. Sentem-de bem, libertos das competições, contaminados pela atmosfera democrática. Gente de todas as cores, idades e rendas bebe da cerveja da solidariedade e canta a alegria de viver, recordando-se de que é possível ser feliz num mundo chato, que nos transforma em competidores mesquinhos e consumidores idotas.
     A celebração da vida no pequeno e despretensioso bar, me lembrou de como nos tornamos distantes de coisas que nos pertenciam. A copa do mundo, futebol alegria do povo, virou um grande negócio que faz fortunas e movimenta bilhões. Ainda é bom? É, mas começa a ficar chato quando vira uma obrigação de vencer, o tal futebol de resultados. Perde a alegria, a arte, a brincadeira. Claro que esporte é competição, mas alguém se lembra do que era futebol amador?
     E a política? Vocês já viram uma campanha eleitoral mais distante do povo que esta? Tudo é resolvido em conchavos, acordos, alianças, à custa de promessas de cargos e outras coisas impublicáveis, mas que todos nós sabemos como ocorrem entre o que financiam as campanhas e os candidatos.
     Serra tem cara de vampiro, apesar das plásticas. Dilma ficou com um visual ótimo, que no entanto, não combina com a sua voz, que continua a mesma, como no antigo anúncio. Ainda não dá pra fazer plástica na voz e ela revela muito da personalidade. Por trás da cara recauchutada surge a velha voz autoritária, dura.
     Marina Silva tenta ser doce, tenta ser a volta de um sonho, um Lula de saias, com seu passsado pobre, mas não convence muito quando se alia a um mega-empresário. Na verdade tudo parece um remake de filme antigo, que já assistimos e ficamos tentando lembrar, achando que a primeira versão era melhor. Aí podemos escolher: filme de terror, com Serra (A volta dos mortos vivos ou A privatização contra-ataca?), filme policial com Dilma (Dura de matar?), ou um musical holiwoodiano com Marina (A noviça rebelde da floresta...).
     Aliás os dois últimos governos, Lula e FHC (e lá se vão 16 anos de social-democracia) nos governaram, sem que participásssemos deles. Já perceberam? Não fomos chamados para nada, nem para opinar, nem para nos mobilizarmos, nem mesmo para referendar nada. Tudo conchavos e acordos distantes do povo. Enquanto isso, o capitalismo, com ajuda dos donos da mídia e da opinião pública, segue nos transformando em robôs consumidores, aos quais não é dado o direito de mudar nada.
     A música no bar me trouxe de volta à realidade da nossa cultura e da nossa força, enquanto povo capaz de comandar seu próprio destino. Entre sambas, boleros, bossa-nova e jazz, me lembrei de que nós estamos vivos e podemos mudar tudo isso.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 4 de julho de 2010

Brincando de se preocupar

     O Correio Braziliense do domingo, 04 de julho, publicou editorial enfocando a baixa qualidade do ensino no Brasil, comprovada pelo IDEB, Índice de Educação Básica, divulgado esta semana pelo MEC.
     Às constatações de níveis insuficientes, comparados com países vizinhos e outros mais desenvolvidos, segue-se o tradicional esperneio, de que é preciso melhorar, de que disso depende o futuro do Brasil no mundo, de que este é, enfim, o calcanhar de Aquiles, o ponto fraco do Brasil. Segue-se o também tradicional apelo para que os eleitores pensem nisso nas próximas eleições e escolham candidatos que tenham propostas na área de educação.
     Mas curioso, o jornal não apresenta nenhum caminho, nenhuma proposta. Se observarmos os candidatos a Presidente da República ou a cargos legislativos, veremos que tampouco há propostas concretas, que saiam do mero esperneio do tipo precisamos melhorar a educação. Ninguém diz como, nem o que fazer. Porque?
     O debate sobre educação estacionou desde a nova Lei de Diretrizes e Bases de 1996, capitaneada por Darcy Ribeiro. Crítico e adversário político do PT, Darcy foi duramente combatido por professores e sindicalistas petistas que colocaram seus interesses corporativos e eleitorais acima dos interesses nacionais, contaminando um debate que poderia ter sido mais amplo e mais eficaz. De lá pra cá, não se pode tocar em alguns pontos chaves da educação brasileira sob pena de ser acusado pelo petismo inconsequente de ser darcysista ou brizolista.
     Talvez agora que os dois, Darcy e Brizola, não estão mais entre nós, se possa recuperar um pouco do bom senso e retomar o debate, procurando soluções para a educação longe de interesses político-partidários. O fato é que a educação brasileira padece de um mal crônico, ao qual Darcy sempre se reportava, e que irrita profundamente os sociais-democratas do PT: a municipalização.
     Houve um debate intenso entre Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, arquiteto de toda essa estrutura de descentralização da educação implantada hoje no Brasil, que delega a educação primária (sim, ainda é assim que eles falam) aos municípios e a secundária aos Estados, restando à União o ensino superior.
     Darcy não concordava com a descentralização por saber que as forças políticas municipais, na maior parte do Brasil, eram (e ainda são) extremamente retrógradas, não tendo nenhum interesse em educar o povo. A mesma coisa acontecia em alguns governos estaduais de regiões mais atrasadas. Entregar a educação a eles era o mesmo que negar a educação ao povo pobre, trabalhador, explorado pelos fazendeiros e pelas famílias tradicionais dessas regiões.
     Anísio se baseava em ideais importados dos Estados Unidos onde as comunidades protestantes do interior zelavam muito pela educação, porque o elo que os mantinha unidos e vivos era a leitura da Bíblia. Era, portanto, preciso saber ler e interpretar. Daí a importância da educação.
     Mas num Brasil historicamente escravocrata esse princípio da comunidade não prevalece, pelo contrário, qualquer iniciativa comunitária é vista com suspeição pelos coronéis do interior, que ainda subsistem nos nossos grotões e nas mentes de muitos políticos de atuação estadual ou nacional.
     Desde a primeira Constituição Brasileira, outorgada por D. Pedro I, que esse debate subsiste. A Constituição tornou obrigatória e leiga a educação, o que teria transformado radicalmente a ex-colônia se os adeptos dos coronéis da política não tivessem aprovado uma emenda passando a responsabilidade sobre a educação para as antigas Províncias, onde nunca foi levada a sério.
     No debate sobre a primeira Lei de Diretrizes e Bases, finalmente aprovada em 1961, tentou-se estabelecer o monopólio do Estado sobre a educação, mas a direita raivosa, capitaneada por Carlos Lacerda e pela Igreja Católica, conseguiu impedir e manteve esse sistema de duplo ensino, público e privado, que permitiu transformar a educação em um negócio lucrativo, que limita a atuação do Estado ao atendimento dos mais pobres, empobrecendo todo o sistema.
     Os problemas, no entanto, continuam os mesmos, só que ninguém quer tocar no assunto. Tudo vira um problema de gestão na ótica gerencialista neoliberal, e ninguém mais discute os fundamentos.
     Mas é só olhar para os resultados e ver que esse sistema não funciona. As melhores escolas são todas federais, as piores são todas municipais, junto com muitas outras estaduais.
     A solução para a educação no Brasil é federalizar as escolas, como propunha Darcy Ribeiro. Isso não quer dizer necessariamente centralização. As escolas podem ser geridas pelas comunidades escolares, que elegeriam um único conselho escolar composto por pais, professores e alunos maiores e votantes (em lugar dos vários conselhos existentes hoje), que por sua vez elegeria um professor como diretor e assim seria feito.
     As Prefeituras não teriam nada a ver com isso e caberia às Secretarias Municipais de Educação apenas fiscalizar o sistema. Darcy deixou um espaço aberto para isso dentro da lei, criando à alternativa do Sistema Ùnico de Educação, baseado no SUS, como forma de retirar o controle das elites conservadoras do interior sobre a educação. Mas pergunte ao movimento sindical dos professores se eles querem discutir isso?
     O outro ponto necessário seria a estatização de todo sistema de ensino, acabando com as escolas particulares. Aí sim, com todo o ensino público e federalizado teríamos a revolução na educação que o Correio Braziliense reclama, e colocaríamos o país no século XXI, alavancando nosso desenvolvimento.   
     Mas teríamos que enfrentar a fúria da Igreja Católica e dos que fizeram fortunas com cursinhos e universidades caça-níqueis e, com certeza, também da social-democracia representada pela maioria dos partidos políticos brasileiros de hoje, capitaneados pelo PT e, com certeza, do próprio Correio Braziliense.
     Enquanto ninguém tiver coragem de topar essa briga continuaremos brincando de que estamos preocupados com a educação e ela continuará sendo esse teatro do absurdo que é hoje.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf