Por Ricardo Stumpf Alves de Souza

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Uma Escola Família Agrícola
para Rio de Contas

     
 O projeto da EFA de Rio de Contas: um verdadeiro campus para desenvolver a agricultura no município    

     Pois é, amigos leitores, esse é o bonito projeto da Escola Família Agrícola, com que a arquiteta Scarlett Porto brindou o município de Rio de Contas.
     O projeto se situa na confluência das estradas que levam ao distrito de Mato Grosso e aos povoados de Fazendola e Caiambola, em terreno de propriedade do Sr. Carlos Bittencourt, pessoa muito comprometida com as questões sociais e que, em princípio, concordou em ceder a área para construção.
     Scarlett Porto me procurou há mais ou menos um ano atrás, porque buscava um tema para o seu trabalho final de graduação (TFG) na Faculdade de Arquitetura da UFBA, em Salvador. Seu interesse era fazer uma escola rural dentro da filosofia da Escola Família Agrícola. Alguém recomendou meu nome e eu a recebi em Rio de Contas, levei à Secretaria de Meio Ambiente, que demonstrou interesse pelo projeto e a encaminhou a algumas pessoas que poderiam fornecer dados sobre educação no município.
     Só agora, em julho, Scarlett me procurou novamente me convidando para fazer parte da sua banca de graduação, convite que aceitei com muito prazer.
     No dia 9 de julho participei da banca, em Salvador, que a aprovou.
     Na minha intervenção na banca, lembrei a importância do projeto para Rio de Contas, principalmente para os jovens do campo, sempre obrigados a migrar para as cidades por falta de perspectivas econômicas nas áreas rurais e lembrei-a também do seu compromisso com a cidade, coisa que ela prontamente reiterou.
     O projeto atenderia os jovens dos 12 povoados dos gerais em regime externo e ainda os jovens do baixio, em regime de semi-internato, 15 dias na escola e 15 dias em casa, pois é assim que essa filosofia se propõe a trabalhar com os estudantes de áreas mais distantes.
     A EFA de Rio de Contas tem o apoio da Associação de Pequenos Produtores Rurais (Citrus) e espera contar também com o apoio da Prefeitura local, em benefício do desenvolvimento da agricultura e da educação no município.
     A deputada federal Alice Portugal já se comprometeu a lutar pelo projeto na Câmara, em Brasília. Procurada por mim, em Vitória da Conquista, ela disse: gosto muito de Rio de Contas, tenho inclusive uma boa votação lá, mas nunca pude fazer muito pelo município. Quem sabe esse não será meu primeiro projeto para Rio de Contas?
    Oxalá seja! Deus abençoe Scarlett Porto, Carlos Bittencourt, Alice Portugal e todos aqueles que queiram ajudar Rio de Contas a ter uma agricultura moderna, produtiva, ecológica, assim como uma juventude rural resgatada do isolamento e antenada com o futuro.

Debate

     Poxa, que debatezinho chocho este da Band.
     Dilma pareceia mais preocupada com a imagem do que com as propostas. Serra, muito experiente e ágil, mas parece não ter proposta nenhuma, ou melhor, esconde suas verdeiras intenções (privatizar tudo, como sempre), para falar de saúde, educação, etc. Marina Silva é aquela coisinha sem graça, falando da sua vida de pobreza no Acre. História requentada. Plíno Arruda poderia ter pelo menos feito uma plástica. Aos 80 anos é um sacrifício ficar olhando para aquela cara tão feia, lançando propostas fora de contexto, de um modelo socialista que não existe mais.
     Aliás, igualdade nunca foi uma bandeira socialista, mas sim da revolução burguesa (liberdade, igualdade e fraternidade). Os marxistas sempre defenderam a cada um segundo a sua necessidade e de cada um segundo a sua capacidade. Ou seja, cada um dá o que pode e recebe o que precisa, o que é um reconhecimento de que igualdade é uma coisa utópica e racionalista, muito distante da realidade diversa da humanidade.
     Valia mais a pena ver São Paulo x Internacional na Globo, coisa aliás que a maioria dos telespectadores fez (o Ibope da Band foi de apenas 5% no debate).
     Acho engraçado o foco eterno em saúde, educação e segurança. Esses são serviços prestados pelo Estado (faltou o transporte). Mas governar não é cuidar apenas do que é obrigação do Estado, é principalmente formular políticas públicas em todas as áreas, para que o país se desnvolva mais e de forma equilibrada.
     Acho que os apresentadores da Band ainda estão em 1989.
    
    
Histórias de outras vidas (23)

   UM LAGO NOS ANDES

     O ano? Final de 1972. O lugar? San Fernando, Chile, onde fui passar um fim de semana na casa de meu amigo Lucho.
     Desde que havia chegado ao Chile, em junho de 1972, eu evitava a colônia brasileira formada por exilados e preferia ter amigos chilenos.
     Eu pensava que se havia ido morar naquele país devia conviver com o povo de lá, para entender sua cultura e conhecer a experiência do socialismo democrático de Salvador Allende.
     Muitos brasileiros que chegavam à Santiago, como eu, só se relacionavam com outros brasileiros e desenvolviam uma atitude negativa, falando mal do Chile e de seus costumes. Depois de algum tempo percebi que isso era uma espécie de síndrome comum em colônias de exilados. Acho que no fundo é um medo de se adaptar e não querer voltar mais ao seu país de origem.
     Lucho era meu colega na faculdade de arquitetura e às vezes me convidava para ir a San Fernando, sua cidade natal, que ficava mais ou menos a uma hora de trem de Santiago.
     Sua família morava num velho casarão de estilo espanhol com um pátio interno, avarandado, para onde todos os cômodos abriam portas e janelas. Sua jovem mãe era muito atenciosa comigo, me tratando como se fosse um filho.
     Quando eu chegava ela me cortava as unhas do pé, costurava minhas roupas e se preocupava com a minha saúde. Claro que eu gostava. Num país estrangeiro, sem família ou amigos brasileiros, encontrei ali um lar alternativo que me aquecia muito o coração. De vez em quando eu ia para San Fernando, passar o fim de semana.
     Daquela vez Lucho me convidou para ir à uma festa com sua família, numa área rural. Era uma espécie de almoço de fim de ano de colegas de trabalho de sua mãe. Ficamos lá um tempo, mas logo a reunião se tornou um pouco cansativa para nós, que não pertencíamos àquele grupo. Ele então me convidou a fazer uma trilha. Saímos e fomos subindo a encosta da cordilheira.
     Sim, a Cordilheira dos Andes é uma presença constante na vida chilena. De qualquer lugar do país em que se olhe para oeste, ela está sempre lá. Algumas cidades ficam ao pé da montanha, como Santiago e San Fernando e também o tal clube onde acontecia a festa.
     Fomos subindo e respirando aquele ar puro e tudo foi ficando muito bonito, a vegetação foi ficando rarefeita e continuamos até encontrar um lago.
      Lucho me disse que às vezes vinha até ali sozinho, quando queria pensar, e tomava banho sem roupa, em comunhão com a natureza. Achei a idéia ótima. Logo tiramos nossas roupas e nos metemos na água, que estava gelada, naquele domingo de verão.
     Lá de cima podíamos observar a cidade embaixo e as montanhas ao redor.
     O contato daquela água no corpo e a visão daquele ambiente fantástico, fez com que eu me sentisse vivo de uma maneira inesquecível. Era como se de repente todos os desígnios da minha vida ficassem claros.
     Naquele momento senti como se todas as barreiras que me separavam da natureza subitamente desaparecessem e eu conseguisse voltar à ela, me sentir parte dela.
     A consciência do meu lugar neste mundo, intrinsicamente ligado à natureza foi se reforçando ao longo da vida. Os valores materiais do mundo nunca me interessaram muito. Sempre vivi como alguém que está de passagem, observa tudo, sente as coisas e se vai, experimentando novos caminhos.
     Um observador participante, ávido por conhecer, sentir, experimentar. Talvez sabendo no subconsciente que esta vida é só um estágio, nesse planeta belíssimo, e que logo o estaremos deixando e colhendo os frutos das nossas ações por aqui.
     Uma consciência que fui adquirindo aos poucos, mas que naquele momento mágico, se tornou clara para mim, na água gelada de um lago tão alto, tão isolado e silencioso.

     Boa segunda-feira à todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza

domingo, 1 de agosto de 2010


   Odorico e Isabel

     Dois fatos muito distintos se entrelaçaram esta semana, me levando a pensar no futuro do Brasil. O primeiro foi assistir ao filme O Bem Amado, com Marcos Nanini no papel de Odorico Paraguaçú e Matheus Nachtergale como Dirceu Borboleta.
     Ao contrário do eu supunha, não se trata apenas de uma versão para o cinema, da famosa história de Dias Gomes, que já virou novela e seriado. O filme procura entrelaçar a história do prefeito corrupto com a história recente do nosso país, exibindo inclusive flashes de documentários antigos sobre a guerra fria, a renúncia de Jânio Quadros, a posse e a derrubada de João Goulart, à resistência à ditadura e o movimento pelas diretas.
     A atuação de Marcos Nanini é excelente, como sempre, apesar de que suas falas, cheias de neologismos, são um pouco rápidas demais. Para quem já conhece o personagem dá pra entender bem, mas para os mais jovens deve ser difícil compreender o significado daquela torrente de palavras estranhas.
     Matheus Nachtergale está impecável como o funcionário público exemplar, tendo que conviver com os desmandos de um prefeito completamente desligado da ética e capaz das piores artimanhas para se manter no poder, situação recorrente no Brasil.
     A ligação entre a história fictícia de Odorico e a realidade brasileira só fica clara ao final, quando sobre um globo terrestre mostrado sobre um fundo estrelado, o nome Brasil é trocado por Sucupira, sobre o mapa do nosso país, numa alusão clara à corrupção generalizada na vida política nacional.
     O Brasil teria se tornado uma grande Sucupira, a cidade de Odorico Paraguaçú.
     Apesar do mal-estar causado por essa alusão ao final do filme, saí do cinema pensando se este não seria realmente o grande problema atual do Brasil. Apesar das conquistas políticas, econômicas e sociais dos últimos anos, resta um travo de amargura na população brasileira em relação à falta de seriedade dos nossos políticos e da nossa justiça, que se mantém numa postura burocrática em relação ao cumprimento das leis, com a brilhante exceção do Ministério Público.
     E porque o Brasil não consegue ser um país sério? Porque toda troca de comando no poder nacional sempre cheira a acordos espúrios? Foi assim na redemocratização, com a posse de Sarney, ex-líder da ditadura, fruto de um arranjo que deu mais 20 anos de fôlego à velhos figuras carimbadas da política a la Sucupira, como Antonio Carlos Magalhães e outros.
     Foi assim também com a ascenção de Fernando Henrique Cardoso, cujo passado esquerdista desapareceu num acordo com o antigo partido da ditadura (atual DEM), mantendo Sucupira no poder. O mesmo se deu com Lula, quando na sua famosa Carta aos Brasileiros (muito pouco divulgada antes das eleições), detalhou as bases do acordo feito com as elites brasileiras para que permitissem que fosse ungido presidente, abandonando as principais promessas e princípios da sua trajetória política e tomando um rumo que, na prática, o compromteu a não mexer nos interesses da grande Sucupira que se esconde na sociedade brasileira.
     Assim, os discursos foram virando vento, a legalidade voltou a ser uma coisa relativa e o Brasil continuou a ser um país de faz de conta, que frustra a maioria do nosso povo. Mas esse é um tema que está fora da campanha eleitoral deste ano, onde os tres principais candidatos parecem colocar como pressuposto manter o seu compromisso com Sucupira, para não perturbar essa falsa social-democracia em que o Brasil se transformou, onde a cidadania continua sendo um mito.
     Mas o segundo fato, a que me referi no início, foi a comemoração de 164 anos de nascimento da Princesa Isabel, no dia 29 de julho, muito oportuno para lembrar que nem Dilma, nem Marina seriam as primeiras mulheres a governar o Brasil.
     Isabel, filha meio rebelde de D. Pedro II, assumiu a regência por três vezes: na primeira promulgou a Lei do Ventre Livre, libertando os escravos nascidos a partir daquela data; na segunda se envolveu com a questão religiosa e separou a Igreja Católica do Estado no Brasil e na terceira aboliu a escravidão.
     Embora sendo uma aristocrata, Isabel nos deu um exemplo sadio de rebeldia, de quem estava cansada de discursos vazios e partiu para a prática, terminando efetivamente com a estrutura arcaica do Estado brasileiro, com imperadores e escravos. Suas ações estão na base do nascimento de um Brasil moderno e republicano, mas que nunca conseguiu se libertar dos conchavos das elites para estabelecer uma verdadeira democracia, onde o povo exerça livremente o seu poder.
     Então a pergunta que fica é: até quando vamos ter medo dessas elites que nos mantém subjugados?
     Até quando vamos nos submeter a esses acordos espúrios e tolerar a corrupção e a inércia da justiça para promover e proteger privilégios?
     Quem sabe a rosa branca, símbolo da luta contra a escravidão adotado também pela princesa Isabel, nos inspire novamente. Quem sabe, como na música de Zé Ramalho, tenhamos novamente aquela vontade de sairmos do poço, da garganta do poço, na voz de um cantador....


Modelos
     Faz quase 40 anos, uma delegação chinesa visitou o Brasil para conhecer nosso modelo econômico. Foi na época do chamado "milagre brasileiro", tempo de grande dinamismo econômico, com o Brasil crescendo a 9% ao ano sob a ditadura de Garrastazú Médici. Os chineses, que na época viviam uma economia estagnada de privações e pobreza, queriam entender como podíamos crescer tanto.
    Viram, entenderam e trataram de aplicar na China (na época totalmente estatizada) a fórmula brasileira, que mesclava economia privada com controle estatal. Tínhamos grandes estatais que puxavam toda a economia, um Estado forte que regulamentava tudo para alavancar o setor privado que, em parceria com o Estado, sabia que podia investir pesadamente que o retorno era garantido.
     A base dessa economia mista era o planejamento, ferramenta desenvolvida nos países socialistas e adotada no mundo inteiro, como garantia de desenvolvimento.
     Passados alguns anos, desceu por aqui Henry Kissinger, então Secretário de Estado americano, para reclamar que nossa economia estava estatizada demais, que era preciso privatizar. Isso, se não me engano, já foi no governo de Ernesto Geisel.
     Daí em diante começou a se desevolver essa campanha pela desestatização, como se a presença do Estado na economia fosse um pecado. Com a queda da União Soviética, então, a privatização fez a festa. O baluerte socialista tinha caído e era hora dos privatistas avançarem. Daí em diante foi o que se viu. Sarney começou, Collor acelerou, Itamar continuou (privatizou a Açominas) e Fernando Henrique detonou. Privatizamos e desregulamentamos tudo. Resultado: paramos de crescer, mergulhamos numa crise profunda da qual só começamos a sair com o governo Lula, que parou de privatizar, embora não tenha tido a coragem de reestatizar.
     Lula governa com o máximo de consenso possível e não gosta de mexer em vespeiros. Se a recriação da Telebrás e a criação da pequena Petro-Sal já provocam náuseas nos privatistas, reestatizar as comunicações seria uma verdadeira guerra (muito embora a fusão da Brasil Telecom com a Oi e agora com a Portugal Telecom, possam ser uma forma de abrir espaço para a compra de ações por parte do governo, criando uma estatal gigante).
     Nesses 40 anos, primeiro faliu o modelo estatista soviético, depois o privatista veio abaixo, com a crise americana de 2008, fazendo o governo dos Estados Unidos regulamentar pesadamente o sistema financeiro e colocar dinheiro do tesouro americano nas empresas, rompendo com os famosos "novos paradigmas" e voltando à velha intervenção estatal.
     Enquanto isso a China desenvolveu nosso antigo modelo com muito sucesso, chegando a ser a segunda economia do mundo e se preparando para nos próximos anos, ultrapassar os Estados Unidos como maior economia mundial.
     Ou seja, nós os ensinamos como crescer, mas depois, com governos que representavam uma elite submissa e colonizada, injetamos em nós mesmos os venenos preparados pelos estrangeiros para nos impedir de assumir nosso papel de liderança no mundo.
     O grande mérito de Lula foi romper com esse complexo de vira-lata brasileiro e relembrar que podemos ter projetos próprios (como tívemos nos governos Vargas, Kubistcheck e Goulart), que podemos defender nossos interesses no mundo, que podemos ser um país que se leva à sério, (apesar dos seus acordos eleitorais com a velha Sucupira).
     Mas o modelo chinês, também tem seus percalços, pois não é democrático e é extremamente consumista.
     Qual seria então o futuro?
     O modelo de economia mista já provou que funciona bem, garantindo espaço para os investidores, que no entanto estão limitados pelo poder do Estado, um fiscalizando o outro. A tal economia de baixo carbono, proposta por Marina Silva, parece que se preocupa apenas com as emissões, mas não aborda com clareza a questão dos recursos não renováveis (com excessão do petróleo), que estão se esgotando rapidamente com o aumento contínuo da produção industrial.
     Parece que a solução aponta na mudança de uma economia de consumo de produtos, para uma economia de serviços.  Explico: a produção de bens descartáveis ou pouco duráveis seria substituída por bens duráveis, por exemplo: um automóvel seria feito para durar 20 anos e não 3, como hoje. Os modelos não mudariam todo ano, como agora, estimulando a troca, mas se manteriam por muito tempo. Seriam produzidos muito menos automóveis e a economia giraria em torno da manutenção desse veículos, vendendo peças de reposição, oferecendo regulagens periódicas e muito trabalho humano que pode ser aplicado a um veículo.
     Novidade? Nada disso: assim eram as economias socialistas, onde os bens eram feitos para durar e não para serem jogados fora. Só que isso era feito através de um planejamento burocrático, muito distante dos consumidores, o que engessava todo o processo. E mesmo no Brasil, há algumas décadas atrás, nada era descartável e o consumo era muito reduzido. Os mais velhos se lembram.
     O desafio seria planejar o consumo dentro de um processo democrático, dialogando com todos os setores da sociedade, sempre de olho na resiliência (capacidade de recuperação) da natureza do planeta.   
     Só que hoje em dia isso não poderia mais ser feito em cada nação isoladamente. Seria preciso algum tipo de governança global que monitorasse o quanto ainda temos de petróleo, minério de ferro, etc, para saber o quanto poderia ser gasto anualmente, sem ameaçar nossa existência, e buscasse fontes alternativas, renováveis, para substituir os recursos finitos.
     Além disso, muito trabalho humano poderia girar a economia de serviços em muitos outros setores, como o da educação, cultura, artes e ciências, além da uma agricultura que abandonasse o agro-negócio envenenador de solos e produtos, por uma agricultura ecológicamente correta.
     Não seria fácil fazer essa conversão, adotando um modelo planejado e racional, onde os negócios estariam muito mais regulamentados Também não seria fácil substituir a mentalidade consumista que se formou na população nos últimos anos, cujo melhor exemplo é o slogan da Ford: viva o novo, que teria que ser substituído por viva o durável!
     Esse é o modelo que vai se formando no horizonte possível: economia mista, democraticamente  planejada, voltada para os serviços e baseada na sustentabilidade.
     Quanto à governança global, as potências militares, que ainda acreditam no poder nacional, resistem à integração democrática, tipo União Européia e Mercosul, mas as crises econômicas e ambientais começam a falar mais alto e vão moldando na prática as leis globais.
     Quem viver verá.

    

   Histórias de outra vidas (22)

   VINCENT


     O lugar era Bruxelas, na Bélgica e o ano 1974 ou 75, não tenho certeza.
     Eu tinha ido para a Europa em 1974, fugindo da repressão do governo Médici que estava prendendo todo mundo que havia estado no Chile, cujo governo socialista acabara de ser derrubado por Pinochet.
     Fui sozinho na frente e alguns meses depois minha nova companheira, que eu havia conhecido no Rio, foi também. Lá alugamos um porão na casa de um casal belga, que achava que estava ajudando o terceiro mundo por nos receber. Jean Pierre e Myriam formavam um casal interessante: ele judeu e ela muito católica, os dois simpáticos e gentis.
     Quando chegamos ela estava grávida. Eles já tinham um pequena filha chamada Muriel, muito meiga e simpática. Logo nasceu Vincent.
     Nossa vida era muito corrida. Primeiro tentamos estudar e depois de alguns meses resolvemos voltar para o Brasil. Então nos dedicamos a trabalhar e juntar dinheiro para as passagens de volta.
     Saíamos bem cedo e voltávamos à noite, cansados. Às vezes nos encontrávamos no centro para tomar uma cerveja na Grand Place ou na Porte Louise. Que cervejas deliciosas são as belgas. Os Pubs nos protegiam do frio e da neve do inverno de 74/75, que gelava os ossos e a alma de qualquer brasileiro.
     Aos domingos, às vezes recebíamos algum amigo ou íamos a casa de outros, da grande colônia latino-americana que se formou após o golpe de Pinochet. Os exilados que estavam no Chile, fugindo de outras ditaduras latino-americanas, implantadas pelos americanos, foram para a Europa e a Bélgica recebeu um grande número deles.
     Um dos que nos visitava era o Gordo, exilado uruguaio, cujo nome verdadeiro nunca soube, já que ninguém perguntava essas coisas aos exilados políticos. Gordo era muito alegre e engraçado. Fumava charutos e gostava de sentar com a gente e ficar tomando cerveja a tarde toda de domingo, enquanto proseávamos e minha companheira fritava rosquinhas, que todos nós adorávamos.
     Sucede que os Belgas dão uma criação muito estranhas às suas crianças. Na porta de algumas lojas estava escrito: proibido entrar cachorros e crianças (Não sei se esse costume permanece até hoje). Parece que eles não gostavam muito dos pequenos e os reprimiam com severidade, segundo eles, para que crescessem disciplinados.
     Sabíamos disso, mas um domingo daqueles estávamos no nosso porão, bebendo e fumando e o choro de Vincent (lê-se Vançam) começou a nos incomodar. Fazia horas que o menino chorava e pensamos que talvez o casal não estivesse ouvindo. Subimos para verificar e achamos o pequeno no seu carrinho, na beira da escada que levava ao nosso porão, sozinho, todo assado e precisando urgentemente trocar as fraldas (que naquela época eram de pano).
     Minha companheira subiu para avisar Myriam, mas eles nos disseram que era assim mesmo, que ele precisava se acostumar a ficar sozinho, passando suas dificuldades e que com o tempo pararia de chorar.
Chocados voltamos ao nosso porão inconformados com aquela situação.
     O menino tinha no máximo dois meses e não podia ser deixado à própria sorte dessa forma. Como a situação não se alterava resolvemos levá-lo às escondidas para baixo. Lá ele foi trocado, recebeu fraldas limpas (não me lembro onde conseguimos) e depois foi colocado de volta no carrinho, dormindo profundamente.
     Muitas horas depois, Myriam desceu para nos explicar que Vincent havia finalmente se aquietado, porque compreendera que tinha que lidar com seus próprios problemas.
     Pode?
     Conversando com uma brasileira exilada que fazia psicologia na universidade de Louvain, ela nos falou que aquilo era comum na Bélgica. Que eles eram extremamente duros e até cruéis com as crianças, acreditando que aquilo os faria ter um temperamento forte para enfrentar as adversidades da vida. Talvez algum costume bárbaro herdado das hostes germânicas que invadiram o império romano e formaram os países do norte da Europa.
     Mas o fato é que esse tipo de criação endurece os adultos e talvez esteja por trás de tantas barbaridades cometidas pelos europeus em suas infinitas guerras. Os belgas mesmo cometeram verdadeiras atrocidades no antigo Congo Belga, sua colônia na África, que até hoje não se recuperou desse processo violentíssimo.
     Muitos domingos se sucederam e Vincent sempre ficava na escada, chorando.
     Nós, já sabendo da situação, comprávamos fraldas e fazíamos mamadeiras para dar a ele nos domingos. Ele passava a tarde conosco, entre cervejas, rosquinhas, as risadas de Gordo e adorava. Sorria muito para nós, agradecido dos cuidados e do conforto. No final da tarde voltava para seu carrinho e dormia satisfeito, antes que sua mãe fosse buscá-lo e ficasse também satisfeita de ver como seu pequeno varão estava se tornando um verdadeiro guerreiro e já não chorava mais.
     Onde andará Vincent, hoje com 35 anos? Terá se tornando um indivíduo mais fraco por ter recebido esse amor clandestino, ou quem sabe se tornou um adulto melhor, mais capaz de amar e ser amado?

Abraço a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza





domingo, 25 de julho de 2010

FETAG em Rio de Contas

     A Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAG, iniciou uma promissora colaboração com a CITRUS - Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Rio de Contas, no sentido de fornecer assistência técnica aos seus associados, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio de Contas.
     Os pequenos proprietários do município não contam até hoje com a Assistencia Técnica e Extensão Rural (ATER) que necessitam para desenvolver suas funções, de forma a aumentar a produtividade e a renda através da introdução do planejamento e de novas técnicas de plantio, adubação, poda e comercialização, se libertando do atraso, do isolamento e dos atravessadores.
     Região de vocação agrícola muito forte, Rio de Contas é dominada pelas pequenas propriedades e pela agricultura familiar, mas tem sua produção prejudicada pela falta de informações e apoio técnico dos órgãos de governo.
     Para dar início a esta colaboração foi realizada em Rio de contas, no dia 18 de julho, um curso de adubação orgânica promovido pela CITRUS, que convidou o agrônomo da FETAG, Rodrigo Haun para explicar essa nova técnica. Abaixo vemos fotos da parte prática do curso, ministrado em uma propriedade rural.
    

     O composto orgânico que vai servir de adubo folear (pulverizado sobre as folhas) é produzido com restos de comida, cinzas, esterco de vaca e outros materiais facilmente encontráveis nas propriedades rurais, com adição apenas de um micronutriente comprado no comércio, cujo valor não ultrapassa R$6,00. Depois de 20 dias o composto é coado, diluído em água e aplicado, servindo ao mesmo tempo de adubo e repelente contra pragas. O resultado dessa técnica já pode ser sentido pelos horticultores de Anagé, cuja produção triplicou em pouco tempo, aumentando produção e renda dos agricultores (veja vídeo a respeito em www.ibahia.com/bahiarural videos do dia 11/07 - agricultura orgânica no sudoeste e chapada).
     A intermediação entre CITRUS e FETAG foi feita pelo vereador Jean Fabrício, de Vitória da Conquista, que é candidato à deputado estadual pelo PCdoB. Esperamos que, se eleito, Fabrício continue colaborando para o desenvolvimento do associativismo e da produtividade da agricultura na região da chapada diamantina e dialogando com os movimentos sociais de Rio de Contas.
     Os interessados em pegar a receita, assim como a apostila do curso, procurar Aníbal Junior em Rio de Contas, na Ourivesaria Belas Artes (em frente à Padaria Belo Pão) ou pelo e-mail renascerrc@gmail.com.

    Decadência

     O governo Municipal de Rio de Contas está numa espiral de decadência impressionante. O prefeito deixa os secretários fazerem o que querem, enquanto cuida de seus interesses particulares. O Secretário de Agricultura, que participou do curso promovido pela Associação, nos disse que possui dois agrônomos e três técnicos agrícolas na sua secretaria, e não coloca nenhum para atender aos agrcultores. Disse ainda que sabia qual era a praga que dizimou as plantações de morango no município e, no entanto, que eu saiba, não mandou o resultado para os produtores. Dá impressão de que trabalha apenas para se reeleger vereador pelo distrito de Mato Grosso (onde perdeu a última eleição). Enquanto isso, nossa Associação batalha para conseguir um técnico agrícola para atender os agricultores do município.
     Não fazem nada pelos produtores rurais, vivem de reuniões e planejamentos, não dão assistência técnica nenhuma.
     Assim também a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (do governo do Estado) que tem um agrônomo em Rio de Contas, que parece só trabalhar para eleger o filho do presidente da EBDA como deputado, prometendo tudo aos agricultores e não fazendo nada.
     Tudo isso, ao que me consta, é crime eleitoral, mas a cidade está sem juiz e sem promotor púiblico, que defendam a cidadania desses desmandos.
     Democracia não existe. Quem votou contra esse governo é perseguido e não tem direito a nada. Se surge uma obra logo aparece o assessor do Prefeito que funciona como um comissário político, para decidir quem pode e quem não pode ser contratado. Até os peões de obra são escolhidos a partir de critérios políticos.
     Não há propostas em nenhuma área, tudo parado. A cultura continua nas mãos de pessoa incompetente (será que ele já leu algum livro na vida?), mais ligada ao turismo, que não deixa nada acontecer que não seja em benefício próprio.
     E mesmo o turismo, cujo Secretário parece contaminado pelo imobilismo geral, está parado. Em plenas férias escolares no sul/sudeste/centro-oeste, a cidade está vazia, enquanto Lençóis fervilha de turistas.
     A Secretária do Meio Ambiente, minha amiga de tantos anos, deixou de falar comigo devido às minhas críticas ao prêmio de Cidade Baiana da Cultura, dado a uma cidade que oprime os artistas e persegue a inteligência e a criatividade. Essa foi realmente uma decepção muito grande, ver uma pessoa inteligente como ela se bandear para o lado desse tipo de política mesquinha.
     De resto ninguém faz mais nada, a não ser exibir carros novos e se encontrar em rodinhas no restaurante Quintal para comemorar sua hegemonia sobre a cidade. 
     Mas tenho fé que dentro de dois anos esse grupo infeliz que se apoderou do poder em Rio de Contas será banido pelos eleitores e, quem sabe, teremos um(a) Prefeito(a) empreendedor(a), capaz de construir um futuro de democracia e prosperidade para esta terra abençoada.
     Por questões de saúde na minha família estou me ausentando da cidade, voltando a residir em Brasília. Levo comigo a mágoa de ver nossas esperanças neste governo frustradas desta maneira, mas também levo a certeza de que a mudança virá.
     Água mole em pedra dura...
    
    
Histórias de outras vidas (21)

   ANA LÚCIA
     Ela era linda.
     Seu irmão tinha sido meu colega de colégio. Gente boa, paranaense, a família morava na mesma quadra que eu.
     Comecei a namorar Ana Lúcia depois que voltei de São Paulo, em 1971. Eu estava numa época de grandes mudanças, afirmações e preparo para a Universidade, época em que entrei num profundo questionamento sobre a vida que levava, a realidade política do Brasil da época e estava me afastando dos antigos amigos e até da minha família, disposto a conviver com mentes mais abertas e progressistas.
     Ana pertencia ao mundo que eu estava deixando, era muito jovem e nosso namoro foi meio sem graça, principalmente da minha parte, que a via como parte de tudo aquilo que eu queria deixar.
     Além disso havia um desânimo grande com tudo, que me penetrava por todos os poros e me fazia jazer naquele torpor típico de crises adolescentes. Com 20 anos, eu me cobrava soluções e decisões para sair de uma situação com a qual eu já havia rompido e depois tinha voltado atrás.
     Decidi terminar com ela e quando lhe falei ela me surpreendeu, retrucando com amargura, que eu não gostava dela, mas que ela sim me amava de verdade.
     Fiquei perturbado com sua sinceridade e com a intensidade de seus sentimentos e me senti pior ainda. Percebi que eu nunca a havia visto como ela era, realmente, mas que por detrás daquela jovem de classe média, filha de um deputado, linda e aparentemente fútil, havia uma vontade forte e talvez, como eu, um desejo de mudança.
     Meu julgamento a seu respeito havia sido preconceituoso?
     Haveria eu julgado apenas pelas aparências, sem olhar a mulher que surgia dentro da garota? Tudo indicava que sim, mas isso não mudava o fato de que meu coração estava frio em relação a ela. Ela tinha razão: eu não a amava. Mas ela merecia ser amada e eu me senti um idiota, de novo.
     Passado algum tempo, fiquei sabendo que Ana estava namorando um professor de física que havia fundado um dos primeiros cursinhos pré-vestibulares de Brasília. Ele ficou rico de um dia para outro. Seu curso foi um sucesso instantâneo e ainda hoje é um dos maiores da capital.
     Mas que mudança! Então a frágil mocinha se lançava a namorar um sujeito muito mais velho que ela, como se quisesse romper com o estigma de moça bem comportada, casadoura, que as antigas famílias reservavam para suas filhas na época. Minhas suspeitas se confirmavam. Por trás daquela carinha inocente havia inteligência...e vida!
     Passei a acompanhar as notícias dela. Brasília, em 1971, tinha pouco mais de 200.000 habitantes, não era difícil saber o que acontecia. Morando na mesma quadra, menos ainda.
     Comecei a supeitar que tinha perdido uma oportunidade de conhecer uma pessoa muito mais bonita do que parecia à primeira vista e voltei a pensar nela, com intensidade.
     Um dia fui com uns amigos à Goiânia, numa velha perua Kombi de meu pai. Ao retornar, estacionando debaixo do bloco, tive um estranho pressentimento. Algo acontecera e eu saberia em momentos o que fora.
     Esses pressentimentos me acompanharam a vida inteira e me salvaram algumas vezes de acidentes e situações perigosas ou traiçoeiras.
     Ao subir, minha mãe veio logo me dizendo:
     _Senta que eu tenho uma notícia ruim.
     Como eu já estava esperando, não me surpreendi muito.  Mas a notícia me pegou em cheio:
     _Ana Lúcia morreu.
     O quê? Como?
     Acidente de carro. Na noite anterior, o tal professor tinha colocado quatro pessoas num carro esporte (um pequeno Puma) onde só cabiam duas e depois de uma festa saiu em alta velocidade, perdeu o controle e bateu na coluna de um viaduto.
     Morte instantânea para os quatro.
     Naquele dia tive a noção exata de que o amor havia batido à minha porta e eu o havia deixado escapar. Mais do que isso, me senti um pouco responsável por aquela morte tão prematura e, se já estava me sentindo mal naquele ambiente, me senti mais desamparado ainda, o que ajudaria a me decidir a partir no ano seguinte.
     Como todas as pessoas que foram importantes na minha vida, não esqueço de Ana Lúcia e do seu olhar magoado na despedida, me dizendo amargurada que eu não sabia amar.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf Alves de Souza



segunda-feira, 19 de julho de 2010

DULCINA

     A Mostra Dulcina de artes cênicas e artes plásticas, que ocorre a cada final de semestre em Brasília, é um exemplo de interação entre uma instituição de ensino e sua cidade.Todo semestre são muitas peças de teatro e exposições de artes plásticas, com entrada grátis para o público braziliense. Este mês de julho pude assistir a duas peças, Aurora da Minha Vida (foto acima) de Naum Alves de Souza e Anjo Negro (abaixo), adaptação da obra de Nelson Rodrigues. O talento de atores e diretores e a seriedade da mostra, garantem a qualidade dos espetáculos.
      O interessante é que a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, funciona em lugar precário, é particular, não recebe nenhuma ajuda do governo do Distrito Federal e apesar de viver em eternas dificuldades financeiras, cobra relativamente barato, atendendo uma faixa da população que não consegue entrar na elitizada UnB.
     Mas é lá que se sente a vibração da arte, talvez por ter sido fundada por artistas, com a finalidade de desenvolver e difundir as artes cênicas e plásticas, está muito distante das universidades caça-níqueis particulares que povoam nosso país, com a única finalidade de obter lucros (o site é http://dulcina.art.br/fadm/site/).
     A Dulcina é realmente um templo da arte e da cultura, de onde saem os principais atores que militam no cena cultural braziliense. Falta o GDF fazer alguma coisa por ela, ajudando a fazer crescer a semente plantada pela saudosa atriz Dulcina de Moraes, que abandonou o Rio de Janeiro, depois de uma carreira consagrada para semear no solo de Brasília seu amor pelo teatro e pelas artes em geral.
     Quem sabe Agnelo Queiroz, uma esperança de renovação para Brasília nas próximas eleições para governador, ajude a fazer crescer esse sonho, desapropriando parte do decadente conjunto conhecido como CONIC (inclusive o antigo Cine Atlântida, um dos melhores cinemas de Brasília, perdido para Igreja Universal), para que a faculdade possa se expandir sem precisar pagar aluguel, com verbas também para reforma do prédio que ocupa atualmente.
     Brasília merece.


sábado, 17 de julho de 2010

Histórias de outras vidas (20)

CONVERSA NO TREM


     O ano era 1974. Me lembro bem porque era dia de jogo da copa do mundo de futebol na Alemanha. E onde eu estava? Na Alemanha, por acaso, passando de trem, vindo da Suécia para a Bélgica.
     Sim, eu tinha ido visitar um amigo brasileiro, que conheci em Santiago do Chile (dividiamos um apartamento) e que ficou exilado na Suécia depois do golpe de Pinochet. Saí do Chile para o Brasil de férias, em setembro de 1973 e não pude mais retornar por causa da situação política. Fui então reencontrá-lo em Gotemburgo, na Suécia. De lá peguei um trem com destino a Bruxelas, para onde estava indo morar, fugindo da repressão no Brasil, destino a que cheguei depois de muitas baldeações pela Europa.
     Foi num dos trechos desta viagem que caí numa daquelas cabines cara dura, em que passageiros que não se conhecem sentam-se uns de frente para os outros e ficam se olhando sem ter o que dizer.
     Nessa cabine iam; um americano sentado em frente a mim, dois marroquinos ao meu lado direito e um casal de australianos ao lado do americano. Pra passar o tempo comecei a ler um livro e o americano, vendo o título em português, puxou conversa em inglês, perguntando se eu era brasileiro. Respondi no meu inglês macarrônico e ele me disse que havia morado no Brasil e que era uma espécie de desertor do Vietnã, ou seja, tinha saído dos Estados Unidos para não ser convocado para a guerra.
     Demonstrei minha simpatia pelo gesto já que eu, como toda a juventude do mundo naqueles tempos, era contra aquela guerra absurda. Ele me disse então que estava fazendo uma pesquisa sobre a violência. Parece que era uma tese de alguma pós-graduação e envolvia o Brasil, já que ele tinha coletado dados por aqui também.
     O debate foi ficando interessante, mas não conseguíamos explicar muito nossos pontos de vista, porque eu me expressava mal em inglês e ele mal em português, embora ambos entendessemos o que o outro falava na sua língua natal.
     Então resolvemos falar eu em português e ele em inglês. Eu dizia o que achava em português e os marroquinos e os australianos ficavam me olhando com cara de besta. Depois ele respondia em inglês e pelo menos os australianos entendiam a resposta.    
     Os marroquinos, quando entendiam alguma coisa, davam palpites em francês, que eu arranhava também, e os australianos se metiam no raciocínio do americano mas não entendiam o que eu falava e o que os marroquinos falavam comigo (nem o americano que não falava francês).
     Pra completar a confusão o jogo que estava sendo disputado na copa naquele dia era Brasil e Marrocos (e que alguém ouvia em um rádio) e quando saía algum gol eu e os marroquinos ficávamos muito agitados até entender de quem era.
     Isso levou horas.
     O foco principal da pesquisa do americano era o que alguns chamam hoje de mal americano, ou seja, a prática quase habitual naquele país de um indivíduo sair atirando à esmo pelas ruas, shopings, escolas ou outros locais públicos, matando quem vai passando.
     Eu dizia que o mal estava no capitalismo, no way of life americano, e os australianos concordavam, mas ele não aceitava (os americanos nunca aceitam que o sistema deles possa estar errado) e tinha umas teorias meio enroladas para explicar o fenômeno.
     E assim fomos cruzando a Alemanha até chegar na cidade de Aachen, onde tive que descer já tarde da noite, para pegar outro trem que me levaria direto a Bruxelas.
     Mas depois de algumas horas a conversa tinha se generalizado a tal ponto na cabine, que não sabíamos mais em que língua estávamos falando.
     Um norte-americano, dois australianos, um brasileiro e dois árabes, haviam descoberto que todos pertenciam à mesma espécie e que o mundo poderia ser bem melhor.
     Uma euforia foi tomando conta daquele estranho grupo e pode-se dizer que uma amizade múltipla começou a nascer. E naqueles tempos difíceis, quando a guerra do Vietnã chegava ao seu auge, com os ataques vietcongs que já prenunciavam a derrota norte-americana, celebramos a paz do nosso jeito.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 11 de julho de 2010




    Bolero

      Noite de sábado em Salvador, um bar qualquer na Barra e um pequeno conjunto toca num ritmo gostoso, músicas antigas e novas, gêneros misturados. O pequeno público espalhado em meia dúzia de mesas canta junto, alguns mais afinados pedem pra cantar ao microfone e surpreendem: verdadeiros cantores anônimos.
      Do outro lado da rua, um catador de latas começa a dançar. Ninguém presta muita atenção, mas ele não canta pra aparecer, parece estar realmente embalado pela música. Um freguês, sentado a uma roda de homens muito animada, atravessa a rua e lhe entrega um copo de cerveja. Volta e continua bebendo e dando risadas com os amigos. A solidariedade se instala naquele canto de mundo.
      Carros brilhantes passam devagar, curiosos pelo intrigante fenômeno da alegria coletiva e saltam deles pessoas bem vestidas, que em outros ambientes estariam preocupadas em mostrar carros e roupas, mas ali, despem-se de vaidades e se reúnem ao grupo que vai aumentando. Sentem-de bem, libertos das competições, contaminados pela atmosfera democrática. Gente de todas as cores, idades e rendas bebe da cerveja da solidariedade e canta a alegria de viver, recordando-se de que é possível ser feliz num mundo chato, que nos transforma em competidores mesquinhos e consumidores idotas.
     A celebração da vida no pequeno e despretensioso bar, me lembrou de como nos tornamos distantes de coisas que nos pertenciam. A copa do mundo, futebol alegria do povo, virou um grande negócio que faz fortunas e movimenta bilhões. Ainda é bom? É, mas começa a ficar chato quando vira uma obrigação de vencer, o tal futebol de resultados. Perde a alegria, a arte, a brincadeira. Claro que esporte é competição, mas alguém se lembra do que era futebol amador?
     E a política? Vocês já viram uma campanha eleitoral mais distante do povo que esta? Tudo é resolvido em conchavos, acordos, alianças, à custa de promessas de cargos e outras coisas impublicáveis, mas que todos nós sabemos como ocorrem entre o que financiam as campanhas e os candidatos.
     Serra tem cara de vampiro, apesar das plásticas. Dilma ficou com um visual ótimo, que no entanto, não combina com a sua voz, que continua a mesma, como no antigo anúncio. Ainda não dá pra fazer plástica na voz e ela revela muito da personalidade. Por trás da cara recauchutada surge a velha voz autoritária, dura.
     Marina Silva tenta ser doce, tenta ser a volta de um sonho, um Lula de saias, com seu passsado pobre, mas não convence muito quando se alia a um mega-empresário. Na verdade tudo parece um remake de filme antigo, que já assistimos e ficamos tentando lembrar, achando que a primeira versão era melhor. Aí podemos escolher: filme de terror, com Serra (A volta dos mortos vivos ou A privatização contra-ataca?), filme policial com Dilma (Dura de matar?), ou um musical holiwoodiano com Marina (A noviça rebelde da floresta...).
     Aliás os dois últimos governos, Lula e FHC (e lá se vão 16 anos de social-democracia) nos governaram, sem que participásssemos deles. Já perceberam? Não fomos chamados para nada, nem para opinar, nem para nos mobilizarmos, nem mesmo para referendar nada. Tudo conchavos e acordos distantes do povo. Enquanto isso, o capitalismo, com ajuda dos donos da mídia e da opinião pública, segue nos transformando em robôs consumidores, aos quais não é dado o direito de mudar nada.
     A música no bar me trouxe de volta à realidade da nossa cultura e da nossa força, enquanto povo capaz de comandar seu próprio destino. Entre sambas, boleros, bossa-nova e jazz, me lembrei de que nós estamos vivos e podemos mudar tudo isso.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf

domingo, 4 de julho de 2010

Brincando de se preocupar

     O Correio Braziliense do domingo, 04 de julho, publicou editorial enfocando a baixa qualidade do ensino no Brasil, comprovada pelo IDEB, Índice de Educação Básica, divulgado esta semana pelo MEC.
     Às constatações de níveis insuficientes, comparados com países vizinhos e outros mais desenvolvidos, segue-se o tradicional esperneio, de que é preciso melhorar, de que disso depende o futuro do Brasil no mundo, de que este é, enfim, o calcanhar de Aquiles, o ponto fraco do Brasil. Segue-se o também tradicional apelo para que os eleitores pensem nisso nas próximas eleições e escolham candidatos que tenham propostas na área de educação.
     Mas curioso, o jornal não apresenta nenhum caminho, nenhuma proposta. Se observarmos os candidatos a Presidente da República ou a cargos legislativos, veremos que tampouco há propostas concretas, que saiam do mero esperneio do tipo precisamos melhorar a educação. Ninguém diz como, nem o que fazer. Porque?
     O debate sobre educação estacionou desde a nova Lei de Diretrizes e Bases de 1996, capitaneada por Darcy Ribeiro. Crítico e adversário político do PT, Darcy foi duramente combatido por professores e sindicalistas petistas que colocaram seus interesses corporativos e eleitorais acima dos interesses nacionais, contaminando um debate que poderia ter sido mais amplo e mais eficaz. De lá pra cá, não se pode tocar em alguns pontos chaves da educação brasileira sob pena de ser acusado pelo petismo inconsequente de ser darcysista ou brizolista.
     Talvez agora que os dois, Darcy e Brizola, não estão mais entre nós, se possa recuperar um pouco do bom senso e retomar o debate, procurando soluções para a educação longe de interesses político-partidários. O fato é que a educação brasileira padece de um mal crônico, ao qual Darcy sempre se reportava, e que irrita profundamente os sociais-democratas do PT: a municipalização.
     Houve um debate intenso entre Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, arquiteto de toda essa estrutura de descentralização da educação implantada hoje no Brasil, que delega a educação primária (sim, ainda é assim que eles falam) aos municípios e a secundária aos Estados, restando à União o ensino superior.
     Darcy não concordava com a descentralização por saber que as forças políticas municipais, na maior parte do Brasil, eram (e ainda são) extremamente retrógradas, não tendo nenhum interesse em educar o povo. A mesma coisa acontecia em alguns governos estaduais de regiões mais atrasadas. Entregar a educação a eles era o mesmo que negar a educação ao povo pobre, trabalhador, explorado pelos fazendeiros e pelas famílias tradicionais dessas regiões.
     Anísio se baseava em ideais importados dos Estados Unidos onde as comunidades protestantes do interior zelavam muito pela educação, porque o elo que os mantinha unidos e vivos era a leitura da Bíblia. Era, portanto, preciso saber ler e interpretar. Daí a importância da educação.
     Mas num Brasil historicamente escravocrata esse princípio da comunidade não prevalece, pelo contrário, qualquer iniciativa comunitária é vista com suspeição pelos coronéis do interior, que ainda subsistem nos nossos grotões e nas mentes de muitos políticos de atuação estadual ou nacional.
     Desde a primeira Constituição Brasileira, outorgada por D. Pedro I, que esse debate subsiste. A Constituição tornou obrigatória e leiga a educação, o que teria transformado radicalmente a ex-colônia se os adeptos dos coronéis da política não tivessem aprovado uma emenda passando a responsabilidade sobre a educação para as antigas Províncias, onde nunca foi levada a sério.
     No debate sobre a primeira Lei de Diretrizes e Bases, finalmente aprovada em 1961, tentou-se estabelecer o monopólio do Estado sobre a educação, mas a direita raivosa, capitaneada por Carlos Lacerda e pela Igreja Católica, conseguiu impedir e manteve esse sistema de duplo ensino, público e privado, que permitiu transformar a educação em um negócio lucrativo, que limita a atuação do Estado ao atendimento dos mais pobres, empobrecendo todo o sistema.
     Os problemas, no entanto, continuam os mesmos, só que ninguém quer tocar no assunto. Tudo vira um problema de gestão na ótica gerencialista neoliberal, e ninguém mais discute os fundamentos.
     Mas é só olhar para os resultados e ver que esse sistema não funciona. As melhores escolas são todas federais, as piores são todas municipais, junto com muitas outras estaduais.
     A solução para a educação no Brasil é federalizar as escolas, como propunha Darcy Ribeiro. Isso não quer dizer necessariamente centralização. As escolas podem ser geridas pelas comunidades escolares, que elegeriam um único conselho escolar composto por pais, professores e alunos maiores e votantes (em lugar dos vários conselhos existentes hoje), que por sua vez elegeria um professor como diretor e assim seria feito.
     As Prefeituras não teriam nada a ver com isso e caberia às Secretarias Municipais de Educação apenas fiscalizar o sistema. Darcy deixou um espaço aberto para isso dentro da lei, criando à alternativa do Sistema Ùnico de Educação, baseado no SUS, como forma de retirar o controle das elites conservadoras do interior sobre a educação. Mas pergunte ao movimento sindical dos professores se eles querem discutir isso?
     O outro ponto necessário seria a estatização de todo sistema de ensino, acabando com as escolas particulares. Aí sim, com todo o ensino público e federalizado teríamos a revolução na educação que o Correio Braziliense reclama, e colocaríamos o país no século XXI, alavancando nosso desenvolvimento.   
     Mas teríamos que enfrentar a fúria da Igreja Católica e dos que fizeram fortunas com cursinhos e universidades caça-níqueis e, com certeza, também da social-democracia representada pela maioria dos partidos políticos brasileiros de hoje, capitaneados pelo PT e, com certeza, do próprio Correio Braziliense.
     Enquanto ninguém tiver coragem de topar essa briga continuaremos brincando de que estamos preocupados com a educação e ela continuará sendo esse teatro do absurdo que é hoje.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf









Histórias de outras vidas (19)


SAM


O ano era 1972. Eu morava em uma república de estudantes, na superquadra 110 sul, em Brasília.
     Tinha brigado com a família, saído de casa e, depois de bater cabeça por várias pensões e quartos de aluguel, fui chamado por um ex-colega de trabalho do Banco Regional de Brasília, para dividir um quarto na tal república.
     O dono do apartamento era funcionário de um tribunal, solteiro e precisando de dinheiro. Ele ocupava o maior quarto. No fundo do corredor dois quartos, um que dava para a frente do edifício, ocupado por um solteirão, já aposentado e outro que eu dividia com meu colega.
     No pequeno quarto de empregada, morava o irmão do dono.
     Na sala apenas uma mesa com algumas cadeiras. Na cozinha, nada além da pia. Ninguém cozinhava ali. Uma vez por semana uma faxineira fazia uma limpeza muito mal feita, certa de que nenhum daqueles rapazes iria notar a má qualidade do serviço.
     À noite a circulação de mulheres era intensa, com uma característica: ninguém via ninguém. Era só chegar com alguma menina, deixá-la esperando, entrar e avisar o pessoal. Todos se recolhiam aos seus quartos e não apareciam enquanto não fosse dado o sinal. As moças podiam jurar que ali não morava ninguém.
     Apenas eu e meu colega precisávamos combinar a hora, pois dividíamos o mesmo quarto. Ele, porém, não levava mulher pra lá. Tinha uma namorada, Rita, havia muitos anos, e se encontravam no apartamento dela.
     Eu a conhecia bem. Era moça pobre, do interior, batalhadora, já passando da idade, vivia na esperança de se casar, mas ele só enrolava, desfrutando do amor dela enquanto permanecia solto.
     Quanto a mim, vivia muito só numa cidade vocacionada à solidão, em um tempo sem aids e praticava o sexo olimpicamente, como um esporte.
     Estudando na Universidade de Brasília, eu havia deixado o Banco, meu primeiro emprego, devido à instabilidade em que vivia, e fui ser vendedor para um fundo de investimentos, o Fundo Halles. Um emprego horrível. Andava muito e só ganhava o que vendia. Mesmo assim, tinha que esperar que os compradores pagassem em dia sua prestações.
     Era uma época ruim. Ditadura militar, governo Médici, auge da repressão política.
     Eu, um estudante de arquitetura revoltado com tudo aquilo, tinha ainda que aturar uma família que apoiava a ditadura e só pensava em status e dinheiro, tentando me comprar com presentes caros para que eu abandonasse aquelas idéias de comunista e voltasse ao que eles chamavam de realidade.
     Tudo muito ruim.
     A república, as meninas e as bebedeiras no Beirute, bar que ficava em frente ao edifício (e que na época ainda não era um bar gay), eram uma forma de escapar de tanto sufoco e da falta geral de perspectivas.
     Eu freqüentava uma outra república, onde morava Rita, junto com outras meninas e rapazes. Lá tudo era muito diferente. Os rapazes eram todos gays e as meninas, Rita e Regina, conheciam muitas pessoas com a cabeça aberta, gente de outros países, pós-graduados, gente de esquerda, místicos, enfim, de tudo.
     Lá eu conseguia conversar e conhecer gente interessante, me libertando um pouco do sufoco machista autoritário, da ditadura e da classe média fascista.
     Um dia apareceu uma garota, trazida por um dos meninos. Eles a chamavam de Sam e ela era do interior de Minas. Gostei logo dela. Conversamos muito e ela me disse que queria ir para os Estados Unidos.
     Como todos nós ali, ela procurava um meio de escapar da triste realidade que se vivia no Brasil dos anos 70.
     Nossa amizade cresceu. Um dia, acostumado à prática desportiva do sexo, levei Sam para o apartamento e...surpresa, descobri que ela era virgem. Deixei que ela decidisse, mas ela quis e tivemos um relacionamento muito bonito, intenso, apaixonado.
     Alguns dias depois Sam se foi, deixando em mim o gosto do amor. Sam foi o primeiro amor da minha vida. Sua passagem pelo meu mundo triste e solitário iluminou tudo, me mostrando um sentido para a vida.
     Vi que não valia a pena permanecer ali e que o único caminho era o que ela havia escolhido: deixar o Brasil. Alguns meses depois eu partiria também, para o Chile, onde vivi durante um ano e um mês, e depois para a Bélgica, onde fiquei mais um ano.
     Sam foi uma porta que se abriu, me mostrando que era possível viver e ser feliz, me resgatando das mãos da tristeza e da desesperança. Ela nunca se foi do meu coração. Sua lembrança ainda mora lá.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

domingo, 27 de junho de 2010

     Histórias de outras vidas (18)

     A VACA MANTEIGA


     Corria o ano de 1968 quando eu e meu irmão fomos convidados para passar as férias na Ilha do Marajó, na fazenda de um primo de meu pai. Aquelas  foram férias marcantes para mim, que estava em época de afirmação, em plena adolescência, perto de completar 17 anos. Meu irmão tinha 21.
     A sede da fazenda era uma casa de dois andares, com instalações de apoio no andar de baixo e residência no segundo pavimento, situada próximo a um rio e sua mata ciliar, nos fundos, e aberta para a imensa planície marajoara, que se escancarava à frente da casa.
     Em época de afirmação, me soltei no Marajó. Como sempre gostei de montar, logo arranjei um cavalo do meu agrado, que os peões já separavam para mim pela manhã. Saía com eles para pastorear o gado e o cavalo era treinado nisso. Aprendi a campear uma novilha rebelde ou mesmo um touro valente, que teimavam em se afastar da boiada.
     Os peões gostavam da minha companhia e eu da deles. Me sentia finalmente um homem, liberto das pressões familiares e prestigiado como jovem que eu era, pelos homens da casa.
     Muitas manhãs pegava o cavalo, a vara de pescar e algumas iscas e saía sozinho, em direção a um rio próximo, para pescar. Voltava carregado de peixes, traíras que eram preparadas no jantar pela esposa do primo, a quem chamávamos tia.
     O primo era um homem interessante. Grandalhão, administrava os bens herdados por sua esposa, principalmente aquela fazenda, onde criava búfalos. Tinha um avião bimotor, um Piper, que nos levava e trazia de Belém, e gostava de carros grandes, como que para mostrar seu poderio econômico.
     Tinha também um gosto pela pesquisa histórica e gostava muito de conversar com os jovens, como éramos. Mas seu aspecto mais intrigante era a necessidade de se impor aos empregados, à natureza, ao mundo. Parece que sob aquela natureza meio abrutalhada, havia uma alma mais refinada que, no entanto, se envergonhava disso.
     Talvez por isso, procurava nos ensinar a não ter pena dos animais. Me lembro de uma vez que nos levou à caça. Mandou que atirássemos em urubus, só para treinar pontaria e depois atirou em algumas garças que estavam pousadas por perto. Garças, evidentemente, não servem como caça, já que quase não tem carne. Uma delas caiu ferida próximo a nós. Ele, então, armou-se de um porrete e nos ordenou que matássemos o bicho a pauladas.
     Tentamos, eu e meu irmão, dar umas pauladas na ave que se debatia, ferida na asa, mas com pena, não batíamos forte o suficiente. Flávio então nos tomou o porrete e acertou três ou quatro pauladas na cabeça da pobre garça. Foi horrível, mas ele vitorioso com a morte do animal, proclamou sua superioridade dizendo que não se podia ter pena de animais.
     Era época de ditadura no Brasil, uma ditadura sustentada, em grande parte pelas oligarquias rurais, como a que ele representava. A afirmação do direito de vida e morte sobre qualquer animal era uma espécie de símbolo do poder oligarca, que se estendia também ao povo. Aliás, ele se orgulhava em dizer que tinha comprado uma ilha no Rio Amazonas, a ilha Mexiana, que fica acima do Marajó, com tudo dentro, inclusive o povo.
     As atitudes de afirmação de nosso primo repercutiam em mim de outra maneira. Me sentindo mais forte e livre, senti ali também um espaço de afirmação masculina. Talvez percebendo isso ele resolveu me testar.
     Havia o hábito, na fazenda, de sacrificar a melhor vaca para o consumo dos proprietários. Era a vaca manteiga. Essas vacas eram mortas nos fundos, entre a casa e o igarapé que passava a uns 200 metros. Não havia matadouro. Tudo era feito no campo aberto.
     Um dia ele me disse que eu é que teria que matar a vaca. Me perguntou se eu seria capaz. Embalado na minha afirmação juvenil, aceitei o desafio. Meu irmão me estranhou e duvidou:
     _Você não vai ter coragem!
     No dia seguinte, pela manhã, os peões vieram me chamar. Muitos já eram meus amigos e me estimulavam, outros me olhavam duvidosos. O capataz me explicou o que eu tinha que fazer. Me mostrou um enorme terçado, um facão muito comprido, e me disse que eu teria que enterrá-lo entre as omoplatas da vaca, que são aqueles ossos que nos humanos ficam nas costas (as asas) e nos bois ficam entre as pernas da frente.
     A técnica era dar um só golpe, certeiro e mortal, que levaria o terçado até o coração do bicho, matando-o instantâneamente. Me explicaram que se eu hesitasse, a vaca ficaria ferida, sofreria muito e não morreria, e para matá-la depois, seria mais difícil, devido à agitação do animal.
     Sentindo a responsabilidade, aceitei, entendi como devia empunhar a faca e desferi o golpe certeiro no coração, matando corretamente a vaca manteiga, que caiu fulminada a meus pés. Seguiu-se um silêncio e senti o respeito entre os peões e também por parte do primo. Depois vieram as exclamações de admiração e respeito e me senti aprovado numa espécie de ritual de passagem.
     A força e a segurança do golpe desferido, não foram só contra a vaca. De um só golpe me livrei de todos os medos e inseguranças da adolescência e iniciei ali minha vida de adulto, sabendo que teria que seguir sozinho meu caminho.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza



   Razão e Espírito

     Em Brasília, acompanhei minha mãe, já idosa, à igreja que ela frequenta há mais de trinta anos, uma religião japonesa que faz muito sucesso por aqui. Ouvindo seu fantástico coro e depois as palavras de um reverendo sobre a necessidade de espiritualização das pessoas, fiquei pensando ne velha pergunta: porque uma cidade moderna conmo Brasília, construída para ser o exemplo acabado do domínio do homem sobre a natureza, se tornou a capital nacional do misticismo?
     Quem já morou e trabalhou aqui, como eu, sabe a resposta. Dentro da burocracia federal, instalada no Planalto Central, instalou-se a mais mesquinha das máquinas humanas, baseada numa competição injusta, onde quem tem o poder pode tudo e quem é funcionário pode apenas obedecer.
     A relação de funcionários públicos com seus chefes, ministros e partidos políticos que os nomeiam, é uma coisa completamente neurótica. Se o capitalismo já é extremamente competitivo, por natureza, a burocracia, à serviço do capitalismo, ainda por cima regulada por um código completamente ultrapassado, baseado nas idéias verticalistas de Taylor, o homem que inventou a linha de produção, é uma loucura completa.
     Já falei aqui sobre o estatuto do funcionalismo público, que regula as relações de trabalho dos funcionários públicos. Um artigo desse estatuto é emblemático, o que diz que o funcionário tem obrigação de obedecer ao seu chefe sob pena de ser demitido. Ou seja, o funcionário não pode contestar uma ordem errada, tem de obedecer. Não tem direito à uma opinião, nem à mínima dignidade de pelo menos registrar seu desacordo.
     É claro que isso é a base para todo tipo de corrupção, já que, para denunciar um chefe o ônus da prova cabe ao acusador e tem de ser montada uma comissão de inquérito, cuja composição frequentemente fica à cargo do próprio acusado. Some-se isso ao discurso de produtividade e competitividade, incorporado à mente obscura dos nossos administradores na década neoliberal de 1990 e teremos o caldo de cultura para produzir neuróticos em série.
     Obriga-se as pessoas a serem competitivas, num ambiente anti-democrático, onde só o que é perrmitido é obedecer.
     E existe todo um discurso em cima disso, como se daí dependesse o bom desempenho da máquina federal, quando na verdade é aí que mora o erro. Uma máquina mais enxuta, democrática, com menos consultores e mais executores, seria muito mais produtiva e quem sabe, produziria sobre os funcionários um efeito mais relaxante, permitindo que a criatividade aflorasse e, aí sim, a produtividade aumentasse.
     Talvez outro efeito fosse o de esvaziar as igrejas, cujo principal trabalho por aqui está em desfazer o serviço perverso que a máquina administrativa produz sobre os espíritos dos pobres funcionários. No emprego mandam competir, na igreja mandam cooperar. De um lado o egoísmo extremado, do outro o altruísmo total.
     É claro que por trás dos dois discursos existe oportunismo também. Os administradores se beneficiam da fragilidade psicológica dos seus comandados para auferirem suas vantagens. Os padres, reverendos, pastores e outros líderes espirituais também veem suas igrejas se encherem de gente aflita, procurando saídas para suas vidas sem sentido.
     Mas na verdade o que está por trás de tudo isso é o conflito contra a injustiça.
     Sim, muita gente que não aceita injustiças padece muito em todo lugar e não aceita também que elas sejam resolvidas com consolos espirituais, sabendo que tudo isso, no fundo é a mesma coisa, uma grande enganação e que as empresas ou repartições públicas que oprimem seus trabalhadores são apenas um lado da página injusta da verdade, cujo verso são as igrejas que oferecem bálsamos para as vítimas do sistema.
     Países desenvolvidos aprenderam a lidar com injustiças de maneira corajosa, o que infelizmente não é o caso do Brasil. Pergunte a um americano ou a um europeu se ele aceita entregar uma injustiça às mãos de Deus.
     Não.
     Eles aprenderam que só lutando as coisas mudam. Criaram um imenso movimento sindical, fizeram revoluções e movimentos pelos direitos civis, cujos benefícios nós desfrutamos por aqui também, apesar de não termos participado deles.
     No Brasil, uma pessoa que gosta das coisas certas, que não aceita se calar diante de situações erradas, é considerado um chato e logo aparece alguém para lhe aconselhar entregar a Deus. Não é à tôa que os maiores corruptos estão profundamente ligados a movimentos religiosos, que lhes servem como cortina de fumaça para seus negócios escusos e para anestesiar suas vítimas.
     Razão e espírito não precisam andar em direções opostas, mas ao contrário, devem compartilhar uma visão de justiça que liberte o ser humano de espertezas de ambos os lados. A vida após a morte não resolverá os problemas na terra e viemos para esta vida para aprender, para aperfeiçoar o planeta, para progredir e, portanto, para lutar, mesmo que renunciemos à violência. O conformismo religioso e o falso altruísmo que estimula a passividade diante das coisas erradas, só servem aos que não querem mudar nada. 

Abraço a todos

Ricardo Stumpf Alves de Souza
    
    

segunda-feira, 21 de junho de 2010


Segunda-feira

     Prezados amigos

     Devido a algumas observações de leitores deste blog de que eu estava enchendo suas caixas de mensagens de tanto escrever e de que não estava sendo possível acompanhar direito o blog, com a leitura e posteriores comentários, resolvi publicar somente às segundas-feiras, e por isso mesmo, resolvi mudar o nome do blog para Segunda-feira.
     Passei também a usar meu nome inteiro Ricardo Stumpf Alves de Souza, ao invés de apenas Ricardo Stumpf pois, por incrível que pareça, existem vários Ricardos Stumpf na internet brasileira (procurando rapidamente achei seis).
     Espero que os leitores gostem e continuem mandando críticas e sugestões.


Trevas e meio-ambiente

     Viajando pela chapada neste final de semana, pude observar a grande transformação que a pavimentação de uma estrada pode causar. Povoados antes isolados, servidos por caminhos de terra, se transformam com a chegada do asfalto.
     Tudo muda e com a estrada chegam inúmeros outros benefícios, trazidos pelo trânsito de veículos e pessoas que vão passando, interagindo com aquelas povoações antes esquecidas, comprando, vendendo, trazendo novas idéias.
     O asfalto vai acabando com uma civilização antiga, que estava ali há séculos, parada, evoluindo muito lentamente e dá lugar ao choque do progresso. Sem dúvida pode-se dizer que o progresso é uma coisa boa na vida das pessoas que estavam longe dele. Mas junto com ele chega um novo padrão civilizatório que no Brasil é muito descuidado com o meio-ambiente e possui padrões culturais e estéticos muito precários.
     Se os antigos povoados e vilas se caracterizam pelas casas de adobe, com seus beirais, seus quintais, sua simplicidade digna, que dialoga muito bem com a rua ou caminho que lhe passa defronte, formando um conjunto harmônico, cujos signos principais, baseados em tradições antigas, são a base para o reconhecimento mútuo dos seus cidadãos, no novo padrão desaparece a harmonia, substituída por uma estética oportunista, feita de caixotes sem nenhuma beleza, surgem os muros, os portões de garagem, que vão bloqueando o visual do interior das propriedades, e a rua vai se tornando isolada das casas e as pessoas isoladas umas das outras, e vem o lixo, o descuido com o que está do lado de fora e o egoísmo, que só se importa com o que é de cada um, deixando o coletivo para o poder público, incapaz de substituir com seus poucos recursos, a responsabilidade comunitária que havia antes, sobre tudo e todos.
     Se é preciso vencer as trevas com o progresso, é preciso também estabelecer novos padrões de civilização e urbanização, com normas muito mais rigorosas a respeito das construções e também implementando iniciativas que reforcem o espírito coletivo das comunidades, evitando que as famílias se isolem e passem a agir de forma predatória, prejudicando o meio-ambiente natural e social de onde vivem.

     Abraço a todos

     Ricardo Stumpf

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Histórias de outras vidas (17)    

RUA ANDRÉ DA ROCHA

     Era uma pensão, quase no centro de Porto Alegre. Eu havia abandonado Brasília e a casa de meus pais para tentar me encontrar e construir uma vida própria. O ano era 1969 e eu tinha apenas 18 anos.
     Nessa pensão conviviam estudantes, vendedores, jovens do interior cheios de esperança em busca de uma vida nova na capital e senhores de meia idade, já sem esperança de construir alguma coisa na vida, arrastando suas lembranças e frustrações.
     Preenchi logo meus dias com várias atividades, mas os domingos eram especialmente parados. No segundo andar da pensão, no quarto da frente, havia um pequeno balcão em frente ao qual ficava minha cama. Lembro que a porta do balcão tinha um vidro quebrado, através do qual eu via a lua à noite, numa Porto Alegre ainda romântica.
     Aos domingos, me sentava em frente ao balcão para observar a vida na rua André da Rocha, onde se localizava um quartel do exército, dentro do qual um jovem capitão chamado Lamarca, se preparava para desertar e tentar começar uma revolução armada no Brasil. Eram tempos difíceis, de ditadura.
     O Rio Grande do Sul tinha para mim um fascínio de uma cultura diferente, cheia de tradições que preenchiam o vazio cultural que se sentia em Brasília uma cidade nova, com pessoas de várias partes do país, ainda sem tradições próprias e que apenas começava a sua história.
     Algumas coisas, no entanto, eram estranhas para mim. Coisas que eu entenderia melhor nos anos que ainda conviveria no Rio Grande. Aquele dia eu veria uma dessas coisas.
     Era final do ano, uma tarde quente de domingo, já quase verão, quando me postei no balcãozinho a apreciar a pachorra daquele dia, que parecia não reservar nenhuma surpresa possível.
     Foi quando ouvi uma gritaria vindo da parte baixa da rua. Uma mulher vinha subindo a rua e parecia despertar um tumulto por onde passava. Gente surgia nas janelas e se tomava de grande excitação à sua passagem, gritando e xingando. Eu não entendia o que estava acontecendo e fiquei atento.
     O tumulto veio crescendo na minha direção e percebi então que se tratava de uma mendiga, uma mulher negra e andrajosa. Suspeitei então que fosse uma dessas tristes figuras que povoam nossas cidades, enlouquecidas pela miséria e que despertam a crueldade natural das crianças, que lhes atiram coisas, debochando delas e das coisas sem sentido que dizem.
     Mas à medida em que o tumulto se aproximava, percebi que não era bem isso. Era apenas uma mulher negra e pobre que estava passando pela rua, talvez catando lixo por ali, e as pessoas que estavam lhe hostilizando não eram crianças, mas homens e mulheres brancos, adultos racistas, que riam e debochavam dela, por ser negra e pobre.
     Fiquei chocado. Pensei em descer e ir protegê-la, mas fiquei com medo da turba que se formava ao seu redor, atiçando-a com paus, ofendendo-a com gritos de macaca e outras expressões racistas.
     Outros jovens da pensão, atraídos pelos gritos vieram olhar e também se incorporaram, excitados, à bagunça que se fazia em torno da pobre mulher. Ela reagia como podia, respondia aos impropérios dizendo coisas que eu não conseguia ouvir, mas a turba respondia com mais agressões e deboches.
     Era uma demonstração explícita de racismo. A primeira contradição exposta da cultura riograndense, entre muitas outras que eu conheceria até me formar em Porto Alegre, doze anos depois.
     Custei para entender que nem sempre tradições são uma coisa boa. Na maioria dos casos apenas impedem que a sociedade evolua, embora às vezes também preservem bons valores. No caso do Rio Grande, várias tradições se misturam, entre elas às dos descendentes de imigrantes europeus, que trouxeram esse racismo em suas bagagens e a dos gaúchos da fronteira, mescla de índios com portugueses e espanhóis, que formam os CTGs, ou Centro de Tradições Gaúchas, com suas mulheres vestidas de prendas, seus homens de bigode e bombachas e muito machismo.
     Nada disso me agrada.
     Depois desse episódio, toda vez que alguém vem defender algum tipo de conservadorismo, em nome de alguma tradição, me lembro da mulher, acossada, lutando para não cair, fugindo daquela gente que se achava tão civilizada e penso em como é bom mudar, como é importante evoluir.

Abraço a todos

Ricardo Stumpf